Ratos – A Noite do Terror (1983)

 

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Ratos - A Noite do Terror
Original:Rats - Notte di terrore
Ano:1983•País:Itália, França
Direção:Bruno Mattei
Roteiro:Bruno Mattei, Claudio Fragasso
Produção:Jacques Leitienne
Elenco:Ottaviano Dell'Acqua, Geretta Geretta, Massimo Vanni, Gianni Franco, Ann-Gisel Glass, Jean-Christophe Brétigniere, Fausto Lombardi

Esqueça tudo que você sabe sobre filmes ruins, de Plan 9 From Outer Space (de Ed Wood) a O Ataque dos Tomates Assassinos. O pior filme de todos os tempos foi feito em 1983 na Itália, e é muito improvável que alguma outra produção seja tão ridícula, tão infame e tal mal-feita a ponto de alcançar o mesmo posto. Estou falando de Ratos – A Noite do Terror, dirigido pelo nosso inepto amigo Bruno Mattei e seu incompetente cúmplice roteirista Claudio Fragasso (convenientemente escondidos por trás dos pseudônimos Vincent Dawn e Clyde Anderson). A fita foi lançada no Brasil pela extinta F.J. Lucas, com uma imagem tão escura que piora o que já é ruim. Como é improvável que seja relançado em DVD por aqui, o negócio é comprar a fita em sebos (eu mesmo tenho três!).

Simplesmente não há palavras para dizer o quanto Ratos é ruim. Mesmo assim, confesso que já o assisti mais de cinco vezes, numa espécie de curiosidade mórbida. Tudo é ruim, da direção ao roteiro, passando pelas interpretações, figurinos, cenários, iluminação, efeitos especiais, montagem, ritmo, trilha sonora e conclusão. Se um filme fosse feito com o objetivo de ser ruim (como as produções da Troma), nem assim ele seria TÃO RUIM quanto este!!! Faltariam Framboesas de Ouro pra premiar a obra-prima de Bruno Mattei.

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Se você duvidam que um filme possa ser tão asqueroso, acompanhem-me enquanto disseco esta porcaria de proporções atômicas.

Ratos começa com uma filmagem panorâmica de um deserto, enquanto sobem os letreiros em inglês explicando que, no ano 2015, “a humanidade, em toda a sua estupidez“, e blá blá blá, provocou uma guerra atômica que destruiu todo o planeta – o que não é novidade desde o final de O Planeta dos Macacos, feito nos anos 60, mas tudo bem. Agora estamos no ano 215 D.B (Depois da Bomba, hahahahaha), e a humanidade se divide em duas facções: os sobreviventes que se refugiaram nos subterrâneos do planeta, para escapar da radiação e reconstruir a sociedade, e aqueles que resolveram voltar para a luz do sol. Estes são considerados marginais e conhecidos como “Novos Primitivos“. Não que qualquer uma dessas baboseiras vá fazer qualquer diferença na história, mas tudo bem!

Entram então os créditos iniciais, ao som de uma ridícula trilha sonora à base de sintetizador, assinada por Luigi Ceccarelli (será parente da gostosa da Daniela???). Desnecessário dizer que Luigi é um colaborador habitual do diretor Mattei, tendo trabalhado em outros filmes do cineasta (como os westerns Escalpos e Apache Branco). Os ruins se atraem!

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Mas voltemos ao ano 215 Depois da Bomba: um punhado de “Novos Primitivos” circula pelas paisagens desérticas em automóveis e motocicletas, com um figurino “neo-punk” que deve ter sobrado do set de filmagens de Mad Max 2. Só não consigo imaginar onde os “Novos Primitivos” encontram gasolina em um mundo desértico… Depois de uma breve viagem, o grupo chega às ruínas de uma cidade. Aqui vamos dar uma pausa para estudar nosso grupo de heróis.

Kurt (Richard Raymond, ou melhor, Ottaviano Dell’Acqua, outro que trabalha costumeiramente com Mattei) é o líder, que usa lencinho vermelho no pescoço e tem cabelinho e barba bem aparados (isso que eles são os “Novos Primitivos“… onde será o cabeleireiro mais próximo no deserto?). Diana (Cindy Leadbetter) é a garota do chefe e tem uma ridícula tira de couro amarrada na testa. Chocolate (Janna Ryan, ou melhor, Geretta Giancarlo) é, obviamente, uma garota negra. Video (Richard Cross) é o engraçadinho da turma. Taurus (Alex McBride, ou melhor, Massimo Vanni, também amigão de Mattei) é o truculento da turma. Duke (Henry Luciani) é um arrogante aspirante a líder, apaixonado por Myrna (Ann-Gisel Glass), uma loirinha covarde. Noah (Chris Fremont) não fede e nem cheira, mas tem grande conhecimento de plantas e botânica (apesar de ter vivido toda a sua existência em um árido mundo desértico!!!!). Lucifer (Christoph Bretner) e Lilith (Moune Duduvier) são um casal problemático, e Deus (Fausto Lombardi), um ridículo punk com cabelo moicano e uma tatuagem esquisita no meio da testa.

