Críticas

Chamas da Morte (1981)

“Não olhe… ele vai vê-lo. Não respire… ele vai ouvi-lo. Não se mexa… Você está Morto!”

Chamas da Morte (1981) (6)

Chamas da Morte
Original:The Burning
Ano:1981•País:EUA, Canadá
Direção:Tony Maylam
Roteiro:Harvey Weinstein, Tony Maylam, Brad Grey, Peter Lawrence, Bob Weinstein
Produção:Harvey Weinstein
Elenco:Brian Matthews, Leah Ayres, Brian Backer, Larry Joshua, Jason Alexander, Ned Eisenberg, Fisher Stevens, Bonnie Deroski, Holly Hunter, Kevi Kendall

No ano de 1981, pelo menos 244 pessoas foram brutalmente assassinadas por psicopatas, das mais diversas maneiras (de gargantas cortadas a machadadas na cabeça). E isso não aconteceu na vida real, mas no mundo do cinema. Naquele ano, nada mais nada menos de 33 filmes com assassinos perseguindo adolescentes – os chamados slasher movies – estrearam nos cinemas americanos. Foi o recorde de produção de slashers e o auge deste subgênero cinematográfico bastante popular até hoje – e principalmente naquela década. Entre as 33 obras lançadas em 1981 (veja mais no texto complementar), algumas se destacaram por diversos motivos: Sexta-Feira 13 Parte 2, além de ampliar o universo do filme que praticamente deu origem à febre dos slasher movies, ainda introduziu o personagem de Jason Voorhees, que faz sucesso até hoje; Halloween 2 transformou o psicopata criado por John Carpenter no imortal personagem de uma lucrativa franquia; Dia dos Namorados Macabro destacou-se pelo criativo visual do assassino (que anda com trajes de minerador e armado com uma picareta)…E, finalmente, The Burning, uma pequena produção independente que bebia diretamente da fonte de Sexta-Feira 13, entrou para a história como um dos mais interessantes e mais sangrentos filmes daquele período.

Não é pouca coisa, considerando que o cinema slasher da época estava calcado principalmente nas mortes violentíssimas – e quanto mais sangue e mortes, melhor. A média dos 33 filmes lançados em 1981 ficava nos 8 assassinatos (incluindo, muitas vezes, o do próprio assassino, ao final da trama). Pois The Burning ultrapassou esta média ao encenar 10 criativos e sanguinolentos crimes contra adolescentes, perdendo apenas em “body count” para obras tipo A Hora das Sombras (Final Exam), que teve 11 mortos, e o recordista Dia dos Namorados Macabro, com 12 vítimas. O diferencial: os 10 assassinatos de The Burning tiveram um especialista na sua concepção, um certo Tom Savini – nome que, obviamente, dispensa maiores apresentações. Savini já era um dos especialistas do gênero nos anos 70, tendo trabalhado em filmes de horror como Deranged (livremente inspirado na vida do serial killer Ed Gein) e Dawn of the Dead, de George A. Romero. Mas transformou-se mesmo em “superstar” ao elaborar as sangrentas cenas de morte do Sexta-Feira 13 original, dirigido em 1980 por Sean S. Cunningham. E foi o sucesso de bilheteria dessa produção de baixo orçamento que provocou o “boom” dos slasher movies. Só em 1980, foram lançados outros 26 filmes do gênero (entre eles, Prom Night – Baile de Formatura e Terror Train); em 1982, mais 27. E a partir daí a produção foi diminuindo até praticamente desaparecer.

Chamas da Morte (1981)

The Burning foi concebido como uma imitação de Sexta-Feira 13, inclusive na ambientação (um acampamento de férias). Porém, em muitos aspectos (desenvolvimento de personagens e violência, por exemplo), The Burning é muito superior ao seu antecessor. A versão “uncut” é mais violenta e sangrenta que o Sexta-Feira 13 original e suas duas primeiras sequências. Méritos, claro, de Tom Savini. Seu envolvimento com The Burning deu origem a duas histórias distintas. A primeira alega que Savini recusou um contrato para trabalhar em Sexta-Feira 13 Parte 2 porque a maioria das cenas de morte da primeira parte tinham sido cortadas pela censura, e ele foi trabalhar em The Burning por terem lhe garantido total liberdade para usar e abusar dos efeitos sangrentos (nos créditos finais, ele até é citado como “designer das sequências de horror“). A outra versão diz que Savini não quis fazer Sexta-Feira 13 Parte 2 porque julgava que seria uma produção sem méritos, um aproveitamento caça-níquel do original (ironicamente, The Burning também o é). Seja qual for a verdade, uma coisa é certa: em The Burning, o homem está inspiradíssimo. As cenas do ataque do psicopata são tão exageradamente sangrentas quanto aquelas que o mesmo Savini fez em Quem Matou Rosemary? (outro slasher movie lançado em 1981).

