Críticas

Do Além (1986)

O time de Reanimator de volta à obra de Lovecraft – não tinha como dar errado!

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Do Além
Original:From Beyond
Ano:1986•País:EUA
Direção:Stuart Gordon
Roteiro:Brian Yuzna, Dennis Paoli, H. P. Lovecraft, Stuart Gordon
Produção:Brian Yuzna, Bruce William Curtis, Charles Band, Roberto Bessi
Elenco:Jeffrey Combs, Barbara Crampton, Ted Sorel, Ken Foree, Carolyn Purdy-Gordon, Bunny Summers, Bruce McGuire, Del Russel, Dale Wyatt

Fato: Reanimator, dirigido em 1985 por Stuart Gordon, é um dos filmes preferidos de meio mundo (inclusive deste que vos escreve). Fato: raras vezes se viu uma combinação tão perfeita de horror, humor negro, violência, o universo de H. P. Lovecraft e um elenco escolhido a dedo. Fato: Reanimator é o melhor filme de Stuart Gordon, e uma das melhores produções do gênero dos anos 80. Suposição: se Reanimator não existisse, o título de melhor filme de Stuart Gordon e de uma das melhores produções do gênero nos anos 80 seria da obra posterior do cineasta, Do Além.

Em time que está ganhando não se mexe, diz aquele velho ditado. E o sucesso de Reanimator levou a produtora (hoje falida) Empire Pictures e o produtor Brian Yuzna a tentarem uma nova empreitada no mesmo estilo. Todo mundo sabe que um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar; mas desta vez, numa daquelas surpresas do destino, caiu. Em Do Além, o mesmo Stuart Gordon trabalhou com um conto do mesmo H. P. Lovecraft numa obra dos mesmos produtores e praticamente com o mesmo elenco de Reanimator. Não tinha como dar errado, e não deu. O resultado é um programa divertidíssimo, que se não é tão sangrento quanto o anterior, pelo menos investe em todo tipo de nojeiras e deformidades. E de todas as adaptações cinematográficas da obra de Lovecraft, esta é uma das mais próximas do universo do autor.

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Humanos são presa fácil”, diz a frase na capinha da clássica fita da extinta VTI, que eu loquei algumas dezenas de vezes na locadora da minha cidade antes de conseguir comprar minha própria cópia. Sem medo de errar, devo ter visto e revisto Do Além umas 30 vezes. Logo que saiu em vídeo, e eu ainda era um pirralho, lembro de mostrá-lo para todos os meus amigos em sessões caseiras. Ele tem tudo que um pirralho fã de horror quer ver num filme de horror: sangue na medida certa, criaturas hediondas, monstrengos gosmentos, nojeira em doses cavalares e até umas pitadas de perversão – que, nos dias de hoje, podem parecer surpreendentemente ingênuas, mesmo que envolvam coisas pesadas, como sadomasoquismo.

Humanos são presa fácil” também é uma das frases mais marcantes do roteiro, e sai da boca deformada do dr. Edward Pretorius (Ted Sorel, de Basket Case), já transformado em uma das criaturas mutantes “do outro lado” – ou “Do Além”, como a distribuidora nacional quis traduzir From Beyond. Pretorius é a alma da história, o típico cientista doido e incontrolável presente em diversas histórias de Lovecraft, que, na sua curiosidade de ver mais, sentir mais e “ser” mais, desperta as terríveis e destruidoras forças de outra dimensão, transformando-se ele mesmo numa criatura deformada e maléfica. É quase como uma versão bem mais malvada do dr. Herbert West, anti-herói do anterior Reanimator. Enquanto West ainda tinha um pingo de humanidade, e fazia suas experiências de reanimação de cadáveres num misto de teimosia e esperança no futuro dos seres humanos, Pretorius é apenas um cara egoísta e arrogante que só pensa nele mesmo. E, claro, em destruir o mundo, caso contrário não seria um cientista doido de filme B!

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Quando Do Além começa, somos apresentados a uma cara bastante familiar: o ator Jeffrey Combs, eternamente marcado como o Herbert West de Reanimator. Nesta nova “aventura”, Combs interpreta outro cientista, o dr. Crawford Tillinghast, assistente do dr. Pretorius. Além da cara, Tillinghast não tem absolutamente nada em comum com Herbert West: enquanto o reanimador de cadáveres mostrava coragem e determinação para continuar realizando suas experiências mesmo quando elas davam errado, Tillinghast é um covarde que percebe o risco das experiências de Pretorius – mas, por uma série de fatores, não tem como escapar delas.

