Críticas

Monster – A Ressurreição do Mal (1986)

Aquele filme dos irlandeses devorados por um monstrão de borracha…

Monster (1986)

Monster - A Ressurreição do Mal
Original:Rawhead Rex
Ano:1986•País:Inglaterra, Irlanda
Direção:George Pavlou
Roteiro:Clive Barker
Produção:Kevin Attew, Don Hawkins
Elenco:David Dukes, Kelly Piper, Niall Toibin, Ronan Wilmot, Niall O’Brien, Hugh O’Conor, Cora Lunny, Heinrich Von Schellendorf, Noel O’Donovan, John Olohan

Ele é anterior a Deus e anterior à civilização; na verdade, foi Ele quem provavelmente iniciou todos os boatos sobre a existência do demônio. Ele foi e é a criatura mais depravada e cruel que um dia habitou a face do planeta, um hediondo monstro devorador de bebês, cuja cabeça se assemelha a carne crua, motivo pelo qual ganhou a alcunha de Rawhead (literalmente, “Cabeça Crua”), seguida por um Rex (nada a ver com cachorros; é apenas “rei”, em latim). Rawhead Rex é um gigante inteligente, com três metros de altura, que vive e respira violência; seus braços são três vezes maiores que os de uma pessoa normal, sua cabeça lembraria a Lua, se não fossem os dois enormes e brilhantes olhos vermelhos em brasa; e sua boca… Ah, sua boca – tão grande que, quando Ele escancara as fileiras duplas de mandíbulas com dentes afiadíssimos, é como se a própria cabeça estivesse se abrindo ao meio. Assustador, não?

Ou pelo menos devia ser, e era, no conto “Rawhead Rex”, do celebrado escritor inglês Clive Barker, e no roteiro de Monster – A Ressurreição do Mal (no original, o nome do conto: apenas “Rawhead Rex”), roteiro este assinado pelo próprio Barker para uma produção barata filmada por George Pavlou em 1986.

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Infelizmente, a criatura hedionda criada por Barker no seu conto de 1984 (publicado na coletânea “Livros de Sangue – Volume 3”), e depois transposta para um roteiro cinematográfico pelo punho do próprio autor, transformou-se numa piada quando saiu do mundo das palavras para o mundo do cinema. Pois aquele monstro apavorante descrito no primeiro parágrafo deste artigo se transformou num instrutor de esqui alemão de mais de dois metros de altura (Heinrich von Schellendorf), vestindo uma roupa de couro negra cheia de correntes (pré-Hellraiser, dirigido pelo próprio Clive Barker em 1987), e com uma face monstruosa, mas totalmente imóvel – na verdade, uma máscara de látex inexpressiva -, fazendo com que o “rei Rawhead” passe o filme inteiro com a bocarra e os olhos abertos!!!

A triste concepção da criatura é mais culpa do orçamento irrisório do que do trabalho dos técnicos em efeitos especiais. Mas o maior culpado pelo desastre ainda é o diretor Pavlou, que, tendo um monstro ridículo nas mãos, insiste em mostrá-lo o tempo todo, inclusive em closes, ao invés de escondê-lo nas trevas e nas sombras para que o espectador só pudesse vê-lo de relance. Enfim, bem diferente da aterrorizante descrição da introdução desta análise (tirada do próprio conto de Barker), o Rawhead Rex visto no filme é ridículo e só provoca gargalhadas. Por isso mesmo, é a principal atração desta produção B e trash não-intencional, uma verdadeira comédia de horror, embora humor não fosse exatamente o objetivo dos realizadores…

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Para começo de conversa, “Rawhead Rex“, tanto filme quanto conto, não tiveram sorte em relação à tradução para o português. O conto, acredite ou não, teve seu título traduzido para “A Cabeça Descarnada” no Brasil!!! E olha que podia ser pior, considerando que, na versão em espanhol, chama-se “Rex, El Hombre-Lobo“, dando a falsa impressão de que Rawhead Rex é um simples lobisomem. Já quando o filme foi lançado em VHS, pela extinta VTI, algum jumento “traduziu” o título usando uma palavra em inglês, sabe-se lá por que motivo, e assim “Rawhead Rex” virou Monster – A Ressurreição do Mal. Se fosse “Monstro – A Ressurreição do Mal” ou “Rawhead Rex – A Ressurreição do Mal“, até vai… Mas MONSTER???? Por quê??? Justamente para não compactuar com a ideia de jerico, a partir de agora passarei a chamar o filme pelo título original, Rawhead Rex.

