Vozes do Além (1973)

Vozes do Além (1973)

Vozes do Além
Original:From Beyond the Grave
Ano:1973•País:UK
Direção:Kevin Connor
Roteiro:R. Chetwynd-Hayes, Raymond Christodoulou, Robin Clarke
Produção:Max Rosenberg, Milton Subotsky
Elenco:Peter Cushing, Ian Bannen, Ian Carmichael, Diana Dors, Margaret Leighton, Donald Pleasence, Nyree Dawn Porter, David Warner, Ian Ogilvy, Lesley-Anne Down, Jack Watson, Angela Pleasence, Wendy Allnutt, Rosalind Ayres, Tommy Godfrey, Ben Howard, John O'Farrell

O que você ganha comprando na loja de Peter Cushing?

Quando eu era mais novo, adorava o que chamava de “filmes de terror com historinhas“. São aquelas produções divididas em episódios, com histórias curtas de horror e suspense. Creepshow (1982), de George A. Romero, era um dos meus preferidos, mas também gostava muito do Contos da Escuridão (1990). Finalmente, pegando os Corujões e Sessões das Dez daquela época, fui descobrir que havia filmes antigos muito legais neste esquema de coletânea de contos de horror. E embora tivessem muito menos sangue e efeitos especiais que os dois anteriormente citados que eu mais gostava, estas produções antigonas compensavam com elencos de atores conhecidos e histórias que eram realmente bem boladas, quase sempre com finais que surpreendiam, e por isso não precisavam de efeitos especiais elaborados para compensar a falta de imaginação.

O pessoal que, como eu, também é da antiga (pelo menos pré-Pânico, ou pré-remakes) deve lembrar que a TV brasileira adorava exibir produções como A Casa que Pingava Sangue, Clube dos Monstros e Testemunhas da Loucura, divididas em historinhas curtas e arrepiantes, daquelas que você nunca mais esquecia. Como a do sujeito que matava pessoas apenas com um assobio. Ou a do rapaz que pedalava uma bicicleta antigona e voltava ao passado. E isso antes de este formato ficar ainda mais popular em seriados de TV, a partir da década de 80, como o Amazing Stories (produzido por Steven Spielberg), os Contos da Cripta e, mais recentemente, o Masters of Horror. E foi lá pelo final dos anos 80 (hoje um “passado distante” para alguns) que vi um filmaço de “historinhas de terror” chamado Vozes do Além, não lembro se na Record ou na Manchete. Até havia esquecido o nome – para mim, sempre foi “o filme da loja de antiguidades amaldiçoada“. Demorou anos (duas décadas talvez) para eu recordar o título, Vozes do Além, e conseguir baixá-lo, matar a saudade e finalmente descobrir que era uma obra da famosa produtora inglesa Amicus Productions.

A Amicus surgiu no final dos anos 50 como subsidiária dos famosos Estúdios Shepperton, e, apesar de ser uma companhia inglesa, foi ironicamente fundada por dois norte-americanos, os produtores-roteiristas Milton Subotsky e Max Rosenberg. Na época, como todo mundo deve estar careca de saber, quase todo filme de horror inglês saía dos estúdios de outra produtora, a Hammer, que resgatou monstros clássicos dos anos 30 (tipo Frankenstein e Drácula) e lhes deu um “banho de loja”, fazendo um horror mais físico, colorido e sangrento, às vezes também abusando de sensualidade e da sexualidade. Se a Hammer ficou marcada pelo horror gótico, a Amicus resolveu investir em outro filão: as deliciosas antologias de horror, como as que citei anteriormente. E, por rodar produções de baixo orçamento, a Amicus acabou sendo conhecida pejorativamente como “a prima pobre da Hammer“.

A fórmula destes filmes era idêntica: quatro ou cinco episódios curtos interligados por uma trama básica que continha uma situação dramática específica ou um narrador. Não era exatamente uma ideia criativa: um dos grandes clássicos do horror de todos os tempos, Na Solidão da Noite (1945), é justamente uma coletânea de histórias de horror, só que ali cada episódio foi feito por um cineasta diferente – Charles Crichton, Basil Dearden, Robert Hamer e o brasileiro Alberto Cavalcanti, que assinou a melhor parte (sobre um ventríloquo assombrado por seu boneco, “apenas” 60 anos antes de Gritos Mortais).

