Críticas

Êxodo: Deuses e Reis (2014)

Junte Ridley Scott com Christian Bale, Ben Kingsley e Sigourney Weaver. Tem como dar errado? Tem sim. E deu.

Exodo (2014)

Êxodo: Deuses e Reis
Original:Exodus: Gods and Kings
Ano:2014•País:UK, EUA, Espanha
Direção:Ridley Scott
Roteiro:Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine, Steven Zaillian
Produção:Peter Chernin, Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Jenno Topping
Elenco:Christian Bale, Joel Edgerton, Ben Kingsley, John Turturro, Aaron Paul, Ben Mendelsohn, María Valverde, Sigourney Weaver, Hiam Abbass, Ewen Bremner, Indira Varma, Golshifteh Farahani

O cinema deve e muito ao talento do cineasta britânico Ridley Scott. Alguns dos seus títulos figuram facilmente nas listas de melhores e mais importantes filmes já feitos como Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner – O Caçador de Androides. Outros trabalhos dele tornaram-se verdadeiros clássicos da Sessão da Tarde como A Lenda e Thelma e Louise. No entanto, o diretor também coleciona alguns produtos que não agradaram apesar dos altos orçamentos e do elenco de estrelas. Nesta lista, é possível citar Até o Limite da Honra, Hannibal e Phometheus. Infelizmente Êxodo – Deuses e Reis faz parte desta última lista.

Êxodo conta a história bíblica de Moisés que foi guiado por Deus e libertou os escravos hebreus no Egito. O filme de Ridley Scott foi injustamente tratado como uma espécie de releitura atualizada do clássico Os Dez Mandamentos, de 1956, que foi dirigido Cecil B. DeMille e teve Charlton Heston como Moisés. Aqui já é importante a observação de que Êxodo na verdade não é um remake de Os 10 Mandamentos. O filme é uma livre adaptação da história bíblica do Êxodo, segundo livro do Antigo Testamento. Desta forma, Deuses e Reis não tem nenhuma obrigação de buscar inspiração no filme de Cecil B. DeMille.

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Sabendo disso, Scott resolveu fazer a sua própria versão do conto de Moisés. Para isso, buscou alguns dos roteiristas mais requisitados de Hollywood, como Steven Zaillian, que assinou o roteiro de A Lista de Schindler. No entanto, Scott não apenas procurou evitar pontos semelhantes com Os Dez Mandamentos como deu um novo sentido para a história de Moisés. O resultado foi um filme muito mais bélico do que religioso.

O filme narra a vida do profeta Moisés (Christian Bale). Ele nasceu entre os hebreus na época em que o faraó ordenava que todos os homens hebreus fossem afogados. Moisés é resgatado pela irmã do faraó e criado na família real. Quando se torna adulto, Moisés recebe ordens de Deus para ir ao Egito, na intenção de liberar os hebreus da opressão. No caminho, ele deve enfrentar a travessia do deserto e passar pelo Mar Vermelho. Os atores Ben Kingsley e Sigourney Weaver fazem participações especiais de luxo no filme.

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Êxodo tem um resultado bastante irregular e muito se deve pelos excessos vistos em cena. As cenas de batalha, por exemplo, são capazes de deixar boa parte do público boquiaberto. No entanto, através de uma comparação bastante grosseira, é possível para a plateia confundir qualquer cena de luta de Êxodo com sequências de batalha de outros filmes como os da trilogia O Hobbit, por exemplo.

Outro problema desta abordagem mais bélica do que religiosa em Êxodo é a tentativa de resignificar importantes momentos de Os Dez Mandamentos. Mesmo reafirmando que não se trata de um remake, invariavelmente é possível imaginar que boa parte do público de Êxodo – Deuses e Reis faça esta associação da produção de Scott com o clássico de DeMille, que segue uma linha mais religiosa.

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Um dos momentos mais icônicos da obra de DeMille mostra o Moisés de Charlton Heston erguendo os braços para abrir o mar e permitir a fuga dos judeus. Esta sequência não existe em Êxodo. Ou não da forma vista em Os Dez Mandamentos. No filme de Scott, a maré seca rapidamente permitindo a passagem do grupo liderado por Moisés. A criação dos 10 mandamentos também é mostrada de forma diferente.

Scott tem todo o direito e até a obrigação de fazer as alterações que julgar necessárias para sua releitura. No entanto, é importante reconhecer a expectativa do público ao assumir tais mudanças que acabam respondendo como riscos. Até a versão da Disney chamada de O Príncipe do Egito mostra Moisés abrindo o Mar Vermelho de forma que remete a um milagre e não a um fenômeno da natureza.

