Críticas

A Hora do Lobisomem (1985)

Com vários momentos divertidos e uma atmosfera terror-pipoca no melhor dos sentidos, o filme é tiro certeiro

A Hora do Lobisomem (1985) (1)

A Hora do Lobisomem
Original:Silver Bullet
Ano:1985•País:EUA
Direção:Daniel Attias
Roteiro:Stephen King
Produção:Dino De Laurentiis, Martha De Laurentiis
Elenco:Gary Busey, Everett McGill, Corey Haim, Megan Follows, Robin Groves, Leon Russom, Terry O'Quinn, Bill Smitrovich, Joe Wright, Lawrence Tierney

por Nilton Kleina

Típico filme de qualidade que foi mal nas bilheterias e acabou esquecido pelas gerações mais jovens que não adentram tanto no campo do terror, A Hora do Lobisomem (Silver Bullet, 1985) é uma das produções sobre licantropos mais injustiçadas do cinema. Adaptado de uma história de Stephen King pelo próprio escritor, o longa perdeu espaço no meio de tantos horrores envolvendo essas criaturas, além de diversos outros baseados em livros do autor — algo bastante lamentável, considerando o alto nível de qualidade e nostalgia dos anos 80 envolvido aqui.

Antes de sofrer na mão de vampiros em Os Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987), Corey Haim era Marty, um menino de 11 anos que não tem o movimento das pernas. A interpretação é bastante autêntica, especialmente por condizer com a idade do ator, apenas quatro anos mais velho que o personagem: ele é audacioso, curioso e rebelde, mas não deixa de ser apenas uma criança e ter bom coração. Ele é dono da Bala de Prata, uma cadeira de rodas modificada (!) com motor a gasolina (!!) capaz de transportar o menino em pequenas distâncias. Na segunda metade do filme, o veículo é tunado e, com jeito de motocicleta, vira um possante que chega a ultrapassar carros em alta velocidade.

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Stephen King sabe escrever sobre dois tipos de cidade: o município naquele estilo Maine-sempre-com-névoa em que todos os habitantes escondem um segredo do passado, ou a cidadezinha amigável em que os bons moradores são surpreendidos por algum acontecimento inesperado. No filme, trata-se do segundo: Tarker’s Mills é o interior perfeito. Na trama, misteriosos assassinatos começam a mexer com a rotina de lá, fazendo com que os moradores do local – os que sobraram – tentem fazer justiça com as próprias mãos. Mas como ir atrás de um bandido que parece ter força descomunal e retalha as vítimas sem dó? Apenas o pequeno Marty, por acidente, depara-se com o bicho em sua verdadeira forma e sobrevive ao primeiro encontro. Pelo jeito, caberá a ele deter o monstro e acabar com essa maldição.

O lobisomem tem a identidade revelada após uma hora de projeção, sendo reconhecido por Marty e a irmã, mas nunca ficamos sabendo sua origem. Ah, e ele ignora a regra da lua cheia (mas fica mais lobo durante ela, segundo um dos personagens), o que tira um pouco da mágica da história. Só que a criatura é bem feita, realmente agressiva e perigosa e, claro, conta com excelentes cenas de transformação — algo nada surpreendente, como Rick Baker, responsável pela maquiagem e criação dos efeitos de Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London, 1981) quatro anos antes. Quando aparece de corpo inteiro, entretanto, a criatura não é tão impressionante e deixa aquele ar de é claro que é um cara vestido em uma fantasia de animal.

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Obviamente roubando todas as cenas, Gary Busey (Gingerdead Man, Máquina Mortífera) interpreta o Tio Red, um personagem no estilo… Gary Busey: esquisito, bêbado, maluco, inconveniente e com uma atuação que passeia entre o ruim e o exagerado. É ele o responsável por ambas as versões da Bala de Prata — e é aí que surge a pergunta mais clara do filme. Que tipo de tio inconsequente dá uma espécie de moto em forma de cadeira de rodas para o sobrinho deficiente? Tudo bem que é para agradar o menino, que vê o tio como um ídolo, mas será que ele parou para pensar na possibilidade de algo dar bem errado? Claro que é o sonho de muita criança sair a muitos quilômetros por hora na estrada com um triciclo envenenado, mas entre na pele dos pais de Marty por um instante para notar o terror que é essa situação!