A obra acabou tornando-se cult por diversos motivos. O primeiro é a ruindade geral da produção (no YouTube tem até uns vídeos amadores onde alguns malucos recriam cenas do filme só de gozação!!!). O segundo é que, em meio à ruindade dominante, há algumas boas ideias de Barker, que argumenta que seu roteiro original foi totalmente distorcido pelo diretor e pelos produtores. Finalmente, quando Rawhead Rex passou no extinto Cine Trash, da Bandeirantes (ainda com o medonho título MONSTER…), acabou virando febre no Brasil também. Tanto que é muito comum encontrar, nos fóruns internet afora, pessoas desesperadas por saber o nome “daquele filme onde o monstro batiza o padre com mijo” – sim, existe tal cena em Rawhead Rex, e ela é realmente o ponto alto e mais memorável da película! Agora imagine o ponto baixo e menos memorável…

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Produzido por duas empresas desconhecidas e parcialmente bancado pela Empire Pictures (misteriosamente, o nome do produtor-executivo Charles Band foi retirado dos créditos!), Rawhead Rex aparenta ter custado menos que um salário mínimo, e o resultado pode ser visto na tela – e não apenas nos efeitos bagaceiros da criatura. Para você ter uma ideia, os caras usaram até efeitos especiais pré-históricos de rotoscopia (não vou ficar explicando o que é isso, mas saiba que é MUITO antigo; procure no Google para saber mais).

O filme começa no vilarejo de Rathmore, no interior da Irlanda, onde um casal de norte-americanos (claro!) está zanzando há um mês e meio em busca das raízes de sua família, e também de material para um livro sobre antigas igrejas e locais de cerimônias pagãs. O escritor de primeira-viagem é Howard Hallenbeck (David Dukes, que morreu logo após gravar suas cenas na minissérie Rose Red, de 2002, escrita por Stephen King). Ele está acompanhado pela esposa Elaine (Kelly Piper) e pelos filhos pequenos Minty (Cora Lunny) e Robbie (Hugh O’Connor, recentemente visto, já crescido, em Guerreiros do Inferno, de Michael J. Bassett).

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Howard fica particularmente curioso por uma estranha igrejinha com um colorido vitral representando o que parece ser um demônio muito antigo – e a luz do sol, refletida pelo vidro vermelho nos olhos da bizarra figura, gera dois raios avermelhados no interior do santuário. Abaixo da figura, lê-se a mensagem: “A Morte teme aquilo que ela não pode ser“.

Paralelamente, o fazendeiro Thomas Garron (Donal McCann) tenta arrancar um enorme obelisco de pedra encravado no meio de suas terras, e que aparentemente está atrapalhando o cultivo de batatas – vá você entender porque o sujeito nunca tentou fazer isso antes, coisa que o conto explica, mas o filme não. Mesmo com o auxílio de uma alavanca e do trator conduzido por um vizinho, o monumento não mexe do lugar. Garron resolve desistir, manda os amigos embora e, quando tenta arrancar sozinho a alavanca enterrada no solo próximo ao obelisco, percebe que algo está se mexendo POR BAIXO dele. Dito-e-feito: uma tempestade surge no horizonte, o obelisco desmorona e, das profundezas da terra, surge o espectro abominável (neste caso, “abominável” por causa da podreira dos efeitos especiais) de Rawhead Rex, que faz do pobre Garron sua primeira vítima.