Muita gente viu The Burning quando ele foi exibido no SBT, em meados dos anos 90. Na época, foi batizado de A Vingança de Cropsy, glorificando o assassino da película. Porém, em VHS, The Burning (cuja tradução literal seria “O Queimado“) virou Chamas da Morte. A frase na capinha reproduzia um famoso diálogo do filme: “Não olhe… ele vai vê-lo. Não respire… ele vai ouvi-lo. Não se mexa… VOCÊ ESTÁ MORTO!“. Nos dias atuais, infelizmente, a fita da extinta FJ Lucas é raridade, e o SBT parou de reprisá-lo. Resta a única solução do download via internet.

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The Burning começa com uma noite no acampamento de férias Blackfoot, onde cinco garotos, revoltados com os maus tratos do zelador do local, resolvem aprontar uma sacanagem para ele. O zelador em questão é Cropsy (Lou David), um alcoólatra e sádico que descarrega suas frustrações agredindo as crianças do local. Aproveitando que ele dorme, um dos garotos entra em sua cabana e coloca uma caveira de mentirinha, coberta de vermes e minhocas reais, com duas velas acesas nas órbitas vazias dos olhos. Quando Cropsy acorda e vê aquilo, toma o maior cagaço – conforme queriam os garotos. O problema é que, no susto, Cropsy derruba a caveira sobre a própria cama, e as velas iniciam um incêndio – tão rápido que ele provavelmente estava dormindo com os lençóis encharcados de querosene! hehehe. Para piorar, uma lata de combustível próxima explode, transformando o pobre zelador em uma tocha humana. A cena faz questão de enfatizar o sofrimento de Cropsy, ao mostrar longos takes em câmera lenta de um dublê se debatendo em chamas. Pena que, neste caso, a câmera lenta evidencie o fato do dublê estar vestindo uma roupa de proteção contra fogo, que só cego não enxerga! Mas após se debater por alguns longos segundos, Cropsy sai rolando ladeira abaixo e cai… tchan-tchan-tchan… dentro de um lago!

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A legenda anuncia que uma semana se passou desde o incidente e estamos no Saint Catherine’s Hospital, para onde Cropsy foi levado após queimar vivo. Um enfermeiro (Mansoor Najeeullah) tenta assustar o novo médico residente (Jerry McGee), falando sobre o paciente recém-chegado à unidade de queimaduras. “Depois que você ver este cara, não vai querer voltar aqui nunca mais“, diz o enfermeiro, continuando: “Ele queimou tão feio que está cozido! Uma porra de Big Mac torrado! Eu preferiria morrer do que viver assim como ele. É um monstro, cara!“. Lentamente, a dupla se aproxima do local onde Cropsy está repousando. Mas assim que o enfermeiro se aproxima, é agarrado pelo braço em carne-viva do queimado, levando ele próprio o maior cagaço do século. Rolam os créditos.

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Após os créditos de abertura, The Burning retoma a história cinco anos depois. Cropsy é levado, numa cadeira-de-rodas, até a saída do hospital, sendo que em nenhum momento vemos de que forma ficou seu rosto. Em off, entram declarações de médicos dizendo frases como: “É uma pena que o enxerto de pele não funcionou“, e “Vai ser difícil voltar a levar uma vida normal, mas você precisa tentar“, e ainda “Controle seu ódio, esqueça seu sentimento de vingança e não culpe aqueles garotos pelo que lhe aconteceu“. Pois talvez Cropsy até tentasse mesmo esquecer o acontecido; entretanto, a nova vida de “Big Mac torrado” lhe é injusta. Saindo do hospital, ele vai direto para onde qualquer homem que passou cinco anos fechado num hospital iria: a zona do meretrício!!! hahahaha. Com o rosto escondido por um chapéu, Cropsy cata a puta mais bagaceira e vai até seu quarto. E pede que façam o programa no escurinho – por que será? Para seu azar, um relâmpago corta o céu e ilumina o rosto deformado do zelador. A puta fica apavorada e pede que ele saia. Aí a sede de sangue de Cropsy torna-se incontrolável: ao invés de virar as costas e ir embora, ele pega uma enorme tesoura de costura sobre a mesa e estripa a prostituta com ela.