Outro problema de Êxodo é o ritmo ou a falta de. E para completar, quem acompanha os filmes de Ridley Scott sabe o quanto ele gosta de ir além das duas horas de projeção. No caso, Deuses e Reis possui 151 minutos de duração, o que torna a história por vezes arrastada, o que em uma película de duas horas e meia pode ser fatal para quem está assistindo ao filme.

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A certeza que fica ao se assistir a Êxodo é que infelizmente Ridley Scott tinha um ótimo material em mãos e que, pelo simples fato dele ter optado por seguir um caminho diferente de Os Dez Mandamentos, foi julgado de forma negativa. Deuses e Reis possui, sim, os seus problemas, mas o principal deles é recair sob o fato de boa parte do público insistir em uma comparação com Os Dez Mandamentos. A comparação é injusta principalmente por serem literalmente dois filmes diferentes.

Curiosidades:

– Originalmente Christian Bale recusou por problema de agenda o papel principal em Noé, que foi outro filme bíblico lançado em 2014. O papel eventualmente foi para Russell Crowe. Bale foi posteriormente escalado como Moisés.

– As filmagens duraram 74 dias.

– O filme foi originalmente chamado simplesmente de Êxodos, porém mais tarde recebeu o subtítulo de Deuses e Reis pois a 20th Century Fox não poderia adquirir os direitos do nome sem a colaboração da MGM, que detém os direitos pelo filme não relacionado, Exodus (1960) .

– Para o preparo do papel de Moisés, Christian Bale aprendeu rapidamente o básico da escola dominical e mergulhou nas escrituras e obras literárias. Ele leu os primeiros cinco livros da Bíblia, o Alcorão, assim como o clássico de Louis Ginzberg, “Legends of the Jews” e Jonathan KirschMoses, A Life“.

– O filme foi dedicado a Tony Scott, irmão de Ridley Scott morto em 2012.

– Houve controvérsia em torno da cor da pele dos atores que interpretam os personagens principais. Uma vez que o filme se passa no Egito, teve rumores de que a coisa certa a se fazer, seria a de todos os atores terem pele escura.

– Esta é a terceira colaboração de Sigourney Weaver com Ridley Scott. A primeira foi no filme Alien – O Oitavo Passageiro e a segunda foi no filme 1492 – A Conquista do Paraíso, onde Sigourney interpretou a rainha da Espanha. A atriz foi chamada para participar de Thelma e Louise, mas não pode aceitar pois estava envolvida em Alien 3.

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3 Comentários

  1. SagatHyoga

    a apenas uma correção O Príncipe do Egito não é da disney, foi feito pela dreamworks

  2. Creio que muitos não assistiram o original de 1960, filmes bíblicos tendem a ser arrastados e a história todos já conhecem, Ridley Scott pensou bem quando fez essas profundas alterações, pois sabe quem uma grande parcela de quem vai ao cinema são pessoas mais jovens que não querem ver algo totalmente repetido ainda mais sobre um tema desses. Não é a toa que cenas de ação e belicismo ficaram no mesmo ritmo do filme Moisés. A cena da maré baixa se fazendo de algo mais realista é outra coisa interessante do filme, pois muito se discute sobre como essa travessia foi realizada, e essa é uma das teorias, não vejo como isso seria negativo para o filme

  3. Antonio

    Discordo de sua resenha, Filipe. Considero a obra um bom filme. Acredito que a proposta do Ridley Scott foi satisfatoriamente bem sucedida, em que pese o largo desafio do diretor em criar um filme cujo tema é amplamente conhecido do grande público, e também, a inevitável comparação com o clássico protagonizado por Charlton Heston. A comparação com “Os Dez Mandamentos” pauta-se mais na própria história. Tenho para mim que clássicos como o retrocitado jamais serão superados e, portanto, películas produzidas ulteriormente apresentarão facetas diversas na condução da história – a comparação, com o devido respeito e acatamento, é injusta e infeliz. O público atual não conhece o clássico. Ora, o próprio “Os Dez Mandamentos” era deveras arrastado. Entretanto, creio que a faceta bélica foi bem explorada, não podendo ser mais estendida, em virtude do contexto bíblico inserido na narrativa – o que acabaria por transformá-lo, talvez, em um “Robin Hood” ou “Cruzada”. Uma pena, na verdade, que a participação de Sigourney Weaver tenha sido relegada a poucos minutos em tela.

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