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Ao mesmo tempo em que a criatura se liberta, uma estranha energia parece ser liberada no interior daquela igreja que tanto interessou ao escritor norte-americano. O sacristão Declan O’Brien (Ronan Wilmot) é atraído para o altar, e, ao tocá-lo com uma das mãos, recebe uma descarga de energia que o faz “enxergar” o mundo de Rawhead Rex (ou pelo menos era assim no conto; no filme, vemos apenas o sacristão se contorcendo enquanto é bombardeado por feias imagens sem nenhuma lógica). Quando finalmente consegue tirar a mão do altar, Declan fica transformado pela experiência: torna-se o primeiro devoto da ressuscitada e maligna criatura.

Ansioso por morte e destruição após tanto tempo enterrado vivo, o monstruoso Rawhead Rex inicia uma série de assassinatos, inicialmente na zona rural, nas fazendas próximas ao local de onde foi despertado, como a casa dos Nicholson. Embora o marido, Dennis (John Olohan), seja morto sem piedade no celeiro, a esposa, Jenny (Eleanor Feely), é perseguida pelo interior da casa e, na hora H, poupada pela criatura por estar grávida – o motivo nunca fica explicado no filme, mas no conto sim. Arrastando o cadáver de Dennis para um futuro lanchinho, Rawhead retorna para a segurança do interior da floresta.

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Depois de um novo ataque no acampamento de trailers próximo à floresta, a polícia é acionada para investigar. E Howard resolve recolher a família e voltar a Dublin. Mas, no caminho, a pequena Minty pede para fazer xixi. O casal desce do carro com a menina, deixando Robbie no banco de trás, e o garoto se transforma na nova vítima do faminto monstro. De longe, o escritor vê aquele vulto abominável aproximando-se do veículo, mas nada pode fazer para impedir que seu filho seja morto e arrastado para dentro da floresta por Rawhead. Agora, porém, a coisa fica pessoal. E o pai vingativo resolve dar um fim na criatura ele mesmo.

Rawhead Rex é a típica história de monstro à solta numa cidadezinha, sem tirar nem pôr. Basicamente, algum idiota liberta a criatura de seu sepulcro e ela passa o filme todo matando vítimas que estão sozinhas ou fazendo bobagens (do tipo namorar à noite no meio da floresta). Até chegar o momento em que o herói, após sofrer uma grande perda para o monstro, resolve combatê-lo por conta própria. E assim acontece, até a conclusão bastante fraca e previsível – especialmente a última imagem.

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O problema é que o roteiro e o conto original de Clive Barker não eram apenas uma história de monstro à solta: eram muito mais ricos e interessantes do que isso, mas o diretor e os produtores preferiram se ater aos toques “exploitation” – sangue e violência.

A violência, claro, foi quintuplicada em relação ao conto de quarenta e poucas páginas. Entre as cenas que não existiam no texto, está um segundo ataque de Rawhead Rex ao camping, desta vez virando trailers com as próprias mãos, provocando explosões e decepando mais algumas cabeças. É neste momento que acontece uma das cenas de nudez gratuita mais absurdas da história do cinema: o marido de uma mulher agarrada pelo monstro tenta salvá-la das garras da criatura segurando-a pelo seu vestido, que obviamente rasga, exibindo os belos peitos da moça. Provavelmente um dos produtores disse: “Está faltando uma cena com mulher pelada nesse filme“, e o diretor Pavlou filmou tal aberração apenas para fechar a conta. Outra aberração é a cena em que um casal foge de mãos dadas pela floresta, até que a moça pára e percebe que está segurando apenas a mão decepada do namorado!!!

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Vale a pena contar um pouco da história dos bastidores para que o leitor saiba como Clive Barker foi parar no meio dessa verdadeira furada. Em 1985, quando era apenas um escritor inglês de contos de horror pouco conhecido fora da Inglaterra, ele foi contatado por alguns produtores de cinema interessados em fazer filmes de terror de baixo orçamento. Como sempre se interessou pela Sétima Arte, e queria muito entrar nesse mundo de alguma forma, Barker aceitou o convite para escrever o roteiro de uma produção barata chamada Underworld que no Brasil virou Subterrâneos – A Revolta dos Mutantes, dirigida pelo mesmo George Pavlou um ano antes, em 1985. Foi um trabalho original, sem inspiração em nenhum de seus contos, e o elenco contava com gente boa como o falecido Denholm Eliott e a atriz Miranda Richardson.