Novo corte e agora estamos no acampamento de férias Stonewater, onde dezenas de crianças e adolescentes de todas as idades, meninos e meninas, estão curtindo o verão com jogos de beisebol, natação, brincadeiras, sacanagens e, claro, namoricos. Neste ponto, o espectador já percebe um lado muito interessante da produção: enquanto nos filmes da série Sexta-Feira 13 (salvo a parte 6, que foi feita vários anos depois) o acampamento de férias está sempre vazio, e o alvo do assassino são os monitores, aqui o acampamento está repleto de jovens, e eles é que sofrerão na pele a ira de Cropsy. A ideia fez escola, tanto que dois anos depois foi lançado outro ótimo slasher movie, Sleepaway Camp (ainda inédito no Brasil), onde novamente os jovens de um acampamento de férias são mortos por um assassino ao invés dos monitores.

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O clima da garotada no campo Stonewater rende os melhores momentos, comprovando que é possível, sim, fazer um slasher movie onde você se importe com os personagens. Tanto que o roteiro gasta aproximadamente 45 minutos só na composição dos grupos – os jovens simpáticos, os principais, os “vilanescos“, os monitores, os casaizinhos… -, para só depois colocar Cropsy em cena comandando a matança. Desta forma, o primeiro ato de The Burning lembra uma comédia leve sobre jovens em férias, tipo a série Almôndegas. Inclui até os estereótipos típicos das comédias americanas: o jovem tímido e sem amigos que acaba se transformando em herói, o monitor de acampamento boa-pinta, o garotão que só pensa em sexo, o gordinho que é um verdadeiro “mercado negro“, vendendo de revistas Playboy a camisinhas, e por aí vai…

Logo somos apresentados aos nosso personagens principais. O garotão tímido é Alfred (Brian Backer, que depois apareceria em Picardias Estudantis e Loucademia de Polícia 4, e desde o ano 2000 está sumido do cinema); sem amigos, ele é aquele tipo de garoto com quem todos os outros implicam. Também é um tipo afetado e voyeur, que adora espiar as garotas tomando banho. Seus únicos companheiros são outros nerds tão fracassados quanto ele, tipo Dave (Jason Alexander), o tal gordinho que fornece baixaria aos colegas de acampamento por preços módicos, e Woodstock (Fisher Stevens), um magrela franzino que vive à base de vitaminas – e de masturbação.

O acampamento também tem os personagens mais velhos e experientes. Eddy (Ned Eisenberg, que fez alguns episódios de Law & Order) é um adolescente malandro e mulherengo, que tenta papar todas as menininhas do local, principalmente a bela e pura Karen (Carolyn Houlihan); já o insuportável Glazer (Larry Joshua, hoje no seriado C.S.I.) é o loirinho nazista e valentão, que só pensa em dar porrada nos nerds e quer desesperadamente perder a virgindade com a loirinha safadinha do acampamento, a linda Sally (Carrick Glenn, que infelizmente parou de atuar em 1984). Para controlar toda esta turma, há apenas dois monitores: Todd (Brian Matthews, cujo último crédito foi o de dublador no videogame “Samurai Showdown“!!!) cuida dos garotos, e Michelle (Leah Ayres) é a responsável pelas meninas.