No sótão de uma velha casa antiga que fica na Benevolent Street (como no conto original “From Beyond”, de Lovecraft), Tillinghast aciona os mecanismos rudimentares de uma máquina fantástica criada pelo dr. Pretorius, o “resonator” (desconheço qual seria a tradução correta para o termo, e as legendas da velha fita da VTI usam apenas “aparelho”). A máquina é algo brilhante, uma mescla do visual retrô das antigas produções classe B em preto-e-branco (poderia muito bem estar no laboratório do dr. Frankenstein no clássico dirigido por James Whale) com toques “modernos” (inclusive computadores hoje jurássicos). O cientista até aciona uma chave em forma de alavanca, lembrando ainda mais as pérolas “B” de antigamente!

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E é justamente quando aciona a tal alavanca que Tillinghast faz funcionar o “resonator”. Toda a sala se enche com uma forte luz púrpura, e um irritante som incomoda tanto o cientista quanto o espectador. Então, o cientista vê surgir uma bizarra criatura, semelhante a uma enguia elétrica, flutuando próximo à máquina. Entre assustado e maravilhado, Tillinghast ergue a mão para ver se aquela criatura é real, e neste momento o bicho avança contra o rosto do coitado, arrancando um naco de pele da bochecha. Rápido e rasteiro, ele abaixa a alavanca e a máquina desliga, fazendo desaparecer a violenta criatura. Mesmo depois de um cagaço desses, a primeira coisa que Tillinghast faz é descer até o quarto do dr. Pretorius. “Edward, a máquina está funcionando!”, anuncia. Pretorius sobe excitadíssimo para testar e coloca o aparelho na frequência máxima. O resultado, claro, é destruidor. Os dois começam a se sentir mal, mas Pretorius está adorando a experiência. “Eu quero ver mais!!!“, grita o maluco. Então, subitamente, murmura: “Algo está se aproximando…”, e a cena corta para os vidros das janelas do sótão explodindo.

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Uma vizinha xarope resolve ligar para a polícia, incomodada com as luzes e com a barulheira na casa ao lado, ignorando os bizarros eventos que estão acontecendo no laboratório. Quando ela vai até o local averiguar, atrás de seu cãozinho poodle que para lá escapou, encontra Tillinghast correndo a plenos pulmões para se salvar, enquanto o cãozinho (chamado de “Bunny” por sua dona) lambe o cadáver decapitado do dr. Pretorius. Finalmente, entram os créditos de abertura. Os fãs de horror vão perceber a sutil semelhança entre as cenas iniciais dos dois trabalhos de Gordon, Reanimator e Do Além: em ambos, as experiências de um cientista ambicioso acabam mortalmente erradas, e as duas cenas iniciais concluem com uma imagem forte – o corpo decapitado de Pretorius em Do Além e os olhos do dr. Gruber dilatando e explodindo em Reanimator.

Com o tenebroso resultado do experimento, e a trágica e misteriosa morte do dr. Pretorius – sua cabeça não foi encontrada pela polícia, nem qualquer gota de sangue no laboratório -, Tillinghast é preso e mandado direto para o manicômio, devido à história absurda que ele conta, sobre uma criatura que “devorou a cabeça do dr. Pretorius, como se fosse um biscoito de gengibre“. Quem viu Do Além na velha fita VHS certamente deve estar até hoje confuso com a forma como esta frase foi traduzida, e que trocou “it” por “I” (eu), fazendo o personagem dizer: “EU comi a cabeça do dr. Pretorius, como se fosse um pedaço de bolo” (porque no Brasil ninguém conhece aqueles biscoitos de gengibre em forma de bonequinho). Porém, é imperdoável a forma como a péssima tradução faz com que o espectador fique pensando que foi o próprio Tillinghast quem devorou a cabeça do colega cientista, e não uma criatura “Do Além“.

