Críticas

Chappie (2015)

Com pouquíssimas exceções, são os personagens humanos que derrubam Chappie!

Chappie (2015) (1)

Chappie
Original:Chappie
Ano:2015•País:EUA, México, África do Sul
Direção:Neill Blomkamp
Roteiro:Neill Blomkamp, Terri Tatchell
Produção:Neill Blomkamp, Simon Kinberg
Elenco:Sharlto Copley, Dev Patel, Hugh Jackman, Ninja, Yo-Landi Visser, Jose Pablo Cantillo, Sigourney Weaver, Brandon Auret, Anderson Cooper, Jason Cope, Bill Marchant

A palavra remake costuma ser utilizada quando um filme já existente ganha uma nova versão. Como exemplo, podemos pensar em Sexta-feira 13, cujo título original é de 1980 e o remake foi lançado em 2009. No entanto, é comum observar como alguns pesquisadores da sétima arte gostam de expandir esta categoria para filmes que possuem características muito parecidas.

Dentro deste pensamento, a própria ideia de gênero e sub-gênero trabalha com o que o pesquisador italiano Omar Cabarese chama de estética da repetição. De forma simples, é como imaginar os elementos comuns aos gêneros e sub-gêneros e como estes são constantemente retrabalhados para a produção de filmes com características semelhantes.

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Esta ideia parece fazer mais sentido quando lidamos com sub-gêneros. Basta pensar no exemplo de Pânico (1996). Após o sucesso do filme, uma série de produções bastante semelhantes chegaram ao mercado como Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997) e Lenda Urbana (1998), sem contar as sequências Pânico 2 (1997) e 3 (2000). Basta imaginar como os filmes pós-Pânico possuem tramas narrativas muito parecidas que vão desde a concepção dos seus personagens até as suas conclusões. Existem pesquisadores que consideram estas semelhanças quase como sinônimos de remakes.

Muitas vezes estas semelhanças são percebidas como características estéticas e narrativas de diretores famosos. Basta pensar em nomes consagrados como Alfred Hitckcock, Tim Burton, Steven Spielberg, entre outros. No caso destes, não significa que falta criatividade no trabalho deles. Pelo contrário. A sensação é que cada vez mais seus trabalhos conseguem ser refinados em busca de um resultado final ainda mais surpreendente.

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O sul-africano Neill Blomkamp ainda não é um nome conhecido internacionalmente como os três diretores citados no parágrafo anterior, mas parece já estar querendo trabalhar para deixar uma marca na sua filmografia. Pelo menos seus três longas parecem possuir estéticas e linguagens narrativas bastante próximas. É importante dizer que isto não quer dizer necessariamente que o trabalho dele seja bom ou ruim.

Seu mais recente filme, Chappie (2015), foi um dos trailers mais vistos em 2014 e sua premissa era no mínimo bastante interessante. Em 2016, na África do Sul, policiais passam a trabalhar com robôs no combate ao crime. Sem parecer uma cópia de Robocop (1987), o filme segue muito bem até quando um dos robôs, batizado de Chappie, recebe um programa de Inteligência Artificial em sua CPU. É neste momento que o filme desanda.

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Apesar do bom começo, Blomkamp, que também assina o roteiro, não se decide se quer fazer um filme adulto ou infantil. A premissa de que a Inteligência Artificial faz com que Chappie seja como uma criança não chega a ser um problema. Pelo contrário já que acompanhar este “crescimento” do robô é curioso e até tocante. Ponto positivo neste aspecto. Infelizmente o meio no qual ele vai “crescer” é de uma obviedade poucas vezes vistas no cinema. Aliás, com pouquíssimas exceções, são os personagens humanos que derrubam Chappie.

