Críticas

Possuída (2000)

Um dos melhores filmes de horror da última década… e quase ninguém viu!

Possuída (2000)

Possuída
Original:Ginger Snaps
Ano:2000•País:EUA, Canadá
Direção:John Fawcett
Roteiro:John Fawcett, Karen Walton
Produção:Karen Lee Hall, Steven Hoban
Elenco:Emily Perkins, Katharine Isabelle, Kris Lemche, Mimi Rogers, Jesse Moss, Danielle Hampton, John Bourgeois, Peter Keleghan, Christopher Redman, Lindsay Leese

Como toda pessoa que fez aula de catequismo sabe, no início dos tempos, Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden porque Eva, a mulher, comeu a fruta da árvore proibida e deu ao seu “marido“, o homem, para que comesse também. Deus então amaldiçoou o casal – e conseqüentemente todo o resto da humanidade a partir daí, incluindo eu e você. A partir da expulsão do Paraíso, por exemplo, o ser humano conheceu a morte (antes o homem era eterno). Mas as mulheres sofreram a maior punição. Graças ao seu “crime“, ganharam como castigo as dores do parto e a menstruação. Toda essa história está no livro do Gênesis.

Menstruação, como sabem todos aqueles que fizeram aula de educação sexual ou tem uma irmã menina, é um corrimento sanguíneo que acomete as mulheres em ciclos periódicos, desde a entrada na puberdade até a meia-idade. O sangramento vem acompanhado de cólicas e outras sensações desagradáveis. Ora, e o que tem a ver uma coisa com a outra? Acontece, meus amigos, que para os americanos, a menstruação é chamada “curse“, que tem também um outro sentido, mais usual: quer dizer maldição, praga, castigo… Ou seja, faz referência direta àquele dramático episódio da expulsão de Adão e Eva do Paraíso.

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E tudo isso, acreditem ou não, tem a ver com Ginger Snaps, um excelente filme de horror canadense feito em 2000, com a “mixaria” de 5 milhões de dólares de orçamento, e muito mal-lançado no Brasil, com o péssimo título de Possuída. Péssimo porque ninguém no filme é possuído por porcaria nenhuma (o que acontece é uma contaminação sanguínea, logo, nenhuma possessão; a não ser que os portadores de AIDS também sejam possuídos!). E péssimo também porque o título original é muito mais criativo. No caso, a palavra Snaps funciona como substantivo e verbo, podendo o título ser traduzido para As Dentadas de Ginger ou Ginger Morde.

Se até bem pouco tempo as mulheres eram renegadas pela Igreja Católica, por serem as “causadoras” da expulsão do Paraíso (tem uma frase famosa, acho que de São Tomás de Aquino, que diz “Demônio, teu nome é mulher“; e não vamos esquecer da caça às bruxas pela Inquisição, onde mulheres inocentes foram as maiores vítimas), hoje estas rusgas desapareceram, ou pelo menos não são mais tão evidentes.

Ginger Snaps brinca com esta ideia de mulher demoníaca e razão de todo mal, e também faz uma curiosa, interessante e muito bem-bolada relação entre a transformação de uma garota em lobisomem com a sua transformação em “mocinha“, ou seja, a entrada na puberdade. Tanto que a frase no cartaz original do filme era “Eles não chamam de curse (menstruação/maldição) por acaso“.

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Ginger Snaps enfoca a vida medíocre de duas irmãs, Ginger (a bela Katharine Isabelle, de Freddy Vs Jason) e Brigitte Fitzgerald (a esquisita, porém excelente Emily Perkins, de IT). Maníaco-depressivas, com tendências suicidas, acentuadas pelo fato de viverem em um subúrbio canadense onde nada acontece (as Colinas Bailey), com uma família completamente deslocada no tempo, Ginger e Brigitte tem um estranho fascínio pela morte. Tanto que, aos 8 anos de idade, fizeram um pacto de se suicidar antes de completarem 16. Ginger está com 16, Brigitte com 15.

O filme começa com uma cena excelente, onde um garotinho brinca na areia e suja as mãos de sangue. Quando sua mãe vai conferir o que ele está fazendo, encontra uma pata decepada de cachorro enterrada no meio da areia. Então corre para a casinha do seu totó e encontra o animalzinho todo decepado, com as vísceras à mostra e sangue por toda parte – um criativo efeito nojento. Somos então apresentados às “estranhasirmãs Fitzgerald, que estão fazendo um trabalho fotográfico sobre o suicídio, tirando fotos de simulações das mortes mais bizarras (atropelamento por cortador de grama, esmagamento pela porta da garagem), sempre com muito sangue e tripas para fora. Estas sequências são mostradas na abertura do filme, também muito bem bolada.