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De todo jeito, a polícia pede a colaboração de uma belíssima psiquiatra, a dra. Katherine McMichaels (Barbara Crampton, de, tchan-tchan-tchan-tchan, Reanimator), para descobrir se Tillinghast é louco ou se fala, hã…, a verdade. Ao ouvir a descrição de como a criatura Do Além arrancou a cabeça de Pretorius, a psiquiatra de alguma forma acredita nas palavras apavoradas do cientista. Neste momento, o prisioneiro explica à psiquiatra – e ao espectador – que a máquina projetada por Pretorius tinha o objetivo de estimular a glândula pineal do cérebro humano. Para quem não está tão familiarizado com anatomia, a pineal é uma área do cérebro cujo objetivo ainda não é totalmente conhecido pela medicina. No passado, René Descartes (filósofo, cientista e matemático francês do século 17) acreditava que era uma espécie de “terceiro olho“, e a barreira entre o mundo físico e o mundo espiritual. Se a forma de utilizar a pineal fosse desvendada, acreditava Descartes, o ser humano teria fantásticos poderes mentais, inclusive telepáticos.

Física e química à parte, e de uma forma bem simples: o aparelho de Pretorius estimula a pineal para despertar uma espécie de “sexto sentido“, tornando a pessoa apta a enxergar uma outra dimensão, onde vivem criaturas horríveis. Esta é a parte mais interessante do conto original de Lovecraft: no nosso mundo, no nosso dia-a-dia, vivemos cercados por estas criaturas bizarras (que, na descrição do autor, tomariam todo o céu, como uma grande massa de vermes sempre em movimento). Só que, como estamos em dimensões diferentes, não podemos vê-las, e, felizmente, nem elas a nós. O aparelho do dr. Pretorius seria uma espécie de “portal” entre as duas dimensões, permitindo que os humanos enxerguem aquelas criaturas normalmente invisíveis – o problema é que as criaturas também podem nos enxergar!!!

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Curiosa com a história, Katherine resolve pedir uma tomografia do “paciente“, apesar dos protestos da chefona do manicômio, a dra. Bloch (Carolyn Purdy-Gordon, esposa do diretor Stuart, e que ganhou este nome em homenagem ao famoso escritor Robert Bloch, que era amigo pessoal de Lovecraft). A médica-chefe acredita que os esquizofrênicos devem ser tratados da forma usual, ou seja, enclausurados. Carolyn, para quem não lembra, interpretou uma médica também em Reanimator. O resultado da tomografia é surpreendente: a pineal de Tillinghast está crescendo e avançando pelo cérebro. Bloch acredita que trata-se de um tumor, e que este tumor é que estaria causando alucinações no cientista. Mas Katherine acha que é algo mais, e consegue convencer a polícia a libertar o cientista, sob sua responsabilidade, para voltarem até a sinistra casa na Benevolent Street e repetirem a experiência. Se der certo, e as criaturas Do Além aparecerem novamente, será a prova de que o cientista não está louco. Como não é comum liberar um louco acusado de assassinato assim, sem mais nem menos, o chefe de polícia manda seu “melhor homem” para acompanhar a experiência; no caso, um negro enorme e ex-jogador de futebol americano, o sargento Leroy “Bubba” Brown – interpretado por ninguém menos do que Ken Foree, do clássico Dawn of the Dead.

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Quando o trio chega na casa – à noite, sabe-se lá porque -, Tillinghast surta diante da mínima possibilidade de acionar novamente o “resonator“, e tenta destruí-lo a machadadas. Bubba intervém, pois se tivesse deixado o cientista destruir a máquina, não teríamos mais história para contar! O policial também faz uma interessante descoberta: o quarto do dr. Pretorius, até então considerado um “respeitado cientista“, está repleto de roupas de couro, chicotes e algemas, além de filmagens caseiras onde o doutor tortura, chicoteia e transa com belas garotas. Sim: Pretorius, quem diria, era um depravado adepto de sadomasoquismo – um detalhe que, mais adiante, será de utilidade na trama. Com a aparelhagem em ordem, os três resolvem repetir a experiência. Tillinghast fica próximo à alavanca que liga/desliga o aparelho e alerta: “Não se mexam, pois assim como nós vemos as criaturas, elas vão começar a nos ver!“. A psiquiatra e o policial começam a sentir dor de cabeça quando o “resonator” entra em ação, e, para a surpresa de Bubba, realmente aparecem criaturas flutuando no céu. Curioso, como Tillinghast no início do filme, ele ergue a mão para tocá-las, e um dos monstros, parecido com uma medusa, avança e morde o braço do policial.

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Mas o pior está por vir: para a surpresa dos três, o próprio dr. Pretorius aparece, completamente nu. Seu assistente se aproxima mas, ao tocá-lo, percebe como a carne se deforma. “Meu Deus, Edward… No que você se transformou?“, questiona Tillinghast. E o cientista, agora devidamente transformado em criatura demoníaca, responde: “Em mim mesmo“, antes de arrancar a pele do rosto e começar um processo arrepiante de transformação – lembrando até a maquiagem de Louis Gossett Jr. no clássico Inimigo Meu -, dizendo que o corpo não importa, e sim a mente. Garras purulentas saem de dentro da sua cabeça explodida e avançam sobre Bubba, mas neste exato momento Tillinghast baixa a alavanca, fechando o “portal” e fazendo desaparecer as criaturas do outro lado.

A arrepiante experiência comprovou que Crawford Tillinghast não é louco. Ele e Bubba estão loucos para destruir a máquina e ir embora daquela casa. Porém Katherine, surpreendentemente – e como Pretorius no início -, quer ver mais e sentir mais. Ela acredita que o estímulo da glândula pineal possa trazer respostas para a esquizofrenia. Na sua visão, os loucos internados nos hospícios estariam enxergando as criaturas de outras dimensões, invisíveis aos olhos das pessoas normais. E a pisquiatra ainda tem um trauma pessoal, já que seu próprio pai passou os últimos 15 anos de vida internado num manicômio como esquizofrênico. A possibilidade de encontrar uma cura para a loucura leva Katherine a tentar repetir a experiência, quando Bubba e Tillinghast estão dormindo. Pretorius mais uma vez reaparece e aí sim as coisas saem do controle, num festival de nojeira, mutações, gosma e uma pitadinha de sacanagem.

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H. P. Lovecraft provavelmente iria se mijar de medo vendo Do Além. Seu conto original, “From Beyond”, foi escrito em 1920 e, como o próprio autor escreveu numa carta a um amigo, acabou “rejeitado por todas as revistas literárias”. Apesar disso, verdade seja dita, “From Beyond” é um texto original e com um final realmente assustador. Ao contrário da versão cinematográfica, não existe no conto a figura do dr. Edward Pretorius, mas apenas o personagem Crawford Tillinghast. Ele é um cientista doido que vive numa mansão vitoriana na Benevolent Street, e que desenvolveu uma máquina para poder “enxergar” outras dimensões. O narrador em primeira pessoa (elemento típico na obra de Lovecraft) conta como foi visitar o cientista em seu laboratório e descobriu que todos os criados da casa desapareceram misteriosamente. Tillinghast então aciona seu aparelho, fazendo o narrador enxergar um amontoado vibrante de monstruosas criaturas flutuando no céu. “Você as vê? Você vê estas criaturas que flutuam no céu durante cada momento da sua vida, que formam o que o homem chama de ar puro e céu azul?”, grita Tillinghast. A experiência termina com o cientista morto e o narrador destruindo a máquina com um tiro. Ele é preso pela polícia e logo liberado, só que jamais são encontrados vestígios dos criados, que a polícia acredita terem sido assassinados por Tillinghast – na verdade, eles foram devorados pelas criaturas “Do Além”.

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From Beyond” foi finalmente publicado em junho de 1934, em quatro páginas da revista “The Fantasy Fan”. Aí surge a grande questão: como transformar cerca de 3.000 palavras em um filme de 1h30min? Nas mãos de qualquer cabeça-de-bagre, Do Além teria sido um fiasco. Felizmente, caiu nas mãos habilidosas de Gordon, Brian Yuzna e do roteirista Dennis Paoli, que já haviam feito um verdadeiro milagre ao adaptar trechos do conto “Herbert West – Reanimator” para a época contemporânea em Reanimator. O que o trio de roteiristas fez foi utilizar o conto de Lovecraft como base para a introdução. Ou seja: a cena pré-créditos, que dura uns bons 15 minutos, é a essência do trabalho do autor: o cientista ambicioso (neste caso Edward Pretorius, e não Crawford Tillinghast, que passa a ocupar no filme o papel do narrador no conto) conduz a experiência que dá errado, morre e seu assistente é preso pela polícia. Ninguém sabe explicar a causa da morte do cientista, já que sua cabeça foi devorada pelas criaturas de outra dimensão.

