Críticas

Dois Olhos Satânicos (1990)

Mortos e assombrações, vozes do além e sangue se unem para homenagear um dos escritores mais inspiradores da literatura universal!

Dois Olhos Satânicos (1990)

Dois Olhos Satânicos
Original:Due occhi diabolici / Two Evil Eyes
Ano:1990•País:Itália, EUA
Direção:Dario Argento, George A. Romero
Roteiro:Dario Argento, Franco Ferrini, George A. Romero, Peter Koper, Edgar Allan Poe
Produção:Achille Manzotti
Elenco:Adrienne Barbeau, Harvey Keitel, Ramy Zada, Bingo O'Malley, E.G. Marshall, John Amos, Sally Kirkland, Kim Hunter, Holter Graham, Martin Balsam, Jonathan Adams, Tom Atkins

Poe é o maior expoente da literatura de mistério e do macabro. Como grande representante do romantismo gótico americano, ele era hábil em traduzir pesadelos, tocar os meandros obscuros da inconsciência e da alma e transcrever os maiores medos do homem. Um artesão das palavras, o poeta, por vezes melancólico, evidenciava a amargura de uma vida inconsistente em personagens introspectivos e insanos, aterrorizados pelo fardo testemunhado ou até mesmo sentido. Rica fonte de inspiração para escritores vindouros como o contemporâneo Stephen King, ele teve vários de seus mini-textos e poesias adaptadas para o cinema, com variações criativas, desde 1910, na fase do silêncio cinematográfico, com O Escaravelho de Ouro (na França) e O Poço e o Pêndulo (na Itália), atravessando décadas na pele de grandes ícones do gênero.

Depois da experiência positiva com a trilogia dos mortos e a antologia Creepshow – Show de Horrores, George A.Romero, em fase inspirada, foi um dos “mestres do Terror” selecionados para a produção de um filme baseado em obras de Edgar Allan Poe. Era para ser uma produção única, organizada em pequenos segmentos, com os toques particulares de John Carpenter, Wes Craven, Dario Argento e Romero – todos em grande ascensão no gênero. Com a desistência dos dois primeiros, Argento e Romero iniciaram a pré-produção do que viria ser Dois Olhos Satânicos, a partir de dois segmentos de uma hora cada, transbordando Poe em cada frame, desde a abertura, na narração em formato documentário, com a apresentação da casa onde morou o escritor em seus últimos dias, em Baltimore, seu “escritório” e seu túmulo.

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A Verdade no Caso do Sr. Valdemar (The Facts in the Case of M. Valdemar, dezembro de 1845)

Um conto curto, com poucos personagens, mas carregado de melancolia e horror em estado puro. O narrador é um estudioso do magnestismo de Franz Anton Mesmer, um médico que utilizava sua técnica no século XVIII para curar pacientes – e trouxe os fundamentos do que viria a ser o hipnotismo. Ele recebe uma carta de seu amigo moribundo Ernest Valdemar, em estado terminal de phthisis (tuberculose), com uma previsão de falecimento em 24 horas. O narrador apresenta seu experimento, até então nunca realizado com alguém próximo da morte, e volta na noite seguinte para realizá-lo rapidamente, pois Valdemar teme que não tenha muito tempo.

O paciente é mesmerizado. Embora seu corpo não apresente batimentos cardíacos ou qualquer sinal vital, Valdemar continua se comunicando com uma voz preta proveniente de sua garganta fria e do tremular da língua. Com o passar do tempo, o sofrimento se cessa com os pedidos do morto-vivo para que seja despertado e possa morrer – fato que o conduz a uma massa podre de substância pútrida, provando que a técnica pode perdurar e ser indolente, mas não permite nada mais que a comunicação. “A Verdade no Caso do Sr. Valdemar” é um conto gore, descritivo, com muita influência do mesmerismo adotado pelo espiritualista Andrew Jackson Davis, uma das leituras de Poe, e, sobretudo, pela morte de Virgínia, esposa do escritor, vítima de tuberculose.

