Críticas

A Bruma Assassina (1980)

É um filme de fantasmas de primeira, recheado de suspense com “S” maiúsculo!

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A Bruma Assassina
Original:The Fog
Ano:1980•País:EUA
Direção:John Carpenter
Roteiro:John Carpenter, Debra Hill
Produção:Debra Hill
Elenco:Adrienne Barbeau, Jamie Lee Curtis, Janet Leigh, John Houseman, Tom Atkins, Charles Cyphers, Hal Holbrook, George 'Buck' Flower, Jim Haynie

“Está se movendo mais rápido…. Está indo para a Rua 10…. Se você está na parte sul da cidade, dê meia volta…. Fique longe da Neblina!”

Antes de começar devo confessar que é uma responsabilidade imensa e uma honra para mim escrever sobre este filme de John Carpenter. Isso porque foi um dos primeiros filmes de terror que vi e foi um dos mais marcantes. Além disso, foi por causa de A Bruma Assassina ou A Neblina como prefiro chamar, que passei a gostar de Cinema em geral. A paixão era tanta que quando gravei o filme da tevê chegava a organizar pequenas sessões para os amigos do bairro, além dos meus cadernos das aulas de artes da 3ª série estarem cheios de desenhos do filme assim como outros filmes de terror. E depois com o lançamento da refilmagem batizada de A Névoa, que coleciona pedradas, decidi terminar a análise e apresentá-lo para os que nunca viram esta pequena pérola de John Carpenter, que, injustamente, não tem a mesma fama de vários de seus filmes.

São 23 horas e 55 minutos. Um velho barbudo se prepara pra contar uma história de fantasmas ao redor de uma fogueira para um bando de crianças de nove anos. Mas não é só uma história, é a lenda do local onde vivem. É meia-noite, o velho termina de contar a história. A câmera sobe e acompanhada da música tétrica focaliza a praia da cidade de Antonio Bay. Em letras garrafais aparece o título: John Carpenter’s The Fog.

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Bem, amigo infernauta, você deve estar se perguntando: “Que filme do Carpenter é esse?” Explico, The Fog é um dos melhores filmes de John Carpenter. O ruim é que não tem a fama de seus filmes anteriores como Halloween e posteriores como O Enigma do Outro Mundo, e por consequência pouca gente viu. Corria o ano de 1980 e John Carpenter tinha ganho um certo prestígio por ter transformado o filme independente Halloween – A Noite do Terror (Halloween) em um dos filmes de maior sucesso da cena independente americana. Halloween ficou 12 anos com o título de filme independente mais lucrativo até que perdeu o posto em 1990 para As Tartarugas Ninjas. Por conta disso, o cineasta conseguiu um contrato de três filmes com a pequena produtora AVCO – Embassy e sua primeira produção com a empresa foi justamente The Fog.

Tendo como inspiração um filme inglês de 1958 chamado The Trollenberg Terror (batizado nos EUA como The Crawling Eye), onde monstros se escondiam em nuvens, The Fog se passa na fictícia cidade de Antonio Bay onde em breve se comemorará o centenário da cidade. Mas justamente na madrugada de aniversário algo muito estranho acontece. Carros ligam sozinhos e tocam suas buzinas, bombas de gasolina despejam combustível, relógios despertam, um caos sem motivo aparente. Um minuto depois tudo acaba como mágica. É um presságio de que Antonio Bay não será a mesma a partir desse dia…

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Na igreja da cidade, um pequeno tremor faz com que o Padre Malone – interpretado por Hal Holbrook, que viria a aparecer em Creepshow, de George Romero – ache um diário de seu avô que conta detalhes sórdidos dos acontecimentos da época. Enquanto isso os acontecimentos estranhos começam a ficar mais sérios. A radialista Stevie WayneAdrienne Barbeau (de Fuga de Nova York) – é quem dá os avisos sobre o clima de Antonio Bay. Ela transmite seu programa de radio de um farol (sempre com uma voz de fazer inveja às atendentes de tele-sexo) e nota uma estranha neblina que brilha. Isso mesmo a neblina brilhava, e além disso se movia contra o vento! Um trio de pescadores de uma traineira chamada Sea Grass avista um galeão envolto em uma neblina brilhante e mais que rapidamente os três são mortos por criaturas misteriosas. É aí que entram em cena os personagens de Tom Atkins e Jamie Lee Curtis, ele conhecido como o médico-investigador do subestimado Halloween 3 e ela ninguém menos que Laurie Strode, de Halloween. Pouco a pouco, os personagens vão se envolvendo na trama macabra até que descobrem toda a verdade de Antonio Bay e seus fantasmas da neblina.

