O Lobisomem de Londres (1935)

O Lobisomem de Londres (1935)

O Lobisomem de Londres
Original:Werewolf of London
Ano:1935•País:EUA
Direção:Stuart Walker
Roteiro:John Colton, Robert Harris, Harvey Gates, Robert Harris, Edmund Pearson
Produção:
Elenco:Henry Hull, Warner Oland, Valerie Hobson, Lester Matthews, Lawrence Grant, Spring Byington, Clark Williams, J.M. Kerrigan, Ethel Griffies, Zeffie Tilbury, Jeanne Bartlett

“O Lobisomem instintivamente mata a pessoa que mais ama”. (Dr.Yogami)

Um lobisomem tibetano em Londres! Talvez este poderia ser um dos títulos desta produção se ela fosse lançada depois de 1981. Mas ela veio antes…antes de David Kessler abrir inúmeras vezes a geladeira e andar de um lado para outro no apartamento da enfermeira Alex Price…antes de Larry Talbot salvar uma mulher do ataque de uma fera com sua bengala com ponta de prata. Foi na época da primeira influência da Lua Cheia londrina na transformação de um homem, assim como o primeiro uivo de um monstro amaldiçoado no cinema americano.

Há resquícios da criatura num curta mudo de 1913 dirigido por Henry MacRae, intitulado The Werewolf, e, no ano seguinte, com o obscuro The White Wolf. Depois haveria um exemplar francês, Le loup-garou, de 1923, como o primeiro longa, numa trama sobre um homem que diz estar sendo perseguido por um monstro; em 1925, o também silencioso Wolf Blood, de George Chesebro e Bruce Mitchell; e, por fim, o alemão Gehetzte Menschen, de 1932, na segunda adaptação de Le Loup Garou de Alfred Machard. Contudo, nenhuma dessas variações de lobisomens conseguiria convencer e influenciar tanto quanto o de Lon Chaney Jr., em 1941, na segunda tentativa da Universal Pictures de trazer a criatura às telas.

O Lobisomem de Londres (1935) (2)

A primeira aconteceu quando Carl Laemmle Jr., filho do fundador do estúdio, Carl Lemmle, conseguiu convencer seu pai de que eles deveriam investir em filmes de terror. Já haviam tocado o estilo na primeira versão de O Fantasma da Ópera, em 1925, interpretado magistralmente por Lon Chaney, porém o sucesso da peça de teatro Drácula, de Hamilton Deane e John L. Baldereston, parecia abrir as portas para um gênero de sucesso. Laemmle comprou os direitos da obra de Bram Stoker pela viúva Florence e fez questão que o ator que interpretaria o vampiro fosse o mesmo da peça, o lendário Bela Lugosi. As filmagens foram realizadas simultaneamente em inglês e espanhol, a pedido do produtor executivo Paul Kohner, e ambas as versões foram bem sucedidas em 1931, salvando o estúdio da crise financeira de 1929.

Satisfeito com a sugestão do filho, Laemmle continuou investindo nos monstros, com Frankenstein (1932), A Múmia (1932), O Homem Invisível (1933), O Gato Preto (1934), A Noiva de Frankenstein (1935), entre outros. Boris Karloff e Bela Lugosi eram os nomes mais cogitados para assumir um novo monstro, o lobisomem, num filme que receberia o título de The Wolf Man. Karloff optou pela sequência de Frankenstein e Lugosi estava ocupado com A Marca do Vampiro, restando a Henry Hull, que vinha se destacando em outros gêneros, a oportunidade de assumir um personagem que poderia lhe render frutos.

O Lobisomem de Londres (1935) (4)

Novamente chamaram o especialista em maquiagem Jack P.Pierce, que havia desenvolvido a face de Drácula e o aspecto grotesco da criatura de Frankenstein, para mais um trabalho, em companhia do experiente John P. Fulton. Pierce teve um desentendimento com Hull, que reclamava do tempo na maquiagem e dos exageros no cabelo, algo que só foi resolvido quando os produtores convenceram o maquiador a agir com mais cautela para evitar problemas na censura. Assim, o lobisomem adquiriu um aspecto mais humano, menos animalesco, como uma versão da criatura de O Médico e o Monstro, algo que o público não aceitou muito bem.

O Lobisomem de Londres não repetiu o sucesso dos outros monstros, e a Universal até mesmo pensou em atirar uma bala de prata na criatura até 1941, com o clássico O Lobisomem. Mas o que será que não agradou à critica e ao público? O visual do monstro, o enredo de John Colton baseado na história de Robert Harris, as atuações, a direção de Stuart Walker? Bom, na verdade, o filme não é ruim. Há alguns toques bem humorados que poderiam ser deixados de lado, e poucas aparições do monstro, mas, também há boas ideias ali, assim como a interpretação bem feita de Hull e a ótima fotografia de Charles J. Stumar.

O filme começa com dois homens “brancos” – o botânico Dr. Glendon (Hull) e seu assistente Hugh Renwick (Clark Williams) – no Tibete em busca de algo que parece criar um conflito entre os locais. Trata-se da Mariphasa Lupina Lumina, uma flor fosforescente conhecida popularmente como flor-lobo, devido ao fato de ela só se abrir com a iluminação da Lua Cheia. Depois do aviso de um padre a cavalo sobre os perigos de um vale repleto de demônios (“Vocês são tolos, mas sem os tolos não existiriam os sábios.“), eles continuam a aventura, escalando montanhas e enfrentando uma força sobrenatural que parece não querer a presença deles ali. Um uivo cada vez mais próximo no deserto remete o espectador ao clássico de 81, até que uma sombra negra surge por detrás de uma rocha. Glendon é atacado e ferido por uma criatura bípede, coberta de pêlos e muita força, porém consegue sobreviver à investida e leva consigo a valiosa flor.