A começar pelo criador Deon (Dev Patel). Limitando-se a fazer o estereótipo do nerd cientista, é improvável dar qualquer credibilidade para suas ações. Quando decide fazer o teste de Inteligência Artificial, Deon acaba sendo sequestrado por uma gangue que beira ao ridículo. E aqui surgem mais dois problemas no filme. Os cantores Ninja e Yo Landi interpretando os personagens Ninja e Yo Landi. Poucos conhecidos fora da África do Sul, os dois fazem parte de uma banda chamada Die Antwoord e foram escalados por Blomkamp para agirem em cena igual a como agem em clipes e shows…

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A impressão que fica é quase como se fosse um filme sobre as aventuras de Ninja e Yo Landi. Cabe ao pobre do robô passar boa parte com esta dupla além do bandido latino interpretado por Jose Pablo Cantillo (sempre tem um vilão latino em gangues cinematográficas). Desta forma, fica difícil para os atores realmente profissionais do elenco salvarem Chappie. Hugh Jackman está bem interpretando um cientista militar rival de Deon enquanto Sigourney Weaver faz a dona da empresa que produz robôs policiais. Sharlto Copley, dos demais filmes de Blomkamp, “interpretou” o robozinho.

Nesta realidade, sobra para o pobre do Chappie ser criado pela gangue, que vai ensinar o bom robô a ser mau. Não precisa ser muito esperto para perceber que o malvadão Ninja, a esquisita Yo Landi e Chappie vão desenvolver uma espécie de eixo familiar como uma metáfora de uma sociedade perdida e sem esperanças. Neste aspecto, eles parecem serem mais felizes dos que os personagens inteligentes e bem sucedidos. Deon, por exemplo, mora só e passa as horas de folga trabalhando.

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Aliás, já se tornou a marca registrada de Blomkamp mostrar estes tipos de personagens sempre com pobres em favelas e ricos bem sucedidos que não se misturam. Além disso, a ação se passa em uma África do Sul repleta de problemas. Aqui, Johanesburgo é vista como uma cidade corrupta, cheia de gangues e crimes e onde existe um abismo social entre bem sucedidos e a escória de pobres e criminosos. Algo bem parecido com o que vimos com os alienígenas em Distrito 9 (filme de estreia de Blomkamp), cujo resultado acaba sendo bem mais linear. A diferença de classes de Elysium (segundo filme do diretor) também nos remete a realidade de Chappie.

Assim, a sensação que temos ao assistir Chappie é que estamos vendo mais uma vez o diretor contar uma história com os mesmos elementos de seus trabalhos anteriores. Em outras palavras, como se ele estivesse regravando o mesmo filme. O que é uma pena visto o potencial que os roteiros de Blomkamp possuem. De qualquer forma, Chappie ao menos serviu para unir Blomkamp com Sigourney Weaver e, como resultado, temos Alien 5 em pré-produção. A direção será dele e Weaver vestirá novamente o uniforme da tenente Ripley. Vamos aguardar por algo realmente inovador desta vez.

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3 Comentários

  1. Paulo Roberto

    Achei esse filme muito parecido com robocop hahaha

  2. caio campos

    Nossa, fui assistir Chappie uns dias atrás com minha namorada e familiares.
    Essa questão sobre o filme transitar entre o adulto e o infantil realmente chama muito a atenção, e não só por ter um robô infantilizado como personagem central. Cenas em que passamos a acompanhar os fatos por uma perspectiva que nos aproxima do robô, além de alguns comportamentos claramente brandos e infantilizados por parte dos personagens que deveriam ser crueis em tempo integral causam essa dúvida sobre o publico alvo do filme.

    -SPOILER (talvez)-

    Mas uma coisa que me incomodou seriamente é o fato do Chappie se tornar praticamente um mártir ao longo do filme, sofrendo todo tipo de agressão e alienação devido a sua pura inocência. Confesso que com esse andamento, o filme quase me fez chorar no final, hahahaha…
    … Cara, como me sinto mal com filme que martirizam a inocência. -.-

  3. anselmo luiz

    Nossa ! espero que Neill Blomkamp não enterre a saga de ” Alien ” e que seja um sucesso.. mas pesando melhor eu na minha modesta opinião acho desnecessário dar continuidade a essa franquia , mas isso só o tempo dirá se os produtores erram ou não.

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