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Entretanto, já na sua estreia no show-business, o autor percebeu que as coisas não seriam fáceis: o roteiro foi totalmente mudado, alega Barker. “Conheci George Pavlou num jantar e conversamos sobre filmes. Ele queria dirigi-los e eu queria escrevê-los. Parecia um time perfeito, a base do que poderia ser uma bela união, então aceitei a proposta. Mas, no fim, houve uma clara confusão em relação ao que o filme [Subterrâneos] realmente era. Eles me disseram que queriam um filme de horror, mas depois tiraram todo o horror! Foi um grande choque quando escrevi meu primeiro roteiro e percebi que até o gato do estúdio era mais importante que eu“, relatou o escritor, numa entrevista à revista Fangoria em junho de 1986. Quando Barker viu o filme pronto e foi reclamar com os produtores, eles responderam: “Nós não entendemos direito e não ficou um bom filme, mas vai ser melhor da próxima vez. Transforme ‘Rawhead Rex’ num roteiro para nós!“.

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Na sua ingenuidade – e porque precisava MUITO de dinheiro naquela época, argumenta -, Barker havia vendido os direitos de cinco dos seus contos para os mesmos produtores, entre eles “Rawhead Rex“. E, segundo narrou no documentário The Art of Horror, de Christopher Holland: “Eu esperava que as coisas fossem melhores, pois iria escrever para eles o roteiro de um dos meus contos preferidos. Francamente, eu precisava de dinheiro naquele tempo, então escrevi um tratamento para o roteiro e foi a última vez que ouvi falar nisso. Nunca fui convidado para visitar o set, nunca vi a passagem para Dublin que eles me prometeram, e ainda escutava notícias pouco animadoras sobre a forma como o projeto estava sendo desenvolvido. E o filme, mais uma vez, ficou horrível“, lamentou.

Aliás, o autor quase teve um treco quando soube que o local da trama havia sido mudado, já que o roteiro, como o conto, se passava na Inglaterra, em Kent, uma pequena cidade a alguns quilômetros de Londres, para fazer o contraste de uma criatura antiqüíssima à solta num mundo moderno, e bem perto da maior cidade inglesa!

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De certa forma, o péssimo resultado da “colaboração” entre o mentecapto Pavlou (que nunca mais dirigiu outro filme, além de uma comédia obscura de 1991) e Barker foi ótimo para os fãs de horror. Pois além de esta colaboração gerar dois engraçados trash movies involuntários, deixou o escritor tão furioso com estúdios e cineastas que não conseguiam adaptar seus textos que ele mesmo resolveu dirigir seu próximo projeto, já no ano seguinte – 1987. E o resultado todo mundo conhece: o clássico Hellraiser, um dos filmes mais importantes e marcantes da década, baseado na história “The Hellbound Heart“, que ele havia publicado em 1986. Neste, Barker fez tudo sozinho, inclusive criou e supervisionou a maquiagem dos cenobitas, já que não pôde salvar a versão cinematográfica de seu Rawhead Rex do mico. Agora, imagine o que sairia de Hellraiser se fosse novamente George Pavlou adaptando o roteiro de Barker… Cruz credo!!!

E do “Rawhead Rex” de Barker sobrou apenas aquele monstrão ridículo, que Pavlou fez questão de filmar em detalhes, sem se dar conta da pobreza da maquiagem da criatura. Um dos grandes momentos é justamente um close na napa do monstro, que revela detalhadamente (e acidentalmente) a verdadeira boca do ator por baixo da bocarra de látex!!!

