Olhos de Vampa (1996)

Olhos de Vampa (1996)

Olhos de Vampa
Original:Olhos de Vampa
Ano:1996•País:Brasil
Direção:Walter Rogério
Roteiro:Walter Rogério, Roberto d'Avila
Produção:Walter Rogério
Elenco:Antonio Abujamra, Mary Alexandre, Maura Baiocchi, Joel Barcellos, Júlio Calasso, José Rubens Chachá, Milhem Cortaz, Washington Luiz Gonzales, Vanessa Goulart, Marcelo Mansfield, Paula Melissa, Marco Ricca

Olhos de Vampa é mais um daqueles casos bizarros da filmografia brasileira. O leitor curioso para saber mais sobre o filme encontrará poucos e raros comentários na internet, quase todos desfavoráveis. O próprio lançamento comercial foi problemático, e a obra permaneceu engavetada por um longo intervalo de tempo até ser finalmente desovada nas locadoras, sem muito alarde. Hoje, é aquela típica produção que todo mundo ouviu falar (mal, geralmente), mas pouquíssima gente viu.

É meio estranha a trajetória atribulada da película. Afinal, quem assina direção, roteiro e produção executiva é Walter Rogério, um sujeito cujos trabalhos anteriores (roteiro do ótimo Cidade Oculta e estreia na direção com o simpático Beijo 2348/72) foram extremamente badalados, premiados e elogiados por crítica e público. Pois Olhos de Vampa é o segundo e até agora último filme de Walter Rogério, sem filmar desde 1996, provavelmente escaldado pelo retumbante fracasso da obra.

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Motivos para explicar este retumbante fracasso existem aos montes, mas também há um pouco de injustiça. Para começar, Olhos de Vampa é um dos raros filmes brasileiros da Retomada que tiveram coragem de buscar uma aproximação com aquele clima sacana e “vale-tudo” das pornochanchadas e das produções baratas da Boca do Lixo.

Enquanto crítica e público redescobriam e elogiavam um “novo cinema nacional melhor fotografado e produzido” (originando comentários estúpidos como “Nem parece filme brasileiro“), Walter Rogério foi na contramão e propôs exatamente um retorno àquelas produções inconsequentes das décadas de 70 e 80, que retrabalhavam clichês do cinema fantástico internacional dentro de uma atmosfera de sensualidade e sensacionalismo tipicamente brasileira.

Em outras palavras, é um filme com muita violência, palavrão e mulher pelada. Não falta nem uma incursão aos tradicionais inferninhos da noite paulistana, onde rola um gratuitíssimo número de striptease digno dos clássicos da Boca do Lixo. Não faltam filmagens nas ruas sujas e repletas de camelôs e mendigos. Há até uma rápida incursão num depósito de lixo!

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Mas Olhos de Vampa tem um grande problema: parece não se decidir entre ser uma brincadeira auto-consciente com esse cinema oitentista, um filme de horror sério ou um “terrir” na linha de Ivan Cardoso. O resultado fica num meio-termo entre essas três opções: há as brincadeiras de cinéfilo, há as tentativas de horror sério, mas também se busca um clima de “terrir” (às vezes o riso é involuntário).

Só que o filme não é suficientemente terror, suficientemente engraçado ou suficientemente auto-referencial (Mário Vaz Filho, diretor de divertidas produções da Boca como Um Pistoleiro Chamado Papaco, é assistente de direção). O resultado, como escreveu a professora Laura Cánepa, é um filme “no meio do caminho entre drama e comédia“, que “não se leva a sério e nem ri de si mesmo o suficiente para funcionar“.

Para exemplificar, imagine Ivan Cardoso tentando fazer de O Segredo da Múmia um filme sério ao invés de avacalhado; ou João Batista de Andrade injetando um humor chulo ao seu thriller A Próxima Vítima, sobre o serial killer apelidado de “Vampiro do Brás“. Pois assim é Olhos de Vampa. Um filme… esquisito!

Provavelmente nem os produtores sabiam como “marketear” obra tão disparatada, e ela acabou perdida no limbo da distribuição. Finalizada em 1996, foi exibida uma única vez naquele ano (no Festival de Brasília), e depois desapareceu até 2004, quando ganhou outra sessão na Mostra de Cinema de São Paulo. Mas nunca chegou a ter lançamento comercial nos cinemas: no mesmo ano, chegou às videolocadoras em VHS e DVD. E sumiu outra vez.

