A Noite dos Arrepios (1986)

A Noite dos Arrepios (1986)

A Noite dos Arrepios
Original:Night of the Creeps
Ano:1986•País:EUA
Direção:Fred Dekker
Roteiro:Fred Dekker
Produção:Charles Gordon
Elenco:Jason Lively, Tom Atkins, Steve Marshall, Jill Whitlow, Wally Taylor, Bruce Solomon, Vic Polizos, Allan Kayser, Ken Heron, David Paymer

“Meninas, eu tenho uma boa e uma má notícia para vocês…”

Nosso mundo é, definitivamente, um lugar injusto para se viver. Veja bem: caras como Uwe Boll (House of the Dead, Alone in the Dark), William Malone (A Casa da Colina, Medopontocombr) e videoclipeiros de primeira viagem ganham fortunas de produtores ambiciosos para, muitas vezes, avacalhar com filmes clássicos em sequências bobas ou remakes desnecessários. Enquanto isso, ótimos diretores, conhecidos por terem um estilo pessoal e por seus projetos apaixonados e criativos, estão há anos sem filmar. A lista é interminável: Michele Soavi (Pelo Amor Pela Morte), William Lustig (série Maniac Cop), Larry Cohen (A Coisa, Nasce um Monstro), Wrye Martin e Barry Poltermann (Aswang), Dan O’Bannon (A Volta dos Mortos-Vivos), Daniel Liatowitsch e David Todd Ocvirk (Kolobos), Gary A. Sherman (Metrô da Morte, Os Mortos-Vivos) e Fred Dekker.

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Falando no diabo: talvez Fred Dekker seja o cara mais injustiçado de todos os tempos, ou então alguém fez uma mandinga braba para cima do homem, pois simplesmente não há explicação para ele ter sumido do mapa. Veja bem: esse cineasta californiano, nascido em 1959, grande fã de cinema e de filmes B em geral, só envolveu-se em projetos conhecidos e/ou adorados. Começou, em 1986, escrevendo o tratamento do roteiro de House – A Casa do Espanto, dirigido por Sean S. Cunningham. No mesmo ano, estreou na direção filmando outro de seus roteiros em A Noite dos Arrepios, uma das grandes produções “terrir” (soma de terror e humor) da década de oitenta. No ano seguinte, 1987, também roteirizou e dirigiu o fantástico The Monster Squad, lançado aqui como Deu a Louca nos Monstros, e que talvez seja a mais divertida e apaixonada homenagem aos clássicos do cinema de horror – quase um Os Goonies de horror -, contando até hoje com uma grande geração de fãs. Finalmente, dirigiu alguns episódios da série Contos da Cripta, escreveu o roteiro da excelente comédia Teen Agent – Espião por Engano (de 1991) e encerrou prematuramente a sua carreira escrevendo e dirigindo Robocop 3, em 1993.

Ainda que Robocop 3 seja o mais fraco da série, não existe uma explicação para o porquê de ter encerrado a carreira de um dos cineastas mais promissores da década passada. Mesmo assim, o homem sofreu um boicote fenomenal: nunca mais conseguiu dirigir nada, nem teve mais seus roteiros filmados. Pior: fora Robocop 3, nenhum dos dois filmaços que dirigiu (A Noite dos Arrepios e The Monster Squad) foi relançado em DVD, nem mesmo nos Estados Unidos, onde ambos têm um público fanático. No Brasil, A Noite dos Arrepios não saiu nem em vídeo, tendo sido exibido apenas na TV! Atualmente, Fred Dekker só é lembrado por ter escrito alguns episódios para o seriado de TV Enterprise, em 2001. E mais nada. Também não há previsão para o relançamento de seus filmes ou de uma nova produção comandada por ele. É mandinga braba ou não é? Ainda mais se considerarmos que até “diretores” como Uwe Boll conseguiram lançar mais filmes que Fred Dekker – e nem vou citar as dezenas de bombas lançadas anualmente por gente do calibre de Albert Pyun e David DeCouteau!!!! Logo, o fato de Dekker estar no limbo é, sem dúvida, uma enorme injustiça, pois seus filmes são divertidíssimos. Especialmente o alvo de nossa discussão de hoje, A Noite dos Arrepios, um “quase clássico“, reverenciado por toda uma geração.