“Entrem e fechem as portas e janelas! Há algo no nevoeiro” – Stevie Wayne

Um dos maiores trunfos do filme é sem dúvida o roteiro escrito por John Carpenter e Debra Hill (co-escritora e produtora de Halloween e já falecida). O roteiro tem uma sacada fantástica: ele desenvolve os personagens por núcleos, ou seja, há o núcleo de Tom Atkins e Jamie Lee Curtis, o núcleo de Janet Leigh e Nancy Loomis e o núcleo de Adrienne Barbeau. Os núcleos são desenvolvidos separadamente e só se encontram no clímax do filme, dentro da Igreja do Padre Malone.

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Além disso, a trilha sonora do próprio Carpenter nos brinda com uma música tema tão assustadora e inesquecível quanto Halloween. “Mas e quanto ao sangue?“, vocês devem estar se perguntando. Ok, vou ser sincero, no filme não há uma gota de sangue, não há a violência explícita que muitos estão acostumados a ver, mas antes que apedrejem o filme, eu digo que o que falta de sangue sobra de suspense. A Neblina é suspense do começo ao fim, de não fazer feio a qualquer filme de Hitchcock. Até a própria Janet Leigh, que trabalhou em Psicose e neste como a organizadora de eventos Kathy Willians, elogiou Carpenter e comparou seu modo de fazer suspense muito semelhante a Hitchcock exatamente por sugerir mais do que mostrar.

No clímax do filme, os núcleos de personagens citados (com exceção de Stevie Wayne) se abrigam na Igreja do Padre Malone para tentar fugir das criaturas da neblina. É aí que todo o segredo por detrás dos fantasmas e da cidade de Antonio Bay é revelado. O interessante é que Carpenter não se utiliza de flashbacks para contar a história do surgimento dos fantasmas e o motivo de matarem, tudo é contado pelos personagens, o que faz com que o público imagine toda a situação tornando a experiência de assistir ao filme muito mais interessante.

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“Filmes de terror não são todos iguais, e uma história de fantasmas é muito difícil. Fazer alguém acreditar em fantasmas, e que eles estão realmente lá, é mais difícil do que fazer acreditar que um cara poderia simplesmente pegar uma faca e ir correndo atrás de você”
John Carpenter (sobre a diferença de fazer Halloween e A Bruma Assassina)

Ok, vocês querem saber o segredo não é? Então vou ser bonzinho e contar tudo. Se não quer saber do grande mistério do filme pare de ler agora mesmo  e só volte a fazê-lo depois de assistir ao filme! Mas se já viu o filme ou não se importa, vá em frente. Há 100 anos um milionário chamado Blake, portador de lepra fez uma proposta a seis pessoas entre elas o avô do padre Malone. Queria gastar sua fortuna criando uma colônia de leprosos onde poderia viver em paz junto com outros portadores da mesma doença. Os seis concordaram, mas no fundo queriam mesmo pegar sua fortuna para fundar a cidade de Antonio Bay e conspiraram contra Blake e seus homens, fazendo uma fogueira falsa numa noite de intenso nevoeiro e assim o galeão de Blake se espatifou nos rochedos. Sua fortuna foi recuperada e a cidade fundada, mas o tal padre cheio de remorso, decidiu registrar todos os podres em seu diário. Agora cem anos depois Blake e seus fantasmas decidem matar todos os descendentes dos seis conspiradores originais. É uma típica história de vingança!