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Pelos nomes da turma (Deus? Lucifer? Chocolate? Video?), percebemos que Fragasso não estava num de seus melhores dias como roteirista, ainda por cima trabalhando em uma ideia original do próprio Mattei… Para variar, Fragasso atuou também como assistente de direção, ajudando seu amigão do peito a tornar o filme ainda pior. E o figurino da turma é tão pobre que parece que eles pegaram tudo que tinha sobrado no estúdio: Duke está vestido com uma daquelas roupas de general do século 18, Lilith veste maiô e capa púrpura (argh!), Taurus uma roupa preta toda em couro, e por aí vai.

Voltando às ruínas da cidade, Kurt e seu grupo resolvem parar em um hotel abandonado para passar a noite. Durante uma busca feita no velho prédio, descobrem caixas cheias de comida, que são devoradas avidamente – a cena é tão exagerada que parece que Mattei simplesmente ligou a câmera e pediu para os atores pagarem mico em frente dela. Duke come açúcar dando dentadas diretamente no pacote plástico, Kurt enfia conserva na boca e deixa tudo escorrer para fora, além de jogar farinha em Chocolate para deixá-la branca, e por aí vai. Lembram-se dos filmes dos Trapalhões? Bons tempos aqueles…

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A busca continua e o grupo encontra, no porão, um aparato científico complicado, com plantas (frutas, verduras), recriadas em laboratório e colocadas em estufas sob uma luz esverdeada, um aparelho que purifica a água poluída e muitos computadores que surpreendentemente ainda funcionam (apesar de não haver energia elétrica). Também encontram dezenas de cadáveres carcomidos por ratos e algumas centenas de roedores zanzando pelo hotel.

Até então, os personagens tiveram poucos diálogos. Mas quando os atores começam a abrir a boca, somos brindados com os diálogos mais tenebrosos que Fragasso (e qualquer outro roteirista do mundo) já escreveu. Ao ver um monte de ratos dentro do freezer, Video diz (falando sério): “Veja Kurt. Queria me lembrar de algumas das velhas receitas da mamãe, como rato frito, rabo de rato à milanesa… Sério, com vinagre eles ficam ótimos!“. Depois, ao encontrarem um cadáver parcialmente comido por ratos, Kurt vem com a teoria que os humanos brigaram por comida e mataram uns aos outros. Chocolate, que deu apenas uma olhadela no corpo, protesta: “Mas não há sinais de assassinato, como eles se mataram?“. Isso que é olho técnico. Olhar rapidamente para um corpo mutilado e não encontrar sinais de crime, nem Sherlock Holmes faria melhor!

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Quando o grupo encontra os computadores, Video acredita que se trata de um videogame (apesar de não existirem mais videogames no mundo pós-apocalíptico). Quando Deus (o personagem, não o divino) lhe diz que aquilo é “apenas” um computador, Video fica chateado e dá um chute no equipamento: “Essa máquina imbecil merece um chute nas bolas!“, declara. O chute, obviamente, coloca o equipamento para funcionar, explicando aos nossos “heróis” que aquele local era uma base de experiências científicas.

Chega a noite e finalmente o filme começa. Os personagens começam a se separar para comer, beber, caminhar ou simplesmente trepar, sendo atacados e comidos pelos ratos. As cenas são de dar dó. É até possível enxergar a mão dos contra-regras jogando os ratos falsos em cima dos atores. Pior: duas ou três mordidinhas de rato e a vítima já está morta!!!

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Para exemplificar como a coisa funciona, vamos a um curso rápido de filmagem de ataque de ratos, por Bruno Mattei.

Passo 1: Filme closes com dezenas de ratos caminhando no chão.
Passo 2: Duble o som de gritos e diálogos dos personagens sobre a cena anteriormente filmada.
Passo 3: Coloque vários ratos de mentirinha no chão e filme a cena 2, com o ator deitado no chão e os contra-regras jogando ratos de brinquedo sobre ele.
Passo 4: Edite partes da cena 1 com partes da cena 2, de forma que tenhamos o ator rolando no chão com os ratos falsos, gritando, e closes de ratos de verdade caminhando e se mexendo.