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Na minha humilde opinião, A Noite dos Arrepios é “o filme B supremo“. Dekker não é só um diretor/roteirista, é um cara que viu um milhão de filmes, como Quentin Tarantino, e adora tirar ideias daqui e dali, citações e brincadeiras para escrever seus próprios roteiros. Por isso, A Noite dos Arrepios conta com os principais elementos de um bom filme de horror/ficção científica barato, daqueles que já vimos em dezenas de outras produções: tem sanguessugas alienígenas que entram pela boca e se alojam no cérebro; tem alienígenas feiosos com armas que disparam laser; tem um maluco fugido do hospício que usa roupa de hospital e mata pessoas com um machado; tem zumbis carniceiros; tem humanos possuídos por alienígenas; tem os nerds que se transformam em heróis quando a situação foge do controle; tem o policial durão com um trauma ligado ao seu passado que ajuda os nerds; tem um laboratório cheio de computadores com luzinhas piscando; tem peitos de fora; tem o amigo piadista do herói; tem ferramentas como cortador de grama sendo utilizadas para propósitos pouco ortodoxos, e tem até um ponta de Dick Miller!!! Enfim, A Noite dos Arrepios tem tudo para agradar a qualquer tipo de público, com homenagens e situações suficientes para manter entretido tanto o fã de gore e sangue quanto aqueles que preferem os “slasher teens“.

O filme começa com dois prólogos distintos, o que já revela a criatividade do roteiro de Dekker. O primeiro se passa nos corredores de uma nave espacial alienígena, onde os ETs são baixinhos e cabeçudos, conversam entre si num idioma alien e as legendas fazem questão de mostrar como seria o alfabeto extraterrestre (hahahaha). Um dos ETs – que tem uma cara de malvado parecida com a do Ash quando está possuído em Evil Dead 2 – corre de uma dupla armada com canhões laser. Ele leva, nas mãos, um cilindro negro beeeeeem suspeito. Quando o ET malvado consegue se trancar num compartimento da nave, coloca o cilindro numa escotilha, para lançá-lo ao espaço sideral. Enquanto isso, os soldados que o perseguem discutem enquanto explodem a porta: “O experimento NÃO pode sair desta nave“. Mas é tarde demais: quando a porta é explodida e o alien malvado fica à mercê dos soldados, o tal cilindro já foi disparado e está voando pelo hiperespaço rumo a um pequeno planeta azul chamado Terra…

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Então, mais uma vez, Dekker mostra como é um sujeito genial: a cena na Terra se passa na década de 50, mais precisamente em 1959, e é totalmente filmada em preto-e-branco, com uma brilhante reconstituição de época – roupas, carros, cortes de cabelo… Nem parece um filme B, tal a recriação do período! A trilha sonora até toca músicas características do período, como a romântica “Smoke Gets in Your Eyes“. O cenário é uma fraternidade americana, onde uma loira ordinária chamada Pam (Alice Cadogan) acabou de dar um pé na bunda do namorado, o policial Ray Cameron (Dave Alan Johnson), trocando-o pelo atleta Johnny (Ken Heron). É noite e o carrão conversível de Johnny chega à fraternidade para pegar a garota. O rádio anuncia que um louco fugiu do hospício armado com um machado, mas o rapaz não quer nem saber e desliga o aparelho para concentrar-se no namoro. O casalzinho vai até uma colina onde os jovens namoram em seus carros, admirando a paisagem, como todo mundo podia fazer nos anos 50 sem ser assaltado ou morto. Pam começa a olhar as estrelas e ambos estranham o fato de uma delas parecer maior que as outras. Então, ela vai crescendo, crescendo, até tomar a forma de uma estrela cadente, que atravessa o céu passando sobre o carro dos pombinhos e cai num bosque próximo. Johnny, claro, quer ir atrás para ver o que é. Este início lembra, propositalmente, o prólogo de A Bolha Assassina, a versão dos anos 50.