A partir de então, todo o resto do roteiro é original, novo, uma espécie de reinvenção de Gordon, Yuzna e Paoli para o trabalho de Lovecraft, imaginando como seria o “dia seguinte” aos acontecimentos do conto. Uma solução digna, que o autor provavelmente aprovaria – a não ser que alguém em sã consciência acredite que o resultado poderia ficar bom se simplesmente estendesse a história do conto por 1h30min… O roteiro também manteve boa parte da essência do texto: o “resonator” do dr. Pretorius, por exemplo, é uma bela visão do que Lovecraft chamou de “detestável máquina elétrica”; quando os personagens ligam o aparelho, ele emite um ruído irritante que provoca tontura e torpor, da mesma forma que o autor descreveu em seu conto: “A máquina emitia um som quase musical, cujo impacto parecia uma delicada tortura sobre todo o corpo”. Até a luz púrpura que a máquina emite no filme é fiel ao texto, que diz que o aparelho fazia “uma sinistra luminosidade violeta”.

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A visão das monstruosas criaturas se movendo no ar, quando a máquina é ligada, também é fiel à descrição de Lovecraft, quando o narrador diz ver “grandes e gosmentas monstruosidades” no céu. O ponto baixo é que a adaptação para o cinema não conseguiu passar a ideia de horror absoluto do conto: enquanto no texto o narrador praticamente enlouquece ao ver todo o céu tomado pelos monstros – e imagine agora você olhar para o céu e ver uma colônia de grandes vermes gosmentos se debatendo, e descobrir que eles SEMPRE estiveram ali!!! -, na versão cinematográfica, talvez pela dificuldade de se fazer efeitos especiais computadorizados nos anos 80, os personagens vêem apenas uma meia dúzia de vermes se mexendo no ar. É até um tanto frustrante, depois que se conhece o conto; mas a simples ideia de tais criaturas dividirem espaço conosco, em outro plano, já é suficientemente assustadora.

Do Além ainda toma, na metade final, algumas liberdades poéticas em relação ao conto em que se inspira. Quem já viu certamente lembra que o dr. Pretorius “liberta” a glândula pineal de seu assistente Tillinghast, transformando-o em uma criatura mista de ser humano e zumbi, com um nauseante tentáculo que sai da sua testa – e que lembra uma serpente. Este tentáculo nada mais é do que a pineal super-crescida, que abre um “terceiro olho” no cientista, fazendo com que ele veja o mundo como realmente é. E, como efeito colateral, transformando-o num devorador de cérebros humanos, um toque repelente do roteiro. Neste momento, brilham tanto Jeffrey Combs, em uma interpretação apavorante, quanto a equipe de efeitos especiais, que consegue tornar extremamente convincente o tentáculo que sai de um buraco na testa do ator, e que fica ziguezagueando como uma cobra. A cena me deixa nauseado toda vez que revejo o filme…

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O roteiro ainda envolve uma situação extremamente criativa: se em outros filmes com comedores de cérebros, como A Volta dos Mortos-Vivos, os monstros mordem a cabeça para arrancar os miolos (imagina quebrar o crânio com os dentes… impossível!), em Do Além o personagem de Combs vai direto no olho, sugando o cérebro pelo buraco do globo ocular (uma passagem direta pelo crânio, algo inteligentíssimo, muito mais prático!!!). Numa entrevista na internet, o diretor/roteirista Stuart Gordon explica de onde veio a ideia maluca. Acredite se quiser, mas tem fundamento histórico! “Eu li em algum lugar que os egípcios, ao fazer suas múmias, arrancavam o cérebro pelo nariz do morto“, destaca Gordon, completando: “Isso me pareceu extremamente insano. Não sei exatamente como eles faziam, mas a ideia do cérebro saindo por uma abertura do crânio me deixou interessado. Então pensei que o olho significa muitas coisas, a história toda é sobre coisas que você vê que nunca havia visto antes. Logo, você só precisa se livrar do olho para chegar ao cérebro. É um pensamento muito lógico que deu origem a estas cenas insanas“.