Logo descobrimos que Ginger e Brigitte são a piada da escola. E que ambas estão com a menstruação atrasada. A mamãe coruja Pamela (Mimi Rogers) insiste em falar sobre o assunto toda hora, especialmente nos deprimentes jantares de família, onde o papai Henry (John Bourgeois) não faz nada além de servir de capacho da esposa. Na escola também a coisa vai mal, com o professor Wayne (Peter Keleghan) achando muito mórbido o trabalho das meninas sobre suicídio e passando o maior sermão nas duas.

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Quando Brigitte é maltratada pela gostosona da escola, Trina Sinclair (Danielle Hampton), Ginger arma um plano de vingança: na calada da noite, resolvem ir ao quintal da casa da inimiga e roubar seu amado cachorro. Elas colocam o plano em prática sem se importar com os relatos de que uma fera assassina está atacando na madrugada, destroçando cães de casas vizinhas. Quando chegam à casa de Trina, encontram o cão que iriam raptar já destroçado pela tal fera. Até tentam mexê-lo, mas percebem que o que sobrou do cadáver ainda está quente. No mesmo instante, Ginger tem sua primeira menstruação. Atraído pelo cheiro de sangue quente, o monstro devorador de cachorros, que estava nas redondezas, aparece, repentinamente, atacando a garota.

A cena do ataque lembra muito um dos primeiros filmes que eu vi – e também um dos meus preferidos -, Um Lobisomem Americano em Londres, de John Landis. Muito pouco do lobisomem é mostrado, além da enorme cabeça que abocanha e arrasta Ginger. Mesmo muito ferida, no ombro, no peito e na perna, ela e a irmã conseguem escapar, atravessam uma movimentada estrada e, quando o lobisomem vai fazer o mesmo, é explodido em pedaços pela van em alta velocidade conduzida pelo traficante Sam (Kris Lemche, que depois apareceu em O Olho que Tudo Vê, de 2002). Ginger chega à conclusão que o monstro era um lobo ou um urso, mas Brigitte se espanta com o fato de que as feridas e arranhões da irmã cicatrizam quase que imediatamente.

Ginger não sabe, mas ela acabou de ser infectada pelo vírus da licantropia. Pois todos nós, fãs de filmes de lobisomem, sabemos que é mais ou menos o mesmo que nos filmes de zumbis: se alguém é arranhado ou mordido por um lobisomem, acabará se transformando em um novo monstro. E é aqui que o filme começa a ficar interessante: as mudanças provocadas pela licantropia acontecem praticamente ao mesmo tempo que as mudanças provocadas pela primeira menstruação de Ginger. E estes sintomas são confundidos por todos com a entrada na puberdade!

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Primeiramente, pêlos começam a crescer pelo corpo da garota. Uma enfermeira diz a ela que isso faz parte das mudanças da puberdade (sem imaginar que os pêlos estão crescendo por TODO o corpo, e não só naquele lugar). Depois, a licantropia desperta um violento apetite sexual em Ginger, que até então não se interessava por rapazes. Como se fosse uma verdadeira loba no cio, ela “devora” quase literalmente garotos como o panaca Jason McCardy (Jesse Moss). Em outra interessante teoria proposta pelo roteiro, o vírus da licantropia pode ser transmitido não só por mordidas ou arranhões, mas também sexualmente. E McCardy acabará contaminado e demonstrando os mesmos sintomas de transformação em lobo.

E Ginger continua mudando. Seu cabelo cresce, os caninos ficam salientes e até um rabo aparece entre as nádegas (algo que pareceria ridículo em qualquer outro filme, mas se encaixa perfeitamente na proposta aqui). Até as orelhas ficam pontudas. A garota começa a gostar da transformação e, sem perceber, vai deixando o lobisomem que cresce dentro dela tomar o controle, tornando-se mais violenta e iniciando uma sucessão de mortes na escola e pela cidade.

Enquanto isso, Brigitte, que foi deixada de lado pela “nova Ginger“, se dedica obsessivamente a encontrar uma cura para a irmã. Ela vai falar com Sam, que além de plantar maconha também tem um surpreendente conhecimento de botânica em geral. Sam convence Brigitte a encarar a licantropia como se fosse uma doença, e recomenda que ela tente usar uma solução feita a partir de uma flor chamada acônito, que poderia deter a contaminação em Ginger. Enquanto ela procura a flor, porém, a irmã sai destruindo tudo. Porque, como a própria Ginger diz, “a única coisa que me diverte é destroçar tudo“.

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E a mamãe Pamela acaba quase roubando a cena: ao descobrir que a filha anda envolvida em assassinatos (mas sem saber que ela está se transformando em lobisomem), aquela mulher que foi chata durante todo o filme de repente se revela uma personagem nobre, disposta a sacrificar sua vida pelas duas filhas, ao sugerir que podia incendiar a casa para fugir com a dupla e reiniciarem uma nova vida – um detalhe extremamente sensível do roteiro, que não acrescenta nada à história, mas certamente faria falta se tivesse sido deixado de fora.

Os 20 minutos finais se passam numa noite de Halloween (claro!) e são eletrizantes. Desafio qualquer espectador a não ficar roendo as unhas no confronto de Brigitte e Sam com sua irmã já devidamente transformada em lobisomem (ou seria “lobismulher“?). O mais perfeito de tudo é que o roteiro não poupa os personagens, e mesmo aqueles que acreditamos que vão se safar acabam levando a pior.

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Ginger Snaps é uma verdadeira surpresa, o que me deixa a perguntar porque tanto a Revista SET quanto o “crítico de cinemaRubens Ewald Filho sentaram a lenha na produção. Para começar, o filme troca o tom “terror teen” de tudo que se fazia na época por um clima “anos 80“, quando os filmes até tinham um pouco de humor, mas se levavam a sério, sem partir para a esculhambação. Não poupa, também, no gore, mostrando graficamente cães estraçalhados, com as tripas para fora, membros arrancados e as vítimas de Ginger em pedaços, com rios de sangue ao redor. Recorre ao humor negro quando uma das vítimas de Ginger é colocada no freezer e congela, obrigando as irmãs a retirá-la aos pedaços mais tarde, e à nojeira – difícil não ficar nauseado quando Brigitte é obrigada a lamber sangue de uma vítima de Ginger, para não se tornar a próxima vítima da irmãzinha lobisomem.

O roteiro e as interpretações também são surpreendentes. Embora todos os atores sejam pouco conhecidos (com exceção de Mimi Rogers, que interpreta a mãe de Ginger e Brigitte), a química entre todos é tão perfeita que parecem realmente familiares e amigos. Destaco a interpretação de Katharine e Emily: no final o espectador até chega a pensar que são mesmo irmãs, tal a sintonia demonstrada entre ambas e a simpatia das intérpretes. Também vale ressaltar que Katharine está no auge da gostosura e, mesmo sem aparecer nua, esbanja sensualidade até quando já está quase totalmente transformada em lobo!

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É claro que esta ideia de relacionar a puberdade feminina com o mito do lobisomem poderia desbancar para a baixaria ou para a imbecilidade, ou ainda para o machismo, caso tivesse um homem como roteirista. Mas isso nunca acontece graças ao excelente roteiro escrito, justamente, por uma mulher, Karen Walton – guarde este nome, pois ela também escreveu Elevated, elogiado curta do também canadense Vincenzo Natali (o diretor de Cubo). Karen tem coragem até de jogar pela janela os clichês típicos dos filmes de lobisomem, como, por exemplo, a velha lenda de que a criatura só pode ser morta por balas de prata. Uma das grandes qualidades do roteiro é que ele leva você a simpatizar com as personagens principais e se preocupar com o que acontece com elas – por isso, a conclusão é bem triste.

Mesmo partindo para algumas soluções fáceis no final (como o súbito aparecimento dos acônitos necessários para o antídoto da licantropia), Ginger Snaps se desenvolve sempre surpreendente, e sem apelar para a transformação gratuita de Ginger em lobisomem. Claro, poderiam ter feito com que ela se transformasse em lobo desde o começo, mas os produtores preferiram deixar a mudança para o final, de forma que o espectador se acostuma com aquela menina frágil e nem acredita que ela possa virar um monstro sanguinário. Outro aspecto a louvar é que o filme se concentra em maquiagens, miniaturas e bonecos. Nada de efeitos digitais! Uma grande qualidade… A não ser que alguém ache que o lobisomem de computação gráfica mostrado em Van Helsing é uma grande coisa!

Ginger Snaps é tão diferente que recebeu elogios até de um ilustre canadense, o diretor David Cronenberg (o mesmo de A Mosca, Scanners e uma pá de outros filmões). A revista inglesa Empire também gostou e rasgou seda: “O filme injeta sangue novo em um gênero moribundo. Assustador e frequentemente muito engraçado“. Infelizmente, não passou nos cinemas brasileiros e foi direto para vídeo e DVD sem qualquer campanha de marketing e sem grandes resenhas. Graças ao favorzinho da SET e do nosso amigo Rubens, que malharam a produção, o filme passou em brancas nuvens. Eu mesmo fui vítima destes comentários maldosos e por muito tempo fiquei sem ver, achando que era uma porcaria, até arriscar e me impressionar com a qualidade da obra.

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Infelizmente, mais uma vez, por ter sido tão pouco falado e comentado, Ginger Snaps (ou Possuída, tratem como quiserem) está fadado a apodrecer nas locadoras, acumulando poeira ao lado de outros filmaços bem pouco divulgados, como os excelentes Rota da Morte e O Farol da Morte (se de cada 10 pessoas uma conhecer estes filmes, é demais). O fato do diretor ser um desconhecido chamado John Fawcett (diretor de episódios nas séries televisivas Xena e La Femme Nikita) também não ajuda… Uma verdadeira lástima, ainda mais considerando que Ginger Snaps foi lançado no Brasil bem antes de passar nos cinemas americanos, onde todo mundo estava louquinho para ver o filme – ou seja, nós tivemos esse privilégio, mas pouquíssima gente aproveitou!

E, enquanto isso, Wes Craven, que anda por cima da carne seca depois do sucesso da franquia Pânico, tentou lucrar em cima da ideia de Ginger Snaps com seu filme, Amaldiçoados, que também enfoca jovens lobisomens e tem roteiro de Kevin Williamson (o mesmo da trilogia que devolveu os holofotes a Craven). Entretanto, foi feita nos Estados Unidos, e lá filmes de horror com e para adolescentes costumam resultar em porcarias. Como um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar, duvido que saia algo divertido na mesma linha de Ginger Snaps outra vez.

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13 Comentários

  1. alexandre santos

    o segundo filme e melhor. o 3 tambem. mas o 3 nao tem nada ver com o comeso do primeiro filme possuida o inicio. mostra elas numa froresta quando pequena. realmente nao etendi

  2. Roger

    Tenho a trilogia em DVD. Adoro! Só pela dupla de atrizes já valem os filmes, que têm muitos outros atributos.

  3. Vitor Rocha

    esse é ótimo!!

  4. Mortuus

    Olha, li essa crítica e corri pra conseguir os filmes, assisti ontem com minha esposa que é a maior fã de filmes de lobisomens que eu conheço. Que decepção….esse filme é uma das maiores porcarias que eu vi na minha vida!! Sério, fica quase pau a pau com “No Such Thing” que até hj é o pior filme que já vi. Corri aqui hj pra ver quem havia feito a crítica na esperança de ser um autor convidado e vi que foi o grande Guerra, o que talvez me faça rever o filme algum dia na esperança de que eu que esteja enganado, porém acho difícil, achei o filme horrendo em todos os sentidos que eu possa imaginar.

    • Rosivalda

      Concordo plenamente, mas assistirei os outros na esperança de que venha alguma coisa boa. Já assistia todos de lobisomem, resta-me estes dois!!

  5. Assisti por esses dias toda a Trilogia e gostei muito dos filmes. Bate de longe, a maioria das baboseiras, ditas de “terror’, que Hollywood vem fazendo ultimamente.
    Diversão garantida.

    Deixo aqui meu Blog para os amantes de filmes de Terror
    Você encontra esse e outros filmes pra baixar em:

    http://bautrash.blogspot.com.br/

  6. Carlos Dente

    A trilogia toda já saiu em DVD?

  7. Amo esse filme! E concordo com tudo que você falou! Agora sempre tive uma dúvida com relação a transformação de Ginger: A transformação dela é temporaria ou permanente? No filme não deixa isso claro… Alguém saberia responder?

  8. Daniel Castro

    Já vi todos os filmes da franquia, e acho um exagero dizer que “Possuída” é um dos melhores filmes de horror da década passada. Menos, por favor…

  9. Mandy

    “Um dos melhores filmes de horror da última década… e quase ninguém viu!”

    Eu vi, sim! E Possuída (Ginger Snaps) 1 & 2 são alguns dos meus filmes de terror favoritos! <3

  10. Guilherme

    Saudade dessa época em que os filmes de terror tinham mais gore mas ainda assim eram bons. Dessa série eu gosto mais dos dois primeiros, apesar do terceiro ainda ter tido o milagre de contar com as mesmas atrizes e não colocar outras. Nunca mais vi a Emily Perkins em filme algum, já a Katharine se tornou uma verdadeira Screem Queen.

  11. Tiago

    Tenho todos dessa série,meu favorito e o 2 mais realmente e muito acima da média todos eles.
    Esse rota da morte e sensacional,já o farol da morte eu não conheço.
    Vou fazer uma pesquisa pra ver se encontro.

    • Carlos Dente

      Ei, Tiago, seria muito complicado negociar umas cópias “alternativas”?

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