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Depois de lançar duas obras de pouca repercussão – um deles foi o Horror Hotel (1960), com Christopher Lee -, a terceira produção da Amicus partiu para o esquema “antologia de historinhas“. Foi o pioneiro As Profecias do Dr.Terror (Dr. Terror’s House of Horrors, 1965), dirigido pelo especialista Freddie Francis (que também fez vários filmes com Drácula e Frankenstein para a Hammer). A obra era formada por cinco historinhas escritas por Subotsky, e com um elenco de peso: Donald Shuterland, Peter Cushing, Christopher Lee, Bernard Lee e Michael Gough. Na trama, um personagem-narrador, o dr. Schreck (interpretado por Cushing), interliga as cinco histórias ao ler o futuro de cinco passageiros de um trem nas cartas de tarô, dando origem às cinco narrativas diferentes.

Outros filmes de episódios da Amicus são o clássico do Corujão da Globo A Casa que Pingava Sangue (1970, de Peter Duffell), Asilo Sinistro (1972, de Roy War Baker), Contos do Além (1972, de Freddie Francis, baseado nas mesmas revistas em quadrinhos da EC Comics que dariam origem ao seriado Contos da Cripta nas décadas de 80-90), Testemunhas da Loucura (1973, também de Freddie Francis) e O Clube dos Monstros (1980, de Roy Ward Baker), entre outros menos conhecidos. Este último saiu quando a ideia já estava um tanto desgastada e repetitiva, e também foi o último filme da Amicus, que fechou as portas logo depois. Recentemente, em 2007, a produtora voltou à ativa e financiou Stuck, nova obra de Stuart Gordon, ainda inédita por aqui.

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As antologias de horror costumavam reunir a nata do talento da época. Os elencos tinham astros como Kim Novak, Herbert Lom, Donald Pleasence, Vincent Price, Christopher Lee, Peter Cushing, Britt Ekland, Charlotte Rampling e outras caras conhecidas, e os roteiros – normalmente inspiradíssimos – contavam com a colaboração de gente boa, como Robert Bloch, o autor que escreveu o romance que deu origem ao clássico Psicose, de Hitchcock. É bom destacar que o formato de coletânea era um verdadeiro desafio para os roteiristas, já que eles precisavam contar histórias curtas e boas num reduzido espaço de tempo, entre 10 e 15 minutos, e sem ser repetitivos!

O objeto de análise deste texto, Vozes do Além, foi lançado no auge das antologias de horror, no ano de 1973. Trata-se da estreia na direção de Kevin Connor, que fez pelo menos mais um filme de horror clássico (o sangrento Motel Hell, de 1980), e até hoje dirige produções para a TV contando a história de personagens reais, como a Princesa Diana ou a Madre Teresa de Calcutá. Vozes do Além segue os moldes dos outros filmes em episódios da Amicus, sem grandes reviravoltas ou novidades, colocando um personagem central (novamente o tétrico Peter Cushing, com sua cara de caveira descarnada) para interligar as histórias, mas desta vez sem narrá-las. O diferencial são exatamente estas quatro narrativas, roteirizadas por Raymond Christodoulou e Robin Clarke a partir de contos do escritor inglês R. (de Ronald) Chetwynd-Hayes.

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A ideia central do roteiro é a seguinte: Cushing interpreta um anônimo e sinistro (claro!) proprietário de uma loja de antiguidades, ironicamente chamada Temptations (“Tentações”), e que fica imediatamente ao lado de um cemitério, no subúrbio de Londres. Ao longo do filme, quatro clientes entram na loja em busca de algum artefato, e, por trapacearem o proprietário de alguma forma, acabam levando para casa não só um produto da loja, mas também uma maldição – na forma de demônios, fantasmas, feitiçarias, mortos-vivos e até mesmo um portal para outra dimensão. Só não me pergunte como é que uma loja de antiguidades cheia de quinquilharias recebe tanto movimento em tão pouco tempo. Também não me pergunte como alguém seria louco para comprar algo numa loja dirigida por Peter Cushing, que já foi até o principal oficial no comando da Estrela da Morte em Guerra nas Estrelas!

Abaixo, o leitor encontra uma análise mais detalhada de cada um dos episódios, separados por títulos (cada um tem seu nome, embora estes nomes não apareçam no filme, apenas nos créditos finais). Depois das análises individuais, no final voltaremos à análise do longa em si.

The Gate Crasher

Nossa primeira historinha é a mais violenta das quatro e serve, basicamente, para apresentar o tom do filme e a ideia de que os objetos amaldiçoados da loja de antiguidades acabam se voltando contra seus novos proprietários. Um jovem David Warner (que depois se transformaria em coadjuvante de luxo em incontáveis filmes de horror, de A Profecia a Necronomicon) interpreta Edward Charlton, colecionador de antiguidades que também se interessa por ocultismo. Ele é o primeiro cliente do dia (e do filme) na loja maldita, e se interessa por um enorme espelho que o proprietário garante ser uma relíquia, com muitos séculos de idade. Espertinho, Edward enrola o velhote com sua lábia, alegando que o objeto foi reformado, e que por isso pagará um valor muito reduzido por ele. O velho proprietário, claro, aceita. E Edward ganha como brinde, na compra, uma terrível maldição.

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O espelho é pendurado na sala de estar do luxuoso apartamento do rapaz, que convida seus amigos para tomar uns drinks. No meio da noite, um deles tem a ideia de jerico de fazer uma “sessão espírita” – coisa típica de quem não tem nada melhor para fazer, como encher a cara ou transar. Os amigos se reúnem ao redor da mesa, iluminados apenas pela luz de uma vela, e Edward inicia a “sessão“, despertando um espírito milenar que vive do outro lado do espelho. Quando seus convivas voltam para casa, Edward é ameaçado pela criatura (interpretada pelo falecido Marcel Steiner, dublado pelo italiano Robert Rietty). O espírito do espelho exige que o rapaz inicie uma brutal onda de matança, para que ele possa se alimentar do sangue das vítimas e libertar-se de sua prisão no objeto.

Logo, a história dá um salto no tempo e vemos que o outrora luxuoso apartamento de Edward foi reduzido a uma balbúrdia, repleto de manchas de sangue de diversas prostitutas e garotas assassinadas durante sabe-se lá quantos dias ou semanas. O espírito do espelho – cuja face parece mais “restaurada” a cada crime – continua exigindo mais sangue, e Edward terá que decidir se dá um basta na matança ou se executa, em nome da criatura, a sua própria namorada, Pamela (Wendy Allnutt). O final é previsível, mas não deixa de ser bastante interessante.

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A trama lembra Demência, filme inglês dirigido por Freddie Francis e lançado no mesmo ano de 1973, que mostrava Jack Palance como um homem atormentado pelas ordens de um amaldiçoado ídolo africano, que o obrigava a sacrificar belas mulheres. Porém a ideia do espírito aprisionado no espelho, que precisa reconstruir seu corpo terrestre com o sangue de muitas vítimas para poder se libertar do objeto, é ironicamente muito melhor desenvolvida que o longa-metragem de Francis, ainda que num menor espaço de tempo (o episódio tem cerca de 15 minutos). Principalmente ao apresentar a deterioração física e mental de Edward, inicialmente mostrado como um rapaz bem apessoado e educado, mas logo reduzido a um pálido e caquético psicopata.

O tom de “The Gate Crasher” é completamente diferente dos outros episódios, mais cruel e sujo. Embora não seja graficamente violento (nunca vemos as facadas desferidas pelo assassino, por exemplo), o visual compensa, fazendo com que o espectador quase sinta o cheiro do sangue coagulado espalhado pelo imundo pijama do protagonista ou da putrefação dos corpos escondidos sob o assoalho do apartamento. E não tem como não sentir pelo menos um arrepio na cena em que o demônio do espelho diz para Edward “tocar seus ombros e jogar o corpo para a frente” (quem já viu, sabe do que estou falando).

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Além disso, David Warner matando prostitutas a punhaladas parece uma espécie de treino do ator para interpretar o próprio Jack O Estripador no espetacular Um Século em 43 Minutos (1979), de Nicholas Meyer.

An Act of Kindness

O que se ganha sendo genro de Donald Pleasence, um dos mais conhecidos intérpretes de vilões da história do cinema (embora também tenha encarnado o heroico Dr. Loomis na série Halloween)? Aposto que não se ganha nada de muito agradável, ou pelo menos um final semelhante ao do protagonista da segunda história, a única onde o destino trágico do personagem principal não está ligado diretamente à antiguidade adquirida – o que não deixa de ser um furo do roteiro.

