A Noiva e a Besta (1958)

A Noiva e a Besta (1958) (2)

A Noiva e a Besta
Original:The Bride and the Beast
Ano:1958•País:EUA
Direção:Adrian Weiss
Roteiro:Adrian Weiss, Edward D. Wood Jr.
Produção:Adrian Weiss, Louis Weiss
Elenco:Charlotte Austin, Lance Fuller, Johnny Roth, William Justine, Gil Frye, Jeanne Gerson, Steve Calvert

O lendário Edward D. Wood Jr., ou simplesmente Ed Wood, é reconhecidamente um dos piores diretores da história da sétima arte, responsável por filmes tão ruins e baratos que se tornaram clássicos trash, como Bride of the Monster e o já clássico Plan 9 From Outer Space. Agora responda rápido: o que pode ser pior que um filme dirigido por Ed Wood? Ora, um roteiro escrito por Wood e filmado por um cineasta ainda pior do que ele!

Por mais incrível que possa parecer, considerando a qualidade nula de seus filmes mesmo para os padrões da época, Wood foi roteirista contratado para diversas produções de terceiros, que são ainda piores do que as pérolas dirigidas pelo próprio Ed. Entre seus trabalhos exclusivamente como roteirista estão bombas do calibre de The Violent Years (1956, dirigido por William Morgan), sobre delinquência juvenil; Orgia da Morte (1965, de A.C. Stephen), sobre shows de striptease feitos por assombrações (!!!) num cemitério, e One Million AC/DC (1969, dirigido por Ed De Priest), onde homens pré-históricos lutam contra ridículos dinossauros de borracha.

Mas um dos trabalhos mais antológicos de Ed Wood como roteirista chama-se The Bride and the Beast (no Brasil, A Noiva e a Besta), de 1958. Este filme barato de aventura e horror é o único dirigido por Adrian Weiss, que contratou Wood para escrever o roteiro baseado numa ideia original sua. Ainda não consegui descobrir se Adrian tinha algum parentesco com George Weiss, um famoso produtor de filmes “sexploitation” daquela época, que entrou para a história como o homem que deu a primeira chance a um então iniciante Ed Wood, financiando seu debut como diretor, o lendário Glen or Glenda?, de 1953.

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The Bride and the Beast é aquele tipo de zorra total que só pode ter saído da cabeça de um lunático como Wood. Sua história mistura elementos dos “gorilla movies” tradicionais do período (com sujeitos metidos em ridículas fantasias de macaco), de aventuras sobre a vida na selva (neste caso, os ataques de dois tigres indianos que fugiram do zoológico) e até, acredite se quiser, uma inacreditável trama sobre reencarnação, onde uma inocente garota descobre que, numa vida passada, foi… um gorila!!!

O filme começa apresentando os recém-casados Dan Fuller (interpretado por Lance Fuller) e Laura (Charlotte Austin). Ele é um experiente caçador que tem a mansão repleta de troféus de caça, como animais selvagens empalhados, e ela é uma garota meio maluca com fetiche por materiais felpudos, como o angorá. O casal Fuller irá comemorar sua lua-de-mel com… um safári na África! Mas Dan resolve passar a noite anterior à viagem em sua própria casa. Ali, acredite se quiser, há uma câmara subterrânea secreta onde o caçador guarda enjaulado um gigantesco gorila chamado Spanky (!!!!), e que ele aprisionou quando ainda era filhote.

 

É nesse momento que começam os problemas: Spanky (hahahaha) parece se apaixonar por Laura, e, durante a noite, escapa de sua jaula, sai milagrosamente da câmara subterrânea secreta e sobe até o quarto onde o casal de recém-casados dorme em camas separadas (!!!). Ali, começa a acariciar e cheirar a pobre Laura, que sente-se estranhamente atraída pelo gorila. Mas Dan acorda e, talvez com medo de levar corno de um símio, saca seu revólver, enchendo Spanky de tiros.

No dia seguinte, o pobre marido chama até sua casa um amigo médico, o dr. Carl Reiner (interpretado por William Justine; curiosamente, um conhecido diretor de comédias dos anos 80-90 também se chama Carl Reiner!), para examinar Laura. O doutor resolve hipnotizar a garota e tentar uma experiência de regressão, quando ele e Dan descobrem, estupefatos, que a inocente garota havia sido um feroz gorila numa outra vida! Reiner desperta Laura do seu transe, mas não fala nada sobre o que descobriram com a regressão. Ele também orienta ao marido que evite levá-la para a África, devido aos traumas recentes, mas é claro que Dan não escuta.