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Infelizmente, o conto do autor era infilmável da maneira como foi concebido. Claro que um diretor imbecil, como Pavlou, só enxergou a parte do monstro estripando pessoas, mas o texto vai além disso. Na verdade, a forma como a história se desenvolve jamais poderia ser adaptada para o cinema, a não ser que houvesse um narrador ou – e isso seria muito ridículo – o monstro falasse. Por exemplo: no conto, descobrimos que Rawhead Rex é um monstro mais antigo do que Deus e do que a civilização, e o choque cultural do despertar da criatura em um mundo contemporâneo, que não lhe pertence, fica claro na narrativa. Ao ver um automóvel pela primeira vez, por exemplo, o Rawhead do conto ficava deslumbrado com a maneira como os frágeis seres humanos conseguiam dominar uma criatura tão grande e esquisita (acreditando que o carro era um animal selvagem). No filme, quando vemos o monstro fazendo um carro de polícia capotar, não há um mínimo dessa riqueza narrativa.

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Mas o pouco que ficou dos “toques Barkerianos” no filme já fazem de Rawhead Rex uma produção B minimamente acima da média. A relação entre o monstro pagão e a igreja, por exemplo, é bastante interessante, principalmente quando o sacristão Declan enlouquece e passa a adorar Rawhead como se fosse seu verdadeiro Deus. Inclusive a cena mais marcante é aquela em que o monstro “batiza” Declan de maneira nada higiênica, com um jato de sua própria urina – um momento nojento e inesperado, que o próprio Barker achou que iam cortar do filme, embora no conto a situação seja ainda mais bizarra, pois o sacristão também bebe o mijo da criatura!

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Um detalhe que não havia no conto, e que pessoalmente achei legal no filme, é a charada envolvendo os vitrais da igreja, que o escritor Howard precisa decifrar para descobrir como Rawhead foi vencido e aprisionado séculos antes.

Já outros detalhes autorais de Barker ficam apenas sugeridos, e só serão compreendidos após a leitura do conto. Por exemplo: por que o monstro não matou a gestante Jenny? No conto, a moça se chama Gwen. Quando Rawhead vai atacá-la, ele percebe que ela tem o “ciclo de sangue“, e não pode matá-la porque em breve dará vida a uma futura vítima (no texto fica bem claro que o monstro prefere se alimentar de bebês recém-nascidos e crianças, e não necessariamente de adultos, mas no filme não há essa distinção da idade das vítimas). Outra coisa que o filme não explica é o sentido do símbolo de pedra capaz de destruir o indestrutível Rawhead, e porque ele deve ser usado apenas por uma mulher. Para saber, leiam o conto!

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Infelizmente, o filme não é tão gore quanto deveria ser, já que todos os ataques de Rawhead são “off-screen“, com exceção de um deles, já no final, quando o monstro rasga a jugular de um infeliz com sua bocarra e jatos de sangue jorram generosamente. De resto, apesar de alguns corpos esquartejados e cabeças decepadas aparecerem com regularidade, não há nada muito diferente do que outros filmes da época mostravam mais e melhor – lembre-se que Rawhead Rex é da mesma época de Reanimator e A Volta dos Mortos-VIvos, ambos muito mais sangrentos e exagerados.

Infelizmente, também, não há como saber quanto do filme é “culpa” de Barker sem conhecer as modificações que foram feitas no roteiro. O escritor alega que o diretor e os produtores mudaram tudo ao seu bel-prazer, inclusive o final. E eu realmente duvido que ele tenha escrito diálogos como aquele em que um jornalista pergunta ao inspetor Gissing se há alguma relação entre as vítimas, e o policial responde: “Sim, estão todos mortos“.

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Com tantos defeitos, como recomendar esta produção paupérrima a alguém? Ora, primeiro porque são 89 minutos de diversão garantida, por mais que o filme tivesse potencial para ser algo muito maior e melhor. O monstro provoca gargalhadas toda vez que aparece em cena, e nunca convence ou assusta: é exatamente o que parece, um grandalhão com uma máscara de látex grunhindo e “atacando” pessoas. Também tem uma das piores cenas de acidente automobilístico já filmadas: o carro capota de lado, em baixíssima velocidade, e ouvimos um som, tipo “Arghhh!“, para atestar que o motorista morreu, embora ninguém pudesse morrer com o carro simplesmente tombando àquela velocidade!!!

Por outro lado, as paisagens irlandesas são muito bonitas e dão um toque diferente à produção, além do que sempre é um alívio ver histórias de horror com personagens adultos, sem adolescentes bobalhões. Embora o ritmo caia aqui e acolá, o filme não me deixou chateado como algumas bobagens recentes, que só consegui assistir acionando a tecla fast foward. Logo, esquecendo os (muitos e inúmeros) defeitos, é até possível se divertir com este autêntico Cine Trash. Quem diria que Rawhead Rex foi indicado a “Melhor Filme” no Fantasporto, renomado festival português de cinema fantástico, em 1987 – imagina o naipe dos outros concorrentes!!!

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E, como eu escrevi no começo, Rawhead Rex ganhou certo status cult com o tempo, o que impressionou o próprio Clive Barker: “Os admiradores do filme, e na verdade existem vários, gostam dessa aura de ‘filme dos anos 60’ feito nos anos 80. Não acho que o filme é ruim, é melhor que Subterrâneos, mas tinha muito mais potencial. Simplesmente não gosto dele. O filme não é muito ousado, e a ideia era – até se matasse criancinhas. Era para ser muito mais visceral, e por isso, quando resolvi dirigir Hellraiser, fui determinado a compensar tudo isso, e talvez as qualidades viscerais de Hellraiser tenham sido exacerbadas!“, disse, numa memorável entrevista à Fangoria em 1988. Ainda nesta entrevista, o autor explicou porque resolveu assumir ele mesmo a cadeira de diretor a partir de então: “Só havia dois caminhos para seguir: ou eu pegava o dinheiro e seguia em frente, como muitos fazem, ou fazia eu mesmo, com minhas próprias mãos. E estes dois filmes me incentivaram a dirigir. Claro, eu seria muito feliz se continuasse escrevendo roteiros pelo resto da vida, caso estes dois [Subterrâneos e Rawhead Rex] dessem certo“.

O resto é história: o sucesso de Hellraiser catapultou a carreira cinematográfica de Barker, que, em 1987, já era considerado também um famoso autor de horror, uma espécie de “Stephen King inglês“. E embora o pobre coitado não tenha tido muito mais sorte no mundo do cinema como diretor – devido aos inúmeros problemas durante a produção de Nightbreed – Raça das Trevas (1990) e à fria recepção por parte do público ao excelente O Mestre das Ilusões (1995) -, pelo menos seus textos começaram a receber o devido respeito. Caso, por exemplo, de O Mistério de Candyman (1992), um dos melhores filmes do gênero dos anos 90, e adaptação primorosa de um conto de Barker. Em 2008, o escritor voltou a ficar em evidência graças ao sangrento The Midnight Meat Train (no Brasil, O Último Trem), e seu “Books of Blood” também ganhou adaptação cinematográfica, chamada Livro de Sangue.

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Entre os fãs de Rawhead Rex está, obviamente, seu diretor, George Pavlou, que numa entrevista à revista Cinefantastique, em 1987, comparou estupidamente sua obra a clássicos do gênero: “É um pequeno e honesto filme de horror. Descontando Tubarão e Alie, o último grande filme de monstros foi King Kong“. Modesto ele, hein? O produtor Kevin Attew (que também bancou Subterrâneos) foi outro que defendeu a obra, na mesma entrevista: “Não há nada de novo no conceito da história, é puro cinema classe B dos anos 50“. Ou seja: nenhum dos dois cabeças-de-bagre entendeu bulhufas do conceito do conto e do roteiro original, ficando apenas no feijão-com-arroz do “típico filme de monstro“.

Olhando por este lado, e esquecendo o nome Clive Barker nos créditos, Rawhead Rex até diverte. Mas aí está um filme que REALMENTE merecia um remake melhorado. Até porque, nos anos 90, foi publicada uma graphic novel muito mais fiel ao espírito do texto original do que o filme. Agora é só pegar os quadrinhos e filmar novamente. Alguém se habilita?

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1 Comentário

  1. piroca

    Pô cara!!! conta aí pq só a mulher ativa o pedaço de pedra ???

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