A Vila do Medo (2011)

Este, nem Victor salva...
Este, nem Victor salva…
A Vila do Medo
Original:Rosewood Lane
Ano:2011•País:EUA
Direção:Victor Salva
Roteiro:Victor Salva
Produção:Don E. FauntLeRoy, Phillip B. Goldfine, Victor Salva
Elenco:Rose McGowan, Lin Shaye, Ray Wise, Bill Fagerbakke, Lauren Vélez, Rance Howard, Lesley-Anne Down, Judson Mills, Ashton Moio, Steve Tom, Daniel Ross Owens, Tom Tarantini, Sonny Marinelli

Embora seja lembrado pela franquia Olhos Famintos, o cineasta americano Victor Salva é conhecido lá fora pelo crime que cometeu durante as filmagens de Palhaço Assassino (Clownhouse, 1989), quando tinha 29 anos. Sua carreira começou na época da faculdade, com a direção do curta Something in the Basement (1986), que venceu uma competição promovida pela Sony. O filme sobre um garoto que aguarda o retorno do irmão de uma guerra sangrenta ganhou outros prêmios e atraiu a atenção do diretor Francis Ford Coppola, que resolveu produzir seu primeiro longa-metragem. Enquanto lançava seu filme sobre os três loucos que fugiram de um hospício e se vestiram de palhaço, veio à tona o fato de Salva ter molestado o ator Nathan Forrest Winters, de 12 anos, e filmado todo o ocorrido para arquivar junto com outros materiais pedófilos em sua residência. Assumindo sua culpa como consequência de abusos sofridos na infância, o diretor foi condenado a três anos de prisão, mas cumpriu apenas 15 meses, mudando-se para Los Angeles com o objetivo de continuar sua carreira no cinema.

Com a experiência na prisão, o diretor comandou, em 1995, Maus Companheiros, com Eric Roberts e Lance Henriksen, e Energia Pura, com Jeff Goldblum e Sean Patrick Flanery; quatro anos depois, ele fez Rites of Passage, com Jason Behr e Dean Stockwell, coletando mais críticas positivas que o incentivaram a novos trabalhos. Em 2001, veio Olhos Famintos, para dois anos depois ser lançada a continuação, também com boas opiniões a respeito, apesar dos boatos sobre a sexualidade da criatura como algo pessoal. Mesmo com a carreira sempre em ascensão, Victor Salva só roteirizou um único episódio da série Fear Itself In Sickness and in Health – e não fez mais nada no cinema até 2011, quando lançou A Vila do Medo, conhecido lá fora como Rosewood Lane. Será que todo esse hiato serviu para o cineasta manter a qualidade de seus trabalhos?

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A resposta é um singelo não, além dos argumentos que apresento nesta análise. Trata-se de uma produção estilo made-for-tv, feita sem ousadia, sem vontade, como se o diretor estivesse apenas pagando suas contas antes de lançar outros trabalhos. Esse longa burocrático não consegue empolgar em nenhum momento, além de contar com atuações vergonha alheia de Ray Wise e, principalmente, de uma das minhas musas, Rose McGowan (Planeta Terror). Aliás, não sou Rubens Edwald Filho para analisar o físico dos atores, mas me perguntei durante o filme o que essa garota fez com o seu rosto: ela nunca foi realmente linda, mas o uso do botox e o silicone nos lábios mudaram totalmente o seu aspecto. Sabe-se que ela sofreu um acidente de carro em 2007 e teve uma parte da pele, abaixo dos olhos, arrancada, porém acabou viciada em cirurgias, alterando além da conta o seu rosto, desde então. Dizem até que ela anda perdendo vários papéis – como a de protagonista de Speed Racer (2007) – devido a essa nova fisionomia que chamou a atenção da imprensa. Talvez isso justifique sua participação neste filme…

