Críticas

O Castelo Maldito (1995)

Stuart Gordon manda bem em mais uma adaptação de H.P. Lovecraft!

O Castelo Maldito (1995) (7)

O Castelo Maldito
Original:Castle Freak
Ano:1995•País:EUA
Direção:Stuart Gordon
Roteiro:Stuart Gordon, H.P. Lovecraft, Dennis Paoli
Produção:Maurizio Maggi
Elenco:Jeffrey Combs, Barbara Crampton, Jonathan Fuller, Jessica Dollarhide, Massimo Sarchielli, Elisabeth Kaza, Luca Zingaretti, Helen Stirling, Alessandro Sebastian Satta, Raffaella Offidani, Marco Stefanelli, Tunny Piras, Rolando Cortegiani

O Castelo Maldito, que no original é Castle Freak (“A Aberração do Castelo“), é o menos conhecido dos ótimos filmes que o diretor Stuart Gordon fez baseados em histórias curtas de H.P. Lovecraft, todos produzidos pela Empire/Full Moon. Os outros títulos são o clássico Reanimator (filme de estreia de Gordon), Do Além e Dagon. Até por ser menos conhecido, O Castelo Maldito é um filme que a maioria das pessoas, infelizmente, não vai ver. É triste, mas é verdade: você poderá passar a vida inteira sem nem ao menos ouvir falar dele e, o pior, sem saber como este filme é excelente. O grande problema é a falta de cobrança. As pessoas te dizem: “Cara, tu precisa assistir Cannibal Holocaust!“, ou “O Massacre da Serra Elétrica é um filme obrigatório para qualquer fã de horror que se preza“. Mas ninguém, e ninguém mesmo, fala algo como: “O quê? Não acredito que você ainda não viu O Castelo Maldito? Este filme é fabuloso, fantástico, extraordinário!“.

Exageros à parte, eu mesmo tinha o filme em VHS (foi lançado na metade dos anos 90 pela extinta VTI, com o título Herança Maldita) há uns três anos e nunca vi, resolvendo assistir apenas agora que comprei o DVD nacional da Works. Ao final, quando subiam os nomes dos atores, comecei a me perguntar porque não havia assistido O Castelo Maldito antes. Porque este é um verdadeiro filmaço, e só é tão pouco conhecido e obscuro por uma daquelas imensas injustiças do destino. Irretocável, tem tudo o que um bom filme de horror precisa ter: baixo orçamento, sangue aos borbotões, efeitos nojentos, uma criatura horrenda (num excelente trabalho de maquiagem de Everett Burrell), clima de suspense bem construído e até um assustador castelo como cenário. Além de todos estes elementos, ainda conta com uma direção inspirada e um excelente elenco. Não tinha como dar errado. A não ser que o diretor fosse um Uwe Boll da vida.

O Castelo Maldito (1995) (1)

A história começa com uma velha italiana, a duquesa D’Orsino (Helen Stirling, que parece mesmo uma bruxa), preparando uma refeição frugal com pão duro e algumas rodelas de salame, num amassado e sujo prato metálico. De posse desta “refeição“, ela desce as escadas do seu castelo abandonado no interior da Itália, onde vive reclusa, até o porão. Em uma cela escondida nos intermináveis e escuros corredores da masmorra, uma criatura aprisionada urra de dor, solidão e fome. A duquesa se aproxima da porta da cela, entra e pega um enorme chicote com tiras de couro, que está preso numa das paredes. Não vemos que tipo de criatura está aprisionada ali, mas pelas sombras podemos imaginar que seu aspecto não é nem um pouco agradável. “Giorgio…“, murmura a velha, antes de iniciar uma sessão de tortura, chicoteando violentamente as costas do prisioneiro, somente para depois deixar-lhe o prato com a comida. Ela então sobe novamente as escadas até o seu quarto, segurando nas mãos o chicote ensanguentado, e cai na cama para nunca mais levantar, morrendo de um fulminante ataque cardíaco.

Entram os créditos iniciais (que misteriosamente não citam o fato de o roteiro de Stuart Gordon e Dennis Paoli basear-se no conto The Outsider, de H.P. Lovecraft) e conhecemos nossos “heróis“, uma família americana em férias na Itália. O pai é John Reilly (interpretado por Jeffrey Combs, o eterno dr. Herbert West de Reanimator), a mãe é Susan (a linda Barbara Crampton, que também atuou com Combs em Reanimator e Do Além) e a filha adolescente é Rebecca (a bonitinha Jessica Dollarhide, que infelizmente só fez este filme). Desde o começo, o espectador percebe que o núcleo de personagens está passando por uma crise. Rebecca é cega, e sua deficiência foi resultado de um acidente de carro provocado por John, um alcoólatra em recuperação. No tal acidente, acontecido quando o pai estava bêbado, morreu o filho menor do casal, JJ (Alessandro Sebastian Satta, outro que só fez este filme). Pela perda, Susan jamais perdoou o marido. Tanto que, apesar de continuarem casados, Susan odeia John e nem ao menos dorme com ele à noite. Trata-se de um núcleo familiar bem diferente daqueles que vemos nos filmes do gênero, de Poltergeist a A Casa do Cemitério, onde a família toda costuma se unir para vencer o mal.