Everett McGill (de As Criaturas Atrás das Paredes e Twin Peaks) vive o Reverendo Lowe, um personagem que ganha destaque ao longo do filme e participa de uma das melhores cenas da produção, uma excelente sequência de sonho. Apesar de também contar com seus exageros na atuação, o religioso desperta a curiosidade do espectador por lidar com fé e pesar ao mesmo tempo: a cidade está com cada vez menos habitantes e, por mais que ele queira confortar os fiéis, os corpos simplesmente não param de se multiplicar!

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Completando o elenco, Jane (Megan Follows, que virou atriz de épicos e românticos) é a irmã de Marty, além de narradora da história. Ela fica sumida por algum tempo da trama, mas volta com bastante importância: ajuda o menino nas investigações e, claro, tem brigas de irmão a todo momento. Por fim, Terry O’Quinn (vilão memorável de O Padastro e John Locke de Lost) vive um xerife bastante dispensável, que só serve para ser o típico personagem policial desse tipo de filme.

Com o tempo, o filme tenta inserir alguma carga dramática entre os personagens, mas tudo o que consegue fazer é jogar uma série de tomadas rápidas envolvendo brigas entre Tio Red e a mãe de Marty, ou o menino vendo outras crianças jogando beisebol, indicando tristeza por não poder andar. Não me entenda mal: as questões como a necessidade específica de Marty, os ciúmes da irmã por atenção e a vida miserável do tio são excelentes e surpreendentes em um filme de terror, mas a simples menção a cada uma delas, em vez de um aprofundamento, demonstra um roteiro corrido e acumulado demais. Por que não cortar uma ou outra piada de Gary Busey por esses diálogos mais sérios?

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E a trilha sonora não se decide: há músicas dos anos 80, sons que parecem vindos da discografia da banda Goblin, que acompanhou vários filmes de Dario Argento, e composições que não se encaixam direito com as cenas e duram pouco demais. Ainda assim, a escolha do repertório é boa, então não há motivos para reclamação.

Quem quer um pequeno nível de gore e muita emoção não tem do que reclamar, já que o ritmo é bastante acelerado. Personagens morrem a todo momento e nem crianças são poupadas. E, com mortes isoladas que demoram a acontecer e são precedidas da clássica câmera do ponto de vista do assassino, o lobisomem age como um serial killer. Por isso, o filme acaba ganhando um clima totalmente slasher: para quem gosta, é um prato-cheio; se você já está cansado desse subgênero, a produção pode ser cansativa e mais do mesmo. O diretor Daniel Attias (que virou diretor de seriados, como Entourage, House e até True Blood) estreia na direção e, talvez por isso, faça um trabalho seguro, porém sem fugir da cartilha.

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Embora o título original tenha o duplo sentido (a arma e o veículo de Marty) e fuja do tradicional ao deixar de utilizar o nome da criatura, a adaptação para o português seguiu por um caminho mais previsível e comercial: A Hora do Espanto (Fright Night, 1985) saiu quase junto e, no ano anterior, houve A Hora do Pesadelo (A Nightmare On Elm Street, 1984) – e daí veio A Hora do Lobisomem. De qualquer forma, não se deixe afastar por isso: com vários momentos divertidos e uma atmosfera terror-pipoca no melhor dos sentidos, o filme é tiro certeiro. No melhor dos sentidos.

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25 Comentários

  1. Carlos Souza

    Infelizmente banalizaram demais o tema depois de Um Lobisomem Americano em Londres. Bala de Prata é um dos melhores com certeza. Mesmo o remake do classico con Anthony Hopkins e Benicio Del Toro não agradou. Acredito que após o lançamento de certas franquias no cinema, como Crepúsculo, Anjos da Noite e até XMen (onde existem alguns mutantes com características licantropas), a besta fera perdeu um pouco seu poder de assustar as pessoas. É uma pena.

