Críticas

Desespero (2006)

Garris e King terminam o filme com um desfecho morno que não corresponde em nada ao desespero prometido pelo título!

Desespero (2006) (2)

Desespero
Original:Desperation
Ano:2006•País:EUA
Direção:Mick Garris
Roteiro:Stephen King
Produção:Kelly Van Horn
Elenco:Tom Skerritt, Steven Weber, Annabeth Gish, Charles Durning, Matt Frewer, Henry Thomas, Kelly Overton, Sylva Kelegian, Ron Perlman

As adaptações para cinema e TV de Stephen King formam um assunto polêmico, sobretudo entre fãs do autor. Grandes obras da sétima arte, como O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, adquiriram má fama entre os admiradores do “Rei do Maine” principalmente por inverter passagens importantes do romance, incluindo o tom da narrativa e o desfecho da obra original (eu sou um de seus detratores – preciso rever o filme de Kubrick com olhos mais voltados ao filme em si do que ao livro). O próprio King não gostou de praticamente nada no filme acima citado. No entanto, é bastante comum que filmes que se mostram fiéis ao trabalho de King, como O Apanhador de Sonhos (2003) ou seu filho único na direção, Comboio do Terror (1986), sejam massacrados pelo público como péssimos filmes. O que talvez seja possível concluir com tais fatos é que: 1) Filmes são diferentes de livros, e copiar e colar num roteiro a partir do que foi escrito num livro pode não funcionar tão bem, e: 2) Não há fórmula perfeita para se adaptar um livro, exceto, talvez, a tese que Frank Darabont defende: Manter o tom da narrativa sem ser escravo do material original.

Se inicio o texto com essa breve introdução sobre adaptações, é porque Desespero, um telefilme de 2006, teve seu roteiro escrito exclusivamente por King, foi dirigido por Mick Garris, um fanático pelo gênero horror que já havia dirigido cinco adaptações dele (O Iluminado, Dança da Morte, A Maldição de Quicksilver, Montado na Bala e Sonâmbulos), algo que só poderia resultar em um produto fiel e de alta qualidade, certo? Errado. Desespero estreou no canal ABC em 23 de maio de 2006 e obteve pouco sucesso entre público e crítica, sendo indicado a dois prêmios Emmy, mas não ganhando nenhum.

Desespero (2006) (1)

Um fato interessante é que Stephen King publicou Desespero no mesmo ano em que lançou, sob o pseudônimo de Richard Bachman, seu romance “gêmeoOs Justiceiros, com personagens em comum, mundos em paralelo, e que giram em torno da entidade Tak, um demônio das profundezas que pode controlar a vida selvagem e se apossar de corpos humanos, como se fosse um parasita.

No filme, um casal está em viagem por uma rodovia no meio do deserto do Nevada, quando são parados por uma figura pra lá de estranha, o xerife Collie Entragian (o ótimo Ron Perlman), que detém os dois pela posse de maconha. Antes de chegar à cadeia, o casal percebe uma cidade aparentemente deserta a não ser por alguns corpos pelas ruas, e depois se unem aos detentos, tão inocentes e confusos quanto eles na delegacia local. Collie Entragian se mostra então um sujeito não somente estranho, mas assassino, misterioso e que guarda algo sobrenatural na sua existência.

Desespero (2006) (3)

Prejudicado pelas próprias características que não lhe negam a natureza de telefilme (fotografia chapada, fade outs para os comerciais, edição com muitos cortes secos, que se distanciam do virtuosismo da montagem cinematográfica, etc.), Desespero tem suas únicas qualidades no elenco, com destaque para Ron Perlman (Hellboy), que imprime no seu personagem um caráter assustador através de maneirismos e tiques, que aqui funcionam extraordinariamente bem justamente pela natureza insana do xerife. Curiosamente, quando o personagem Entragian deixa a trama, o filme cai na morosidade do roteiro, perde a atmosfera inquietante da primeira hora, e deixa o espectador entediado com longos diálogos entre os personagens que talvez funcionaram melhor no livro, além de um ritmo lento que vai de encontro à angústia do início do filme. Além disso, King faz apostas de gosto duvidoso, como alçar o estereótipo do “pré-adolescente chatonildo” a uma posição de herói dentro da trama, nunca algo bom. Por fim, Garris e King ainda terminam o filme com um desfecho morno que não corresponde em nada ao desespero prometido pelo título.

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1 Comentário

  1. Hierofante1970

    Se fosse dirigido por Frank Darabont com certeza teria ganho 5 caveiras, pois o cara é ótimo em dirigir filmes baseados nos livros de King como Um Sonho de Liberdade (1994), A Espera de um Milagre (1999) e O Nevoeiro (2007) no qual o final foi muito melhor que do livro segundo o próprio King. Mas darei uma chance ao Desespero.

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