O Torturador (1981)

O Torturador (1981)

O Torturador
Original:O Torturador
Ano:1981•País:Brasil
Direção:Antônio Calmon
Roteiro:Antônio Calmon, Alberto Magno, Jece Valadão
Produção:Jece Valadão
Elenco:Jece Valadão, Otávio Augusto, Vera Gimenez, Marta Anderson, Rodolfo Arena, Moacyr Deriquém, Ary Fontoura, John Herbert, Rejane Medeiros, Maria Pompeu, Anselmo Vasconcelos, Paulo Villaça

Jece Valadão interpretando um mercenário que é a cara do Charles Bronson e tem Otávio Augusto como parceiro? Vera Gimenez, mãe da insuportável Lucianta Gimenez, emulando as mulheres fatais dos filmes noir, especialmente Rita Hayworth? Ary Fontoura como ditador de uma republiqueta sul-americana? Anselmo Vasconcellos como um mafioso disfarçado de padre que aproveita a deixa para cheirar cocaína em pleno altar? Paulo Villaça (o eterno Bandido da Luz Vermelha de Sganzerla) no papel de um general valentão que na verdade é homossexual? E Rodolfo Arena como um oficial nazista assessorado por um jovem Jorge Fernando???

Sim, amiguinhos, tudo isso está em O Torturador, filme brasileiro dirigido por Antônio Calmon em 1981. A cada minuto que passava desta pérola, mais eu ficava surpreso e satisfeito com doideiras como estas que listei acima, e muitas outras que transformam esta em uma daquelas pérolas perdidas da cinematografia nacional. A cada minuto que passava, também, eu me pegava questionando por que não fazem mais filmes tão diferentes e divertidos hoje, quando o cinema brasileiro teoricamente tem mais recursos e mais qualidade técnica para isso.

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Num comentário feito em outro blog, que encontrei quase acidentalmente no Google, um leitor opina que este talvez seja “o mais bizarro filme comercial” já feito no Brasil. Talez não seja “o” mais bizarro (considerando que o cinema brasileiro de antigamente também gerou pérolas como o clássico Rio Babilônia, de Neville D’Almeida), mas certamente entra com louvor em qualquer Top Ten dos mais loucos filmes produzidos por aqui.

Escrito a seis mãos por Calmon, Jece e por Alberto Magno, O Torturador tem como protagonista o capitão Jonas, interpretado por um Jece Valadão em estado de graça. Ele é um mercenário que acabou de ser libertado de uma prisão militar, por motivos ignorados, e está prestes a cometer suicídio, quando surge seu velho companheiro Chuchu (Otávio Augusto) com uma proposta irrecusável: um grupo de milionários judeus está pagando um milhão de dólares pela cabeça do ex-carrasco nazista Herman Stahl, que fugiu da Alemanha após a derrota na Segunda Guerra (mas não sem antes matar dois milhões de judeus nos campos de concentração).

Para pôr as mãos na valiosa cabeça, a dupla terá que infiltrar-se entre a segurança pessoal de Borges (Ary Fontoura), o ditador de uma república das bananas fictícia, já que o envelhecido oficial nazista agora é um dos homens de confiança do chefe de estado. O trabalho atual do coronel Herman, claro, é extrair “confissões” de presos políticos, motivo pelo qual ganhou a alcunha de “El Torturador” – e daí o nome do filme.

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Depois que Jonas mata a saudade de mulher dando uma rapidinha ainda no hangar (uma cena hilariante), a dupla de mercenários embarca para o tal país sul-americano, onde a língua oficial é o espanhol, mas todo mundo fala português! São recepcionados pelo violento general interpretado por Paulo Villaça – que, apesar da pinta de machão, é gay e fica seduzindo os jovens do vilarejo -, e assumem o cargo de guarda-costas de uma cantora brasileira por quem Borges é apaixonado, Gilda (Vera Gimenez).

Como era esperado, Gilda também é um antigo amor de Jonas. E enquanto Jonas e Chuchu tentam conseguir a valiosa cabeça de “El Torturador“, a revolução está para explodir no país, já que o povo cansou da sangrenta ditadura de Borges e começa a revidar com violentos atos de terrorismo.

O roteiro é aquela baboseira típica do cinema de ação norte-americano, e o filme, mesmo mantendo um forte tom de humor e sátira, tenta seguir fielmente esta cartilha, incluindo sangrentos tiroteios.

É divertido ver Jece andando para lá e para cá sempre com uma escopeta nas mãos, óculos escuros e cigarrinho no canto da boca, sem esboçar um único sorriso em uma hora e meia, repetindo seu tradicional papel de canalha insensível e comedor (ele pega três mulheres ao longa da película). Só por isso, O Torturador já seria um filme, digamos, obrigatório.

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Mas felizmente não fica só nisso: se a trama parece clichê, o roteiro compensa colocando na boca dos personagens principais alguns diálogos simplesmente impagáveis.