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Enquanto Cropsy fica apenas circulando pela área do acampamento sem dar as caras (e isso leva uns bons 40 minutos), muita coisa acontece, mas como se estivéssemos assistindo a uma comédia estilo Porky’s, e não a um slasher movie. Alfred, por exemplo, vai espiar Sally tomando banho e acaba tomando uns catiripapos de Glazer – porém é defendido por Todd, que tenta proteger o franzino Alfred durante a maior parte do filme, assumindo uma espécie de lugar de “irmão mais velho“. Karen resiste às investidas de Eddy, que não aguenta mais a moça se fazendo de difícil. Alfred, associado a Dave e Woodstock, arma uma para Glazer, atingindo o valentão xarope com um tiro de arma de dardos bem na bunda, enquanto ele se exibe para as garotas. hahahaha. E assim a coisa vai. O clima de horror só começa a esquentar quando o grupo se divide, e alguns dos jovens embarcam numa aventura, a bordo de canoas, rio abaixo, até um local chamado “Devil’s Creek“, onde ficarão três dias dormindo ao relento no meio da floresta, isolados da civilização. Já previu o que vai acontecer, não é?

O começo da excursão até é divertido. Na descida do rio com as canoas, os jovens ficam se jogando água com os remos e rindo alucinadamente. Até que anoitece e Todd reúne a garotada ao redor da fogueira, bem no meio da floresta, para contar a assustadora “lenda urbana” sobre Cropsy, o zelador de um acampamento que ficava a alguns quilômetros dali. “Cropsy era um sádico, tinha grande prazer em machucar e assustar as pessoas. Ele adorava sua tesoura de jardineiro, do tipo de lâmina bem longa e fina. Carregava com ele o tempo inteiro“, conta Todd, para em seguida narrar o episódio que vimos no início do filme (mais tarde descobrimos que o próprio Todd era um dos garotos responsáveis pela sacanagem que terminou tostando Cropsy). A história encerra com o tradicional “Seu corpo nunca foi encontrado“, e então Todd fala a frase da capinha do VHS, pausada e dramaticamente, palavra por palavra: “Não olhe… ele vai vê-lo. Não respire… ele vai ouvi-lo. Não se mexa… VOCÊ ESTÁ MORTO!“. O clima está preparado e a garotada leva o maior susto quando um sujeito mascarado aparece sacudindo um enorme facão. Claro que não é Cropsy, e sim Eddy, fazendo a brincadeira infame tradicional neste tipo de filme… hehehehehe.

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A noite é longa e o clima esquenta entre Glazer e Sally – ela, virgem, fica se fazendo o tempo todo, querendo que sua primeira vez seja especial. Já Eddy se enfurece quando Karen se recusa a transar pela décima vez. Eles estão tomando banho de lago. Quando Karen afasta Eddy, o rapaz se enfurece e grita com a moça, que é obrigada a ir embora sozinha. Enquanto recolhe suas roupas espalhadas pela floresta, Karen se transforma na primeira vítima de Cropsy, que abre sua garganta de orelha a orelha utilizando a afiada lâmina da sua tesoura de jardineiro. A partir de então, a contagem de cadáveres começa. Cropsy dá um fim nas canoas dos garotos, deixando-os isolados naquela região da floresta para facilitar o “serviço“. Para piorar, ninguém acredita que a “lenda” sobre Cropsy é real, dando ao assassino carta branca para fazer o que quiser com sua longa tesoura de jardineiro.

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É quando The Burning atinge o seu ápice, com a famosa “cena da jangada“, em que o psicopata deformado ataca selvagemente, mutila, decepa, corta, pica e esquarteja cinco jovens que estão numa jangada tentando conseguir ajuda – mas que, por azar, chegam muito perto de uma canoa abandonada onde Cropsy está escondido. Contando com os fantásticos efeitos especiais de Tom Savini e a brilhante edição, esta cena é um primor de tensão e brutalidade, digna de ser estudada e admirada com a mesma precisão da famosa “cena do chuveiro” do clássico Psicose: são em torno de 30 takes rápidos, onde vemos primeiro Cropsy se erguendo da canoa onde estava escondido (apenas um vulto enegrecido, contra a luz), e depois cenas grotescas da mutilação dos jovens, entrecortadas com momentos em que a tesoura de jardineiro abre e fecha fazendo jorrar sangue. Tem de tudo um pouco: dedos cortados, gargantas furadas, furos no peito, cortes na cabeça… Até que, em menos de 30 segundos, aqueles cinco jovens cheios de vida estão reduzidos a pedaços, e um braço sem vida pende da jangada, jorrando sangue para dentro da lagoa. Uma cena muito bem dirigida e executada, grotesca e assustadora, que consegue transmitir ao mesmo tempo toda a selvageria do assassino e toda a fragilidade dos pobres garotos esquartejados. O talho aberto a tesourada na testa de uma menininha é tão realista que chega a dar calafrios! Só por esta cena, The Burning já merece ser visto e revisto. Até porque em nenhum outro filme, nenhum mesmo, um psicopata mata tanta gente ao mesmo tempo e de forma tão feroz – lembra que o Jason, por exemplo, prefere perseguir suas vítimas uma a uma?

