Críticas

Contos do Terror (1986)

Um contador de histórias ousado e que faz uso de suas perversões para subverter os clássicos infantis no medíocre Contos do Terror!

Contos do Terror (1986)

Contos do Terror
Original:Deadtime Stories
Ano:1986•País:EUA
Direção:Jeffrey Delman
Roteiro:Jeffrey Delman, J. Edward Kiernan, Charles F. Shelton
Produção:Jeffrey Delman, William Paul
Elenco:Scott Valentine, Nicole Picard, Matt Mitler, Cathryn de Prume, Melissa Leo, Michael Mesmer, Brian DePersia, Kevin Hannon, Timothy Rule, John Bachelder

As histórias infantis são a porta de entrada para o horror. Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, Branca de Neve e os Sete Anões, Pinóquio, O Gato de Botas trazem em sua essência o fantástico, o sobrenatural, o medo, ainda que, com o passar do tempo, tenham sofrido alterações para amenizar seu conteúdo. As chamadas Bedtime Stories surgiram mesmo da necessidade dos pais de conduzir o sono dos pequenos com aventuras incríveis, com animais falantes e alguns ensinamentos, deixando para os vilões os castigos necessários pelas condutas incorretas. Com o passar do tempo, o assustador voltou a reinar em muitas histórias infantis, nas adaptações para o cinema, romantizados ou não, com lobisomens mais ameaçadores, bruxas perversas e assassinos impiedosos. Um exemplo disso, no pior dos sentidos, está num contador de histórias ousado, que faz uso de suas perversões para subverter os clássicos infantis no medíocre Contos do Terror (Deadtime Stories, de 1986).

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O pequeno Brian (Brian DePersia) não consegue dormir. Parece que seus brinquedos estão intimidando seus sonhos, inspirando seus medos. Para ajudá-lo a se encontrar com Morfeu, o seu tio Mike (Michael Mesmer) resolve alimentá-lo com contos infantis, apelando para o lado macabro e sensual, típicos de sua própria personalidade. A primeira história traz duas bruxas – Hanagohl (Phyllis Craig) e Florinda (Anne Redferne) – com a intenção maléfica de ressuscitar a irmã morta Magoga, a partir do jovem e inocente Peter (Scott Valentine, de Carnossauro, 1996), tutela das malvadas. Para iniciar o ritual de ressurreição, elas precisam de uma jovem pura, uma garota por quem Peter nutre um amor mágico. Apesar da atmosfera nebulosa e da caracterização das bruxas, a falta de recursos e a direção gritante de Jeffrey Delman não conseguem extrair o tom trash do segmento. Destaque para a aparição risível de um extintor de incêndio na caverna das bruxas do século XVIII.

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Brian não está satisfeito com o relato do tio Mike. Talvez tenha faltado sangue ou um final pessimista, algo que o faz clamar por mais uma narrativa. A segunda história tem inspiração discreta no clássico A Chapeuzinho Vermelho, com algumas liberdades criativas e uma modernização consciente, resultando no melhor segmento da produção. A bela Rachel (Nicole Picard) vive com sua avó (Fran Lopate), a quem esconde seus encontros sexuais com o namorado. Certo dia, ela sai para comprar medicamentos na farmácia e, por engano do balconista, acaba levando a receita do que seria para o estranho Willie (Matt Mitler, de The Mutilator, 1985). Sem as doses necessárias, o rapaz se transforma em lobisomem na Lua Cheia, numa interessante analogia com a dependência de drogas. Enquanto ela se entrega ao namorado, em cenas gratuitas de sexo e nudez, Willie resolve visitar a avó da garota para recuperar o produto ou se saciar com a carne das duas. Efeitos simples mas aceitáveis dentro da proposta, numa narrativa fraquinha pelos excessos, mas criativa pelo conceito. A atuação de Nicole Picard também não permite que o espectador se importe com sua vida, torcendo apenas para que o lobisomem não deixe nem sequer um fio vermelho de sua malha.

Tio Mike parece animado com sua competência locutora, mas suas duas histórias não espantam os medos do pequeno Brian. Logo ele o chama para um último enredo, desta vez inspirado na Cachinhos Dourados e os Três Ursos. E não é que ele consegue se superar na ruindade de seus relatos? Três doentes mentais escapam de uma instituição, na fuga mais ridícula da história do cinema. Judith ‘MaMa’ Baer (Melissa Leo), Beresford ‘Papa’ Baer (Kevin Hannon) e Wilmont ‘Baby’ Baer (Timothy Rule) – com o sobrenome pronunciado como “Bear” (Urso) – retornam para casa apenas para descobrir que há alguém morando lá. Um alguém com tendências assassinas, na pele da sensual Goldi Lox (Cathryn DePrume, de Velocidade Terminal, 1994). O grupo de une para cometer novos crimes, enquanto dois distritos policiais seguem seu rastro para um confronto bélico no quintal da residência.

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Carregado num humor pastelão ruim, com atuações canastronas e caracterizações horrorosas, esta não somente é a pior história de uma antologia fraca, como também serve para apagar qualquer vestígio de qualidade do que fora visto antes. O espectador se sente animado a utilizar o controle remoto e acelerar as ações para que o pequeno Brian consiga dormir logo e possamos fazer algo melhor. Se vale algo a ser considerado, pode-se dizer que está na nudez rápida de Cathryn de Prume, numa cena no chuveiro, um momento interessante escondido numa película de difícil digestão.

A antologia Deadtime Stories poderia permanecer no limbo das produções ruins, mas o mestre George Romero resolveu apresentar sua própria própria homônima em 2009 e 2011, o que fez muitos considerarem como uma continuação do longa oitentista. Não é. Assim como também o seriado infantil de 2012 também nomeado como Deadtime Stories. Não que estes sejam melhores do que o trabalho de Jeffrey Delman, uma possibilidade fácil, mas serviram para o público recordar as primeiras histórias infantis macabras e até se interessarem em conferi-lo, um erro tão grave quanto o de um tio perverso e suas narrativas distorcidas.

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