Jece é o campeão, claro. Afinal, o roteiro não perde a oportunidade de representá-lo como “o” fodão, e por isso o homem dispara pérolas como “Se você não voltar para mim, te dou um tiro no meio da cara!“, ou “Toda mulher é puta. Menos, obviamente, as nossas mães“, ou “Vou matar aquela vadia, pois ela é a única mulher do mundo que não me quer“, ou ainda “Nasci pelado, tou vestido, tou no lucro!“.

Em alguns momentos, eu me pegava rolando de rir sozinho no sofá da sala depois de ouvir estas e outras preciosidades. Sem contar que o saudoso Jece Valadão encarnando um pistoleiro durão – e, claro, cafajeste – é uma coisa mágica.

O diretor Calmon já havia feito um filme anterior estrelado pelo astro: o clássico esquecido Eu Matei Lúcio Flávio, de 1979 (provavelmente um dos grandes exemplares do cinema exploitation brasileiro); no caso de O Torturador, Jece também é produtor, além de co-roteirista.

Hoje mais conhecido como roteirista de novelas da Globo, já que não dirige nada para o cinema desde 1984, Calmon destila no filme uma grande cultura cinematográfica hollywoodiana (como também faz em suas telenovelas, entre elas “Vamp” e “O Beijo do Vampiro“).

Isso vem desde os créditos iniciais, ao som da melancólica “Moonlight Sonata“, de Beethoven – passando uma falsa ideia de que veremos um filme sério, e não uma aventura em tom de paródia.

Além de citações óbvias, como o nome Gilda em alusão à personagem de Rita Hayworth no clássico filme homônimo, há uma cena entre Jonas e Gilda num bar em que a moça pede ao pianista: “Toque outra vez, Sam“, e este põe-se a dedilhar a música-tema do romance Casablanca (a própria frase da personagem remete a este filme).

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Mais adiante, Otávio Augusto aparece cercado de putas nuas num bordel ao som da música-tema de uma das aventuras de James Bond, 007 Contra Goldfinger. A brincadeira remete a um diálogo anterior com Gilda, quando a moça diz: “Você se acha o James Bond, não é, Chuchu? Pois você é o James Bunda!“.

E a situação principal da cabeça do nazista que vale ouro lembra outro clássico, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah. Finalmente, num momento brilhante, Jonas é torturado com uma enorme lâmina em forma de pêndulo suspensa sobre seu peito nu, pronta para parti-lo em dois – exatamente como acontecia em Mansão do Terror, de Roger Corman, por sua vez adaptação do conto O Poço e o Pêndulo, de Edgar Allan Poe!

Também é muito engraçado ver Otávio Augusto, imortalizado na televisão em papéis humorísticos, aqui fazendo papel de assassino e inclusive distribuindo balaços em seus desafetos!

Sabe aquele clichê das duplas cinematográficas, que têm o cara durão e o engraçadinho? Pois é exatamente o que se vê aqui: Chuchu passa o filme inteiro fazendo piadinhas ou cantarolando músicas de Roberto Carlos para sublinhar as diferentes situações em que ele e Jonas se envolvem, seja “Você é meu amigo de fé, meu irmão camarada“, para convencer Jonas a aceitar um último serviço, seja “Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu“, quando percebe as trocas de olhares entre Jonas e Gilda diante do vilanesco Borges, que é obcecado pela cantora.

Otávio Augusto também protagoniza duas cenas absolutamente antológicas. Numa delas, talvez o momento mais engraçado do filme, Chuchu, escondido no mezanino de um bar, grita para um pequeno grupo de soldados que invade o local: “Ô, sua bichona!“. Quando todos os surpresos adversários olham para cima, atendendo ao bizarro chamado do pistoleiro, este responde com disparos de revólver e completa a piada: “Eu chamei só uma!“.

No seu segundo momento impagável, Otávio Augusto está sendo torturado por Herman, amarrado a uma daquelas mesas que esticam os ossos, e, ao invés de responder as perguntas do seu inimigo, fica provocando-o com xingamentos. Depois, em meio à tortura, o pistoleiro bonachão fica gritando: “Abaixo o nazismo e viva o Mengo!“. hahahahaha!

Por momentos como esses, mais os sangrentos tiroteios, cenas de tortura, decapitações e mulheres nuas, O Torturador é um filme mais do que recomendado para fãs de ação que procuram uma hora e meia de diversão sem tratado de sociologia ou grandes pretensões com a seriedade.

E, óbvio, é um programa obrigatório para todos os leitores do meu blog Filmes para Doidos, pois talvez seja uma daquelas raras obras que se encaixa perfeitamente nessa descrição. E é brasileiro, gente! Brasil-il-illllll!!!!!!!!!

Embora seja muito difícil encontrar a velha fita VHS lançada nos primórdios das videolocadoras brasileiras, volta-e-meia O Torturador é reprisado nas madrugadas do Canal Brasil. Apenas para deixar saudade, nos verdadeiros cinéfilos, de um cinema brasileiro extremamente criativo e popular, que há muito tempo não existe mais…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

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