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Simples não? Pena que a coisa fica simplesmente ridícula quando vista na tela! Os personagens gritam desesperados: “Lá vem eles (os ratos)! São milhões!!!“, e Mattei corta para uma close ridículo de meia dúzia de ratos caminhando no chão, um para cada lado! Ou então dá um close num único ratinho mexendo os bigodes e depois corta para um close no rosto ensanguentado de um dos atores. Gente, é de se mijar de rir!!! Lembram do coelhinho assassino do filme Monty Python em Busca do Cálice Sagrado? É a mesma coisa, só que com ratos!!!

Uma das primeiras vítimas é Lilith, que está presa dentro de um saco de dormir. Um rato entra por sua vagina (“off-screen“, obviamente) e se aloja no interior do corpo, esperando para sair pela sua boca assim que os companheiros da moça chegarem para encontrar o cadáver. Até então, o espectador foi brindado com muitos diálogos ridículos, uma desastrada cena de sexo e até alguns rápidos takes com nudez frontal, masculina e feminina, para apimentar um pouco o filme.

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E a bobeira continua. Em uma cena, Myrna grita: “O que eles (os ratos) têm contra nós? Não fizemos nada contra eles!“, esquecendo que no início do filme eles mataram os ratos de todas as formas, inclusive a tiros – e desconsiderando, também, o fato de que ratos são animais irracionais e não precisam exatamente de um motivo para atacar.

O mais ridículo, entretanto, é ver como um monte de marmanjos, armados com rifles, espadas, granadas e até lança-chamas, têm medo de meia dúzia de ratinhos cuja altura não passa de cinco centímetros. Quer dizer, eu realmente me recuso a acreditar que alguém possa realmente ser morto e devorado por ratos. A não ser que caia, bata a cabeça e perca os sentidos. Mas um ser humano forte e ágil não conseguir se livrar de ratos caminhando sobre ele parece muito exagerado.

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Em uma cena, Kurt, Video, Deus e Taurus sobem apavorados uma escada onde os degraus estão tomados por ratos. Ora, bastaria subir correndo, esmagando os ratos no processo. Mas eles preferem ir devagarzinho, enquanto Kurt solta seu diálogo ridículo: “Veja que animais asquerosos! Pensem nas moléstias que eles podem causar… Hepatite, meningite, leptospirose, a peste!“. huahuahuahua. Subitamente, Taurus cai e os ratos pulam (ou seria “voam“?) sobre ele. Apesar de ter levado no máximo duas mordidas, ele desiste de lutar, pára de se debater e grita para os companheiros: “Deixem-me! Corram! Estou liquidado!“. huahuahuahua. E os três covardões saem correndo mesmo!!!

Só que Duke trancou-se no único quarto livre dos ratos, com as mulheres do grupo, e não tem a intenção de deixar os outros entrarem. Num rasgo de desespero, ao ver os “milhões de ratos” se aproximando, Kurt grita: “Ordeno que abra essa porta em nome da humanidade!“. huahuahuahua

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Se a situação já era tensa só com o ataque dos ratos, ela fica ainda pior com o início de um motim interno no grupo. Duke contesta a liderança de Kurt e quer ser ele o líder. Os dois saem na porrada, até que Duke, o mais encrenqueiro, que começou toda a briga, declara: “Precisamos de coragem, e não de lutas entre nós! Vamos lutar contra os ratos!“. huahuahuahuahua

A partir daqui, outra faceta fascinante dos ratos é mostrada: eles não só voam (para abocanhar as vítimas), não só matam seres humanos com meia dúzia de mordidas, mas também são capazes de fabricar zumbis! Isso mesmo! O grupo escuta um barulho no corredor e, quando vai ver, encontra o cadáver de Taurus de pé! Ele está morto, mas recheado com centenas de ratos, o que, pelo menos na cabeça do roteirista Fragasso e do diretor Mattei, basta para fazê-lo caminhar e se mexer!!! Logo o “zumbi” cai no chão e seu peito explode (literalmente), liberando uma chuva de ratos sobre o restante do grupo! huahuahuahua.