Infelizmente, a fita VHS lançada no Brasil pela FJ Lucas está bastante cortada, principalmente nesta clássica cena da jangada (foram suprimidos takes da enorme lâmina da tesoura penetrando o pescoço de um garoto e decepando os dedos de outro). Também sumiram alguns segundos no ataque à prostituta do começo (na fita, ela leva uma única punhalada com a tesoura, enquanto na versão sem cortes Cropsy enfia e torce a tesoura, fazendo jorrar jatos de sangue do peito da mulher), na cena em que Karen é degolada e em outros momentos de violência mais para o final. Ou seja: mutilação total, pior do que a realizada por Cropsy – a tesourinha da censura sempre foi mais mutiladora e destruidora do que qualquer outra, mesmo a tesoura de jardineiro do psicopata… No total, a versão lançada em VHS no Brasil tem 45 segundos a menos nas cenas de violência. Quer ver a cena da jangada na íntegra? Então acesse este link e faça o download do arquivo da dita cuja, em formato para Real Player. Vale a pena.

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Mesmo sendo um slasher movie, o tipo de filme de horror mais previsível da história do cinema, The Burning tem vários méritos. Além de todos os que eu já citei anteriormente, como a história envolvente, os personagens carismáticos e a violência explícita, há até uma tentativa de contornar alguns clichês do gênero: não há, por exemplo, uma garotinha virgem e inocente para ser perseguida pelo assassino, e sim um garotinho virgem e inocente (Alfred). Nem existe a necessidade de Cropsy matar todos os personagens secundários; pelo contrário, no final um montão de gente sobrevive aos ataques do assassino. A maior parte da trama se passa à luz do dia, e não à noite, e a encenação da trama “jovens em férias” é muito bem realizada e realista, incluindo até uma cena de sexo (calma pessoal, nada de muito explícito) e de frustrada perda da virgindade que parece de verdade. Embora alguns personagens sejam um tanto esteriotipados, a química entre eles é muito boa – até acreditamos que são amigos, namoradinhos, etc. Eles fazem exatamente o que faríamos se estivéssemos de férias em um grupo de amigos, e suas ações nunca soam tão artificiais, algo que é muito, mas muito difícil de ver em filmes de horror, ainda mais em slasher movies.

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Ao contrário do que acontece na série Sexta-Feira 13, também, não há atores de 23 a 26 anos interpretando adolescentes, e sim uns garotos e garotas realmente jovens, na faixa dos 18 anos para baixo. Mesmo assim, The Burning não tem a menor vergonha na cara de mostrar os jovens em situações de extrema violência ou transando – algo que seria considerado MUITO politicamente incorreto hoje em dia. Alguns sites da internet alegam que a gatinha Carrick Glenn (Sally) até era menor de idade (teria apenas 16 anos, o que nunca foi confirmado) ao fazer sua cena de topless no chuveiro, e ela ainda aparece numa cena de sexo simulado minutos depois; outra que dá o ar da sua graça é Carolyn Houlihan (Karen), que na cena do banho de rio aparece completamente pelada, frente e verso!

Como vários outros slasher movies do período, este também serviu de laboratório para o surgimento de novos talentos. Era comum que alguns diretores e atores de primeira linha começassem a “aparecer” em Hollywood através de produções do gênero. John Carpenter, por exemplo, viu sua carreira subir de forma meteórica após o sucesso estrondoso de Halloween (que ainda revelou Jamie Lee Curtis). Sexta-Feira 13 fez surgir o galã Kevin Bacon, que no filme era apenas um personagem secundário. E há outros menos conhecidos, como Campsite Massacre/The Final Terror (1981, inédito no Brasil), que começou a chamar a atenção para o trabalho do diretor Andrew Davis (de O Fugitivo) e dos atores Daryl Hannah e Joe Pantoliano; Mortuary (lançado no Brasil com o título Embalsamado), que tinha Bill Paxton no elenco, e Shadows Run Black (inédito no Brasil), estrelado por… um jovem Kevin Costner!!!

