O Fim da Picada (2009)

O Fim da Picada (2009)

O Fim da Picada
Original:O Fim da Picada
Ano:2009•País:Brasil
Direção:Christian Saghaard
Roteiro:Christian Saghaard
Produção:Christian Saghaard
Elenco:Ricardo De Vuono, Cláudia Juliana, Sandro Acrísio, Analú Silveira, Thais Pavão, Edu Guimarães, Ivan Cardoso, José Mojica Marins, Hermano Penna, Carlos Reichenbach

No dia 29 de janeiro de 2009, entrei num ônibus na rodoviária de Belo Horizonte às 5 da manhã. O destino, a 12ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Havia diversos curtas e longas na programação, mas um havia me chamado a atenção, tanto pelas críticas interessantes quanto pelas participações especiais de caras como Ivan Cardoso, Hermano Penna, Carlos Reichenbach, José Mojica Marins e outros. Tratava-se de O Fim da Picada, dirigido e roteirizado por Christian Saghaard e parcialmente baseado na peça Macário, de Álvares de Azevedo.

E lá estou eu, o saguão lotado, exausto de tanto andar pela cidade e de tanto ver filmes durante o dia inteiro, mas me mantendo firme para o longa. Monto guarda uma hora e meia antes da sessão começar, para não perder lugar, acompanhado apenas de minha mochila e a camiseta do site Boca do Inferno. O segurança parece pensar que eu sou traficante, e só de sacanagem eu fico sentado bem na frente dele.

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O tempo passa. Então, surge o diretor Saghaard, acompanhado do ator principal e a assistente de direção. Fico observando enquanto conversam na porta do cinema. Então, sem que eu perceba, uma fila enorme se forma atrás de mim, e tenho a honra de ser o primeiro a entrar na sessão. Nos sentamos nas poltronas. Algumas palavras do diretor, as luzes se apagam. Então, começa.

Os créditos surgem, já avisando que aquele não será um filme de fácil digestão. Os letreiros sacodem, como que acordando o espectador para aquilo que ele está prestes a ver. Então, numa praia deserta, o público presencia Macário (Ricardo de Vuono) numa sessão de satanismo, orgia e necrofilia barra pesada. Alguns espectadores vão embora já nesta cena. São os primeiros, mas não os últimos.

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O filme prossegue, seguindo a peça de Álvares de Azevedo. Macário vai à estalagem. A taverneira oferece couves. Ele manda levar para o burro. Surge o Diabo, ou no caso, o Exú-Lebara, representado como uma mulher negra nua que o chama para ir até São Paulo. Vão para o meio do mato, onde o Exu oferece um “bagulho” para Macário. A peça de Azevedo acaba, e começa o inferno à moda paulistana.

Não quero mais dar detalhes sobre o que acontece. Este é o filme que não nasceu para ser contado, nasceu para ser visto. Os delírios tupiniquins brotam na tela. Saci, Exu e Zé do Caixão dividem cenário com rodas de bar, Mickey Mouse e pessoas decapitadas correndo na esteira da academia. Tudo é inclassificável, assustador, pervertido e cotidiano. Não é filme de terror, mas aterroriza, como definiu um amigo que fiz na mostra. É a realidade do dia a dia, mais surreal nas ações, mas não nas ideias. A São Paulo do filme é a melhor representação do inferno que é passar os dias numa metrópole, e todos os seus personagens são as figuras que vemos parando o carro no sinal ou sentando no bar para tomar um chope. Em meio a isso, a figura de Macário usando um escafandro sai do banheiro químico ao som da música de 2001 de Kubrick, uma dondoca rouba carne de seu cachorrinho, uma cabeça é decapitada e encaixada no lugar, Ivan Cardoso vende cachorro-quente (e outras coisas) e o espectador observa embasbacado aquela sucessão histérica de imagens, muitos abandonando a sala, mas a maioria presa naquele redemoinho sem poder sair antes que acabe.

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Às vezes indigesto, O Fim da Picada não é, por isso, filme chato ou pretensioso. É sim um filmaço, dirigido, fotografado, editado e atuado de modo soberbo. Você ri e grita na hora certa, o ritmo é impecável para uma história tão fragmentada. Um filme único. Deixe de lado o preconceito cinematográfico que talvez carregue contra obras experimentais e surreais, e mergulhe na São Paulo infernal desta obra de arte orgulhosamente brasileira.

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No dia seguinte encontrei o diretor Saghaard, num bate-papo com o público, onde ele contou diversas histórias engraçadas sobre as filmagens, e depois fui apertar sua mão e trocar umas ideias. Junto a um casal que veio me perguntar se eu escrevia para o site Boca do Inferno (por conta da camiseta), elogiei seu trabalho, e ele se mostrou um cara muito bacana e acessível. E contou que pretendia lançar o filme nos cinemas em pequenas sessões administradas por ele mesmo pelo Brasil. Então, se o leitor teve a oportunidade de conferir uma sessão desta obra cáustica e única, não poderia ter deixado a chance escapar. Pode pôr na minha conta.

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Matheus Ferraz

Matheus Ferraz

Mineiro, autor publicado e mestre em Biografia pela University of Buckingham

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