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Em outras cenas de “ataque” de ratos, os pobres bichos vêm de cima (isso mesmo!), caindo na cabeça dos atores, todos imóveis, claro, como se alguém jogasse um balde de ratos de brinquedo sobre os personagens! huahuahuahua

E é desnecessário contar mais… Ratos é simplesmente o maior festival de abobrinhas e cenas mal-feitas já realizado. Chega-se ao cúmulo de mostrar Kurt dizendo: “Irei à luta! Chamarei o blefador deles (os ratos) e o enfrentarei!”; ou então a declaração filosófica de Video: “Nosso destino é mais opaco do que brilhante!” huahuahuahua. Ou ainda a frase brilhante de Video ao encontrar um velho gravador: “Bem que isso poderia ser uma lâmpada mágica, com um gênio dentro para nos tirar desta encrenca“. E quando Myrna encontra uma gigantesca aranha tarântula e grita??? Chocolate lhe diz: “Calma Myrna, é apenas uma aranha!“. Quer dizer, é como se ela só pudesse ter medo dos ratos, e nada mais! huahuahuahua. Chega! Não falo mais nada!!!

Numa entrevista dada para o DVD de seu filme Hell of the Living Dead (que também é uma porcaria), Mattei chega ao cúmulo de dizer que Ratos é sua versão de A Noite dos Mortos-vivos, o clássico de George A. Romero. “Tudo que eu fiz foi substituir os zumbis por ratos“, declara o diretor, na maior cara-de-pau!!! Substituiu a qualidade do clássico pela porcaria, também, mas isso esqueceu de falar!

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O mais curioso de tudo é que li em um site sobre filmes ruins que a maior parte dos ratos usados nos “close-ups” nem são realmente ratos, mas sim porquinhos-da-índia pintados de cinza para parecerem grandes ratazanas. Será que até essa nos aprontaram??? Um filme chamado Ratos e estrelado por um punhado de porquinhos-da-índia??? Vou me queixar para o Serviço de Atendimento ao Consumidor! Que mudem o título para Porquinhos-da-Índia – A Noite do Terror!!!

Falta sangue, falta ritmo, falta suspense, falta horror, faltam interpretações convincentes, enfim, falta TUDO nessa bomba monumental de Mattei/Fragasso. O filme se resume a confrontos sucessivos homem x rato, cada um deles mais exagerado e mais mal-encenado do que o outro. Eu fico imaginando como tanta gente consegue se envolver num projeto desses, que já nasce ruim. Quer dizer, ninguém terá questionado o roteiro? Os produtores, por exemplo, como foram convencidos a colocar dinheiro numa barca furada como esta? E o que dizer do próprio diretor, será que ele se divertiu fazendo um filme tão ruim e pensando no quanto nós, pobres espectadores, sofreríamos para assisti-lo??? A melhor crítica de Ratos que eu já li foi no site Rotten Tomatoes (Tomates Podres), onde o comentarista simplesmente taxou o filme de Mattei de “um pútrido punhado de merda“. huahuahuahuahua. Concordo com ele.

A dica que eu dou é a seguinte: domingão de chuva, nada para fazer, reúna a turma na sala com muita cerveja e coloque Ratos no videocassete. Mas tem que ser num volume generoso, caso contrário as risadas e gargalhadas irão abafar a péssima dublagem em inglês dos diálogos originais em italiano. E prepare-se para ficar com a barriga doendo de tanto gargalhar. Bruno Mattei podia não entender NADA de filmes de horror, mas em compensação fazia cada comédia maravilhosa que dá de dez a zero em Mel Brooks e Monty Python.

Com tantos filmes sobre ataque de ratos (pavorosos, por sinal) sendo lançados em vídeo, com efeitos digitais e muitas frescuras que Bruno Mattei não tinha em 1983, e mesmo assim tão ruins quanto o filme italiano, torna-se obrigatório conhecer esta perola do cinema trash. E torcer para que Fragasso nunca tenha a ideia de fazer uma continuação, mesmo sem a presença do falecido Mattei.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

3 comentários em “Ratos – A Noite do Terror (1983)

  • 16/01/2017 em 02:06
    Permalink

    Como disse o Bernadi nos comentários é um lixo de primeiro escalão.

    É um trash de dar gosto!!

    Recomendado!!

    Resposta
  • 20/02/2015 em 14:11
    Permalink

    um lixo de primeiro escalão
    me gusta mucho

    Resposta
  • 17/02/2015 em 22:54
    Permalink

    Eu gostei do filme- um Filme B, do jeito que só Bruno Mattei e Claudio Fragasso sabiam fazer.
    Um Trash assumido, divertido, sangrento e sem nexo.
    Ótimo filme.

    Resposta

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