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Entretanto, infelizmente, tal situação nunca fica justificada dentro do universo da trama: por que Pretorius transformaria Tillinghast em uma criatura comedora de cérebros ao invés de devorá-lo e levá-lo para a outra dimensão? Que relação existe entre o crescimento da pineal e a necessidade de devorar cérebros? Por que o próprio Pretorius não transformou-se em comedor de cérebros, ao invés de criatura Do Além, quando a experiência saiu do controle? Estas perguntas, que ficam sem resposta, não importam no conjunto, pois todo fã de horror deveria estar acostumado a não esperar muita lógica das histórias de horror. E a verdade é que se não houvesse esta situação envolvendo a transformação de Tillinghast, o filme provavelmente ficaria muito chato, pois se resumiria aos personagens ligando e desligando a máquina e o monstruoso Pretorius aparecendo e reaparecendo. O que, aliás, nos conduz a outro ponto baixo do roteiro: se os personagens sabem que vão se dar mal toda vez que ligam o aparelho, por que continuam fazendo isso? É simplesmente absurdo o fato de Katherine acioná-lo pelo menos duas vezes LOGO DEPOIS de sentir na própria pele o perigo de despertar as criaturas Do Além… Parece até o dr. Herbert West em Reanimator: a psiquiatra simplesmente não consegue aprender com seus erros!!! Também é bastante improvável o fato de Katherine, no final, se transformar numa especialista em explosivos, ao tentar explodir o “resonator” com um detonador de dinamite que ela consegue, sabe-se lá aonde, no meio da madrugada!!! hahahaha. Claro que num clássico como este, pequenas furadas são facilmente perdoáveis.

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Fãs de Reanimator vão perceber várias referências à Universidade Miskatonic em Do Além (inclusive o personagem de Jeffrey Combs veste uma camiseta da faculdade). Além de ser a universidade onde se passava a trama de Reanimator, o filme, a Miskatonic – que existe mesmo, em Arkham, Califórnia – também é citada em diversas obras de H. P. Lovecraft, inclusive “Herbert West – Reanimator“, comprovando que o trio de roteiristas conhece e respeita a obra do autor.

Filmado na Itália praticamente ao mesmo tempo de Dolls (o terceiro filme de Gordon, que seria lançado em 1987), Do Além mostra como o diretor parece estar mesmo disposto a chutar o pau da barraca, como se diz. Enquanto em Reanimator o grosso dos efeitos especiais e o banho de sangue ficavam para o antológico final, em Do Além a nojeira e o sangue rolam desde os primeiros minutos. Desta vez, os produtores preferiram não esconder nada, dando vida às múltiplas deformações sofridas pelo dr. Pretorius gradualmente ao longo da trama. Para isso, numa época onde felizmente não havia computação gráfica, foi necessário contratar dezenas de técnicos de efeitos especiais, inclusive alguns que se tornariam verdadeiras referências no gênero com o passar dos anos.

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Participaram de Do Além, por exemplo, John Carl Buechler (futuro diretor de Sexta-Feira 13 – Parte 7, responsável pelos efeitos de Reanimator e A Hora do Pesadelo 4), William Butler (futuro diretor e ator, que participou de O Massacre da Serra Elétrica 3), Michael Deak (O Passageiro do Futuro e A Casa dos 1000 Corpos), Anthony Doublin (A Bolha Assassina), David Kindlon (que trabalhou na maquiagem de Dia dos Mortos e Um Drink no Inferno) e John Naulin (Reanimator e Craituras); mas também colaboraram no set, ajudando a criar os incríveis efeitos, os então jovens e futuros gênios da área Robert Kurtzman e Gregory Nicotero, que hoje são craques na área de FX (efeitos especiais). Com um time desses, os efeitos exagerados e gosmentos ficam pau a pau com produções classe A lançadas na mesma época, tipo A Mosca e Um Lobisomem Americano em Londres. Aliás, em muitos momentos, nem parece que Do Além custou míseros 4,5 milhões de dólares!!!