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Fielmente seguidos pelo escravo africano do caçador, Taro (Johnny Roth, branco maquiado para parecer um nativo, que fica o filme inteiro repetindo “Yes, bwana!“), Dan e Laura chegam à África (obviamente, as cenas foram todas gravadas em um matagal qualquer na Califórnia mesmo). Mas não há tempo para lua-de-mel, pois Dan é imediatamente recrutado pelo capitão Cameron (Gil Frye) para capturar ou matar a tal dupla de ferozes tigres fugitivos, que anda devorando nativos nas redondezas. Enquanto o marido se ocupa da difícil função, Laura se vê às voltas com seu misterioso passado como gorila, exercendo um estranho fascínio sobre estes animais.

Quem gosta de trash e de filmes na linha “quanto pior, melhor” não pode perder The Bride and the Beast, possivelmente uma das maiores bobagens já filmadas. Se já parece impossível levar a sério a história de uma garota que é reencarnação de um gorila (!!!), espere só para ver momentos como Dan lutando corpo a corpo com um tigre visivelmente empalhado, ou a conclusão completamente sem pé nem cabeça que Wood inventou para o drama de Laura – digamos apenas que é de rolar de rir.

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Muitos filmes baratos do período costumavam roubar cenas de outras produções mais endinheiradas para economizar dinheiro. Lembra de como o italiano Bruno Mattei usou cenas de um documentário sobre a vida selvagem para fazer com que seu filme Predadores da Noite se passasse na Nova Guiné? Pois é mais ou menos a mesma coisa em The Bride and the Beast: Weiss e sua trupe contornam o problema de nunca terem pisado na África utilizando, na edição, cenas roubadas de outros dois filmes, Man-Eater of Kumaon (dirigido por Byron Haskin em 1948) e Bride of the Gorilla (dirigido por Curt Siodmak em 1951).

A coisa funciona mais ou menos assim: na sua selva fuleira feita em estúdio, os atores que interpretam Dan e Laura olham assustados em direção à câmera; aí pimba!, corta para uma fantástica cena roubada de Man-Eater of Kumaon onde um tigre de verdade luta contra um crocodilo de verdade bem no meio do rio (graças à boa edição de George M. Merrick e Samuel Weiss, parece que os atores do filme de Weiss REALMENTE estão testemunhando aquele momento que foi simplesmente retirado de uma outra produção). Em outra cena, closes dos dois atores dentro de um caminhão são editados com cenas de uma caçada a girafas que obviamente também não foi filmada por Weiss, mas sim retirada de um dos outros filmes. Assim fica fácil, não é?

Por esse motivo, fica bastante difícil avaliar o filme no conjunto. Eu até ia escrever que o diretor de primeira e única viagem Adrian Weiss tinha conseguido escapar da mediocridade com algumas belas cenas, como a luta do tigre com o crocodilo, que depois descobri ter sido tirada de Man-Eater of Kumaon. E como a maior parte das cenas boas de The Bride and the Beast deve realmente ter saído destes dois outros filmes citados, fica difícil tentar avaliar a direção de Weiss – mais fácil é congratular os editores Merrick e Samuel pela sua hábil costura.

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Já o roteiro de Wood é péssimo como de costume. Não bastasse a total falta de coerência e de ligação entre os vários elementos da trama (garota que é reencarnação de um gorila, tigres assassinos, regressão a vidas passadas, pesadelos, gorilas apaixonados), nosso amigo Eddie simplesmente não consegue resistir a escrever diálogos horríveis, como “Animais não brigam comigo! Eu tinha um macaco quando criança, e ele me amava, mas odiava todo mundo“. A citação a um suéter angorá em certo momento do filme é a marca registrada do roteirista, que tinha fetiche por esse tipo de roupa (e, como todos devem saber, adorava se vestir de mulher, embora não fosse homossexual).

Isso tudo soma-se a um caminhão de incoerências que desafiam a lógica, como o porão secreto da casa de Dan, que é iluminado por uma tocha eternamente acesa, mas ironicamente também conta com um freezer movido a eletricidade (e se há eletricidade, o local poderia ter luz elétrica, e não a iluminação com uma tocha!!!!). Ou a longa e redundante cena da hipnose, operada por um médico (!!!) que usa termos científicos mirabolantes para tentar convencer o espectador de que a regressão a vidas passadas é possível!

Enfim, é o tipo de coisa que faz esta aventura na selva rápida e rasteira (com menos de 1h20min de duração) tornar-se uma daquelas engraçadíssimas comédias involuntárias digna dos nomes envolvidos, mas especialmente do incompetente Ed Wood. Encare de bom humor e prepare-se para umas boas gargalhadas!

Como última curiosidade, todos os gorilas de The Bride and the Beast foram “interpretados” por Steve Calvert. Falecido em 1991, Calvert era um especialista em pagar mico (literalmente) dentro de roupas de gorila, tendo interpretado macacões em sete dos 11 filmes que fez na vida – entre eles, Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla (1952) e Panther Girl of the Kongo (1955). Bela carreira, hein?

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

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