  2. alexandre santos

    eu tenho este filme e mto bom. eu tbm ja vi umas vezes no cinema em casa junto com lobisomem americano em londres! q tenho tbm. adoro esses classicos maravilhosos de bota aquele medo de adrenalina

  3. Adriano Araújo

    Eu não lembro de te assistido esse Filme. Nele tinha um cachorro q briga com o Lobisomem no Final ????

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

      Não. Esse que você falou é o Lua Negra, se não me engano.

    • anselmo luiz

      Esse filme que você mencionou do cachorro lutando com o lobisomem é o filme ” Lua Negra – Bad Moon ( 1996) ” com : Michael Pare e Mariel Hemingway .

  4. oi meu nome é Anderson,sou de porto alegre e meus irmãos e eu assistimos este filme que é um dos melhores filmes de lobisomem de todos os tempos,hoje em dia não se faz mais filmes de terror bom como o bala de prata,assisti muito no cinema em casa quando eu era guri, e amo muito todo o filme,bem que podia voltar tudo de novo por que era bom aquele tempo.bala de prata é muito bom.

  5. Marcelo

    O filme estreou no sbt no inicio dos anos 90 como BALA DE PRATA e nao sei o motivo de terem mudado o nome! Filmaço!recomendo a todos!saudades de COREY HAIM

  6. Um clássico! Caso raro de filme baseado em Stephen King que é melhor que o livro. O livro/calendário “A Hora do Lobisomem” eu acho bem ruinzinho, mas adaptado para o cinema ficou muito bom.

  7. José

    Adoro esse filme

  8. Na década de noventa, o SBT costumava passar esse filme sob o título de “Bala de Prata”, tradução literal do título original.

    • george

      lembro desse filme no sbt com o nome de bala de prata também, uma cena de alguém jogado no espelho, a descoberta de quem é o lobisomen, como eles fizeram a tal bala… muito bom! realmente foi injustiçado esse filme. pra o gênero, ele supera vários mais famosos.

  9. Hierofante1970

    Esse tive o prazer de ver no cinema Marabá da av, Ipiranga, bons tempos aqueles…

  10. Felipe

    um dos poucos filmes de terror que me davam medo
    a cena da ponte/fogos de artificio marcou a minha infancia
    enquanto todos tinham medo da besteira que foi o exorcista, bala de prata na minha opiniao foi um marco

    • Papa Emeritus

      Exorcista besteira?? PQP, essa geração crepúsculo só fala MERDA!

    • gu

      o exorcista é um lixo :v

  11. Ismael Monteiro

    Clássico do extinto cinema em casa , bons tempos da tv aberta.

  12. Outro grande clássico. Muito bom. Saudades do tempo em que filmes como esse, passavam na TV aberta.

    Deixo aqui meu Blog para os amantes de filmes de Terror
    Você encontra esse e outros filmes pra baixar em:

    http://bautrash.blogspot.com.br/

  13. roland

    melhor disendo bad moon de 1996 ou lua negra aqui no brasil.recomendo.

  14. roland

    muito bom …e um tipo de filme que te da a nitida inpressao de que o melhor ja passou infelizmente…recomendo tambem lua negra.

  15. Eduardo

    Por incrivel que pareça assisti esse filme em Cinema em Casa curiosidade ele era exibido com a traducao literal de seu titulo BALA DE PRATA e nao a Hora do Lobisomem argh!!!!

  16. Gilson bloch

    assistí no sbt e me lembro até hoje, filmaço só perde para cães de caça e um lobisomem americano em londres..com certeza está no meu top 3..

  17. Alceu Almeu Alnosso

    Lembro como se fosse ontem de assistir (não apenas uma vez) esse filme no bom e velho “Cinema em casa” do SBT… Aquele tipo inesquecível de filme de terror que tira o seu tédio e não o seu sono…*-*

  18. Herivelton

    Esse e o melhor filme de lobisomem que assisti até hoje !

  19. Roberto Filho

    Acho este um dos melhores filmes de lobisomens já feito e uma das melhores adaptações de uma obra de Stephen King, algo raro de se ver quando suas estórias viram filmes. Ele transpira anos 80 em cada cena, sendo uma pena não ter virado um clássico da época. É um filme obrigatório para quem curte o gênero lobisomem

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