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Críticas da época se dividiam entre os que taxavam o filme de “terrir” e entre os que encaravam como terror sério, enquanto a própria distribuidora divulgava o lançamento com a seguinte chamada: “Despontando como um dos mais recentes trashes (!!!) brasileiros“. Isso comprova que ninguém entendeu a proposta da obra. Aliás… nem eu!

Olhos de Vampa começa com a polícia encontrando o corpo de uma adolescente assassinada em pleno Parque Ibirapuera. Ela tem as mãos amarradas com fita isolante, um pêssego enfiado na boca e uma mordida numa das nádegas, por onde foi drenado todo o seu sangue.

A polícia começa a investigar o crime bizarro, e logo um dos investigadores, Leôncio (Washington Luiz Gonzales, péssimo no papel), surge com a teoria de que o assassinato foi obra de um vampiro. Risos generalizados ecoam pela delegacia. Afinal, como imaginar um vampiro no Brasil fora das obras cômicas de Ivan Cardoso (Nosferatu no Brasil e As Sete Vampiras)?

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Logo um segundo crime acontece, com uma outra bela garota sendo encontrada nas mesmas condições e de bunda pra fora. A polícia começa a investigar os casos como sendo obras de um serial killer. Apenas Leôncio mantém sua tese de que o culpado é um vampiro 100% brasileiro. Para provar, alia-se ao fotógrafo forense Oscar (Marco Ricca!!!) para caçar o criminoso – ou monstro.

Leôncio e Oscar resolvem seguir, disfarçadamente, a bela stripper Diva Botelho (Christiane Tricerri, musa das velhas fotonovelas da revista Chiclete com Banana). Tudo porque ela tem uma bunda fenomenal e “faz questão de ostentar“, nas palavras de Leôncio. Assim, o policial acredita que ela será a próxima vítima do “vampiro“, apelidado de Vampa pela imprensa. A ideia é pegá-lo com a boca na botija, literalmente.

Mas, alheio à caçada, o Vampa continua deixando uma trilha de corpos no bairro de Pinheiros – sempre belas garotas com a bundas mordida e um pêssego na boca.

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É até difícil descobrir quando Olhos de Vampa está sendo conscientemente divertido e quando é trash não-intencional. Mas há vários momentos hilários justamente pelo ridículo da situação, como a recomendação do delegado Arthur (Antonio Abujamra, um ator seríssimo!) aos seus policiais: “Se vocês notarem um homem perseguindo um traseiro bem-feito, vão atrás! Pode ser o nosso homem!“. No Brasil, certamente não iriam faltar suspeitos…

O maior problema do roteiro é nunca deixar claro se o Vampa é realmente um vampiro ou apenas um serial killerhumano“. Embora a explicação sobrenatural seja a mais plausível (ainda mais considerando a cena do lixão, no final), a mitologia vampiresca é completamente desprezada, pois o “vampiro” anda tranquilamente à luz do dia. No caso de ser um serial killer, o filme jamais explica que arma ele usa para retirar todo o sangue das suas vítimas pela bunda!

A verdade é que Olhos de Vampa tem algumas ótimas ideias, mas não as desenvolve. Por exemplo, a obsessão do fotógrafo Oscar pelas fotos das belas bundas das vítimas e sua identificação com o assassino (algo mencionado beeeeem de passagem e logo ignorado pelo roteiro). Ou o próprio personagem do Vampa, interpretado pelo lendário Joel Barcellos (Rio Babilônia), que infelizmente aparece muito pouco. E, afinal, qual a justificativa do uso do pêssego nos crimes?

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Outras coisas parecem ter sido jogadas aleatoriamente na trama, como a aparição de uma bizarra mendiga que faz longos discursos incompreensíveis, e tem uma parceria nunca explicada com o Vampa. Ou a paixão platônica do policial Leôncio pela sua “isca“, a stripper Diva, outra personagem pouco aproveitada, e que não abre a boca o filme inteiro – apenas rebola a sua belíssima bunda pra lá e pra cá em calças cada vez mais apertadas!

