Possuída 2 – Força Incontrolável (2004)

Possuída 2 (2004)

Possuída 2: Força Incontrolável
Original:Ginger Snaps 2: Unleashed
Ano:2004•País:Canadá
Direção:Brett Sullivan
Roteiro:Megan Martin
Produção:Paula Devonshire, Grant Harvey, Steven Hoban
Elenco:Emily Perkins, Brendan Fletcher, Katharine Isabelle, Tatiana Maslany, Janet Kidder, Chris Fassbender, Pascale Hutton, Eric Johnson

Sejamos francos: raros filmes realmente merecem uma continuação. Tecnicamente, uma continuação deveria “continuar” a história do original expandindo os seus elementos, e não apenas copiando e reapresentando o que fez sucesso no primeiro filme (como acontece nas séries Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo). Entretanto, é aquela velha história: sempre que um filme faz sucesso (mesmo que inesperado), a continuação aparece como uma maldição.

Peguemos o caso de Ginger Snaps, uma produção barata feita no Canadá em 2000 (e lançada no Brasil com o título Possuída muito antes da estreia nos cinemas americanos). As críticas positivas (lá fora, porque no Brasil o filme foi injustamente malhado) e a boa bilheteria (idem) levaram os mesmos realizadores do primeiro filme a conceberem não uma, mas duas continuações do filme, filmadas no ano passado (2003) e lançadas este ano. A primeira delas, Ginger Snaps 2: Unleashed, chegou às locadoras brasileiras, novamente sem passar pelos cinemas, com o título Possuída 2: Força Incontrolável.

Tudo bem que o primeiro filme já terminava muito bem e não era necessário fazer uma continuação. Mas já que fizeram, vamos todos assistir, certo? Bem, quanto a isso, uma boa e uma má notícia sobre esta sequência.

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Primeiro, a má. Possuída 2 despreza as melhores coisas do original, como, por exemplo, a relação esquisita entre as duas personagens – as irmãs Ginger e Brigitte Fitzgerald -, e também a relação entre a licantropia e a puberdade. Virou, assim, um filme de terror como todos os outros, mais voltado aos sustos e ao suspense do que propriamente à criatividade.

A boa notícia: Possuída 2 está anos-luz distante de cada continuação medíocre feita por Hollywood nos últimos anos com o único objetivo de ganhar dinheiro. Percebe-se a cada minuto de filme que toda a equipe está realmente empenhada em fazer algo diferente, e não simplesmente faturar em cima de um título de sucesso. E o resultado é satisfatório: tudo bem que o filme não chega aos pés do original, mas mesmo assim é digno de ser chamado de “uma boa continuação“, sem um pingo de oportunismo, e que realmente dá continuidade à história sem repetir exaustivamente e indiscriminadamente os elementos do primeiro filme.

Esta sequência também é uma produção canadense, e foi filmada simultaneamente com a terceira parte (uma prequel), para economizar. Assim, o orçamento ficou mais baixo do que o do filme original (que já era pequeno!), girando em torno dos 3.500.000 dólares. Mas esse dinheiro foi muito bem investido. Graças à produção barata, não puderam estragar o filme com efeitos digitais, então novamente as criaturas, cadáveres e mutilações são mostradas a partir de bonecos e maquiagem, nada de criaturinhas feitas por computador, como virou moda ultimamente. Por piores que sejam os efeitos com bonecos, eles ficam menos falsos que os péssimos monstros digitais feitos por computador.

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John Fawcett, o diretor do original, não se envolveu nesta sequência, preferindo assumir apenas o cargo de produtor. O responsável pelas novas aventuras licantrópicas é Brett Sullivan, mais conhecido por seu trabalho na edição de filmes, e que anteriormente só tinha dirigido três curta-metragens. Possuída 2 é seu primeiro longa. Começou bem, eu diria. Novamente, o roteiro é escrito por uma mulher, Megan Martin (é seu primeiro trabalho para o cinema), o que garante um olhar sem machismo sobre o assunto que envolve essencialmente garotas e lobisomens. Mas o título original (Ginger Snaps 2), neste caso, é enganoso, pois Ginger não tem mais nada a ver com a história.