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Chegando no ponto onde a “estrela” caiu, o rapaz pega uma lanterna e vai averiguar, deixando a moça sozinha no carro – como acontece nos bons slasher movies. Ele se embrenha no bosque e encontra os restos incendiados do cilindro. Enquanto isso, Pam fica assustada com a estrada escura, e ainda mais assustada ao ouvir no rádio que o maluco que fugiu do hospício foi visto na estrada para a faculdade, no Km 66. Ela então liga o farol do carro e ilumina duas placas na beira da estrada que dizem, respectivamente, “Estrada para a faculdade” e “Km 66“. hahahahaha. Apavorada, grita para Johnny: “Vamos embora daqui e eu deixo você pôr as mãos debaixo do meu vestido!“. Mas Johnny, a estas alturas, está muito ocupado: ele vai tocar no cilindro espacial e uma enorme sanguessuga preta voa direto para dentro da boca do infeliz, que faz uma cara azeda de quem comeu jiló e não gostou. E Pam, enquanto grita pelo namoradinho, nem percebe a aproximação do maluco com o machado às suas costas. Quando ele se prepara para golpear a garota bem no pescoço, a cena corta e o filme dá um salto no tempo.

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A ambientação é a mesma, uma fraternidade, mas os tempos são outros. A fotografia agora é colorida, a garotada tem roupas e cabelos mais bagunçados, a música é um rockzão repleto de sintetizador e a legenda anuncia que estamos no saudoso ano de 1986. Dois estudantes nerds, Chris Romero (Jason Lively, que interpretou o filho de Chevy Chase em Férias Frustradas 2) e James Carpenter Hooper (Steve Marshall), este último um paralítico que usa muletas e é conhecido simplesmente como J.C., estão tentando se misturar aos atletas e bonitões da fraternidade, em seu primeiro ano de universidade. Subitamente, Chris tem uma “visão“: ele enxerga, em meio à multidão, a linda Cynthia Cronenberg (Jill Whitlow), numa daquelas cenas clichês do gênero – imagem em câmera lenta, musiquinha melosa, sensação de que o tempo está congelado… Como o cara é tímido – além de bobo -, sobra para malandro J.C. ir conversar com a garota e descobrir seu nome. Desesperado para aproximar-se da garota, Chris convence o amigo de que a única forma de eles serem populares o bastante é entrar para a fraternidade dos “caras legais“, os Betas.

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Desnecessário dizer que a tal fraternidade está repleta de atletas fortões que caem na gargalhada ao verem dois calouros nerds, como Chris e J.C, tentando entrar em seu seleto grupo. Mesmo assim, o presidente dos Betas, Brad Craven (Allan Kayser, com um pavoroso cabelo descolorido), aplica um trote na dupla. Brad – ou “The Bradster“, como o mané se auto-proclama – promete que, se a dupla der uma “prova de valor“, pode entrar na fraternidade. O trote não envolve “sexo com animais“, como sugere Chris, mas sim algo mais “simples“: roubar um cadáver da faculdade de medicina e jogar na porta de uma fraternidade rival. Em busca de um corpo, Chris e J.C. vão parar, por acaso, em um laboratório super-secreto da faculdade, cheio de computadores moderníssimos com aquelas fitas em rolo (hahahaha) e luzinhas piscando. Ali encontram, também, um cadáver em animação suspensa numa câmara criogênica. Trata-se, como logo percebemos, de Johnny, aquele rapaz que engoliu a sanguessuga alienígena no começo do filme, e que aparentemente foi mantido congelado para estudos desde então. Os dois garotos chegam à conclusão de que aquele cadáver está dando sopa e resolvem roubá-lo. Providencialmente, há um grande botão vermelho escrito “Descongelar” bem ao lado da câmara. hahahahaha. Quando o cadáver é libertado, porém, ele abre os olhos e se mexe, fazendo com que a dupla de nerds saia correndo dali. Sobra para um jovem estudante de medicina (David Paymer, coadjuvante em uma série de filmes de sucesso) encontrar o corpo reanimado e tomar, ele próprio, uma sanguessuga na boca.