A Vila do Medo traz Rose McGowan como a psicóloga e radialista Sonny Blake, que possui um programa onde conversa com o público sobre violência doméstica, entre outros problemas. Mantendo uma relação meio conturbada com o promotor Barrett Tanner (Sonny Marinelli), enquanto tenta se desviar dos desejos de sua colega lésbica Paula (Lauren Vélez), Sonny decide voltar para sua cidade natal, na Alameda Rosewood Lane, onde seu pai, completamente embriagado, teria sofrido um acidente e falecido um ano antes após cair das escadas do porão. Ela resolve arrumar o local com a intenção até de vendê-lo, porém sua tranquilidade é abalada por um jovem que entrega jornais na região, conhecido como Derek Barber (Daniel Ross Owens).

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Apresentado pelo vizinho como “uma coisa“, Derek, o rapaz dos olhos negros, tem o costume de atormentar os vizinhos com seus atos agressivos e suas invasões domiciliares, tornando-se uma grande dor de cabeça para Sonny, quando ele resolve entregar jornais ali e passa a persegui-la, inclusive, no seu ambiente de trabalho. Mesmo clamando pela ajuda dos detetives Briggs (Ray Wise) e Sabatino (Tom Tarantini) – ambos de Olhos Famintos 2 -, Sonny não consegue o apoio necessário e percebe que terá que encontrar uma saída sozinha, mesmo que isso exija uma atitude drástica.

Victor Salva toca levemente no sobrenatural ao mostrar o vilão como capaz de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Além disso, sua natureza desconhecida e a frieza constante transformam-no em um monstro, um pesadelo para os moradores de Rosewood Lane, com exceção dos corajosos cães. Ainda assim, o diretor escapa de criar uma obra tensa ao não ousar nas atitudes de Derek, quando podia fazer dele uma ameaça real, optando pela simples molecagem. Só para exemplificar, em dado momento, Derek observa por alguns buracos na cerca uma reunião na casa de Sonny. Barrett resolve dar uma espiada ali para chamar a atenção do penetra. Então, o que acontece? a) Derek fura o olho dele com uma flecha? b) Derek simplesmente dá uma dedada no olho de Barret? c) Derek urina na cara de Barret?

Você percebe que está vendo um filme no estilo Supercine quando as únicas ameaças à vida de Sonny se devem às trocas de suas estatuetas de bichinhos ou aos versos que o rapaz profere ao rádio. Além disso há uma perda considerável de tempo do longa com a psicóloga tentando descobrir o endereço de Derek, optando por segui-lo pelas ruas ao invés de procurar o jornal da cidade ou o empregador. Os detetives se baseiam no livro de Sonny para impedir que ela saiba o endereço do entregador, mesmo que este já tenha entrado em sua casa por diversas vezes.

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A polícia é tão incompetente que não chega a tomar atitude nem após o espancamento de alguém ou com o surgimento de pistas que podem estar relacionadas com a morte do pai de Sonny. Entre várias bobagens do roteiro de Salva, está o desaparecimento de um personagem sem apresentar o seu destino e aquele velho clichê do vilão estar desmaiado e a pessoa ao invés de terminar o serviço resolve fugir dali. Tudo isso somado aos lábios enormes de Rose McGowan e a cara de bobo que faz Ray Wise ao levar uma flechada.

Deixando mais perguntas do que se preocupando em respondê-las, A Vila do Medo é o trabalho mais fraco da carreira de um bom cineasta que sofre com as sombras de um passado negro. Fazendo uso de alguns detalhes biográficos – padrasto bêbado, porão, vida conturbada -, Salva não acerta na direção, na construção dos personagens, na trilha sonora ou até mesmo no roteiro, pouco atraente e extremamente convencional. Um sinal de alerta para alguém que já foi mais eficiente e produtivo.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

2 comentários em “A Vila do Medo (2011)

  • 09/02/2015 em 14:50
    Permalink

    Uma pequena correção Marcelo. Antes de ele dirigir esse A Vila do Medo em 2011 ele dirigiu Poder Além da Vida em 2006, com Nick Nolte.

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