Críticas

As Fábulas Negras (2014)

Encarar uma plateia “séria” e encher uma tenda de exibição com aplausos e gargalhadas, é de encher o peito de orgulho, mesmo como público!

As Fábulas Negras (2014) (2)

As Fábulas Negras
Original:As Fábulas Negras
Ano:2014•País:Brasil
Direção:Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano, José Mojica Marins
Roteiro:Rodrigo Aragão, Petter Baiestorf, Joel Caetano, José Mojica Marins
Produção:Mayra Alarcón, Kika Oliveira, Rodrigo Aragão, Hermann Pidner, Cesar Coffin Souza
Elenco:Arthur Amaral, Arthur Marcel, Diego Fernandes, Hugo Fraga, , Alexander Buck, Alzir Gabriel Vaillant, Dan Caliban, Elias Aquino, Fernando Paschoal, Foca Magalhães, Fonzo Squizzo, Mayra Alarcon, Joel Caetano, Antônio Lâmego, Cesar Coffin Souza, Ana Carolina Braga, Carol Aragão, Margareth Galvão, José Mojica Marins, Kika Oliveira, Walderrama Dos Santos

O cinema de horror nacional recente vem tentando provar muitas coisas. Provar que podemos, sim, criar obras fantásticas de qualidade. Provar que conseguimos criar efeitos e narrativas que rivalizem ou superem os equivalentes internacionais. Provar que, mesmo com influências do cinema estrangeiro, é possível entregar um produto cem por cento tupiniquim. Os poucos que se dispuseram a entrar nesse cenário sabem que não é fácil lidar com toda essa pressão sem soar forçado ou pedante. Mas há aqueles que já provaram que é uma guerra digna de ser travada.

As Fábulas Negras é uma antologia de horror com seis histórias, sendo que uma delas é o fio condutor que amarra as demais. O filme abre com quatro garotinhos brincando no meio da mata com espadas de pau e estilingues, enquanto tentam assustar uns aos outros com histórias macabras. A primeira delas é Crônicas do Esgoto (de Rodrigo Aragão), que trata de uma cidade onde o sistema de saneamento superfaturado abriga um monstro carnívoro que aterroriza a população. Na melhor cena, o prefeito da cidade (o impagável Antônio Lâmego) é devorado pela criatura de dentro para fora, demonstrando toda a evolução dos efeitos especiais de Aragão e também toda a qualidade do humor negro que já é sua marca registrada.

Dirigido por Petter Baiestorf, Pampa Feroz é um excelente curta de lobisomem, onde um Coronel (Cesar “Coffin” Souza) tem seus capangas devorados um a um por uma criatura monstruosa. Adivinhar a identidade do lobisomem é a grande sacada do curta, que reserva muitas surpresa. Além do roteiro enxuto e da presença da belíssima e talentosa Ana Carolina Braga, o episódio se beneficia da criatividade nos efeitos especiais, trazendo uma genial concepção da “destransformação” do lobisomem para a sua forma humana.

As Fábulas Negras (2014) (1)

Em O Saci, Mojica mostra um vigor espantoso ao contar a história de Ester (Carol Aragão), que é perseguida pelo infame negrinho-de-uma-perna-só. Os momentos em que o Saci aparece são frenéticos, e o roteiro ainda se beneficia da mania da criatura de pregar peças nas suas vítimas. Mojica também tem uma participação como ator, num papel que é melhor não detalhar aqui. Digamos apenas que é incrível que ninguém tenha pensado nesse casting antes, e que a sua participação em frente às câmeras entrega as melhores gargalhadas do longa.

Joel Caetano surpreende em A Loira do Banheiro, entregando o curta mais bem estruturado e assustador do filme. Criando toda uma mitologia por trás da já conhecida lenda, Caetano demonstra grande influência do horror japonês, com momentos de puro delírio visual, e mostra toda a sua evolução como contador de histórias. Destaque para a participação sinistra de Margareth Galvão como a diretora de uma escola para moças que parece saída diretamente de um filme de prisão feminina de Jess Franco.

As Fábulas Negras (2014) (3)

No último episódio A Casa de Iara, Kika Oliveira interpreta uma esposa traída que faz um pacto com o diabo. Sem nenhum diálogo e com uma alta dose de erotismo, o episódio se une à trama dos garotos na floresta, levando a uma conclusão bastante criativa.

