Críticas

A Casa do Terror Tract (2000)

O passado de casas malditas é o mote dessa belíssima antologia com o saudoso John Ritter!

A Casa do Terror Tract (2000)

A Casa do Terror Tract
Original:Terror Tract
Ano:2000•País:EUA
Direção:Lance W. Dreesen, Clint Hutchison
Roteiro:Clint Hutchison
Produção:Gregg L. Daniel, Lance W. Dreesen
Elenco:John Ritter, Fredric Lehne, Wade Williams, Carmine Giovinazzo, Rachel York, Ray Lykins, Paul E. Short, Allison Smith, David DeLuise, Harrison Held, Bryan Cranston, Katelin Petersen, Jodi Harris, Brenda Strong, Will Estes

Não é preciso estar ao pé de uma fogueira, trepidando com o calor da narrativa, ou iluminado por uma lanterna falha num velho sótão, para ter os ouvidos agraciados por um belo conto de terror. Narrações interessantes podem surgir de lugares inusitados como numa fila de banco a respeito de um assalto com consequências graves ou no relato de um acidente de carro e a reação das vítimas. Você pode ficar arrepiado numa sala de aula, numa conversa num chat da internet ou simplesmente porque decidiu comprar uma casa e fez a pergunta que assombra os corretores: “Por que os donos antigos se mudaram?” Você pode ser enrolado com uma apresentação simpática ou se impressionar se o seu corretor for um sincero e desesperado Bob Carter, na carcaça do saudoso John Ritter.

Muitos filmes de terror abordam casas assombradas e malditas, tanto que não é difícil considerá-las como personagens principais das produções. Localização e aparência são as principais características que a associam como palco do pesadelo que será testemunhado pelos moradores – aqueles que simplesmente optaram por ignorar o passado do local. Toda casa tem uma herança preciosa, podendo ser divertidas reuniões familiares ou até um massacre brutal que manchou as paredes claras de vermelho. Bob sabe disso, mas assumiu o compromisso de executar uma venda até às 17 horas para evitar uma tragédia decorrente de sua incompetência. É ele que conduz os interessados Allen Doyle (David DeLuise, de Fantasmas à Solta, 2008) e sua esposa Mary Ann (Allison Smith, de Helter Skelter, 2004) pela vizinhança amigável a três casas, cada uma com fundo negro em sua trajetória. No caminho, ela atropela um gato, deixando o animal à mercê de um cachorro voraz, sem imaginar que aquela mesma criatura havia se alimentado de um pássaro, logo após ele sequestrar uma minhoca. Essa cadeia alimentar é só um retrato do que o público irá acompanhar em cada segmento.

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Parecia um lugar bom para viver com a família. Espaçoso, aconchegante e bonito, num ótimo custo-benefício, se não fosse um pequeno detalhe: os antigos moradores não saíram vivos dali. Intitulado “Nightmare“, o primeiro capítulo traz uma esposa adúltera, a deliciosa Sarah Freemont (Rachel York), num momento de descontração com o amante Frank Sarno (Carmine Giovinazzo, de Falcão Negro em Perigo, 2001), logo após a saída de seu marido Louis (Fredric Lehne, de A Hora Mais Escura, 2012) para uma viagem a trabalho. Ele retorna antes da hora, armado para a vingança do traído, planejando a morte do amante e o suicídio da esposa, porém não será tão simples já que se trata de uma história de terror e não uma apresentação do Cidade Alerta. Bom elenco e atuações, é um conto com leves toques sobrenaturais e um final digno e impactante. Os pesadelos da protagonista segue mesmo o estilo “narração de fogueira“, aquela em que o narrador vai criando o suspense sobre a aproximação de uma pessoa morta, com os rastros de uma pegada úmida somados aos movimentos do portão. Também remete a um dos melhores segmentos de Creepshow, com a vingança sobrenatural.

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Com a negativa dos compradores, cabe ao corretor conduzir a família até a próxima morada, no caso uma residência belíssima e grandiosa, um local perfeito para o convívio de crianças, desde que elas não queiram ter animais de estimação. Os Gatley vivem em harmonia constante. O pai Ron (Bryan Cranston, de Godzilla, 2014) é apaixonado pela filha Jennifer (Katelin Petersen) e pela esposa Carol (Jodi Harris, de Projeto X, 2012) nas mesmas proporções, mas se sente ameaçado pelo novo amiguinho da pequena, um macaquinho com roupas engraçadas e um péssimo senso de humor. Ele adora frutas, brincar de boneca e morder Ron, um ato que dá inicio a uma guerra pessoal entre o pai e o macaco, culminando em mortes e violência. O capítulo leva o nome do animal, “Bobo“, e traz boas doses de pessimismo e ousadia em seu conteúdo, contrariando o tom leve da narrativa. Os saudosistas irão se lembrar de Instinto Fatal, de George A.Romero, também com consequências agudas envolvendo primatas e humanos em um mesmo espaço.

Allen e Mary estão quase se convencendo de que as melhores opções devem ser bem distantes daquele bairro. O insistente Bob evidencia o seu estado de pânico, ao receber um novo telefonema ameaçador. Com o prazo se concluindo, ele apresenta uma última casa, uma que não foi palco de assassinatos, nem teve uma tragédia diretamente relacionada às paredes, mas protegeu um estranho rapaz, com um dom bastante peculiar. Sean (Will Estes, de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, 2012) resolve procurar a ajuda de uma terapeuta, a Dra. Helen Corey (Brenda Strong, de Dragão Vermelho, 2002), depois que percebe que os pesadelos que anda tendo com um assassino denominado “Vovó” são premonitórios. Cada uma das mulheres que tiveram seus corpos feridos por apunhaladas do serial killer apareceu antes em suas dolorosas visões, incluindo a namorada do rapaz, a bela Jasmine (Shonda Farr, de O Planeta dos Macacos, 2001). “Come To Granny” é o episódio slasher da antologia, com resultados surpreendentes e uma ótima direção de Clint Hutchison, que fez os efeitos visuais de Os Garotos Perdidos (1987) e também foi o diretor do primeiro segmento, deixando o do macaco e o principal para Lance W. Dreesen (de A Fera Assassina, 2006).

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Apesar do título mal traduzido – já que “tract” não é o nome de uma casa, mas significa tanto “trato” quanto “espaço de tempo” e “terreno” – A Casa do Terror Tract pode figurar tranquilamente entre os bons exemplares de antologias. Com segmentos que envolvem o terror urbano, ainda que caricatural, trata-se de um filme divertido, tendo como anfitrião o astro John Ritter, falecido em setembro de 2003. Ritter já havia esbarrado no gênero em filmes como It – A Obra-Prima do Medo (1990), A Noiva de Chucky (1998) e Viagem do Medo (2000), mas é mais lembrado por aqueles que viveram a Sessão da Tarde dos anos 90 pela franquia O Pestinha (1990/1991), como o sofredor Ben. Aqui ele toca o humor como contador das histórias, a partir de sua sinceridade extrema, fazendo o espectador se importar realmente com o que o destino o reserva.

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O longa merecia um lançamento melhor por aqui para que todos possam conhecer seus enredos macabros e sua criatividade, além de guardar na memória uma das grandes e últimas atuações de um ator que tira os méritos das moradas de cada segmento para seus intermédios fantásticos.

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1 Comentário

  1. Gilson bloch

    quero muito esse dvd , pena que saiu de catálogo..

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