O Lobisomem de Londres (1935) (5)

Em Londres, já em seu laboratório, Dr. Glendon encontra dificuldades para fazê-la abrir com iluminação artificial. Ele enxerga num pequeno monitor a aproximação de sua esposa Lisa (Valerie Hobson, que no mesmo ano fez A Noiva de Frankenstein) – antecipando os interfones com câmeras -, que o chama para a festa da Sociedade Botânica. Mesmo a contragosto, pensando mais nos experimentos, ele vai ao local onde encontra a chata da tia Ettie (Spring Byington), uma das personagens que apenas estão ali para provocar o humor do público, e revê um ex-pretendente de sua esposa, Paul Ames (Lester Matthews, do clássico O Corvo, de 35, com Karloff), que mora na Califórnia e possui uma escola de aviação – e estará a todo momento na ânsia por uma reaproximação.

No ambiente com plantas exóticas, havia algumas carnívoras – como uma que chega a devorar um sapo – e outras com tentáculos curiosos. Em meio a tantas pessoas insignificantes, surge a figura do Dr.Yogami (Warner Oland), que insiste em dizer que conheceu Glendon no Tibete, e faz reflexões como “o mundo vegetal termina onde começa o animal“. É ele quem explica para o Dr.Glendon que a flor-lobo é um antídoto para a “doença medieval da licantropia“, criadora dos lobisomens, definidos por ele como “criaturas híbridas do que há de pior nos homens e nos lobos“.

“Ao menos que a flor rara seja usada, o lobisomem deve matar pelo menos uma pessoa a cada noite de Lua Cheia ou se tornará permanentemente amaldiçoado”. (trecho de uma obra pesquisada por Dr.Glendon sobre a flor-lobo)

Quando surge a Lua Cheia, as mãos de Glendon ficam peludas, mas são curadas pelo contato com a flor. Elas desaparecem de seu laboratório, o que culmina em sua transformação e ataques nas madrugadas. Aqui o instinto não impede o assassinato de mulheres, contudo o mantém com consciência para se cobrir do frio e agir com cautela nas ruas, como um Jack, o Estripador, agressivo e voraz – fatores que realmente incomodaram o público da época em seus anseios por um monstro assassino e não um homem peludo.

Além dessas características que o afastam do lado animal, a iserção de humor também pode ter evitado o sucesso da produção: como as falas excessivas da Tia Ettie, a briga dos empregados Hawkins (J.M. Kerrigan, que também estaria em O Lobisomem, de 1941) e Plimpton (Joseph Norton) ou das irmãs que cuidam do albergue, com toques que se aproximam do pastelão. Por outro lado, a criatividade do diretor na transformação de Glendon, escondido por postes ou na descida da câmera sobre as roupas negras, deve ser enaltecida, principalmente se levar em consideração a realização do filme na década de 30.

O Lobisomem de Londres (1935) (3)

Apesar da pouca aceitação do público, a crítica até foi favorável na época. Fizeram comparações ao clássico O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, no longa lançado três anos antes, com direção de Fredric March, devido à aparência da criatura e seus atos cada vez mais animalescos no decorrer do filme. Frank Nugent, do New York Times, chamou o longa de “um belo exemplar de licantropia” e disse: “Apesar da ideia já ter sido usada antes, a produção deve atrair a atenção dos fãs de ação-e-horror.

Com o passar dos anos, mesmo abafado pelo filme de 1941, O Lobisomem de Londres adquiriu o status de cult e passou a influenciar obras diversas, como a música de 1978, de Warren Zevon, homônima, e o clássico Um Lobisomem Americano em Londres, de John Landis. Também viriam dele versões romanciadas como uma escrita por Walter Harris (com o pseudônimo Carl Dreadstone), lançada em 1977, narrada sob o ponto de vista de Glendon, seguindo para uma estrutura diferente, além do final sem relação com o longa. [alerta de spoiler – não leia o restante do parágrafo se não quiser saber como o filme e a obra terminam] Nele, ao invés de Glendon, transformado em lobisomem, matar Yogami e ser morto por Sir Thomas (Lawrence Grant, de O Filho de Frankenstein, 1939), ele resolve cooperar com o rival para tentar controlar a transformação de ambos através do hipnotismo. Entretanto, o plano não funciona, o hipnotizador é morto, e Glendon e Yogami se transformam e lutam até a morte. Glendon vence e volta à forma humana. A obra termina com Glendon se suicidando com a arma do cientista. [fim do spoiler]

A segunda adaptação literária viria em 1985, como parte de uma série baseada nos monstros da Universal. Escrita por Carl Green, a obra foi considerada extremamente curta e fiel ao longa de 1935, tanto que contém até ilustrações do filme.

Levando em consideração à epoca de realização, um período de obras ingênuas e sem exageros, O Lobisomem de Londres é uma produção que merecia um reconhecimento maior do público e até mesmo um remake, respeitando o trabalho original, mas voltada para o horror de uma criatura amaldiçoada nas ruas nebulosas de Londres. Afinal, foi por lá que a Lua Cheia brilhou melhor!

(Visited 83 times, 1 visits today)
Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien