Críticas

Encarnação do Demônio (2008)

Zé do Caixão ataca no século 21 e ensina a nova geração a fazer terror!

Encarnação do Demônio (2008)

Encarnação do Demônio
Original:Encarnação do Demônio
Ano:2008•País:Brasil
Direção:José Mojica Marins
Roteiro:José Mojica Marins, Dennison Ramalho
Produção:Caio Gullane, Fabiano Gullane, Débora Ivanov, Paulo Sacramento
Elenco:José Mojica Marins, Jece Valadão, Adriano Stuart, Milhem Cortaz, Rui Resende, José Celso Martinez Corrêa, Cristina Aché, Helena Ignez, Débora Muniz, Thaís Simi, Cleo de Paris, Nara Sakarê

Em 1966, no final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, o jovem Zé do Caixão, interpretado pelo diretor José Mojica Marins, afundava num pântano, cercado pelos esqueletos de suas inúmeras vítimas, enquanto, da margem, a população da vila que ele aterrorizou acompanhava a cena. Entre eles, havia um padre. Originalmente, como a cena estava descrita no roteiro de Marins, o vilanesco Zé, ateu confesso, afundaria para a morte gritando, num último suspiro: “Eu não acredito em Deus!”, fazendo chacota do padre que insistia em clamar para que ele se arrependesse e encomendasse a alma aos céus. Tudo muito lindo e maravilhoso, se não fosse pela censura então vigente no Brasil. Além de “sugerir” (leia-se impor) vários cortes nas cenas de nudez e violência da película, os censores obrigaram Mojica a redublar a fala final do Zé do Caixão, que, mesmo ateu confesso, na versão censurada teve que afundar para a morte gritando: “Sim, Deus é a verdade! Padre, a cruz! O símbolo do filho!”. E Mojica, indignado, nada pôde fazer: era prostituir seu personagem, ou correr o risco de nunca ver o filme lançado nos cinemas – e assim não poder recuperar o dinheiro investido na produção.

Demorou 42 anos, mas esta injustiça histórica finalmente foi corrigida. E em alto estilo.

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Encarnação do Demônio, que estreou nos cinemas brasileiros numa data cabalística (08/08/08), é o primeiro filme “oficial” do Zé do Caixão desde 1966. Tudo bem, Zé do Caixão apareceu em outras produções posteriormente, como O Despertar da Besta e Exorcismo Negro, mas sempre apresentado como uma entidade sobrenatural, e não como o mesmo personagem “humano” da série original, que foi iniciada com o clássico À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e continuou em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. A nova obra fecha com chave de ouro a trilogia. E, sim, valeu a pena esperar.

Este também é o primeiro filme dirigido por Mojica a chegar aos cinemas desde 1987, quando ele lançou, hã… o pornô vagabundo 48 Horas de Sexo Alucinante – onde, entre outras bizarrias, uma mulher entra numa vaca mecânica na tentativa de transar com um touro!!! O próprio cineasta chegou a pensar que o projeto do terceiro e último (???) filme do Zé do Caixão estava amaldiçoado. A primeira versão do roteiro de Encarnação do Demônio foi parcialmente escrita por ele ainda em 1966. Mas, até que finalmente saísse do papel, o filme passou por uma odisseia de azar – mudanças e mortes – que poderia muito bem se transformar num argumento para a próxima produção de Mojica. Só para resumir a história, a película demorou 42 anos para chegar aos cinemas devido à dificuldades de obter grana para fazê-la, à censura e… à morte de pelo menos três produtores que tentaram bancá-la!!!

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Não vou ficar gastando palavras e nem o tempo do leitor falando sobre a importância de José Mojica Marins para o cinema – não só de horror, mas cinema brasileiro em geral. Alguns desavisados costumam taxá-lo de trash, depois que o pobre Mojica ficou marcado como apresentador de filmes ruins no Cine Trash, da Bandeirantes. Este programa deu uma espécie de “upgrade” na carreira então adormecida do cineasta, mas também associou-o, injustamente, aos filmes ruins ou mal-feitos. O fato é que Mojica não tem nada de trash, e muito menos este seu último filme, que é uma produção de primeira linha com grande orçamento. José Mojica Marins é um gênio, e pronto! Quem quiser saber mais, pode ler os artigos que já escreveram sobre sua carreira aqui no Boca do Inferno, ou o livro “Maldito”, de André Barcinski e Ivan Finotti, que eu já li e reli umas cinqüenta vezes – é uma verdadeira bíblia para quem pretende fazer cinema independente e sem recursos.

Claro que pode parecer esquisito que uma trilogia iniciada há mais de 40 anos seja encerrada somente agora. Principalmente porque o Brasil, e o mundo, mudaram muito nestas quatro décadas. Se nos anos 60 Mojica era uma celebridade, e seus filmes faturavam horrores principalmente entre o povão, sendo exibidos em poeirentos cinemas de rua, como será que o Zé do Caixão seria recebido agora, na era da internet e da troca de filmes pela rede, dos cinemas de shopping center com ingresso a mais de 15 reais, um mundo em que Mojica passou de celebridade a curiosidade? Mais esquisito ainda é ver um filme do Zé do Caixão, antigamente sinônimo de produção barata e filmagem improvisada (mas não trash, volto a ressaltar), finalmente sendo apresentado com uma produção de alto nível, onde a qualidade de tudo (elenco, direção, roteiro, fotografia, trilha sonora, edição, efeitos especiais, cenários…) salta aos olhos. E é REALMENTE ESQUISITO ver um filme do Zé do Caixão antecedido pela fanfarra típica da 20th Century Fox!

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Esquisitices à parte, Encarnação do Demônio é um filmaço. Não apenas um filmaço, mas o filme nacional “mais macho” desde O Despertar da Besta, que o próprio Mojica dirigiu em 1969, e que, por motivos óbvios (entre eles, cenas reais de pessoas enfiando agulhas de seringa na pele), ficou proibido pela censura até 1983. Quando escreveu sobre O Despertar da Besta, o também cineasta Carlos Reichenbach usou termos que também podem ser aproveitados para descrever Encarnação do Demônio: “Filme macho, pagão, desavergonhado“. É fato: este é o filme que vai fazer a geração Jogos Mortais mijar nas calças, correr para se esconder debaixo da saia da mamãe e dormir de luz acesa por uma semana. E é brasileiro. Que orgulho, hein?

Violento, sádico e extremamente gráfico, sem poupar o espectador de mutilações explícitas, o trabalho de Mojica transforma celebrados diretores de horror da atualidade, como Eli Roth, Rob Zombie e Alexandre Aja, em inofensivos cordeirinhos que podiam estar dirigindo filmes-família para os Estúdios Disney. Os sádicos de Hostel teriam muito que aprender com a crueldade das torturas do Zé do Caixão. A família Firefly, de Rejeitados pelo Diabo, parece um bando de anjinhos perto da fúria do mestre do horror nacional. E até os mutantes canibais de Viagem Maldita se sentirão nauseados com as cenas de canibalismo vistas no purgatório do Zé do Caixão, incluindo um pênis arrancado a dentadas que provavelmente é a castração mais escabrosa já mostrada pelo cinema de horror em qualquer época!

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Embora faça parte de uma trilogia, não é necessário ter visto À Meia-Noite Levarei Sua Alma e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver para entender o que acontece em Encarnação do Demônio, já que o roteiro de Dennison Ramalho (diretor do obrigatório curta-metragem Amor Só de Mãe) preocupa-se em ser bastante didático, resgatando fatos e personagens dos filmes anteriores. Mas ajuda, claro, ter visto os dois primeiros. Até porque são duas obras-primas recomendadíssimas, muito a frente do seu tempo, já disponíveis em DVD no país.

Encarnação do Demônio já começa furioso, acelerado e mostrando que, tecnicamente, é superior a todos os velhos filmes do diretor. Num típico presídio de terceiro mundo, sujo e escuro, o diretor da cadeia (interpretado por Luís Melo, impagável) desce do seu escritório até uma ala afastada, num longo plano-sequência, vociferando ao telefone celular, empilhando insultos, porque acabou de receber a ordem para libertar de uma cela de segurança máxima seu prisioneiro mais famoso e perigoso, o agente funerário Josefel Zanatas, vulgo Zé do Caixão. O homem está encarcerado há 40 anos, condenado pelos crimes mostrados nos filmes anteriores. E o célebre personagem entra em cena aos poucos: primeiro vemos apenas suas longas unhas (hoje são próteses, e não reais, como no passado) através da abertura na porta da cela; depois seu rosto barbudo e envelhecido. “Josefel, nós viemos em paz!“, apressa-se em declarar o diretor, que, borrando-se de medo, está rodeado de enormes policiais. De dentro de sua cela escura, Zé faz chacota, cínico como é de seu feitio: “Seu Sistema me prendeu, e agora o mesmo Sistema está me libertando. E você não pode fazer nada!”.

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Só um parêntese: a história do criminoso doente mental “libertado pelo Sistema” e que não consegue se adaptar ao mundo contemporâneo após décadas de prisão parece livremente baseada num episódio verídico acontecido no Brasil, o do Bandido da Luz Vermelha. Preso em 1967, acusado por quatro assassinatos, sete tentativas de homicídio e 77 assaltos, João Acácio Pereira da Costa, vulgo Bandido da Luz Vermelha, foi condenado a 351 anos, 9 meses e três dias de prisão. Mas, encerrados os 30 anos previstos por lei, foi libertado em 1997 e ficou completamente perdido do outro lado das grades. Em apenas quatro meses, ele foi assassinado por um homem que alegou legítima defesa. Mas vamos adiante…

Através de um longo flashback, descobrimos o que aconteceu com Zé após o famigerado final censurado de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Numa reconstituição fantástica em preto-e-branco do pântano onde aquele filme terminava (até a iluminação da cena parece idêntica à do filme de 1966!), um jovem Zé do Caixão (interpretado pelo norte-americano Raymond Castille, que é a cara do Mojica dos anos 60) emerge do pântano onde havia afundado e corrige aquela ridícula frase imposta pela censura 40 anos atrás. Furioso, ainda utiliza suas longas unhas para furar um dos olhos do jovem policial que assistia à cena, chamado Claudiomiro Pontes (Fausto Maule). Ele então é finalmente preso e deixado para apodrecer na cadeia. Mas, neste longo período em que ficou encarcerado, conseguiu a façanha de matar mais 30 pessoas atrás das grades, tornando-se temido e respeitado até pelos policiais!

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De volta ao presente, o espectador testemunha o agora libertado Zé do Caixão encontrando seu velho companheiro, o corcunda Bruno (que em Esta Noite… foi interpretado por Nivaldo Lima, mas aqui é revivido por Rui Rezende). Logo que pisa fora do presídio, o agente funerário homicida parcebe que tudo mudou: acostumado à pequena vila rural onde vivia nos dois filmes anteriores, ele parece perdido e deslocado no centrão de São Paulo. Não deixa de ser curioso ver um Zé do Caixão de capa, cartola e longas unhas desfilando pelas ruas movimentadas da metrópole, entre carros, marginais, prostitutas e crianças usando drogas na calçada, quase como um freak caído do caminhão de algum circo mambembe.

Bruno leva Zé ao seu novo esconderijo: o barraco de uma favela, bem perto de um matagal. Ali, ele é apresentado a um novo séquito de seguidores, todos jovens moderninhos, tatuados e cobertos de piercings. Mesmo envelhecido, o vilão não desistiu da sua busca pela mulher perfeita, busca esta que tantos crimes gerou nos filmes anteriores. Seu objetivo continua sendo dar continuidade ao seu “sangue superior” através do nascimento de um filho.

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Só que os tempos mudaram, e este é o toque mais interessante da “modernização” proposta pelo roteiro de Dennison e Mojica: se antes Zé era um personagem ameaçador vivendo numa pequena vila do interior nos anos 60, onde podia mandar e desmandar no povo, agora ele mais parece uma ameaça menor num Brasil violento e principalmente numa favela, onde as mortes sangrentas já fazem parte do cotidiano. Ironicamente, diante da brutalidade da polícia – que entra na favela executando pivetes a tiros -, Zé parece um velho gagá e ultrapassado que não pode fazer mal a ninguém. Ênfase no “parece”.

É lógico que Zé do Caixão continua o mesmo, ou ainda mais furioso do que no passado. Primeiro ele compra briga com os marginais da favela, deixando bem claro que quem manda lá é ele. Depois, manda uma mensagem à polícia ao ferir no pescoço o capitão Oswaldo Pontes (interpretado por Adriano Stuart, que já havia trabalhado com Mojica em Exorcismo Negro). Finalmente, Zé reassume seu posto de “ser superior” ao deixar toda a comunidade da favela aos seus pés. Supersticiosos, os moradores temem o velho agente funerário como se ele fosse um verdadeiro demônio. Nesse momento, respeitado e temido por todos, o vilão 100% nacional volta a caçar sua mulher perfeita, sequestrando belas donzelas das redondezas para torturar e/ou matar, conforme demonstrem (ou não) que são fortes para poderem gerar o tão sonhado filho do vilão.

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Só que a coisa não será tão fácil agora quanto foi nos tempos de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Se no passado o vilão não tinha antagonistas – o coronel Almendes (Roque Rodrigues), de Esta Noite…, não era uma ameaça à altura do vilão -, nesta versão século 21 ele tem rivais perigosos, e em dose tripla. O principal é a própria Polícia Militar carioca. “Tropa de Elite versus Zé do Caixão“? É mais ou menos por aí. O capitão Oswaldo, aquele ferido por Zé no início do filme, vem a ser irmão do agora coronel Claudiomiro Pontes (interpretado por Jece Valadão, em seu último papel no cinema), aquele policial que o agente funerário cegou ao sair do pântano 40 anos antes. Fervorosamente religioso e devoto de Santo Expedito, Claudiomiro tem motivos de sobra para querer o couro do agente funerário.

Para engrossar o caldo, tem mais gente querendo a cabeça do Zé além dos irmãos Pontes: o padre Eugênio (o ótimo Milhem Cortaz, o sargento Fábio de Tropa de Elite, aqui em interpretação caricatural). Ele é um adepto da auto-flagelação (ao estilo Silas, do livro O Código Da Vinci) e também filho do dr. Rodolfo, o médico que teve os olhos furados por Zé e foi queimado vivo em À Meia-Noite Levarei Sua Alma (na época, interpretado por Ilídio Simões Martins). E assim dois poderes constituídos (a Lei e a Igreja) partem numa santa cruzada em busca de justiça com as próprias mãos: os Pontes querem matar Zé, e o padre Eugênio pretende condenar sua alma aos tormentos do inferno! Sentiu o clima?

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Para ser curto e grosso, Encarnação do Demônio é tudo aquilo que os fãs de Mojica vêm sonhando desde que ele parou de fazer filmes com o personagem, ainda nos anos 70. Como todos sabem, ele depois acabaria transformando Zé do Caixão em piada, por causa de suas participações em parques de diversões, eventos de quinta categoria e no próprio Cine Trash – coisas que foi obrigado a fazer em tempos de vacas magras, para não morrer de fome. Felizmente, este novo filme resgata o vilão assustador e violento lá dos anos 60-70. E não poderia ter vindo em melhor hora: o mercado internacional do gênero está tão saturado, com remakes, continuações e cópias dos fantasminhas orientais, que o Zé do Caixão surge como um tsunami de criatividade num mar de bobagens.

Uma das minhas grandes dúvidas em relação ao filme, desde que surgiram os boatos de que a produção realmente havia engrenado, era se o “novo Zé do Caixão funcionaria, especialmente para as novas gerações, que não estão acostumadas com as produções antigas do personagem e costumam rir da maneira tosca e improvisada com que Mojica trabalhava (tipo passar purpurina na película para criar fantasmas). Confesso que, no começo, realmente é meio estranho ver o velho Zé do Caixão perambulando em cena, pela primeira vez falando com a própria voz do criador Mojica (nos filmes anteriores ele era dublado), mas sem os erros de português. Sim, o personagem parece meio deslocado nos tempos modernos. Mas, novamente, ênfase no “parece”. Não demora muito para ambos, Mojica e Zé, demonstrarem que ainda têm muito pique para emocionar não só os velhos fãs, mas também uma nova legião de adeptos, esta garotada que acha o remake de O Massacre da Serra Elétrica a oitava maravilha da humanidade.

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Muitos incrédulos (ou hereges) podem até continuar duvidando do impacto que Encarnação do Demônio terá no público. Afinal, comer carne na Sexta-feira Santa não assusta mais ninguém, as cenas sangrentas improvisadas dos seus primeiros filmes já foram há muito ultrapassadas pela nova moda do “torture porn“, e cobras e aranhas reais atiradas sobre as atrizes não surpreendem em tempos de bichos feitos em CGI. Tendo isso em mente, Mojica e o roteirista Dennison chutam o pau da barraca, criando algumas das cenas mais fortes vistas na telona nos últimos tempos. Parece até que se Mojica está se vingando da censura (que mutilava seus filmes nos anos 60-70) e do longo período que ficou sem filmar.

Ainda duvida? Bem, que tal ver uma nádega sendo cortada à faca on-screen? Não, a câmera não vai desviar na hora H para dar um alívio no espectador, como acontece nos filmes norte-americanos. A cena realmente mostra a nádega sendo fatiada e arrancada – e, pior, sendo devorada pela sua própria “dona“! Também há cenas chocantes pelo seu realismo, como um homem suspenso por ganchos atravessados nas costas e uma garota cuja boca é costurada com agulha e linha, tudo on-screen e mostrado em close. Nestes dois casos, o “realismo” é pura realidade mesmo: o sujeito realmente foi suspenso com ganchos nas costas (o artista Freak Garcia já fez isso mais de 20 vezes “profissionalmente“), e a garota realmente teve a boca costurada (Milze Kobashigawa é artista performática e encarou agulha e linha sem anestesia!). Pior sorte teve a pobre atriz Janette Tomiita: num dos melhores momentos da película, ela foi costurada, nua, dentro da carcaça de um enorme leitão!!! Muita gente vai se arrepiar…

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E tem mais: quem achava que Mojica iria arregar com a idade vai se espantar ao ver que ele continua usando bichos reais (e vivos) em cenas pra lá de nojentas. Há aranhas peludas, milhares de nojentas baratas (pobre da atriz e esposa do Mojica, Edileine Silva, rebatizada Leny Dark, que tem o rosto enfiado num tonel repleto das bichinhas) e até uma ratazana assanhada enfiada em certo orifício da anatomia feminina (coisa que a censura iria adorar cortar há algumas décadas). Sabe aqueles avisos sensacionalistas nas capinhas dos filmes, dizendo que não devem ser vistos por cardíacos ou mulheres grávidas? Bem, no caso de Encarnação do Demônio, este aviso seria plenamente justificável.

Mas não se trata apenas da violência explícita e gratuita. Sim, Encarnação do Demônio é sangrento e violentíssimo. Entretanto, num universo de Jasons e Leatherfaces, o filme ao menos tem um personagem forte e coerente, que fala e discursa expondo suas ideias e convicções (um tanto deturpadas, mas ainda assim ele tem sua filosofia, diferente do Freddy Krueger, por exemplo). Também tem ótimas ideias e cenas belíssimas, muitas destinadas a se tornarem antológicas, como Zé transando com uma garota (Nara Sakarê) num terreiro de macumba, debaixo de dois cadáveres enforcados que começam a pingar sangue. Os pingos se transformam numa chuva e num literal banho de sangue (esqueça Hostel 2), semelhante a uma cena do já clássico Coração Satânico, de Alan Parker.

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Utilizando um recurso dramático muito semelhante a Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, Dennison também envia o personagem ao purgatório durante o delírio provocado por uma mistura alucinógena (no filme anterior, Zé tinha sonhado que ia para o inferno). Se antigamente o “inferno” era uma estrutura pobretona de isopor construída dentro de um sinagoga do Brás, agora o purgatório é representado como um túnel de carne humana e um deserto desolado onde os “pecadores” são punidos das formas mais sangrentas. Ali, Zé tem um encontro com o Mistificador (José Celso Martinez Corrêa, um dos mais importantes diretores de teatro do país) e com a própria Morte (Geanine Marques).

Curiosamente, esta visita do personagem é um dos poucos detalhes do primeiro roteiro de Encarnação do Demônio aproveitados por Dennison na nova versão. Lá atrás, nos anos 60, Mojica tinha imaginado o purgatório como a viagem de um Zé do Caixão chapado de LSD, que entrava pela privada e ia parar dentro do corpo humano! O “novo” purgatório foi filmado numa desolada pedreira em Itaquaquecetuba, onde pessoas crucificadas contrastam com condenados devorando carne podre e coberta de vermes ou praticando canibalismo. Tudo mostrado com um festival de filtros e cores (predominância do vermelho) que daria inveja ao Dario Argento e ao Mario Bava.

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Mantendo a postura dos filmes antigos do personagem, a história é levada absolutamente a sério, sem lances de humor para quebrar o clima tétrico e pesado da narrativa, embora alguns dos diálogos entre os policiais sejam impagáveis, como o personagem de Jece orientando seus comandados: “Vamos nos separar para procurar este puto! Quem encontrar primeiro grita: ‘Ó o puto aqui!’“. hahahaha. O roteiro de Dennison também é mais redondinho e menos fragmentado que a maioria dos filmes feitos por Mojica nos anos 70, como O Despertar da Besta e Delírios de um Anormal, que não passavam de sequências de bizarras cenas de alucinação e horror, quase sem história para costurá-las. Ou seja: será mais fácil para o espectador não acostumado às loucuras de Mojica acompanhar este novo filme do que ver os antigos.

Finalmente, chegamos às qualidades técnicas de Encarnação do Demônio. Quem chamar o filme de trash (pior que alguns já o fizeram…), merece ser suspenso por ganchos e receber um tridente lá naquele lugar (ou mais de um, dependendo da satisfação pessoal do torturado). Mojica trabalha aqui com o maior orçamento da sua carreira – cerca de 1,8 milhão de reais. Com este dinheiro, ele provavelmente faria uns 6 filmes ao seu estilo, nos velhos tempos. Mas não com um time respeitado e de primeira linha nos bastidores, como acontece agora.

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O roteirista Dennison também é diretor assistente, e muito do que há no filme é sugestão dele. O montador é Paulo Sacramento, que produziu e editou Amarelo Manga. Paulo também produziu o filme, ao lado de Caio e Fabiano Gullane (nas coletivas com a imprensa, Mojica brincou dizendo que eram muitos produtores para morrer, e desta vez ele não ficaria na mão). A belíssima fotografia (méritos, novamente, para a recriação do final de Esta Noite…) é de José Roberto “Zé Bob” Eliezer (de O Cheiro do Ralo). André Abujamra compôs a trilha sonora junto com Marcio Nigro, e até o renomado estilista Alexandre Herchcovitch está presente, colocando seu nome de grife em alguns dos figurinos. Já os sangrentos efeitos especiais, muito eficientes e repelentes em tempos de computação gráfica, são de André Kapel. O site oficial do filme informa que foram utilizados mais de 3.800 litros de sangue falso nas filmagens. Para comparar, Hostel, de Eli Roth, usou cerca de 200 litros!

Um detalhe bastante interessante é o uso de crendices tipicamente nacionais para tentar amedrontar o povão mais supersticioso. Em um momento, por exemplo, aparece em cena o temido Livro Preto de São Cipriano, considerado demoníaco por 99% dos brasileiros (uma amiga da minha namorada faz o sinal-da-cruz à simples menção do nome de tal publicação). Mojica ainda filma um ritual de candomblé em seus detalhes mais assustadores. E uma das mulheres cobiçadas por Zé, Helena (Nara Sakarê), é aprendiz de feiticeira das tias Lucrécia e Cabíria, duas bruxas interpretadas por Helena Ignez (musa do cinema marginal, que foi esposa de Glauber Rocha e de Rogério Sganzerla) e Débora Muniz (musa das pornochanchadas nacionais, que já havia trabalhado com Mojica em Perversão). A personagem de Helena Ignez é cega, e a cada close dos seus olhos vazados eu me lembrava do diretor italiano Lucio Fulci

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Também é preciso ressaltar a quantidade de belas mulheres (e de belas mulheres nuas). O cinema nacional anda tão casto, talvez com uma vergonha hipócrita da época das produções da Boca do Lixo, que é ótimo ver uma produção brasileira com coragem para pelar seu elenco feminino. Neste caso, tem até nudez frontal, para que ninguém tenha saudade das moças de baby-doll e peitos de fora vistas nos outros filmes de Mojica.