Gordon também falou sobre isso numa entrevista publicada recentemente na internet: “Nós tínhamos mais de o triplo do orçamento de Reanimator. Por isso, contratamos três companhias diferentes de efeitos para trabalhar na produção, o que foi ótimo, já que elas ficavam competindo e tentando superar o trabalho uma da outra. Alguns dos caras que trabalharam como assistentes, que eram adolescentes na época, hoje são pessoas como Bob Kurtzman e Howard Berger, que iniciaram a KNB Effects, e Gabe Bartalos e John Vulich, que também iniciaram suas próprias companhias de efeitos especiais anos depois. E nós tínhamos todos estes fantásticos talentos, o que foi simplesmente extraordinário!“.

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Outra coisa que salta aos olhos, em comparação a Reanimator, é a química entre Jeffrey Combs e a deliciosa Barbara Crampton, que eram antagonistas no anterior e, em Do Além, são quase um casal romântico. A dupla de atores consegue fazer um trabalho completamente diferente de Reanimator, o que é extremamente benéfico – para que o espectador não pense estar vendo uma mera imitação do anterior. Especialmente Barbara, que fazia uma estudante medrosa e afetada em Reanimator e agora é uma psiquiatra (embora a gostosa jamais convença como tal, hehehe), idealista e corajosa, determinada a descobrir os segredos do aparelho do dr. Pretorius, mesmo que isso signifique trazer para o nosso mundo a abominável criatura em que o cientista se transformou. Quem curtiu as várias cenas de erotismo de Barbara em Reanimator não vai poder se queixar: em Do Além, Stuart Gordon alia novamente, de maneira ora revoltante, ora cômica, perversão e horror. No caso, numa das principais cenas, o já monstruoso dr. Pretorius alonga os dedos de uma mão para poder aproveitar-se da pobre Katherine depois de rasgar seu roupão – e pela cara de satisfação do vilão, você só imagina onde aqueles dedos enormes foram parar… Em outro momento antológico para os fãs da bela atriz (como eu), Katherine transforma-se numa tarada sadomasoquista, um bizarro efeito colateral do uso do aparelho (já que a glândula pineal também estaria ligada à sexualidade). Pois não é que a psiquiatra veste-se com uma roupa de couro do dr. Pretorius, deixando à mostra todas as partes mais gostosas do seu corpo, e vai tentar “estuprar” tanto Tillinghast quanto Bubba? Para encerrar a comparação, um outro ponto em comum entre os dois primeiros filmes de Gordon é o fato do “vilão” ser um gênio da ciência (o neurocirurgião dr. Hill em Reanimator e o cientista dr. Pretorius em Do Além); ambos, apesar de geniais, também têm um lado extremamente pervertido.

Justamente por pegar muito mais pesado na nojeira e na gosma do que Reanimator, a obra sofreu mais pressão do órgão que regula a censura nos EUA, a MPAA. Para o diretor, foi uma espécie de vingança da instituição pelo fato de Reanimator ter estreado sem passar pela censura; chocados com a quantidade de sangue e erotismo (inclusive a famosa cena da cabeça decepada “estuprandoBarbara Crampton), os censores resolveram que iriam complicar a vida dos produtores na nova empreitada. Em entrevista recente, Gordon se considerou “castrado” pela MPAA: “Acho que eles quiseram dar o troco por Reanimator. Eles me chamavam para falar do filme e eu me sentia na sala do diretor da escola. Foi muito estranho, eles (os censores) estavam furiosos, tive que submeter o filme uma dezena de vezes até que eles aprovassem. Em cada reunião eles diziam: ‘Isso é revoltante, e vai ficando cada vez pior’, e eu só podia responder ‘Me desculpem, me desculpem’. Tivemos que cortar quase dois minutos para conseguir uma classificação R. Foi um verdadeiro tribunal de inquisição, e os distribuidores me cobrando para fazer os cortes porque tinham uma data de estreia já marcada!“.

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Estes dois minutos de cenas cortadas foram perdidos por quase 20 anos, para o desespero de Gordon. O problema é que a produtora original, a Empire Pictures, de Charles Band, faliu no fim da década de 80. E os diretos sobre Do Além começaram a passar de uma companhia à outra. O diretor, que já sonhava em lançar uma versão sem cortes para o mercado de VHS (lembre-se: ainda não havia DVD), tentou encontrar a lata com as cenas originais cortadas, mas cansou. “Eu fiquei procurando pelo material e até fui olhar pessoalmente em alguns depósitos, mas sempre me diziam que as latas tinham sido vendidas, já que o filme mudava de uma companhia para outra. Depois de cinco anos do lançamento nos cinemas, eu desisti. E sempre que me pediam sobre a versão sem cortes, eu dizia que tinha se perdido para sempre“, disse o cineasta, numa entrevista.