Além dos roteiros e efeitos, As Fábulas Negras se beneficia de elenco fantástico e empenhado. Walderrama Dos Santos já se sagrou como o Lon Chaney brasileiro, enterrado sob toneladas de maquiagem ao interpretar monstros como o lobisomem, o demônio e o sinistro Hugo, no episódio A Loira do Banheiro. O que mais surpreende, entretanto, são as interpretações do elenco mirim, que fogem da média “teatrinho escolar” desse tipo de produção. Agindo como naturalidade e espontaneidade, eles dão uma imensa credibilidade ao filme.

Rodrigo Aragão, Joel Caetano e José Mojica Marins

Rodrigo Aragão, Joel Caetano e José Mojica Marins

Lutando contra orçamentos baixos e falta de recursos, esses quatro diretores já provaram muita coisa cada um ao seu modo. Aragão sujou as mãos para criar os zumbis de Mangue Negro, longa magnífico que o colocou entre os grandes do horror nacional. Baiestorf, criador da Canibal Filmes, vem chocando o Brasil e o mundo há décadas, com seu cinema sujo e corajoso, repleto de sangue, sacanagem e cérebro. Caetano, a frente da Recurso Zero Produções, já explorou zumbis, super-heróis, serial killers e animais falantes, tudo com um mínimo de dinheiro e muito empenho. Em As Fábulas Negras, eles trouxeram diversas lendas do nosso folclore para a tela grande. Mas não há dúvidas que o seu maior feito foi colocar José Mojica Marins atrás das câmeras, com uma boa equipe de produção e um roteiro simples, no qual ele pôde demonstrar toda a sua genialidade e energia na direção. Sem a pressão de se colocar de volta no topo ou se superar em matéria de escatologia, Mojica aparece completamente à vontade, preocupado apenas em contar uma boa história de horror – e cumpre essa tarefa com mérito!

Como se não bastasse, os créditos finais são uma verdadeira carta de amor ao criador do eterno Zé do Caixão, onde os realizadores prestam sua homenagem ao grande Mestre. Quando as letrinhas terminam de subir, vem a sensação de que uma enorme batalha foi vencida, embora a guerra continue difícil e sem previsão de acabar. Não foi preciso criar o melhor filme dessa filmografia maldita. Em vez disso, os envolvidos se preocuparam em divertir e assustar, e nisso se deram muito bem. E digo mais: encarar uma plateia “séria” como a do Festival de Cinema de Tiradentes (onde As Fábulas Negras foi exibido no dia 24 de janeiro de 2015) encher uma tenda de exibição com aplausos e gargalhadas ao longo do filme, é de encher o peito de orgulho, mesmo para quem não esteve sequer envolvido na produção dessa excelente antologia.

Leia também:

9 Comentários

  1. Murilo

    Agradeço ao Boca do Inferno pelo festival em 2015 ter me dado a oportunidade de ver esse fabuloso filme e ver o JOEL CAETANO pessoalmente <3

    • Silvana Perez Silvana Perez

      Apareça na edição desse ano no próximo fim de semana, Murilo 😉

  2. alexandre santos

    puxa vida e filme brasileiro. filme brasileiros nao tem tanta tecnologia boa p fazer um filme ingual na america os filme nao nao da a aparecia legal nos monstro. nao sei esse. eu gosto d filme que parece ser real! tipo como venow

  3. andrelino

    por favor sou fã de fabulas negras alguem ae como faço pra ver folclore

  4. Mari

    Eu vi este finds aqui no ES, no Cineterror Guarapari. Foi demais! Trabalho muito bem feito, todos os envolvidos estão de parabéns.

  5. Alex

    Cara, esse filme vai entrar pra história. A cada produção me apaixono mais

  6. Marcus Vinícius

    Mojica e Aragão juntos. Demais!!! Espero há meses por esse filme ;)))))))))))

  7. Vinnícius

    Infelizmente filmes assim não são valorizados pelo próprio “sangue”. Gosto demais dos filmes de Aragão e esta coleção de contos deve ser incrível. Tbm estou no aguardo para assisti-lo.

  8. Augusto

    Poxa, onde assisto esse filme? Já está passando nos cinemas?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *