Críticas

Depois da Meia-Noite (1989)

Um divertido passatempo, em contos que não incomodam o espectador, mas estão distantes de sua proposta inicial de falar sobre o medo!

Depois da Meia-Noite (1989)

Depois da Meia-Noite
Original:After Midnight
Ano:1989•País:EUA
Direção:Jim Wheat, Ken Wheat
Roteiro:Jim Wheat, Ken Wheat
Produção:Richard Arlook, Peter Greene, Jim Wheat, Ken Wheat
Elenco:Jillian McWhirter, Pamela Adlon, Ramy Zada, Judie Aronson, Marg Helgenberger, Marc McClure, Alan Rosenberg, Jordana Capra, Richard Gabai, Loyda Ramos

Vamos falar sobre o Medo. Aquele frio na barriga e arrepio nas costas, somadas à taquicardia e à falta de ar, são algumas das sensações que acometem as pessoas diante do que elas definem (ou evitam assumir) como medo. Numa análise real, elas sentem mesmo ansiedade e a adrenalina como antecipação do que elas já conhecem. E isso não é medo! Imagine a situação: após duas horas numa fila, chega finalmente a sua vez de passear na montanha-russa mais alta do parque. A empolgação com a turma, a excitação pela experiência divertida e as brincadeiras sem cessam quando o carrinho começa a fazer a subida lenta e gradual, permitindo que você veja toda a extensão do lugar, da cidade, com o público cada vez menor. Os seus batimentos cardíacos se aceleram, enquanto você testa a segurança do brinquedo e diz algumas palavras de conforto para os amigos como uma distração própria. Depois de algumas voltas rápidas, o carrinho encerra a aventura no ponto de partida, deixando apenas a sensação de alívio, de segurança. Por mais que você associe ao medo, na verdade você sentiu as emoções e sentimentos físicos já conhecidos ou experimentados – e sabe como irá terminar, assim como seu corpo sabe como se comportar no processo. O Medo vai além.

Estar diante do desconhecido, tentando prever o que seria aquele som estranho no porão, é uma boa maneira de definir o medo. Se alguém disser que um monstro está atrás de uma porta, sua imaginação vai encontrar meios de aliviar os perigos pela possibilidade irreal disso acontecer. Agora, saber que uma pessoa está atrás de você e que ele irá cortar sua garganta como fez com os seus amigos é o que mais se aproxima dessa sensação. No caso da montanha-russa, o temor pode nascer de uma possibilidade de morte, quando você passa a acreditar que seu coração irá parar de bater antes de terminar a primeira volta. Você teme a morte, não a montanha-russa! Você tem medo de levar sustos e não suportar assistir ao filme de terror e não do Freddy Krueger ou Jason.

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Depois da Meia-Noite é uma antologia lançada em 1989 que trata do medo. São pequenas histórias de terror urbano, daquelas que poderiam acontecer com qualquer pessoa, tendo como anfitrião um professor universitário de psicologia que chama seu curso de A Psicologia do Medo. O Professor Edward Derek (Ramy Zada, da antologia Dois Olhos Satânicos) utiliza meios não-convencionais para testar as sensações de seus alunos. É ele que define o medo como uma sensação de pavor diante de uma situação real. “Se eu disse que um monstro vai entrar na sala daqui a pouco, vocês não irão sentir medo porque sabem que isso é improvável. Mas, se eu tirar da minha mala um revólver e disser que irei matar todos vocês, e vocês acreditarem nisso, isso dará uma ideia do que é o medo.” O aluno Russ (Ed Monaghan) desdenha dessa possibilidade, o que leva o professor a pegar realmente um revólver em sua mala, colocar uma bala e apontar para a cabeça dele, fazendo-o urinar de medo. Para concluir a primeira aula, ele aponta a arma para o próprio pescoço e dispara, espirrando um líquido vermelho sobre a parede para desespero da turma.

A brincadeira não é bem quista por todos, tanto que o reitor pede que ele volte aos ensinamentos tradicionais, com leitura de livros e aulas explicativas. Mas, ele sugere uma possibilidade de continuar conduzindo os corajosos à sensação de um medo real em aulas particulares em sua própria residência. Mesmo sendo a mais temerosa, principalmente por um dom que possui, Allison (Jillian McWhirter, de O Dentista 2, 98) e alguns colegas, como a amiga Cheryl (Pamela Adlon), resolvem visitá-lo nas mesma noite. É lá que, na escuridão provocada por uma queda de energia, os visitantes compartilharão calafrios reais, sem saber que estão prestes a participar de um episódio, com a provável vingança de Russ.

