Críticas

Contos da Meia-Noite (1997)

Uma diversão rápida e passageira, com um desempenho apenas mediano, com histórias que alternam entre o razoável, o medíocre e o interessante

Contos da Meia-Noite (1997)

Contos da Meia-Noite
Original:Campfire Tales
Ano:1997•País:EUA
Direção:Matt Cooper, Martin Kunert, David Semel
Roteiro:Martin Kunert, Eric Manes, Matt Cooper
Produção:Eric Manes, Lori Miller, Larry Weinberg
Elenco:Jay R. Ferguson, Christine Taylor, Christopher Masterson, Kim Murphy, Ron Livingstone, Jennifer MacDonald, Hawthorne James, Alex McKenna, Devon Odessa, Jonathan Fuller, Glenn Quinn, Jacinda Barrett, Denny Arnold, James Marsden, Amy Smart, Rick Lawrence

Um interessante subgênero do cinema de horror é aquele que explora várias histórias ou contos num único filme, conhecido como antologias. Narrados de forma independente ou relacionados entre si e amarrados por um tema central, esses filmes de episódios normalmente despertam grande curiosidade pois apresentam histórias contadas numa curta duração com a possibilidade de se avaliar o resultado independentemente, preferindo-se um conto em relação a outro.

Na história do cinema fantástico existe uma infinidade de filmes em forma de antologias, a maioria deles servindo até como piloto para séries de televisão, como Retrato de Um Pesadelo (Night Gallery, 1969), que transformou-se na série Galeria do Terror (1970/72), criada e narrada por Rod Serling, ou Contos da Escuridão (Tales From the Darkside – The Movie, 1990), que virou uma série homônima, apenas para citar alguns exemplos.

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Entre meados dos anos 1960 até início da década de 1970, os estúdios ingleses se especializaram no lançamento de vários filmes de antologias de contos destacando-se As Torturas do Dr. Diabolo (Torture Garden, 1967), A Casa que Pingava Sangue (The House that Dripped Blood, 1970), Tales From the Crypt (1972), Asilo Sinistro (Asylum, 1972), A Cripta dos Sonhos (The Vault of Horror, 1973) e Vozes do Além (1973).Apenas como citação, vários filmes com a mesma temática também foram produzidos a partir dos anos 1980 como Creepshow (1982), Pesadelos Diabólicos (Nightmares, 1983), Olho de Gato (Cat’s Eye, 1984) e Show de Horrores (Creepshow 2, 1987), que tiveram o envolvimento de nomes consagrados do horror como George A. Romero, Stephen King, Tom Savini, e outros.

Escritores famosos de horror também tiveram suas histórias adaptadas em filmes de antologias como Muralhas do Pavor (Tales of Terror, 1962), dirigido por Roger Corman num roteiro de Richard Matheson e com Vincent Price, Peter Lorre e Basil Rathbone interpretando contos de Edgar Allan Poe, e Necronomicon, o Livro Proibido dos Mortos (Necronomicon, 1994), com Jeffrey Combs envolvido em contos macabros de H. P. Lovecraft.

Utilizando a tradicional ideia da roda de amigos em volta de uma fogueira numa floresta para contar histórias de horror, foi produzido em 1997 o filme Contos da Meia-Noite (Campfire Tales). O filme é uma antologia com três histórias independentes, além de um prólogo e um tema central. O início, com um episódio curto chamado The Hook (O Gancho), explora uma tradicional lenda urbana, onde um casal de jovens namorados, Eddie (James Marsden) e Jenny (Amy Smart), estão num carro estacionado numa floresta à noite, e surge um assassino psicopata foragido de um sanatório para aterrorizá-los, carregando um gancho no lugar de uma das mãos. Depois a ação muda-se para um grupo formado por quatro adolescentes, Cliff (Jay R. Ferguson), sua namorada Lauren (Christine Taylor), o irmão mais novo da garota, Eric (Christopher Masterson, que demonstra um excelente gosto musical ao usar uma camisa da banda inglesa Iron Maiden), e a amiga Alex (Kim Murphy), que estão alcoolizados voltando de um show de rock, viajando de carro por uma estrada deserta beirando uma floresta. Eles sofrem um acidente e enquanto aguardam por ajuda decidem acender uma fogueira e contar histórias de horror para se distraírem. Esse tema central, intitulado The Campfire (A Fogueira), serve de apresentação para outros três contos sobrenaturais envolvendo monstros, psicopatas e fantasmas, culminando com uma trágica revelação para o destino dos jovens.

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O primeiro episódio, The Honeymoon, dirigido por Matt Cooper, é apenas regular, mostrando um jovem casal em lua de mel, Rick (Ron Livingstone) e Valerie (Jennifer MacDonald), que estão viajando à bordo de um moto home e desviam da estrada principal para uma secundária que corta uma floresta e um lago. Com falta de gasolina, eles são obrigados a parar e encontram um homem misterioso, Cole (Hawthorne James), que está armado de um rifle e avisa para eles terem cuidado, pois perigosas criaturas costumam rondar pela floresta na escuridão da noite. Uma vez não acreditando totalmente nas recomendações do estranho homem, o casal é surpreendido pela fúria de uma besta selvagem.