O escocês Ian Bannen (que ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por O Voo da Fenix, em 1965, e também apareceu no trash italiano A Casa do Medo, de 1989) interpreta Christopher Lowe, um executivo almofadinha e cagão casado com uma megera, Mabel (Diana Dors, de As Sete Máscaras da Morte). A mulher faz gato-e-sapato do pobre coitado: passa os dias no bingo ou fofocando com as amigas, não é capaz de preparar um jantar decente para a família e ainda adora humilhar o marido bem na frente do filho, Stephen (John O’Farrell).

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As coisas mudam quando, certo dia, voltando do trabalho para casa, Lowe encontra um maltrapilho veterano de guerra vendendo fósforos e cadarços. Trata-se de Jim Underwood (Pleasence). E, ao dar uma generosa esmolinha para o homem, os dois se tornam amigos. Lowe vê em Jim um humilde parceiro com quem pode conversar, já que em casa é humilhado diariamente pela esposa. Numa tentativa de impressionar o ex-combatente, o executivo vai até a loja de antiguidades de Peter Cushing e rouba uma velha medalha de bravura em combate que estava exposta na vitrine, apresentando-a a Jim como se também fosse um veterano de guerra.

Lowe ganha a confiança de Jim, e também um convite deste para ir até sua casa tomar chá. Lá, o veterano lhe apresenta a filha, Emily (a esquisita Angela Pleasence, que obviamente também é filha de Donald na vida real e, infelizmente, é a cara do pai!). Apesar da garota ser feia como o diabo chupando limão azedo, o executivo acaba se apaixonando por ela – e descobre que a moça é, na verdade, uma bruxa, capaz de livrar-se da sua esposa megera com uma única alfinetada numa boneca vodu. Mas e será que dá para confiar numa pessoa que consegue matar usando apenas um boneco, ou o feitiço vai virar contra o feiticeiro? É exatamente o que veremos na tétrica cena final.

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Histórias bem-feitas sobre bruxaria normalmente deixam o espectador arrepiado, e esta não é diferente. Da canção tétrica cantarolada por Emily até o sangue que escorre da bonequinha vodu de Mabel, há vários detalhes suficientemente macabros para manter a atenção mesmo dos fãs de horror mais hardcore. E a conclusão, novamente, não deixa de ser surpreendente, embora um tanto inexplicada. Tão inexplicável, aliás, como a paixão do protagonista pela horrível filha de Donald Pleasence! Vai ser feia assim longe daqui!!!

The Elemental

Toda boa antologia de histórias de terror precisa ter um episódio mais leve e bem humorado, e, no caso de Vozes do Além, é a terceira historinha que busca o riso, embora sua conclusão seja séria e, de certa forma, assustadora. Partindo para a comédia assumida, inclusive nas interpretações e caracterizações dos personagens, esta é a parte mais fraca do filme, mesmo que mantenha algumas boas surpresas, incluindo um show de eficientes efeitos especiais numa exagerada cena de exorcismo.

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Reggie Warren (interpretado por Ian Carmichael) é um inglês almofadinha e trapaceiro no estilo do Christopher Lowe do episódio anterior. Embora aparente ser podre de rico, ele não pensa duas vezes em trocar as etiquetas de uma velha caixinha de rapé da loja de antiguidades, para fazê-la custar 5 libras ao invés de 40, que era seu preço original. Detalhe: o mão-de-vaca ainda pechincha com o proprietário, pagando 4 libras ao invés das cinco!!! Como “brinde” em sua compra, Warren ganha um “elemental“, que estava aprisionado no interior da caixa e saiu no momento em que ele a abriu, depositando-se no ombro esquerdo do homem.

No regresso para casa, de trem, Warren tem um encontro pouco amistoso com uma misteriosa mulher chamada Madame Orloff (Margaret Leighton, de Sob o Signo de Capricórnio). A velhota é uma mística, que alerta o homem sobre a criatura (invisível, obviamente) que agora vive em seu ombro: “É um elemental de ar, fogo e água, uma criatura invisível e incorpórea que se alimenta dos prazeres da carne, absorvendo toda a energia da alma. E está bem incrustado no seu ombro!“. É claro que Warren não acredita na velha e pensa que ela é maluca, ou charlatona. Afinal, não enxerga nada no seu ombro, quanto mais um pequeno demônio…

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Mas, quando ele chega em casa, o elemental finalmente se manifesta, arranhando e depois tentando sufocar a esposa de Warren, Susan (Nyree Dawn Porter, que também trabalhou para a Amicus em A Casa que Pingava Sangue). Desesperado, o homem resolve se livrar da criatura chamando Madame Orloff, que protagoniza uma bizarra cena de exorcismo. Neste momento, o ponto alto do episódio, móveis e objetos da sala da casa voam por todos os lados, a TV explode, as almofadas se rasgam, entre outros efeitos muito bons para a época – ironicamente, O Exorcista, de William Friedkin, foi lançado no mesmo ano de 1973!

