Olhos Mortais (2004)

Olhos Mortais (2004) (2)

Olhos Mortais
Original:Occhi di cristallo
Ano:2004•País:Itália, Espanha, UK, Bulgária
Direção:Eros Puglielli
Roteiro:Gabriella Blasi, Luca Di Fulvio
Produção:Marco Chimenz. Giovanni Stabilini. Riccardo Tozzi
Elenco:Luigi Lo Cascio, Lucía Jiménez, José Ángel Egido, Simón Andreu, Carmelo Gómez, Eusebio Poncela, Branimir Miladinov. Desislava Tenekedjieva. Yordan Spirov

Em 1929, uma editora italiana editou uma série de livros de suspense e mistério, muitos deles traduções de romances americanos e britânicos como os livros de Sherlock Holmes e companhia. Como os livros sempre tinham uma capa amarela, passaram a se chamar “giallo” (amarelo em italiano). Então se você quisesse ler uma história de suspense e mistério com uma trama de detetives era só procurar esses livretos amarelos. A publicação dos “gialli” (plural de giallo) aumentou absurdamente nas décadas de 30 e 40, mas eles continuavam a ser traduções de romances internacionais.

Não demorou para autores italianos escreverem seus próprios gialli: um dos autores mais famosos foi Leonardo Sciascia, responsável por Il giorno della civetta e A ciascuno il suo, e também por artigos polêmicos onde defendia o “giallo” como gênero literário que devia ser respeitado pelos intelectuais. Um dos mais famosos “gialli” que ganhou respeito fora da Itália e virou até filme foi O Nome da Rosa, de Umberto Eco.

A transição do giallo para o Cinema se deu nos anos 60 onde até futuros especialistas em terror dirigiram gialli, como Sergio Martino e Umberto Lenzi. Até o genial Lucio Fulci dirigiu um giallo: Una lucertola con la pelle di donne (Lizard in a Woman’s Skin) de 1971 com a “nossaFlorinda Bolkan no elenco. Mas o primeiro filme considerado giallo e que estabeleceu várias regras que foram seguidas a partir de então para esse subgênero foi La ragazza che sapeva troppo (The Girl Who Knew Too Much), de 1963, pelas mãos do mestre Mario Bava. Mas quando se fala de “giallo” no Cinema é impossível não associar o subgênero a Dario Argento, famosíssimo diretor italiano que iniciou sua carreira com As Plumas de Cristal ( L’Uccello dale piume di cristallo/The Bird with the Crystal Plumage, 1969).

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Segundo os especialistas, os gialli seguem certas regras para serem considerados o que são. São elas:

REGRA 1: Muitas pessoas devem ser assassinadas
REGRA 2: Os assassinatos devem ser mostrados com riqueza de detalhes
REGRA 3: A identidade do assassino não deve ser revelada durante esses assassinatos
REGRA 4: O assassino deve usar variados métodos de matar. Inovações são bem vindas, mas também são as luvas negras, navalha e banheira. Armas de fogo não contam!
REGRA 5: Pode haver diversos assassinos. Se sim, um deles pode usar uma arma de fogo
REGRA 6: É preferível que o matador seja desmascarado por um detetive amador e não pela polícia
REGRA 7: O assassino pode se travestir, mas somente quando for matar
REGRA 8: O assassino pode morrer como vítima de um acidente quando estiver preste a ser pego
REGRA 9: As mortes devem ser cometidas por causa de um trauma do assassino
REGRA 10: O filme, ou pelo menos o diretor, deve ser italiano

Claro que pra ser um giallo não é necessário seguir tudo isso, que são na verdade mais curiosidades desse estilo de filme do que propriamente regras. Essa apresentação do giallo foi para mostrar um filme que bebe na mesma fonte literária e cinematográfica desse subgênero. Trata-se de Olhos Mortais (tradução sensacionalista em cima de Occhi di Cristallo, ou Olhos de Cristal), que começa com uma cena de perseguição a um estuprador pelos policiais Giácomo Amaldi (Luigi Lo Cascio) e Nicola Frese (José Angel Egido). Ao prender o estuprador, Amaldi já demonstra métodos pouco ortodoxos de agir já que mesmo com o bandido rendido ainda dá um tiro no joelho do meliante aparentemente sem algum motivo (tal ódio por estupradores será explicado lá para o fim do filme). Só que em meio a isso, um assassino misterioso em passeio pelo campo atira com uma espingarda em um casal que estava fazendo sexo (sempre eles!) e ainda em um velho que estava se masturbando ao ver a cena! E o diretor Puglielli não economiza na violência chegando a mostrar até em close a ferida causada pela bala no seio da garota! A investigação transcorre normalmente e os detetives nem se dão conta de que um novo serial killer está começando a mostrar suas garras. Os tais assassinatos recentes não chegam a fazer parte do grande plano do psicopata, mas servem como força motora para o tal assassino realizar seu grande plano e assim se desprender de um trauma do passado.