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Não demora para a polícia aparecer no laboratório. Entra em cena, então, o armagurado e velho detetive Ray Cameron (agora interpretado pelo péssimo, porém divertido Tom Atkins, de A Bruma Assassina e Halloween 3). Ele é um sujeito que vive no limite, sempre pensando em suicídio, e que vive atormentado por pesadelos onde revisita aquela fatídica noite em que sua ex-namorada Pam foi esquartejada pelo maníaco do machado – lembra do começo do filme? É da boca de Cameron que saem as frases mais espirituosas do filme. Toda vez que ele entra em cena, por exemplo, alguém pergunta: “Detetive Cameron?“, e ele sempre sai com uma resposta diferente, do tipo “Não, o Palhaço Bozo!“. Quando Cameron aparece no laboratório e fica sabendo do desaparecimento de um cadáver que estava congelado desde os anos 50, fala na hora: “Mas o que é isso? Uma cena de crime ou filme de ficção científica classe B?“. E enquanto ele dispara suas piadinhas, o cadáver reanimado de Johnny caminha pelado pelas ruas da cidade, indo inconscientemente para o último lugar que lembra ter ido décadas atrás: a fraternidade das meninas, onde Pam vivia. E ele surge bem na janela de Cynthia, assustando a moça que estava acabando de brindar o público com um rápido topless. Após um rápido sorriso-zumbi, a cabeça do cadáver ambulante se abre, liberando um montão daquelas melequentas sanguessugas.

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Mais um mistério para a polícia resolver, é claro. E Brad e seus amigos Betas pensam que a culpa é de Chris e J.C., acreditando que eles roubaram o corpo e jogaram na frente da fraternidade errada. Ninguém acredita quando Cynthia conta que o cadáver não só estava vivo e caminhando por conta, como ainda liberou as larvas alienígenas de dentro da sua cabeça. Mas logo acreditarão, ainda mais quando o estudante de medicina contaminado momentos antes acorda no necrotério e sai caminhando após a necropsia, todo ensanguentado – e, ironicamente, ninguém percebe, nem mesmo um policial que passa bem ao lado do cadáver ambulante! Logo, o detetive Cameron começa a juntar as peças do quebra-cabeça e chega à dupla de nerds, pois um zelador viu os jovens correndo de dentro do laboratório na noite do sumiço do corpo. O homem da lei simpatiza com Chris e lhe revela uma história acontecida 40 anos antes, quando ele encurralou o maníaco do machado que esquartejou Pam e matou-o a tiros, enterrando o cadáver ao lado da fraternidade das moças. Sabendo que as larvas alienígenas têm a capacidade de ressuscitar os mortos, adivinhe quem é que logo vai voltar para dar dor de cabeça aos heróis?

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Logo fica evidente que as tais larvas alienígenas entram pela boca – e talvez por outros orifícios corporais também, embora isso nunca fique bem claro -, alojam-se no cérebro e se alimentam dele (claro!!!), transformando seu hospedeiro em zumbi; ao mesmo tempo, se reproduzem no interior do crânio. Quando o hospedeiro já está “maduro”, a cabeça explode e libera as multiplicadas larvas, que então saem em busca de novas vítimas. Sentiu o drama? É J.C. quem descobre – da forma mais improvável possível – a única forma de destruir as bichas: o fogo! O roteiro só não explica como é que as sanguessugas conseguem controlar um corpo morto, ainda mais um cadáver decomposto que nem cérebro tem mais, como o maníaco morto por Cameron, que retorna já em forma esquelética para uma nova série de crimes.

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O clímax de A Noite dos Arrepios é um dos momentos mais antológicos do cinema de horror dos anos 80, numa citação direta à trilogia dos mortos-vivos de George A. Romero. E acontece, claro, na noite de formatura, com todas as meninas em seus vestidos de festa e os meninos alinhados, com smoking. Acontece que um acidente de ônibus mata todos os atletas da fraternidade Beta, e um cachorrinho contaminado com o organismo do espaço entra nos destroços do veículo e dissemina a praga. Logo, um montão de cadáveres esquartejados vestindo smoking ganha as ruas da cidade, partindo direto para a fraternidade onde as moças aguardam por seus namorados. Neste momento, Cameron solta a frase mais clássica do filme:

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– “Meninas, tenho uma boa e uma má notícia para vocês. A boa é que seus namorados chegaram“.
– “E qual é a má?” – pergunta uma garota.
Com um sorrisinho irônico que apenas um personagem de filme B poderia ostentar em tal situação, Cameron responde:
– “A má é que eles estão todos mortos!

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Os zumbis então invadem a fraternidade, sendo combatidos por Cameron, Chris e Cynthia, armados de revólveres, espingardas e até um lança-chamas roubado da polícia! Neste momento, o filme se entrega a um frenético ritual de possessões, zumbis cambaleantes, tiros e cabeças explodidas.