Foi no Natal de 2005 que as cenas reapareceram “Do Além“, como se fosse um presente do Papai Noel. Gordon fala sobre isso entusiasmado: “Recebi um telefonema da MGM dizendo que tinham encontrado uma lata com cenas que eles não sabiam de que filme era, e me pediram para dar uma olhada. A lata tinha sido marcada pelo meu editor, Lee Percy, e tinha uma etiqueta dizendo ‘Para o lançamento em vídeo’. Dentro dela, estavam todos os pequenos fragmentos cortados pela MPAA!“. E foi assim que apareceram os quase dois minutos que faltavam para transfomar Do Além, definitivamente, em uma obra-prima dos anos 80 (leia mais sobre o que foi cortado no final deste artigo). Como é difícil melhorar o que já é muito bom, as tais cenas nem fazem tanta diferença assim, considerando que a obra é, mesmo cortada, uma festival de nojeiras e efeitos repelentes. Alguns deles continuam inspirando até as produções atuais: quem viu Seres Rastejantes deve ter percebido diversas semelhanças entre a criatura em que Michael Rooker se transforma e o dr. Pretorius em Do Além

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Na metade de 2006 foi lançado – nos Estados Unidos, claro – o DVD comemorativo aos 20 anos de Do Além, totalmente remasterizado e incluindo as tais cenas cortadas pela MPAA, além de entrevistas com Gordon, Combs, Barbara, Yuzna e os rapazes dos efeitos especiais. Milagrosamente, esta versão turbinada está até disponível para download, nos torrents e no Emule (o nome é “From Beyond – Director’s Cut“), incluindo até uma vinhetinha onde Stuart Gordon em pessoa fala sobre a censura que sofreu. Como tão cedo esta edição especial não vai chegar aqui, e como a velha fitinha da VTI tem erros de tradução e imagem escura e cortada dos lados, o negócio é baixar este arquivo da internet. É outra coisa você ver Do Além com imagem em widescreen, nítida, cristalina – espere só para ver o show de cores nas cenas em que o aparelho é acionado e deixa todo o laboratório em tons púrpura, que estavam totalmente apagados na versão em VHS!!!

Não sei como um espectador da “nova geração” vai encarar Do Além, com seus monstros mecânicos e gosma “real“, não aquelas aberrações falsérrimas geradas por computador. Também não sei como seria uma versão feita hoje, com toda a tecnologia existente, talvez aliando efeitos em CGI (já pensou as criaturas monstruosas finalmente tomando todo o céu, como na visão de H. P. Lovecraft???) com os efeitos tradicionais… Talvez nem seja preciso pensar muito, já que são boas as chances de Stuart Gordon dirigir… uma seqüência de Do Além!!! Isso mesmo: como a produção anda bastante comentado, depois do lançamento da “director’s cut“, o cineasta já adiantou, numa entrevista, que sempre foi seu sonho fazer Do Além 2. Disse ele: “Nós sempre falamos de uma sequência enquanto estávamos editando o primeiro. Seria ótimo, porque nós temos várias ideias para uma continuação. A personagem de Barbara Crampton estaria completamente louca e internada num sanatório, onde descobriria uma forma de abrir a porta para a outra dimensão. Todos os outros personagens poderiam reaparecer por ali“, destaca.

Do Além (1986)

Então, agora é só você excitar a sua própria glândula pineal e imaginar o que será que poderia sair de um Do Além 2… Porque, como o dr. Edward Pretorius, os fãs de horror sempre querem “ver mais“!

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4 Comentários

  1. MORCEGO

    Outro clássico gore.
    Maravilhosamente colorido.
    Excelente.

    10.0

  2. Marco A. S. Freitas

    O filme foi lançado nas telonas brazucas sob outro título…acho que era Enviados do Mal ou Possuidos pelo Mal. Algo assim.
    Eu sei pois vi no Centro Comercial João Pessoa de Porto Alegrte

  3. Cristiano

    Este filme é bom, eu assisti várias vezes, é um clássico.

  4. Ricardo Allexxandhry

    Adorei esse texto sobre esse filme que é um verdadeiro clássico trash.

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