O mais interessante também é que todo o visual dos fantasmas, do nevoeiro, e as mortes têm um propósito de ser. Por exemplo, o roteiro diz que o barco de Blake naufragou com a ajuda de um nevoeiro que “parecia surgido dos céus“, agora o nevoeiro acompanha os fantasmas; uma fogueira foi feita nas rochas para que Blake a seguisse e batesse no rochedo, talvez por isso a neblina seja brilhante; os fantasmas sempre atacam de meia-noite às uma da manhã, o mesmo horário em que os conspiradores tramaram contra eles; e quem morre são somente os descendentes dos conspiradores. Isso gera uma situação estranha que pode ser considerada “furo de roteiro” ou não, dependendo do ponto de vista. Se os fantasmas estavam atrás dos descendentes, por que então atacaram Stevie Wayne e seu filho além de perturbar Nick (Tom Atkins) em sua casa, já que eles nada têm a ver com o plano de vingança dos mortos? No fim das contas não morre nenhum “inocente“, mas será que os fantasmas estavam mesmo atrás somente dos “culpados” ou quem sabe de todos da cidade já que a mesma foi fundada com o ouro de Blake? Bem, são teorias…

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“A comemoração de hoje é uma farsa. Estamos exaltando assassinos.” – Padre Malone

O interessante é que na primeira vez que foi mostrado à uma plateia em uma exibição teste, o público simplesmente não gostou. E nem o próprio Carpenter! Por isso ele refez toda a trilha sonora, que em sua visão não combinava com o filme, além de mudar várias coisas. Seria curioso ver essa versão original só pra comparar.

Em suma, A Neblina ou A Bruma Assassina como é mais conhecido, é um filme de fantasmas de primeira, recheado de suspense com “S” maiúsculo. Para encontrar esse filme não é muito fácil, por curiosidade ele foi lançado no Brasil com três nomes diferentes! Em VHS pela extinta Globo Vídeo como The Fog – A Bruma Assassina e nas exibições do SBT (em plena tarde no Cinema em Casa, logo depois do Chaves) como O Nevoeiro e A Neblina. A Neblina foi até lançado no Brasil em DVD, mas ao que parece está fora de catálogo, mas se você tiver sorte, pode encontrá-lo em VHS nos sebos da vida. E se você tem TV por assinatura pode conferi-lo no canal TNT com cortes. Por coincidência do destino, achei em um camelô em uma passarela da minha cidade, um VHS de A Neblina em perfeito estado por cinco reais. Nunca investi tão bem meu dinheiro.

Mas nem tudo são flores, nessa onda de refilmagens que assola o atual e pouco criativo cinema hollywoodiano, The Fog foi mais uma vítima. Ganhou uma refilmagem pelas mãos de Ruppert Wainright, o mesmo de Stigmata. Quem dera se uma neblina brilhante batesse à porta dos executivos de Hollywood…

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6 Comentários

  1. Arthur KAUFMAN

    Parabéns por sua crítica, Bruno! Só a li agora, após assistir o filme ontem à noite. Só assisti por ser de John Carpenter, pois nunca havia ouvido falar do filme. Uma pequena pérola, mesmo. Vi pela TV a cabo, infelizmente pelo canal TCM, onde não existe filme legendado. Mesmo assim, valeu à pena. E vejo que você escreve muito bem.

  2. MORCEGO

    Meu filme favorito do John Carpenter.

  3. H.P.

    Realmente é um filmaço. Carpenter é um daqueles cineastas cujo talento é inquestionável.
    Há uma forte influência de H. P. Lovecraft no longa.

  4. anselmo luiz

    o filme ” A Bruma Assassina ” foi lançado em Blu ray pela Brookfilm.

  5. Ismael Monteiro

    Clássico , a 1ª vez que assisti foi a tarde no cinema em casa , bons tempos de tv aberta.

  6. MORCEGO

    Um dos melhores e mais assustadores filmes de JOHN CARPENTER.
    Um exemplo visível de como sua carreira ia muito bem. A BRUMA ASSASSINA consegue prender nossa atenção desde o primeiro momento até o claustrofóbico final.
    O clima de tensão deixa o longa ainda mais perturbador, pois não sabemos ao certo o que está acontecendo – apesar de Carpenter apresentar a peça chave do mistério logo no começo do filme.
    Todo o elenco dá um show de atuação, mas, meu destaque vai para Adrianne Barbaeu, com seu retrato de Stevie Wayne. Aliás, Carpenter faz questão de mostrar que o protagonista não precisa estar junto com os demais personagens para enfrentar a ameaça com eles – ela faz um ótimo trabalho sozinha!
    As referências às pessoas que trabalharam com Carpenter durante os anos 70 são um dos trunfos do filme e funcionam maravilhosamente.
    Enfim, A BRUMA ASSASSINA pode, sem dúvida, figurar entre os Melhores Filmes de Terror de Todos os Tempos e entre os melhores filmes de John Carpenter.
    Um verdadeiro Clássico.

    10/10

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