Trilogia de Terror: O Acordo (1968)

Trilogia de Terror (1968)

Trilogia de Terror: O Acordo
Original:Trilogia de Terror: O Acordo
Ano:1968•País:Brasil
Direção:Ozualdo Ribeiro Candeias
Roteiro:Ozualdo Ribeiro Candeias
Produção:Renato Grechi, Antonio Polo Galante
Elenco:Lucy Rangel, Regina Celia, Durvalino De Souza, Luiz Humberto, Ubirajara Gama, Alex Ronay, Henrique Borges, Nadia Tell, Eddio Smanio, Eucaris Moraes, Assis Dias, José Júlio Spiewak

Durante as décadas de 60 e 70 muitos filmes de gênero divididos em episódios foram produzidos. Histórias curtas, dirigidas por cineastas diferentes geraram obras célebres como Bocaccio 70 e Rogopag, além de As Bruxas. Dentro do Cinema Fantástico temos clássicos absolutos como I Tre Volti Della Paura aka Black Sabbath com três histórias macabras dirigidas por Mario Bava. O número três ficou marcado como um modelo para muitos desses filmes em episódios que proporcionavam ao público uma multiplicidade de narrativas feitas por diretores diferenciados. Esse modelo ressurge atualmente em dois clássicos exemplares dessa proposta vindos da Ásia: Three e 3 Extremes. Em 1968, no Brasil, foi produzido um exemplar dessa proposta tripla dentro do Cinema Fantástico, pelas mãos dos célebres produtores da Boca do Lixo de São Paulo: Antonio P Galante e Renato Grechi: Trilogia de Terror.

Muitas Pornochanchadas foram produzidas tanto no Rio quanto em São Paulo com esse molde dos episódios dividindo um longa-metragem. Trilogia de Terror foi o grande exemplar dessa proposta dentro do Cinema Fantástico produzido no Brasil. Os três episódios foram respectivamente dirigidos por: Ozualdo Candeias (O Acordo), Luís Sérgio Person (A Procissão dos Mortos) e José Mojica Marins (Pesadelo Mortal). Desse trio de notáveis realizadores apenas Mojica Marins militava dentro do Horror Cinematográfico. O primeiro episódio, dirigido por Ozualdo Candeias, se destaca por ser o mais autoral e experimental de todos, transfigurando de maneira genial o modelo pré-estabelecido da fábula faustiana e seus desdobramentos morais. A Direção de Fotografia do episódio O Acordo ficou á cargo de Peter Overbeck, que soube trabalhar muito bem as texturas do Preto e Branco que, aliás, está presente nos três episódios do longa. Cada episódio teve um fotógrafo específico. Overbeck colaborou com Candeias, Oswaldo de Oliveira colaborou com Person e Giorgio Attili colaborou com Mojica Marins.

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Com sua ambientação rural, o episódio O Acordo nos transporta para um Brasil telúrico, onde crenças e crendices antigas se revelam logo no início quando as freiras fazem o sinal da cruz quando avistam o matuto catimbozeiro. Candeias irá encenar sua Fábula Faustiana partindo da ponte entre o mundo real e sobrenatural iniciada em um estilizado Ritual de Catimbó onde o matuto recebe o espírito de uma velha escrava enquanto dança entre as rochas ao som de um tambor tocado por uma mulher de traços indígenas que está ao lado de outra mulher imóvel que parece estar em transe. A marginalidade que os praticantes do catimbó viviam no Brasil, com direito a perseguições da Igreja e da polícia, os coloca como criaturas que praticam uma arte espiritual telúrica, antiga e miscigenada, tipicamente brasileira, considerada “baixo espiritismo”, ficando socialmente abaixo até das religiões afro-brasileiras. Mas o interessante para a história encenada por Candeias é o motivo do Ritual de catimbó. Vemos duas mulheres: mãe e filha vivendo a tensão/repressão de seus corpos naquele meio hostil de uma pequena cidade onde mulheres sozinhas ficam vulneráveis a tudo e a todos.

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A mãe deseja que a filha case e deixe seu letárgico estado de histeria que a mantém na cama em um estado de delírio mudo. A cena do surgimento do médico, primeiramente mostrado apenas pelos pés e depois por uma silhueta atrás da cortina, é um pequeno exemplo do talento de Candeias em construir grandes momentos de cinema com o mínimo de recursos. O tal médico afirma que o problema da menina é “Manha”. Por isso a mãe vai até o catimbozeiro em busca de ajuda. Em transe, com a voz de uma velha escrava, o homem lhe diz para ir até o grotão, falar com o “Senhor das Profundas…”. Cria-se assim na história a mola propulsora clássica da Fábula Faustiana, o encontro entre uma mortal e a representação do Mephisto ou Demônio, onde será feito um acordo, um pacto, onde uma troca será proposta.

A maneira como Candeias constrói essa descida da mãe de encontro com a figura do Mephisto estilizado aproveita muito bem as locações onde rochas conduzem a uma espécie de gruta onde seres semi nus e andróginos guardam essa morada das profundezas como discípulos do tal “Senhor das Profundas”. Quando o próprio surge, Candeias brinca com o público colocando em cena uma figura de cabelos longos, barba e corrente no melhor estilo Rock Star. Uma vinheta psicodélica toca quando surge essa figura que se dirige para a mãe e propõe comO Acordo uma donzela, após a passagem de três luas, e em troca conseguiria um noivo para sua filha. O pacto está feito e o filme continua na contramão de todas as regras pré-estabelecidas onde subgêneros cinematográficos opostos se cruzarão em meio a chegada de uma figura que representa Jesus Cristo, que se assemelha a um mendigo.

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Em meio a essa trama sobrenatural estilizada e alegórica, o diretor introduz no filme a figura inusitada de um trio de bandoleiros saídos de algum obscuro faroeste italiano que cometem um massacre ao som de uma trilha muito inspirada. Esse trio de pistoleiros circula pela história entre as personagens da mãe e da filha onde a figura do estranho Mephisto surge para cobrar seu acordo a medida que o tempo passa, sempre acompanhado da tal vinheta psicodélica. A festa na caverna onde mortais e demônios dançam é interrompida pela figura do tal Cristo mendigo que os expulsa do local em uma alusão a passagem bíblica da expulsão dos vendedores do templo. Com uma coroa de espinhos ele faz uma prece final.

Nesse clima de delírio, de devaneio, Candeias cria um filme curto, mas com muitas possibilidade de experimentação e expressão forte de sua autoria. Em alguns momentos chega a lembrar outros “Mestres Marginais” como Alejandro Jodorovski. Em outros lembra seus discípulos do Cinema Marginal criado por ele com o clássico absoluto A Margem. O Acordo abre o longa Trilogia de Terror com grande categoria, proporcionando aos seus espectadores momentos de puro Cinema de Invenção

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Marcelo Carrard

Marcelo Carrard

Marcelo Carrard é Jornalista, Pesquisador e Crítico de Cinema e Editor do Blog: Nudo e Selvaggio.

Um comentário em “Trilogia de Terror: O Acordo (1968)

  • 13/11/2014 em 13:03
    Permalink

    TRILOGIA DE TERROR é um dos filmes mais assustadores que já vi na vida!!!!
    Assisti a primeira vez e me assustei pra caramba, principalmente com o primeiro episódio.
    Mas, nem por isso, deixa de ser um grande filme, uma antologia no melhor estilo NA SOLIDÃO DA NOITE e CREEPSHOW, etc…!!!!!!!!!!
    Um ótimo filme!!!!!!!!!
    Recomendado!!!!!!!!

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