E será que todo esse esforço de Madame Orloff valerá para alguma coisa, ou não restará ninguém vivo na casa para que ela possa cobrar seus “honorários” como exorcista? Bem, esta é a surpresa da conclusão, óbvio!

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Embora o tom mais leve deste episódio provavelmente seja uma tentativa de amenizar o clima mais pesado dos dois primeiros (que, para a época, deviam ser bem horripilantes), ele não se encaixa decentemente na antologia, e acaba apenas como uma espécie de curiosidade ou intervalo antes da atração principal, a quarta, última e melhor historinha, quando o filme volta a pegar pesado. Mas convenhamos: a ideia de uma criatura sobrenatural invisível sobre os ombros de uma pessoa, aterrorizando a ela e a seus entes queridos, antecede em mais de 30 anos o excelente horror oriental Espíritos. Pena que, aqui, não levaram esta ideia tão a sério quanto no filme tailandês…

The Door

Como sempre acontece nas boas antologias, o melhor fica para o final: “A Porta“, a última história (sem contar a “conclusão oficial” do filme), diverte e impressiona com uma ideia muito bem bolada (embora semelhante à primeira, já que ambas mostram vilões sobrenaturais que tentam escapar de suas dimensões paralelas através de um objeto da loja). Ironicamente, alguns críticos consideram esta, que é a minha preferida, a parte mais fraca!

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Numa visita à loja de antiguidades, o escritor Willian Seaton (Ian Ogilvy, de O Caçador de Bruxas) se interessa por uma velha e enorme porta de madeira, repleta de detalhes esculpidos – entre eles, um rosto demoníaco. Durante a negociação do preço com o proprietário, este se afasta para fazer o recibo, deixando a caixa registradora da loja aberta e com uma grande quantia de dinheiro à mostra, o que é um convite ao roubo.

Em seu apartamento, repleto de velharias como armaduras e machados medievais, William adapta a nova aquisição como porta para o armário de seu escritório. Porém, na primeira madrugada, exatamente à meia-noite, o escritor é levado a abrir a porta, e do outro lado descobre que não está mais o seu armário repleto de papéis e outros materiais, mas sim uma gigantesca sala ao estilo medieval, em tom azulado, com móveis, castiçal e até um enorme vitral. Como o local está repleto de teias de aranha, William acredita que não é visitado há muitos séculos. Porém, quando uma das outras portas no interior da sala começa a se abrir, revelando que há alguém, ou ALGO, vivendo ali, ele toma um cagaço e corre de volta para seu escritório, fechando a porta e aprisionando o que quer que esteja atrás dela.

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Pela manhã, ele conta sua aventura noturna à namorada Rosemary (Lesley-Anne Down, vista posteriormente no lamentável Desejo de Matar 5), que não acredita em uma palavra. A incredulidade da moça leva William a uma segunda visita ao outro lado da porta, novamente à meia-noite. Sobre a mesa da sala azulada, ele encontra um livro antigo e descobre que a sala foi construída pelo alquimista Sir Martin Sinclair, na época do rei inglês Carlos II (1660-1685). Aparentemente, a sala azul é uma maneira do bruxo viver para sempre: foi construída com o sangue de inúmeras vítimas, e a porta, banhada no mesmo “material“, funciona como armadilha para atrair novas almas, necessárias para que o local continue existindo e perpetuando a vida de seu criador. Subitamente, a leitura de William é interrompida pelo espectro do próprio Sir Martin (Jack Watson, de Peeping Tom), que precisa de novas almas para dar continuidade à sua existência eterna.

Esta história é simplesmente um achado. Enquanto as outras três partem de uma premissa bem básica e pré-estabelecida, esta assume um tom investigativo, onde o espectador precisa acompanhar o protagonista na sua busca por explicações para o fenômeno. A aparição do espectro de Sir Martin é horripilante, e a única maneira encontrada pelo escritor para dar um fim na vida eterna do alquimista é bastante criativa, incluindo uma marcante cena da porta se esvaindo em sangue enquanto a sala começa a se despedaçar numa imensidão de nada (algo que provavelmente seria feito por computação gráfica nos dias atuais).