Apesar de um argumento clichê, esse episódio conseguiu de certa forma desenvolver um clima de mistério em torno de uma criatura da noite, cuja origem não foi explicada. Um fator favorável é a ambientação noturna de uma floresta, que colabora significativamente na criação de um sentimento de medo, como se estivesse escondendo perigos ocultos em seu interior desconhecido. Os destaques são a beleza da atriz Jennifer MacDonald em trajes menores e a sábia decisão do diretor em não mostrar claramente o monstro, optando mais por situações sugeridas. E não faltou o óbvio e esperado desfecho surpresa, que na verdade revelou-se bem previsível.

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A seguir veio a história People Can Lick Too, dirigida por Martin Kunert, disparada a mais fraca de todas e totalmente descartável. Uma garota de onze anos de idade, Amanda (Alex McKenna), faz amizade num chat pela internet (sinal dos tempos modernos) com uma desconhecida chamada Jessica, e revela que ficará sozinha em casa à noite, acompanhada de seu cachorro, enquanto os pais sairiam para um compromisso. A identidade real da amiga virtual da internet é a de um perigoso psicopata pedófilo (Jonathan Fuller), que decide fazer uma visita indesejada à Amanda para conhecê-la mais de perto, e mostrando também o quanto é incompetente em seu ofício.

Esse episódio é muito ruim, explorando um tema completamente desgastado, não conseguindo manter nenhum clima de suspense ou tensão, e a violência é quase que inexistente, incomodando talvez apenas a Sociedade Protetora dos Animais pelo que aconteceu com o pobre cachorro da protagonista. O único elemento relativamente novo (devido principalmente ao ano da produção) é o uso da internet como meio de comunicação e sendo o motivo básico dos acontecimentos da trama. Como curiosidade, a bela irmã de Amanda, Katherine, é interpretada por Devon Odessa, atriz que participou numa ponta do filme Pumpkinhead – A Vingança do Diabo (1988). O ator Jonathan Fuller é um enorme desconhecido, mas ainda assim participou de dois filmes obscuros de horror dirigidos por Stuart Gordon, The Pit and the Pundulum (1990), baseado em conto de Edgar Allan Poe, e Castle Freak (1995), inspirado em história de H. P. Lovecraft.

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O terceiro e último episódio é The Locket, dirigido por David Semel, e sem dúvida o melhor do filme, numa história macabra de fantasmas. Scott Anderson (Glenn Quinn) é um jovem aventureiro que está viajando de moto sem destino pelo interior dos Estados Unidos, quando a moto apresenta problemas mecânicos e ele é obrigado a parar numa estrada deserta, próximo a uma casa de campo. Com o início de uma chuva ele procura abrigo na fazenda e é recebido por uma bela jovem muda, Heather Wallace (Jacinda Barrett). Porém, a noite de tempestade reservaria trágicos momentos de horror para o motoqueiro, quando surgem visões envolvendo o fantasma do pai da garota (interpretado por Denny Arnold) em eventos relacionados à brutais assassinatos cometidos no passado, e que constantemente retorna para aterrorizar a filha.

Histórias de fantasmas são sempre um argumento interessante para um conto de horror, e ainda mais quando associadas a uma ambientação macabra de uma casa de campo afastada, numa noite de forte chuva, com a manifestação da assombração de um pai conservador, de educação muito rígida, portando um machado e sedento de ódio para matar o pecado cometido por sua filha e o namorado. The Locket tem um bom clima de horror e um desfecho interessante. Como curiosidade, o desconhecido ator irlandês Glenn Quinn morreu aos 32 anos vítima de uma overdose de drogas. E a bela atriz australiana Jacinda Barrett fez uma ponta em Lendas Urbanas 2 (2000).

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Novamente os responsáveis por nomear os títulos nacionais dos filmes que chegam ao Brasil se equivocaram e o ideal seria manter a tradução do original Campfire Tales para algo como Contos da Fogueira, apesar que o nome escolhido Contos da Meia-Noite não ficou ruim e tem relações com o filme, fato que já é positivo quando comparamos com outros casos bem piores.

Contos da Meia-Noite é um divertimento rápido e passageiro, situando-se com um desempenho apenas intermediário como filme de horror, pois apresenta histórias com elementos sobrenaturais que alternam seus segmentos entre o razoável The Honeymoon, o medíocre People Can Lick Too, e o interessante, como The Locket e os contos de introdução The Hook e o tema central The Campfire.

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3 Comentários

  1. Nacinha

    Eu amo esse filme, a primeira vez que vi foi em vhs, bons tempos!

  2. Pra min a melhor historia foia da garota da internet que chegou mas perto da realidade monstra o quando a internet poça ser perigosa.

  3. Yves

    Pois o terceiro conto foi o que eu menos gostei! 😛

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