Se há um grande defeito em Encarnação do Demônio, este é justamente a quantidade de personagens. É tanta mulher e inimigos do Zé do Caixão que, às vezes, alguns ficam perdidos na trama, esquecidos, e só reaparecem no final. Numa cena, por exemplo, Zé aprisiona quatro policiais. Assume-se que todos morreram. Mas, perto do final, descobrimos que duas das policiais (duas moças) ainda são prisioneiras do vilão. A primeira “mulher superior” sequestrada por Zé (uma bioquímica chamada dra. Hilda, e interpretada por Cléo De Páris) e uma garota que se oferece voluntariamente para gerar o filho do agente funerário (Maira, interpretada por Thaís Simi) também somem da narrativa e só voltam no final. Num problema que faz lembrar os filmes do Batman, há muitos antagonistas para o personagem principal (os irmãos policiais e o padre), o que não permite um melhor desenvolvimento de cada um deles e de suas motivações.

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Neste aspecto, pelo menos, há uma explicação lógica. Jece Valadão e seu coronel Claudiomiro seria o grande perseguidor de Zé do Caixão na primeira versão do roteiro, assessorado pelo padre Eugênio. Mas a morte do ator, em 27 de novembro de 2006, antes de concluir a filmagem de todas as suas cenas, jogou um balde de água fria em todos os envolvidos. Óbvio que resolveram manter as cenas do falecido no filme, mas seria preciso achar uma forma para costurar a trama. O pepino sobrou para o roteirista Dennison, que precisou inventar o irmão de Claudiomiro para consertar tudo. Com a soberba edição de Sacramento, o espectador desavisado nem vai perceber que o capitão Oswaldo só está no filme para tapar buraco. O fato do falecido Valadão e de Adriano Stuart nunca terem se encontrado no set, mas de dividirem várias cenas, só torna ainda mais perfeita a edição do longa.

O único momento em que fica evidente que Jece não está mais ali é o destino de seu personagem, abrupto e anti-climático (e, claro, utilizando um dublê de costas). Também por causa da morte do ator, toda uma subtrama envolvendo a antiga relação amorosa da esposa do coronel, Lucy, com Zé do Caixão teve que ser cortada. A personagem continua no filme, mas aparece bem menos. É interpretada por outra das celebridades do elenco: Cristina Aché, que no passado arrasava corações em filmes como Os Sete Gatinhos e Contos Eróticos.

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Mas não dá para querer achar defeitos no roteiro de Encarnação do Demônio sem citar uma de suas melhores ideias: a quantidade de referências e citações aos dois filmes anteriores, forma criativa de mergulhar no universo do Zé do Caixão aqueles que não conhecem tão bem o personagem. Em determinado ponto da trama, o envelhecido vilão começa a sofrer conflitos internos, manifestados na forma de assombrações que representam suas vítimas do passado. Estas vítimas (que, obviamente, não são representadas pelos mesmos atores dos outros filmes) surgem como fantasmas em preto-e-branco, que se destacam naturalmente nas cenas coloridas.

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É muito legal ver Zé diante do fantasma enforcado de Terezinha (interpretada por Magda Mei em À Meia-Noite Levarei Sua Alma), ou da aparição de sua esposa Lenita (que em À Meia-Noite… era personificada por Valéria Vasquez), entre outros personagens conhecidos que fazem participações especiais como assombrações. O falecido dr. Rodolfo surge na foto de um porta-retrato sobre a mesa do padre Eugênio. Em outro momento inspirado, o coronel Claudiomiro abre os arquivos sobre Josefel Zanatas, tirando recortes de jornal, fotos das vítimas dos dois filmes anteriores e até o certidão de óbito de Lenita Zanatas. O close dos olhos de Zé com as veias dilatadas também é uma recriação de cena famosa dos outros filmes, e há diálogos citando títulos das obras de Mojica, como na frase do padre Eugênio: “São delírios de um anormal!“. Uma prova de que a produção foi assinada por pessoas que têm afinidade e paixão pelo material original. Para arrematar, dois antigos colaboradores de Mojica, Mário Lima e Satã, aparecem em pontas como moradores da favela.

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O legal é que, como acontecia no passado, o retorno triunfal do Zé às telas já está gerando uma série de produtos que vem no embalo do filme, incluindo quadrinhos (uma paixão antiga do próprio Mojica). A editora Conrad mandou para as livrarias uma graphic-novel 100% nacional chamada “Prontuário 666 – Os Anos de Cárcere de Zé do Caixão“, desenhada por Samuel Casal a partir de roteiros de Adriana Brunstein e outros escritores não-creditados. Como o título já diz, o livro de 120 páginas dedica-se a contar o que aconteceu no período de 40 anos em que o agente funerário ficou preso, quando matou mais de 30 pessoas. Uma iniciativa bastante interessante, que permite complementar a narrativa do filme.