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Com The Burning não foi diferente: o filme é um verdadeiro festival de talentos; alguns, fugazes, já deixaram de ver a luz da ribalta, enquanto outros continuam brilhando. É o caso de Jason Alexander, que interpreta o gordinho Dave, e que depois de adulto (e careca) fez sucesso como o George Costanza da série Seinfield (e The Burning é sua estreia cinematográfica). Holly Hunter, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz por seu desempenho no chatíssimo O Piano (de 1993), também estreou em The Burning interpretando Sophie, uma das meninas do acampamento, um papel ingrato com meia dúzia de falas. E Fisher Stevens, que interpretou Woodstock, é mais desconhecido do público, mas apareceu em vários filmes – foi, por exemplo, o vilão de Hackers – Piratas de Computador, e esteve até na produção nacional O Que É Isso Companheiro?. Ironicamente, são todos personagens secundários; os principais de The Burning (Brian Matthews, Leah Ayres e Brian Backer) até tiveram seus momentos durante os anos 80, porém não foram muito mais longe.

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Na parte técnica, The Burning também revelou muita gente boa e conhecida. O maquiador Tom Savini dispensa comentários. Se ele já era conhecido graças a Sexta-Feira 13, a maquiagem de The Burning transformou-o definitivamente em ídolo. Em uma entrevista recente, Savini conta sobre sua contratação para fazer The Burning: “O produtor me chamou e disse que queria as mesmas coisas que eu fiz em Sexta-Feira 13. E, quando o filme ficou pronto, ele me mandou para várias entrevistas, como se eu fosse o verdadeiro astro do filme ou algo do gênero. Foi Sexta-Feira 13 que me deixou famoso!“. Cropsy, o grande vilão de The Burning, é uma das melhores criações de Savini nos seus primórdios como maquiador: durante todo o tempo de projeção, vemos apenas um vulto vestido de preto ou as mãos segurando a enorme tesoura – ou, ainda, a tradicional “visão em primeira pessoa“, quando a câmera “olha” pelo ângulo do assassino. Mas nos 10 minutos finais, quando o filme finalmente revela o rosto de Cropsy, o espectador até entende o porquê da fúria do zelador (e o porquê de ele ter se transformado num monstro). A face queimada do vilão dá dez a zero em qualquer uma das carrancas por baixo da máscara de Jason, na interminável série Sexta-Feira 13

Já o diretor Tom Maylam, apesar de fazer um trabalho muito bom, não teve maiores chances no cinema: filmou um documentário sobre a Copa do Mundo em 1986, depois fez O Destruidor (aquela cópia de Alien com Rutger Hauer) em 1992, e então sumiu do mapa. Atualmente, dirige filmes publicitários para empresas automobilísticas. Por outro lado, o editor de The Burning, que mostrou todo seu talento na espetacular cena da jangada, resolveu virar diretor. Seu nome é Jack Sholder, e no ano seguinte ele estreou como cineasta ao dirigir Alone in the Dark (relançado no Brasil em DVD com o título Sozinho no Escuro), estrelado por Donald Pleasence e Jack Palance. Mais tarde, também fez A Hora do Pesadelo 2, O Escondido e Meia-Noite e Um. Sua carreira morreu em 2000, quando foi um dos diretores envolvidos na bomba Supernova (que teve que ser finalizada por Walter Hill usando pseudônimo). Já a trilha sonora de The Burning é assinada pelo inglês Rick Wakeman, tecladista da banda Yes, numa das suas poucas trilhas sonoras para o cinema – bastante inspirada, embora ultrapassada no seu uso de sintetizador, uma das “maravilhas” dos anos 80.