E mesmo com tantos elementos e detalhes para desenvolver em uma duração relativamente curta (apenas 74 minutos), Olhos de Vampa é arrastado e redundante em diversos momentos, repetindo desnecessariamente as cenas da stripper caminhando de lá para cá e os detalhes das cenas dos crimes – sim, todo mundo já sabe que as vítimas têm um pêssego na boca e a bunda mordida, mas a câmera fica um tempão filmando todos esses detalhes a cada nova vitima encontrada.

Não há nem mesmo a tentativa de se criar suspense, pois todas as vítimas do Vampa ao longo da história são encontradas já mortas, no “pós-ataque“. Por isso, o filme lembra muito mais um policial ou suspense investigativo do que propriamente uma história de horror (ou “terrir“, como preferirem).

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Sim, são vários defeitos e problemas… Mas mesmo assim eu confesso que gostei de Olhos de Vampa. Mesmo que não seja tão bem desenvolvida, a ideia de um vampiro brasileiro que, como tal, morde suas vítimas na “paixão nacional” é muito boa. Lembra inclusive um obscuro filme de horror canadense de 1987, chamado Noites Macabras de Nova York, em que o vampiro sacana mordia belas mulheres nos seios!

Também achei muito interessante o foco no “mundo cão” terceiro-mundista, com a revolta da população diante da morosidade policial, o sensacionalismo da mídia (o título de uma das manchetes sobre os crimes diz, em letras garrafais: “Vampa só gosta de bumbum“), as incursões da câmera – de maneira quase documental – pelas ruas e inferninhos da noite de São Paulo e um momento grotesco em que policiais fazem elogios e comentários pornográficos examinando as fotos da bunda de uma das vítimas. Parece até uma produção da Boca do Lixo feita no período da Retomada e com um pouquinho mais de grana.

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Outra boa ideia de Olhos de Vampa é a busca de Leôncio e Oscar por “rostos suspeitos” nas fotografias tiradas nas cenas de crime. É a ampliação de uma destas fotos que identificará o principal suspeito de ser o Vampa, num detalhe que parece remeter a Blow Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni.

E não tem como não gostar de um filme sem-vergonha, com nudez gratuita em doses cavalares, que foi corajosamente produzido num dos períodos mais caretas do nosso cinema, quase como uma provocação.

Os bumbuns mordidos ao longo da trama, sempre mostrados com riqueza de detalhes, pertencem a Vanessa Goulart, Kalinka Prates, Paula Melissa, Malu Bierrenbach, Mari Alexandre, Rosângela do Brazil e Áurea Lucia Ambrósio (algumas são velhas conhecidas de colecionadores de revistas femininas).

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Ainda que muito aquém do seu potencial, Olhos de Vampa merece ao menos algum reconhecimento por ser um dos poucos investimentos em cinema fantástico (ou thriller de mistério, como preferirem) no período da Retomada. Outras apostas só surgiriam quase uma década depois: Um Lobisomem na Amazônia, de Ivan Cardoso, e Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins, que também não conseguiram encontrar seu público nos cinemas.

Creio que um dia iremos descobrir que boa parte do roteiro de Olhos de Vampa acabou no chão da sala de edição, justificando a trama desconexa. Ou talvez o diretor-roteirista Walter Rogério quebre o silêncio e explique que tudo era apenas uma brincadeira anárquica e cinéfila que foi levada muito a sério.

E depois de uma bizarra comédia romântica sobre a burocracia das leis brasileiras (Beijo 2348/72) e deste igualmente bizarro horror/comédia/suspense/policial sobre um vampiro brasileiro que morde bundas, fico só imaginando o que Walter Rogério faria em seu terceiro filme!

Enquanto isso, nas sombras, o misterioso Vampa aguarda por novas vítimas, sem que nunca se saiba com certeza se é realmente um vampiro ou um “simples serial killer

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga “Entrei em Pânico…”, entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

2 comentários em “Olhos de Vampa (1996)

  • 28/05/2016 em 07:58
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    Eu também já vi esse filme, no Canal Brasil há muitos anos atrás.

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  • 23/11/2014 em 00:37
    Permalink

    Uma raridade que encontrei em um site de filmes que nem existe mais. Sem dúvida é um filme que não se define e acho que talvez faça sentido só pra o diretor. A coisa do pêssego não era por causa da primeira Vítima? Não era ela que carregava os pêssegos?

    Nunca havia encontrado ninguém que já tivesse assistido. Só no Boca mesmo! rs

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