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A Noite dos Arrepios é simplesmente divertidíssimo em seu clima classe B, com alguns péssimos efeitos especiais (como um gato e um cachorro zumbis!!!), mas também uma elaborada maquiagem dos zumbis no final – cortesia, entre outros, de Robert Kurtzman e Howard Berger, que no ano seguinte (1987) uniriam-se a Gregg Nicotero para criar uma das mais prolíficas companhias de efeitos especiais sangrentos para filmes de horror, a KNB, que trabalhou em Evil Dead 2, Um Drink no Inferno, Vampiros, Fantasmas de Marte e muitos outros. Embora nessa época Kurtzman e Berger ainda fossem iniciantes, os efeitos são simplesmente fantásticos, principalmente aqueles que mostram as cabeças dos zumbis abrindo-se com tiros ou para liberar sua carga de sanguessugas. A maquiagem dos zumbis também é perfeita e dá um banho em muito filme recente, como House of the Dead e Resident Evil – essa gente um dia vai aprender que sangue falso e látex é bem melhor que computação gráfica nos filmes de horror…

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Aliás, A Noite dos Arrepios é tão divertido que, quando terminei de reassisti-lo, foi inevitável o questionamento: “Por que não fazem mais filmes assim?“. Não só de horror, mas no geral… Enquanto nos anos 80 tínhamos as aventuras emocionantes de Indiana Jones, hoje temos os horrendos (e repletos de computação gráfica) Tomb Raider e A Múmia; enquanto antigamente tínhamos Os Goonies e The Monster Squad, hoje a salvação das aventuras-juvenis é a chatinha série Harry Potter. Assim não dá! Isso sem contar que a ideia atual de “terror teen” são baboseiras como Freddy Vs Jason e Alien Vs Predador! Que saudades dos “terrir” oitentistas, como A Noite dos Arrepios, A Hora do Espanto, A Volta dos Mortos-Vivos e tantos outros… Será que em 20 anos as pessoas desaprenderam a fazer filmes? Ou a computação gráfica veio para atrapalhar o processo? Se estiver na dúvida, compare o movimento das lesmas em A Noite dos Arrepios (sem computação gráfica) e os escaravelhos que entram no corpo das vítimas em A Múmia, de Stephen Sommers (em CGI). Não tem comparação: mesmo com a tecnologia atual, as lesmas do filme de 1986 são muito menos artificiais e mal-feitas!!!

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Eu já escrevi, em muitos de meus artigos, que percebe-se de cara a diferença entre o filme dirigido por alguém que foi apenas contratado por um estúdio e o filme dirigido por alguém que é apaixonado pelo gênero. E Fred Dekker é, sem sombra de dúvidas, um apaixonado não só pelo horror em geral, mas também por ficção científica e, principalmente, por filmes classe B. Só assim para entender como funciona a cabeça do sujeito e seu roteiro, pontuado por homenagens aos maiores clichês deste tipo peculiar de cinema – coisa que só apaixonado pelo gênero faz sem soar muito artificial. A Noite dos Arrepios está repleto de personagens característicos do gênero, como o detetive noir sempre de casacão e com um cigarro na boca, o médico-legista que come animadamente mesmo ao lado de cadáveres esquartejados, o bonitão que é presidente da fraternidade e adora torturar os calouros, etc etc. E a história tem claras influências dos filmes de zumbis que se multiplicaram nos anos 80, citações diretas aos “filmes de fraternidade” que também faziam a alegria no período (tipo Porky’s e A Vingança dos Nerds), e uma pitada de Calafrios, de David Cronenberg – de onde tiraram o detalhe do parasita que entra nos corpos e domina o hospedeiro. Algumas cenas, ainda, lembram Evil Dead.