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Como curiosidade, este também é o único dos episódios onde o protagonista não se dá mal na conclusão, já que, conforme vemos nas cenas finais, o proprietário da loja de antiguidades está contando o dinheiro da caixa registradora e descobre que não falta nem um centavo. Ou seja: William não roubou nada, como o espectador inicialmente é levado a acreditar, e por isso não recebeu o “castigo divino“, tão implacável com os personagens dos outros episódios.

Ao final desta quarta história, há ainda uma rápida conclusão “oficial” para a trama principal – a do proprietário da loja de antiguidades. Acontece que, ao longo de todo o filme, ficou circulando pelo local um homem suspeito (Scott Fredericks), que acaba se revelando um ladrão. Finalmente, nos últimos minutos do filme, ele entra no estabelecimento e ameaça o proprietário com duas antigas pistolas. Neste momento, fica clara a natureza sobrenatural da loja e do seu dono (será que ele é um fantasma ou o próprio Satanás?), pois os tiros disparados pelo bandido não fazem qualquer estrago no velhote. Quanto ao assaltante, acaba morto ao cair dentro de um caixão repleto de pontas de metal. E a última cena do filme mostra Peter Cushing na porta da sua loja, falando diretamente ao espectador, convidando-o para visitar o estabelecimento.

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Vozes do Além, ao contrário de outras obras em episódios da Amicus, não saiu em VHS no Brasil, nem foi lançado em DVD. Suas reprises na TV foram ficando escassas e hoje acredito que o filme nem esteja mais sendo exibido, o que é uma pena. Só não confunda com outro Vozes do Além, aquela bomba estrelada por Michael Keaton sobre vozes fantasmagóricas captadas por aparelhos de som. Este de 1973 se chama, originalmente, “From Beyond the Grave” (“Além da Sepultura”). Nos EUA, foi lançado num DVD pelado pela Warner, e felizmente está disponível em programas de troca de arquivos, para que os saudosistas possam relembrar este belo filme. Mas meu sonho de consumo até agora só foi lançado na Inglaterra: o “The Amicus Box Set“, do selo Anchor Bay, com 5 discos trazendo clássicos da produtora (infelizmente, não tem o Vozes do Além…), tudo numa embalagem em forma de caixão! Sabe quando isso vai chegar aqui? Aliás, precisa responder?

É óbvio que a produção envelheceu em vários aspectos (principalmente roupas e penteados, mas também efeitos especiais, como na cena da “decomposição” do corpo de Sir Martin, exibida através de cortes sobrepostos). Se não tivesse histórias suficientemente criativas e interessantes, poderia muito bem tornar-se uma obra esquecida e obscura como tantas outras daquele período. Felizmente, não foi o caso: Vozes do Além pode até ser obscuro para a nova geração, mas ainda sobrevive na memória dos que viram uma de suas reprises na TV brasileira. E o grande charme dessas coletâneas é conversar com outros fãs, em uma saborosa troca de ideias sobre qual a história que cada um mais gosta – fiz uma busca no Google e descobri que muita gente prefere a segunda e não gosta da quarta, que pessoalmente é a minha preferida.

Destaque também para a arrepiante trilha sonora composta por David Gamley (único trabalho para o cinema), que faz uma perfeita ligação entre os episódios. A música-tema, dos créditos iniciais, lembra a abertura de O Despertar da Besta, de José Mojica Marins, e provoca arrepios ao misturar música com gritos desesperados, ruídos assustadores e até o choro de um bebê. Serve para dar aquele “clima” todo especial, principalmente para quem está vendo o filme à noite. Brrrrrrr.

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Agora, há uma coisa que me incomodou na trama, embora não chegue a ser um defeito: a moral “religiosa” que o roteiro tenta pregar de forma discreta, mas presente. Sempre que as histórias terminam de maneira tenebrosa e o filme retorna para a loja de antiguidades, por exemplo, a cena começa com um close fechado num ostensório. Para quem não sabe, ostensório é aquele treco dourado onde os padres colocam a hóstia consagrada, representando o “corpo de Cristo“. A mensagem é clara: por pior que seja o fim dos clientes da loja, o “poder de Deus” é maior do que tudo, o que não deixa de ser irônico. Até porque, mais além, o próprio dono da loja chega a citar a clássica frase de Santo Agostinho (“O dinheiro é a raiz de todo mal.“) para justificar o fim violento dos clientes que tentam lhe passar a perna. Será que os fantasmas, assombrações e demônios são uma forma de “castigo divino” sobre os pecadores? E a única forma de escapar desta punição divina é ser bonzinho e honesto, como o escritor do quarto episódio? Neste aspecto, o dono da loja de antiguidades é Satanás ou um anjo mandando por Deus para punir quem viola um dos 10 Mandamentos, o “Não roubarás“? Você decide!