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Pela narrativa curta, em ambiente único, seria impossível traduzir para um média-metragem de uma hora de duração sem acrescentar cenas desnecessárias ou alongar em diálogos. Para isso, Romero incluiu em seu roteiro a esposa de Valdemar, Jessica (Adrienne Barbeau, que já havia trabalhado com Romero como a esposa chata do segmento “Encaixotado” de Creepshow – Show de Horrores, 1982), com a intenção de aplicar um golpe com seu amante, o médico Dr. Robert Hoffman (Ramy Zada, da antologia Depois da Meia-Noite, 1989), que tem especialidade em hipnotismo. Usando a técnica, eles aliviam a dor de Ernest Valdemar (Bingo O’Malley, de Super 8, 2011) e, ao mesmo tempo, passam a perna no advogado Steven Pike (E.G. Marshall, de 12 Homens e uma Sentença, 57). Devido a questões burocráticas, Jessica deve ser capaz de manter seu marido vivo por três semanas, para que o testamento tenha validade e ela possa herdar sua fortuna, estimada em mais de três milhões.

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Numa das hipnoses, Valdemar morre, antes do prazo determinado. Jessica e Robert levam seu corpo ao porão para escondê-lo num freezer até o restante do período combinado, mas o cadáver continua se comunicando com eles, como se a consciência permanecesse viva depois da morte. No Além, ele diz que está num lugar escuro e frio, enxergando luzes distantes e que há “outros” com ele, querendo utilizá-lo como uma passagem para o mundo dos vivos.

Apesar da extensa liberdade criativa, a história se mantém como um interessante exemplar de vingança sobrenatural, com toques de mistério e pessimismo. Romero parece à vontade ao trazer mortos à vida com bons efeitos de Tom Savini, porém a sequência em que Valdemar conta o erro do médico ao despertá-lo acaba por soar ainda mais inverossímil que o conteúdo, além de parecer um diálogo bobo, estereotipado. Destaque para a participação de Tom Atkins, mais uma vez como detetive.

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O Gato Preto (The Black Cat, agosto de 1843)

Ao lado do poema O Corvo, O Gato Preto é um dos textos mais conhecidos de Edgar Allan Poe, além de ter inúmeras adaptações e versões cinematográficas. No texto, o narrador deixa evidente seu carinho pelos animais, tendo vários exemplares em casa, incluindo um gato preto chamado Pluto. Por anos a relação entre os dois, e a convivência com a esposa, foi muito boa, mas tudo se finda quando ele se envolve com bebidas alcóolicas. Certa noite, tomado pela bebedeira e acreditando que o gato o está evitando, ele fere um dos olhos do animal com uma faca, encerrando a amizade entre eles e iniciando sua obsessão doentia.

A simples presença do gato passa a despertar no narrador seu lado mais perverso, ao ponto que, num momento de insanidade, ele o enforca numa árvore. Após um breve incêndio em sua casa, o animal aparece gigante e enforcado numa marca de impressão causada pelo fogo. Obcecado pelo felino, o narrador resolve recolher numa taverna um animal idêntico, com um olho varado e de mesmo tamanho – a única exceção é uma mancha branca no peito, algo depois identificado como a marca da forca. Depois de tropeçar no animal na adega da nova casa, o narrador, num impulso, tenta matá-lo com um machado mas é impedido pela esposa, que acaba vítima do marido.

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Ele a empareda no local para esconder seu corpo. O plano parece dar certo, até o dia em que a polícia vai à adega e escuta um som estranho proveniente da parede. Ao arrebentá-la, os policiais encontram o gato e a esposa emparedados para surpresa do narrador. “Eu havia emparedado o monstro dentro do túmulo” são as palavras que encerram um dos momentos mais perturbadores da literatura clássica.

A primeira adaptação cinematográfica foi feita em 1934 com Boris Karloff e Bela Lugosi. Este último voltaria a encarar o felino com Basil Rathbone em 1941 sob a direção de Albert S. Rogell. Depois seria a vez dos astros Vincent Price e Peter Lorre, em 1962, na antologia Muralhas do Pavor, de Roger Corman, enfrentarem o bichano demoníaco. Posteriormente o conto teria uma versão italiana em 1972 quando Sergio Martino comandaria o gato Satã em Il tuo vizio è una stanza chiusa e solo io ne ho la chiave, lançado por aqui como No Quarto Escuro de Satã, numa pincelada à obra original.