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Para arrematar, Dekker conseguiu a façanha de batizar seus personagens com o sobrenome de diretores de horror/ficção científica que estavam em alta nos anos 80, quando isso ainda não era clichê – hoje em dia, qualquer filme de horror que se preze tem que fazer a mesma coisa! Acompanhe: temos personagens com sobrenomes (George) Romero, (John) Carpenter, (Wes) Craven, (Tobe) Hooper, (David) Cronenberg e (James) Cameron. Além disso, ainda aparecem dois policiais chamados (John) Landis e (Sam) Raimi, um zelador batizado (Steve) Miner e a própria universidade onde a história se passa chama-se (Roger) Corman. É pouco ou quer mais? Ah, tem mais: repare que, na cena em que J.C. está no banheiro, há uma pichação numa das paredes dizendo “Go Monster Squad!“, sendo que The Monster Squad é o projeto posterior de Dekker, dirigido no ano seguinte. Para completar, uma velha assiste ao clássico trash Plan 9 From Outer Space, de Ed Wood, na TV, momentos antes de ser esquartejada por um zumbi…

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Fã de filmes que só ele, o diretor também escalou alguns atores-chave para pequenos papéis, mais como participações especiais. O principal é o imortal Dick Miller, amigão de Roger Corman, que já apareceu em mais de 100 filmes de baixo orçamento – sempre em minúsculas participações. Em A Noite dos Arrepios, Miller interpreta Walter, responsável pelo arsenal da delegacia de polícia, que “voluntariamente” empresta um lança-chamas a Chris e Cameron. Outra figura ilustre que aparece é Robert Kerman, o antropólogo de Cannibal Holocaust (e ator de vários filmes pornôs), sem bigode, como um dos policiais que patrulha as ruas atrás de zumbis. Por fim, os mortos-vivos que atacam no final são todos “interpretados” pelos maquiadores e técnicos de efeitos especiais do filme, inclusive Robert Kurtzman e Howard Berger – não basta maquiar, tem que participar! Pior é saber que o posterior Pânico, de Wes Craven, feito 10 anos depois (em 1996), é lembrado como o primeiro horror satírico auto-referencial, quando Fred Dekker fez a mesma coisa (e melhor) em 1986.

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Apesar do tema e da inclusão de mortos-vivos na trama, A Noite dos Arrepios é bem pouco assustador, preferindo investir no humor negro e no clima de gozação, com um roteiro centrado em passagens irônicas. Além dos comentários engraçadinhos do detetive Cameron, ainda temos alguns momentos de pura avacalhação, como quando o ridículo Brad é transformado em zumbi e ninguém percebe o fato, já que o sujeito não era lá muito inteligente nem em forma humana (hahahaha). Também é divertido o fato de todo mundo aceitar com a maior facilidade o fato de estarem enfrentando zumbis comandados por uma substância alienígena – principalmente no final, quando os personagens parecem estar se divertindo na matança dos zumbis. Como diz o título, o filme pode ter até alguns arrepios, mas pouco de horror mesmo ou sustos. Não é um filme que dá medo, mas isso não tira nem um pouco do brilho do espetáculo – e talvez nem seja a proposta.

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Com um ritmo frenético, que praticamente não deixa o espectador respirar, A Noite dos Arrepios disfarça seus muitos furos. Um deles é a forma como J.C. descobre que o fogo mata as lesmas marcianas – com tanta coisa para fazer na tentativa de se defender, por que é que ele foi usar o fósforo contra as criaturas? Aliás, o que fazia aquele único fósforo no chão do banheiro??? Outra coisa que fica sem explicação é como Johnny vai parar na câmara criogênica, ao invés de ter saído andando e fazendo novas vítimas, como acontece posteriormente com outros infectados… Também existe um erro que normalmente passa desapercebido: numa cena em que Chris e Cynthia estão presos numa casa de ferramentas, já no finalzinho, a garota é agarrada e começa a gritar por ajuda chamando: “Brad! Brad!“, referindo-se erroneamente ao ex-namorado morto minutos antes, ao invés de chamar “Chris! Chris!“. Imperdoável essa…

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Outro detalhe que poderia ter arruinado qualquer outro filme é o fraquíssimo casal de heróis. Mas aqui isso não acaba comprometendo, graças, novamente, ao bom ritmo do filme. Infelizmente, não tem como simpatizar com o pateta Chris, que passa o filme todo com uma expressão abobalhada; sua amada Cynthia também não faz muita coisa além de enfeitar a tela e gritar o tempo todo por ajuda. O personagem mais divertido (J.C.) some de cena muito rápido, e sobra para o divertido Tom Atkins o personagem mais forte, no papel do detetive durão que sai metendo chumbo nos zumbis. Como Dekker divide seu filme quase em episódios – partes com Chris e Cynthia intercaladas a cenas envolvendo Cameron e o restante dos policiais -, a ruindade do casal central não compromete. E o tempo faria justiça a eles: Jason Lively (Chris) e Jill Whitlow (Cynthia) não fizeram mais muitos filmes depois deste, embora tenham atuado juntos novamente em Caça aos Fantasmas, outra comédia de horror, dirigida em 1987 por… Rolland Emmerich (sim, aquele mesmo do blockbuster O Dia Depois de Amanhã)!!!