Me alonguei demais. A verdade é que ainda estou abobado com Encarnação do Demônio, e duvido que verei filme melhor – e mais forte – do que este bem-vindo retorno de Mojica ao gênero que o consagrou. Não é apenas um ótimo filme, mas principalmente uma forma de fazer justiça a um gênio injustiçado que deixaram 20 anos sem filmar, enquanto qualquer atorzinho da Globo sem experiência na área ganha 5 milhões de reais do governo para deixar o trabalho pela metade.

Encarnação do Demônio (2008) (2)

Vou tomar emprestadas novamente as palavras de Carlos Reichenbach em sua crítica de O Despertar da Besta: “O tarado me violentou. Não vou escrever mais. Assistam ao filme!“. Deixe o tarado violentar você também. Esqueça críticas imbecis e mal-informadas, que andam dizendo que Mojica se vendeu ao moderno “torture porn” (não sei como pode, se o homem já aparece torturando gente em filmes da década de 60!!!), e vá ver com seus próprios olhos esta sangrenta maravilha.

E sim, eu ainda estou curioso para saber se Encarnação do Demônio encontrará ou não o seu público. Independente disso, a crítica pelo menos ele já conquistou. O que é um grande feito, para não dizer “milagre“, considerando que todos os filmes do pobre Mojica eram injustamente malhados pela maioria dos críticos. Como uma espécie de “vão tomar no c*!” para estes críticos afetados que condenavam suas produções antigas, o homem já faturou sete prêmios numa das primeiras exibições não-oficiais de seu novo trabalho, no 1º Festival de Cinema de Paulínia, no interior de São Paulo, incluindo melhor filme e, acredite ou não, o prêmio de crítica! Destaques merecidíssimos, diga-se.

Encarnação do Demônio (2008)

No final da projeção de Encarnação do Demônio, pelo menos para mim, o que ficou é a frase de Zé do Caixão para um surpreso capitão Oswaldo: “Imagens não morrem, capitão!“. Verdade verdadeira. E aí está o Zé do Caixão, 30 anos depois de seu último longa-metragem (Delírios de um Anormal, de 1978), mostrando que ainda vai enterrar muita gente antes de descansar em paz…

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5 Comentários

  1. José Gomes

    Fala sério! Assisti toda a trilogia do Zé do Caixão, os dois primeiros são shows, mas esse terceiro acabou com tudo. Roteiro mal feito, algumas cenas desnecessárias, história inútil e sem cabimento em comparação com “à meia noite” e “Esta Noite”, muitos furos, diálogos toscos. José Mojica desperdiçou o orçamento generoso que teve. Tentou fazer uma grande produção de alto estilo. Mas acabou com o personagem. Respeito sua opinião, mas sinceramente esse foi o único da trilogia que foi uma GRANDE BOSTA!!!!!

  2. Excelente texto do Felipe M. Guerra, sempre abalizado e perspicaz na atenção aos detalhes; lendo-o, quase me enxerguei como um dos críticos dos anos 60 que rejeitaram a viagem dos filmes do Mojica (eu que fiz o review postado pelo colega acima)… mas disse “quase”, porque o filme subestima mesmo a inteligência do espectador: só pra ficar em um detalhe, a personagem da Nara Sakarê, que o enredo indica ela ter sido criada pelas tias feiticeiras em um ambiente de misticismo e que vemos incorporando uma pomba-gira, quando tá sozinha com o Zé dizer “nada pode afetar a mente daquele que em nada crê” é o fim da picada.

  3. MORCEGO

    Um filme excelente!
    O Retorno do Mestre do Terror Brasileiro!!!!!!!!!
    ZÉ DO CAIXÃO, o ícone máximo do terror volta com tudo em um filme arrepiante, sangrento e absolutamente brilhante!!!!!!

  4. Paulo

    HAHAHAH olha esse review, bem mais verdadeiro!! https://www.youtube.com/watch?v=VPkxL8ciY1U

  5. Paulo

    Desculpa, eu juro que tentei assistir isso…..mas não dá pra se levar a sério o zé do caixão, vamos combinar né?? A voz , o jeito de falar…..não dá!

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