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The Burning ainda conseguiu a façanha de ser o primeiro lançamento de uma pequena produtora independente chamada… Miramax Films! Exatamente, a mesma produtora que nos anos 90 tornou-se respeitadíssima e oscarizada ao produzir obras como Pulp Fiction, O Paciente InglêsKill Bill. Os irmãos Harvey e Bob Weinstein, que comandavam a Miramax (deixaram a produtora no ano passado para criar uma nova), tinham na época de The Burning, respectivamente, 29 e 27 anos, sendo que Harvey ainda ajudou a escrever o roteiro. Eles eram tão inexperientes no ramo (Harvey era promotor de shows de rock antes de se aventurar no cinema) que a mamãe da dupla, Miriam Weinstein, teve que dar uma mão e aparece creditada como “assistente de produção“! hahahahahaha. Quem diria que de um slasher movie feito na onda do sucesso de Sexta-Feira 13 surgiria uma das principais produtoras de Hollywood dos tempos atuais? Numa entrevista ao site Ain’t It Cool News, conduzida por ninguém menos do que Quentin Tarantino (!!!), Harvey Weinstein conta várias anedotas sobre os bastidores, inclusive o fato de ter brigado com o diretor Tom Maylam e finalizado ele mesmo o filme (justificando o esquisito “Created by Harvey Weinstein” que aparece nos créditos); ele lembra, também, que a jovem Holly Hunter (então uma garota de 23 anos) apareceu para fazer seu teste e leu um longo monólogo de “Lady Macbeth“, ficando naturalmente frustrada quando os produtores disseram que ela só tinha uma frase no filme inteiro. hehehehe

E uma curiosidade: The Burning tem uma cena muito parecida com Sexta-Feira 13 Parte 2, e os dois foram filmados praticamente ao mesmo tempo, então não se sabe ao certo quem copiou de quem (Sexta-Feira 13 Parte 2 estreou nos cinemas em 1º de maio de 1981 e The Burning na semana seguinte, em 8 de maio). É a cena em que Todd, o monitor do acampamento, reúne a garotada ao redor da fogueira, à noite, para contar a lenda de Cropsy. Pois existe um momento idêntico em Sexta-Feira 13 Parte 2, quando Paul (John Furey), que quer reabrir o acampamento Crystal Lake, reúne os outros monitores ao redor da fogueira, à noite, para contar a lenda de Jason. Surpreendentemente, as duas cenas também encerram da mesma forma, com alguém aparecendo fantasiado para dar um susto na galera! Vazamento de informações ou espionagem industrial? Quem criou e quem copiou? Mistérios… De qualquer forma, The Burning em momento algum tenta esconder sua proposta de ser um subproduto de Sexta-Feira 13. Tanto que os cartazes de cinema da época do lançamento diziam: “Hoje NÃO é sexta-feira… Mas se você for ver este filme sozinho, jamais será o mesmo novamente!“. hahahahaha

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Se você gosta de slasher movies, The Burning tem tudo para ser o filme da sua vida: é cheio dos clichês que todo fã deste sub-gênero adora, tem a dose certa de mulher pelada e muita violência – além de personagens simpáticos e realistas. Se você odeia slasher movies, dificilmente vai mudar de ideia vendo The Burning, pois é uma produção que contém tudo do pior deste tipo de fita, do argumento pífio à falta de surpresas – estas são substituídas por mortes criativas de tanto em tanto tempo. Mas, mesmo que odeie profundamente os slasher movies, dê uma chancezinha a The Burning. Nem que seja só pela cena da jangada. O filme está repleto de tamanho sentimento de nostalgia que parece proporcionar um saudável retorno aos anos 80, quando ninguém falava em porqueiras como CGI, PG-13 e Uwe Boll. hehehehehe

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4 Comentários

  1. Cristiano

    Eu gosto deste filme, é muito bom, eu tenho ele.

  2. The Burnining é um dos meus filmes favoritos! Divertido, violento, ágil. Me admira não ter ganhado sequências, mas é melhor assim hehe! Excelente texto!

  3. Gilson bloch

    só louco pra assistir esse filme , pois na década de 80 eu não tinha televisão , era um sofrimento só quando via a chamada desse filme na tv do vizinho..

  4. Landerson

    A minha única reclamação do Boca do Inferno é o fato da maioria dos textos aqui publicados serem bem curtos, deixando aquele gostinho de quero mais quando trata de determinados filmes. Por isso, eu gosto bastante quando publicam um texto do Felipe M. Guerra porque além de serem grandes e informativos, também são muito divertidos e sinceros. Não é um crítico almofadinha escrevendo; é só um cara normal que adora cinema. Realmente fantástico.

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