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Em meio a isso, surge na delegacia Giuditta ( Lúcia Jiménez), uma linda estudante de psicologia querendo denunciar estranhas mensagens em seu gravador feitas por algum tarado qualquer. Nem precisa dizer que Amaldi se encanta pela garota e resolve ele mesmo “pegar o caso“. Um outro personagem interessante é o Ajaccio, um veterano detetive que acaba de descobrir recentemente um mortal tumor no cérebro e revela ter um passado triste e trágico. O interessante é que Giuditta e Ajaccio entram meio que sem utilidade na trama, aparentemente para serem respectivamente o interesse amoroso do protagonista e o objeto de pena/provável assassino, mas ao longo do mesmo os dois adquirem uma importância significativa tanto no plano do assassino quanto para sua identidade ser descoberta.

O filme tem certa dose de violência, mas nunca tão exagerada como algum dos gialli clássicos do Argento. O filme está mais para um Seven e talvez sua diferença aparente dos gialli clássicos seja a de que dessa vez quem investiga os assassinatos não são pessoas “normais” e sim a própria polícia. Na maioria dos gialli a polícia é extremamente incompetente e chega só na hora “H“, em alguns casos até bem depois. Voltando à violência, muita coisa não é mostrada durante o ato, mas o cadáver das vítimas e suas condições são mostrados à exaustão. E não é coisa simples não, o assassino gosta de guardar lembranças como braços, pernas e demais membros para concretizar um plano sinistro. Mas o básico do gênero está lá, até um assassinato de uma dona de antiquário em que só vemos as famosas luvas negras do assassino – algo famosíssimo nos gialli e que fará o espectador sorrir de felicidade.

Outra coisa que enriquece o filme são os personagens. Amaldi não é o estereótipo de tira de Cinema. Não é bonito, tem um passado trágico que o persegue e o transformou ao longo dos tempos em uma espécie de “Lobo Solitário“. Veja a cena em que Amaldi quase estoura a cabeça de um infeliz que estava tentando assustar sua amada Giuditta. A interpretação de Lo Cascio é convincente e passa bem o desespero do personagem de não querer perder mais uma pessoa querida. Por outro lado Giuditta , que começa como uma donzela em perigo e se transforma numa mulher forte na cena final, e Nicola servem como um alívio cômico com suas piadas e jeito bonachão. O assassino por sua vez demonstra não ser tão mau quanto se pensava e sim fruto das atitudes de outras pessoas talvez até piores que ele.

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Além disso, o filme conta com uma fotografia muito bem feita a cargo de Luca Coassin, além da excepcional trilha sonora que lembra uma junção de cantos gregorianos e música medieval. O roteiro, baseado no romance “L´Impagliatore” de Luca Di Fulvio, foi escrito pelo diretor Eros Puglielli, Gabriella Blasi e por Franco Ferrini, este último roteirista de vários clássicos do cinema italiano como Phenomena, Demons 1 e 2, Terror na Ópera, A Catedral, Dois Olhos Satânicos, entre os mais recentes filmes de Argento, InsôniaO Jogador Misterioso..

Ao final do filme qualquer fã de cinema italiano que se preze vai esboçar um sorriso. Olhos Mortais pode não ser a salvação da lavoura, mas pelo menos é um exemplo de que a terra da bota se quiser (e se a censura cruel das emissoras de TV – que controla as salas de exibição – deixar) ainda pode fazer ótimos filmes.

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Bruno C. Martino

Bruno C. Martino

É escritor e ator. E tem uma predileção por filmes de vampiros saltitantes chineses.

Um comentário em “Olhos Mortais (2004)

  • 07/09/2015 em 07:24
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    assisti a esse filme e gostei do resultado! os ‘Hermanos’ Italianos sabem fazer filmes de suspense policial com esses toques de terror que se não são clássicos da atualidade ,são melhores e mais bem elaborados e prendem a atenção com Roteiros inteligentes e sem a enganação e sustos previsivéis como os “enlatados” Americanos costumam fazer com seus filmes Terrivéis( no Mau sentido) de Terror!!

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