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Em seu segmento, Argento homenageia diversos textos de Edgar Allan Poe, permitindo que o espectador se interesse em conhecer mais sobre a sua obra genial. O experiente Harvey Keitel interpreta Roderick Usher (referência ao conto A Queda da Casa de Usher), um fotógrafo criminal experiente, que tem a intenção de publicar um livro de imagens. Na cena de abertura, ao cobrir o assassinato de uma mulher, fatiada por um pêndulo (referência ao conto O Poço e o Pêndulo), o protagonista já demonstra uma certa frieza ao lidar com corpos decompostos. Ele vive com a mulher Annabel (referência ao poema Annabel Lee), que acaba de adotar um gato como companheiro de suas aulas de violino. Sem nome o bichano não nutre simpatia por Usher, arranhando-o logo no primeiro contato – algo que o incomoda por notar um carinho especial da esposa pela criatura. Annabel chega a trair Usher com um dos alunos, já tendenciando o protagonista ao desfecho trágico.

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Usher aproveita um momento sem a esposa e faz uma sessão de fotos torturadora com o gato, usando o trabalho para seu livro. Para desespero de Annabel, o animal desaparece da residência, e a publicação do marido a faz acreditar que ele o assassinou. Em outro dia como fotógrafo, Usher registra o cadáver de uma mulher, encontrado no cemitério sem os dentes (referência ao conto Berenice), e a prisão de um suspeito – Tom Savini vestido como Edgar Allan Poe. Assim como no conto, Usher encontra um gato parecido num bar, sob o comando da misteriosa Eleonora (referência ao conto de mesmo nome) – uma citação forçada, aliás, já que a atriz Sally Kirkland (Todo Poderoso, 2003) se anuncia de modo extremamente artificial.

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Levar o animal para casa coincide com as intenções de fuga de Annabel, o que ocasionará um conflito sangrento ao estilo Dario Argento de fazer cinema em sua fase áurea. O cineasta italiano altera elementos essenciais do conto e acrescenta momentos intensos na sequência final, com mais cadáveres e uma sintonia com um momento chave do texto de Poe. Apesar da violência gráfica, o que mais chama a atenção é a atuação crua de Harvey Keitel, já antecipando seu estilo falastrão de Cães de Aluguel.

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Com boa direção e elementos depressivos, O Gato Preto fecha com grande estilo a antologia, deixando o espectador ansioso por uma continuação, com outras referências como a do vizinho denominado Sr.Pym, cuja esposa é interpretada por Kim Hunter (a Zira da franquia Planeta dos Macacos), dialogando com o texto O Relato de Arthur Gordon Pym. Infelizmente, tanto Argento quanto Romero não fariam mais homenagens ao escritor, algo que coincide com uma queda de produção de ambos no início do novo milênio.

Lançado em VHS no Brasil como Dois Olhos Satânicos, pela Look Video, o filme saiu em DVD simples pela Paragon Multimedia, que é a própria famigerada Continental, com breves biografias, galeria de pôsteres e trailer. A qualidade da imagem está um pouco escura, mas nada que impeça de acompanhar o seu conteúdo, principalmente para os novos fãs do gênero, que não puderam testemunhá-lo na época do VHS.

Dois Olhos Satânicos traz Poe em sua essência, refletido na boa criação de Romero e Argento. Mortos e assombrações, vozes do além e sangue em profusão se unem para homenagear um dos escritores mais inspiradores da literatura universal. Uma antologia que faria Poe se sentir orgulhoso “destas saudades imortais“.

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2 Comentários

  1. Danilo de Freitas

    Tem uma sequência chave em que aparece um vhs de The Seachers. Acho que uma referência intencional rs

  2. entre uma cagibrina e outra,Poe iria apreciar esse filme!!

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