Possuída 2 começa imediatamente após o final do primeiro filme, embora perceba-se que passaram alguns dias ou até um mês desde a conclusão trágica do original. Brigitte (novamente interpretada pela excelente Emily Perkins, que parece não ter envelhecido nem um ano) está perambulando de hotel em hotel, fugindo do seu passado. Afinal, no fim do primeiro filme ela foi obrigada a matar sua irmã Ginger (Katharine Isabelle), depois que esta se transformou num lobisomem. Mas agora ela também foge de um lobisomem que parece caçá-la por toda parte.

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Enquanto foge, Brigitte procura uma solução nas bibliotecas para seu problema. Para quem não lembra, ela foi contaminada com o sangue de Ginger no filme original, e por isso está condenada a também se transformar em lobisomem. Ela tem retardado a transformação injetando-se doses diárias de uma fórmula feita a partir de flores de acônito (chamada “Wolfsbane“, conforme vimos no original). Ao contrário do que se pensava, infelizmente, a fórmula não funciona como cura, mas apenas para retardar a transformação, exigindo doses cada vez mais frequentes.

Infelizmente, a roteirista esqueceu de explicar o que aconteceu com a família de Brigitte (a mamãe Pamela e o papai Henry, que simplesmente sumiram da história), e como a garota não é procurada pela polícia por ter assassinado a irmã – se ela nem se preocupa em esconder a identidade, já que apresenta seu próprio cartão de associada em uma biblioteca, por exemplo.

Certa noite, após injetar mais uma dose da fórmula, que lhe provoca dores horríveis por todo o corpo, Brigitte vê um jovem bibliotecário, que tentava lhe ajudar, ser destroçado pelo lobisomem que a persegue. Ela desmaia e acorda numa clínica para drogados, chamada Tempos Felizes, onde só existem moças problemáticas (os únicos homens são os dois enfermeiros). Considerada uma viciada em drogas. graças às marcas de agulha nos seus braços, a garota é trancafiada e proibida de tomar a fórmula que a impede de virar lobisomem. Agora, é só questão de tempo para que qualquer sinal de humanidade na garota desapareça e ela se transforme em uma criatura monstruosa como a irmã.

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Isso tudo acontece nos primeiros 15 minutos de história e o espectador logo pensa: “Pronto, agora ela vai virar lobisomem e matar todo mundo no hospital“. O fato de a clínica ser habitada apenas por garotas desmioladas e irritantes também “dá medo“, pois você logo pensa que está diante de mais um “horror teen” sem ousadia ou novidades. Mas é então que a história dá uma surpreendente guinada, e tenho que dar os parabéns à roteirista por não ter cedido ao óbvio (ou seja, mostrar Brigitte atacando na clínica).

Acontece que a moça conhece uma menina, apelidada “Ghost” (e interpretada por Tatiana Maslany), uma pentelha de marca maior, leitora de quadrinhos e fã de histórias de lobisomens, que logo percebe que Brigitte é uma licantropa. Conhece, também, a diretora da clínica, Alice (Janet Kidder), uma ex-drogada que se espanta ao saber que a fórmula que Brigitte se injeta não é um narcótico, mas sim um veneno. E conhece ainda Tyler (Eric Johnson), um enfermeiro que fornece drogas às internas em troca de favores sexuais.

É claro que logo o lobisomem que persegue Brigitte – e que, ficamos sabendo, quer procriar com ela – chega à clínica e começa a matar algumas das internas. A garota, já fragilizada por estar há muito tempo sem sua dose diária de Wolfsbane, vai lentamente apresentando os mesmos sintomas de transformação da sua irmã Ginger (caninos salientes, orelhas pontudas), e resolve fugir da clínica, com a ajuda de “Ghost”, antes que sua fúria se torne incontrolável.