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A primeira é do próprio professor. Intitulada nos créditos como “The Old Dark House“, o enredo apresenta um casal apaixonado, vivido por Kevin (Marc McClure, de De Volta para o Futuro, 85) e Joan (Nadine Van der Velde), na comemoração do aniversário do rapaz. Ela insiste que o caminho de volta seja pela estrada mais deserta, provocando uma situação comum em inúmeros filmes: os pneus do carro irão se furar no local mais inóspito. É ela também que o convence a invadir uma velha casa, onde ocorreu uma tragédia no passado, para buscar um telefone. Kevin teme a própria sombra, mas será capaz de fazer qualquer coisa para salvar a amada, mesmo que isso exija coragem e força inexistentes. Um conto bem interessante, com um corte seco, levemente previsível, e que depois inspirou outras produções como Cry Wolf – O Jogo da Mentira (2005).

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Intercalando cada segmento com a proximidade de Russ de seus intuitos vingativos, a segunda história – “A Night on the Town” – traz quatro garotas menores de idade em busca de diversão na madrugada. Jennifer (Judie Aronson, de Hannibal, 2001), Kelly (Penelope Sudrow, de A Hora do Pesadelo 3, 1987), Amy (Tracy Wells, de Gremlins, 1984) e Lisa (Monique Salcido) são barradas numa balada e obrigadas a buscar outros lugares para curtir. Com a baixa gasolina do automóvel, elas param num posto desativado, local onde enfrentarão um louco (Luis Contreras, de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, 1977) e seus cães assassinos, numa perseguição pelas ruas desertas até um velho armazém. Apesar de alguns momentos de tensão, com a proximidade dos animais vorazes, é a trama mais fraca, com o final mais sem graça e inconveniente.

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All Night Messenger” é o terceiro segmento, estrelado por Marg Helgenberger (de A Experiência, 1995) como Alex, uma funcionária de um serviço de mensagens por telefone. Ela retorna das férias, usando muletas devido a um acidente de ski, e assume o turno da noite no lugar de Vanessa (Jordana Capra, de Os Visitantes, 1986), somente para enfrentar a insanidade de um rapaz, Richard (Alan Rosenberg, As Duas Faces da Lei, 2008), insistente em se comunicar com Molly (Loyda Ramos), seu interesse doentio. Depois que a estrangula, ele resolve concluir o serviço no prédio de Alex, obrigando-a a encontrar meios de enfrentar o louco, mesmo com a dificuldade em se movimentar. Com referências ao clássico Janela Indiscreta (1954), o enredo é simples, mas aterroriza pelo tom claustrofóbico e pelas possibilidades reais de algo assim acontecer com alguém que trabalha com comunicação na madrugada.

Após as narrativas, temos a conclusão da vingança pessoal de Russ, no porão da residência. Toda a lógica das aulas do professor e das histórias com enredos “reais” cai por terra com a conclusão exagerada e sobrenatural, com Allison passeando pelos cenários de cada segmento, enquanto foge de um esqueleto munido de um machado, com aqueles efeitos em stop-motion similares aos vistos em A Hora do Pesadelo 3 e Army of Darkness (1992). A última cena até cria uma conexão interessante com o começo do filme, como o pesadelo da repetição, quando a decepção já tomou conta do espectador.

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A direção dos irmãos Wheat, Ken e Jim, que depois se especializariam em roteirizar longas de ficção como A Ameaça veio do Espaço (1996), Rastros de Pavor (1996), A Batalha de Riddick (2004) e Riddick 3 (2013), não chega a comprometer o resultado, embora seja simples e convencional. Talvez o que pesa mais negativamente para tornar a produção apenas mediana esteja na simplicidade do conteúdo e na atuação caricatural de Ramy Zada, diferente do que faria em Dois Olhos Satânicos. Daí por diante o ator somente seria visto em inúmeras séries de TV como Dallas (1990/1991), Dark Justice (1991), Second Chances (1993/1994), Melrose Place (1995) até encerrar a carreira em 2007, num episódio de Shark.

Lançado em VHS pela MGM Home Entertainment (Warner), Depois da Meia-Noite é até um divertido passatempo, com pequenas histórias que não incomodam o espectador, mas estão distantes de sua proposta inicial de falar sobre o medo. Se essa sensação, como foi dito no começo, tem origem no temor ao desconhecido e ao inevitável, esta antologia vai no caminho oposto, soando apenas previsível, podendo transmitir um leve arrepio somente naqueles que estão se iniciando nesse subgênero de enredos curtos. Para os demais, o passeio de montanha-russa será, na verdade, uma volta pela antiga Montanha Encantada, do Playcenter.

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3 Comentários

  1. Richel

    Bom dia vc tm o filme depois da meia noite?

  2. Renato

    Olá!
    Onde consigo comprar este filme?

  3. Luciana

    Prezado Marcelo, parabéns pelo seu trabalho no Boca é muito bom poder correr aqui sempre que uma duvida surge. Gostaria muito de pedir sua ajuda, na busca de um filme que assisti há muitos anos e tenho quase certeza que pertencia a uma Antologia. A história resumida é assim, uma mulher adultera é pega pelo marido com o amante, e este tomado pela raiva resolve se vingar, dopando os dois que quando acordam foram serrados verticalmente e suas metades juntadas formando um só corpo! Esse filme me marcou mas já procurei e nada de encontrar. Lhe agradeço desde já.

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