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Como o mundo é um lugar injusto, a produtora do filme (a outrora poderosa Tri-Star) ainda forçou o diretor a mudar o final concebido originalmente para a história, optando por um mais convencional. Quem viu o filme na TV só conhece este final (veja na página 2). Mas a conclusão original também foi filmada e circula em cópias piratas e na versão para a TV americana, mostrando um destino diferente para o personagem de Ray Cameron (se quiser saber o que acontece, leia o texto abaixo, que contém spoilers). Como o mundo é um lugar, injusto, também, A Noite dos Arrepios foi um fiasco em seu lançamento nos cinemas, em 1986: arrecadou pouco mais de meio milhão de dólares! Uma fiasco, ainda mais considerando que uma bosta completa, como Resident Evil: Apocalypse (que também é um filme de… errrr… zumbis!), faturou, por baixo, uns 50 milhões de dólares!!!

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Para muita gente (eu, inclusive), A Noite dos Arrepios é um verdadeiro clássico da infância, que foi exibido pela primeira vez na Tela Quente pela Globo, no final dos anos 80, e criou uma grande geração de fãs. Infelizmente, esta preciosidade não é reprisada há anos, e até bem pouco tempo atrás estava na grade de programação do canal TNT – conhecido por cortar indiscriminadamente os filmes que exibe. Pela enorme quantidade de adoradores do filme (não só aqui, mas também nos Estados Unidos), é misterioso o fato de ele não ter saído nem em vídeo no Brasil, quando chegou a circular em cópias piratas, na metade da década de 80!

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Então, para finalizar este texto que já está ficando longo demais, é interessante constatar que, mesmo boicotado e hoje desconhecido por toda uma geração (que cresce assistindo bobagens repletas de CGI!!!), A Noite dos Arrepios é um filmaço, um excelente exemplo de como é possível fazer um filme barato com, desculpem o trocadilho, cérebro. Uma verdadeira aula de humor negro no estilo dos posteriores Fome Animal e Shaun of the Dead, que coincidentemente também tratam de ataques de zumbis com muito bom humor. Quem não conhece, nem imagina o que está perdendo. E resta saber, também, quando veremos um novo filme de Fred Dekker. Talvez a resposta para essa pergunta seja um sonoro “nunca“. E aí eu termino este texto do mesmo jeito que comecei: nosso mundo é, definitivamente, um lugar injusto para se viver!!!

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

6 comentários em “A Noite dos Arrepios (1986)

  • 03/11/2017 em 21:47
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    Comprei a coletânea Zumbis no Cinema da versatil na qual veio este filme, que ainda eu não tinha assistido, o filme passou a ser um dos meus favoritos!

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  • 10/09/2017 em 02:34
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    FILMAÇO !
    ” A Noite Dos Arrepios ” de 1986 orgulhosamente está na minha coleção !
    Porque não fazem mais filmes assim ?

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  • 14/05/2016 em 22:29
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    ESSE FILME É UM VERDADEIRO CLÁSSICO.

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  • 29/07/2015 em 10:34
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    É um clássico dos anos 80 e é melhor que muita coisa lançada atualmente. Ainda bem que a Versátil o lançou no Brasil no Box – Zumbis no Cinema, há um preço bem justo para quem é fã de terror.

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  • 03/02/2015 em 11:23
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    tinha que pegar a fita,o Dvd ,e o arquivo desse filme e mandar varias vezes para o Diretor Bruce La Bruce e dizer é assim que se faz um filme deixa suas fantasias para mostrar em outro lugar!!!!!!!!

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  • 11/12/2014 em 20:16
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    É um dos meus filmes favoritos dos anos 80. Na verdade, ele representa tudo o que foi o cinema dos anos 80, buscando a diversão em primeiro lugar.

    Resposta

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