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Para quem pensava que o filme mostraria Brigitte-lobisomem atacando garotas palermas durante 1h30min, é ótimo perceber que a roteirista optou por outro caminho, mostrando Brigitte e “Ghost” barricando-se numa velha casa na floresta à espera do lobisomem que persegue a moça, para um confronto final com a criatura. Mas Tyler e Alice também têm papel fundamental na conclusão, e a inocente “Ghost” pode ser mais perigosa do que se imagina. É uma surpresa atrás da outra. Principalmente quando o filme “se acalma” um pouco e passa a enfocar a relação entre Brigitte e “Ghost“, ambas fragilizadas pela solidão – uma matou a irmã que amava, a outra sempre quis ter uma irmã para amar

E o que faz o nome de Katharine Isabelle nos créditos, se sua personagem morreu no primeiro filme? Pois é: o roteiro de Possuída 2 usa um interessante recurso já adotado por John Landis em Um Lobisomem Americano em Londres. Para quem não lembra, neste clássico dos anos 80, dois amigos eram atacados por um lobisomem; um era morto, o outro apenas ferido. Então o amigo morto ficava aparecendo para o que sobreviveu, tentando lhe convencer a tirar a própria vida antes da próxima Lua cheia. quando se transformaria em lobisomem. Esse papel de amigo morto é assumido por Katharine em Possuída 2. Ela volta como o fantasma de Ginger, aparecendo para a irmã e dizendo que é inevitável lutar contra a transformação e que, mais cedo ou mais tarde, ela se completará. Infelizmente, ao contrário do que acontecia em Um Lobisomem Americano em Londres, as aparições de Ginger são poucas e nada acrescentam à trama.

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Vale observar que Katharine dessa vez está feia, aparentemente mais gorda, muito diferente da gracinha que era no primeiro filme. Mas também não faz falta, porque quem rouba o show agora é Emily Perkins. A atriz até pode continuar tão feia e “estranha” quanto no primeiro filme, mas é impossível não simpatizar com sua personagem, uma garota introvertida e depressiva que de repente vê sua vida destruída por uma maldição, que a obriga a injetar-se veneno diariamente, provocando-lhe atrozes dores. É uma personagem que nada tem de heróica, mas sim uma vítima da licantropia, obrigada a se auto-mutilar para esconder sua condição – em uma cena dolorosa, Brigitte corta um pedaço da orelha com um caco de vidro, para ninguém reparar que ela está ficando pontuda, como a de um lobo. Dá para dizer que Possuída 2 é um filme dramático, como era o primeiro: ele faz você simpatizar e ficar com pena da personagem principal, cuja história é muito triste, tentando suportar a dor de ter matado a irmã amada e ainda lutar contra a maldição que a consome (e Brigitte só sofrerá mais e mais, do início ao fim).

Só faltou explicar uma coisa no roteiro: a identidade do lobisomem que persegue Brigitte. Claro, isso não faz lá tanta diferença na trama. Mas eles deviam ter explicado porque poderia muito bem tratar-se de Jason McCardy, um rapaz que foi contaminado sexualmente por Ginger no primeiro filme – e aparentemente nunca curado da licantropia, já que o Wolfsbane precisaria ser ministrado em doses diárias e o rapaz não tinha conhecimento do antídoto.

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Possuída 2 também tem uma dose de violência menor que no primeiro filme, privilegiando o suspense. Passa-se quase que totalmente à noite ou em cenários escuros, inclusive uma arrepiante ala abandonada no porão da clínica de drogados. Claro, tem pessoas devoradas, mas nada semelhante aos cães despedaçados e com as tripas de fora mostrados no original. Na média, entretanto, uma excelente sequência, que mantém o interesse do início ao fim. E o fim, por falar nele, chega a pegar o espectador de surpresa, embora eu confesse que esperava um destino mais honroso para Brigitte – ainda mais tendo ela sofrido tanto, nos dois filmes…

Logo veio um Possuída 3, rodado ao mesmo tempo que esta parte 2, e que desta vez conta uma história anterior às outras (que se passa no século 19), mas novamente estrelada por Katharine Isabelle e Emily Perkins. Com a química demonstrada por ambas nos dois primeiros filmes, não tem como ficar abaixo da média. E o melhor: os três filmes têm equipe técnica predominantemente canadense, inclusive as roteiristas. Cada vez mais se confirma aquela teoria de que é longe dos Estados Unidos que aparecem as coisas criativas.

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E enquanto isso, lá em Hollywood, eles ficam refilmando clássicos do horror… Ah, quer saber: e quem liga para eles???

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Um comentário em “Possuída 2 – Força Incontrolável (2004)

  • 18/11/2016 em 15:22
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    este filme e melhor que o primeiro. e mas assustador

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