Carolices a parte, é bom lembrar que o plot de Vozes do Além gerou pelo menos outras duas obras de horror famosas. Uma é o livro “Needful Things“, de Stephen King, sobre outro macabro proprietário de loja de antiguidades que, com suas velharias, semeia a violência e o ódio em uma pequena cidadezinha (foi adaptado para o cinema com o nome Trocas Macabras em 1993). A outra é o seriado televisivo Sexta-Feira 13 – O Legado, que, apesar do nome, não tinha a participação do psicopata imortal Jason Voorhees, mas sim de dois irmãos que herdavam uma loja de antiguidades amaldiçoada e precisavam recuperar os artefatos vendidos antes que provocassem mal aos seus compradores. Cada episódio trazia um item que gerava uma história de horror diferente, e a série durou três temporadas, entre 1987 e 1990, sempre com um nível de qualidade entre bom e muito ruim.

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Quanto ao formato “historinhas de horror“, este volta-e-meia reaparece, embora nas duas últimas décadas tenha migrado do cinema para as séries de TV a cabo. Infelizmente, no caso dos filmes de episódios, o mais comum hoje é ver segmentos fracos, repetitivos e pouco inspirados, como os do decepcionante Trilogia do Terror (aquele dirigido por John Carpenter e Tobe Hooper) ou da recente tralha Creepshow 3 (feita pelos mesmos débeis mentais responsáveis por Dia dos Mortos 2 – O Contágio). Os filmes falham onde as produções da Amicus brilhavam: na criatividade das histórias, que não precisavam de muito sangue ou efeitos para atrair a atenção do espectador. Por isso, num universo carente de boas ideias e saturado de remakes, é sempre bom ver estas nostálgicas e criativas antologias de episódios de horror. Resta saber quando é que alguma distribuidora vai se animar a relançá-las em DVD por aqui.

Aliás, sugiro que algum cineasta brasileiro aproveite este gancho e faça a sua própria coletânea de histórias de horror, baseada no drama dos fãs do gênero no país. Já tenho até ideias para alguns episódios: no primeiro, um internauta fica um mês baixando Cannibal Holocaust no Emule e no final, desesperado, descobre que é apenas um pornô turco de quinta categoria com nome falso; no segundo, um fã de horror gasta todo seu dinheiro com DVDs lançados pela Works e constata, apavorado, que Prelúdio para Matar tem problema de falta de legendas, Fome Animal está em versão cortada e os outros têm imagem de VHS ripado; no terceiro, e mais apavorante, um articulista do site Boca do Inferno faz um pacto com um site demoníaco, chamado CDPoint, e gasta todo seu salário comprando DVDs importados porque estes não existem no país; finalmente, na quarta e última, o leitor de um artigo sobre o filme Vozes do Além se desespera com a possibilidade de o filme jamais ser oficialmente lançado no país. Horripilante, não? E seria até engraçado se não fosse verdadeiro…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

5 comentários em “Vozes do Além (1973)

  • 23/04/2018 em 14:29
    Permalink

    Sr Felipe,
    Sua descrição de cada episodio do filme é realmente precisa
    e extremamente detalhada e com comentarios condizentes.
    Até agora estou tentando achar esse filme no YouTube sem
    conseguir. Com esse blog consegui pelo menos reavivar minha
    memoria com recordações desse originalissimo filme. Grato pela
    sua apresentação.

    Resposta
  • 19/07/2016 em 09:28
    Permalink

    Assisti esse filme no inicio dos anos 90 e nunca tinha esquecido e só pude saber detalhes dele apos ter acesso a internet muitos anos depois !

    Resposta
  • 18/12/2014 em 15:48
    Permalink

    É uma tristeza esse descaso com os fãs brasileiros, por isso que minha única alternativa é o torrent, fazer o quê?

    Resposta

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