O Castelo Maldito (1995) (2)

Bem, por uma daquelas coincidências que só acontecem em filmes, John é o único descendente vivo da família D’Orsino. Logo, com a morte da duquesa, aquele imenso castelo construído no século 12 agora lhe pertence. Auxiliado pelo advogado italiano Gianetti (Massimo Sarchielli), John quer um inventário do que existe no local para saber quanto poderia obter na venda do imóvel; enquanto isso é feito, ele se muda para o castelo com a família. Afinal, é a chance de levarem uma vida de conto-de-fadas por alguns dias – quem nunca sonhou morar num castelo, pô? Mas nem tudo é o que parece ser: com centenas de aposentos, o castelo D’Orsino é um lugar sinistro e abandonado, sujo, velho, escuro e bem diferente daqueles castelos perfeitinhos e limpos vistos nos contos-de-fadas. Além da família Reilly, a única habitante do imenso local é a criada Agnese (Elisabeth Kaza), irmã de Gianetti, que providencia a arrumação dos quartos da família e sua alimentação. Ninguém sequer suspeita, mas o castelo tem, também, aquele misterioso habitante da masmorra.

O Castelo Maldito (1995) (3)

Claro que a esta altura você deve estar pensando: “Se ninguém sabe que o monstro vive ali trancado e a duquesa já morreu há algum tempo, o que aconteceu com o prisioneiro?“. Pois ele está exatamente numa situação desesperadora: enfraquecido pela falta de comida, o tal Giorgio continua preso, desesperado por estar há, talvez, uns 10 dias sem ser alimentado e sem ter nem ao menos água para beber, imaginando talvez que este seja apenas mais um dos castigos impostos pela duquesa. Para piorar, logo descobrimos que Giorgio é, na verdade, o filho da duquesa D’Orsino, que todos imaginam ter morrido aos cinco anos de idade – até existe um túmulo para o garoto no subterrâneo do castelo. Acontece que a velha foi abandonada pelo marido, que fugiu para a América; resolveu, então, descontar sua fúria no pobre Giorgio, inventando que ele morreu apenas para poder trancá-lo no porão e torturá-lo praticamente todo santo dia. Sentiu o drama? Imagine como estaria o SEU humor se você fosse mantido preso pela mãe numa masmorra escura desde os cinco anos de idade e ainda apanhasse todos os dias!!! Pior: Giorgio ainda foi castrado pela mamãezinha querida. Para quem pensa que sofrimento pouco é bobagem…

Mas enquanto Giorgio come o pão que o diabo amassou no porão – ou melhor, não come, pois não tem ninguém para alimentá-lo! -, nossos heróis no andar de cima não têm uma vida muito melhor. Cega, Rebecca não pode fazer nada além de perambular sem rumo pelos corredores do castelo, presa a uma infinita escuridão; John sofre com a angústia de ser odiado pela própria esposa, e, louco de vontade de fazer sexo, é rechaçado pela frígida Susan. Em sua luta para abandonar o alcoolismo, ainda descobre que existe uma enorme adega repleta de garrafas de vinho no subterrâneo do castelo – uma verdadeira tentação. Encontra, também, o túmulo de Giorgio, quando leva um enorme susto: a foto do garoto na sepultura é idêntica ao de seu falecido filho, JJ. Mais tarde, ao escutar os gritos desesperados de Giorgio em sua cela, John chega a pensar que é o choro do fantasma do seu próprio filho!

O Castelo Maldito (1995) (4)

A coisa esquenta quando Rebecca encontra um gato que pertencia à falecida duquesa D’Orsino. A garota segue o animalzinho até o porão, sem saber para onde está indo. E não é que o gatinho entra na cela de Giorgio, repetindo o que fez inúmeras vezes na companhia da falecida duquesa? Neste momento, assustada, Rebecca resolve voltar para perto dos pais. O pobre felino não tem tanta sorte: é agarrado e devorado vivo pela aberração aprisionada no porão. Refeito após a rápida “refeição“, Giorgio resolve escapar para conseguir mais comida. A maneira utilizada pelo prisioneiro para libertar-se das correntes que traz atadas aos seus pulsos é um dos momentos mais “dolorosos” e horríveis do filme: ele simplesmente arranca o dedão de uma das mãos a dentadas para que a algema possa passar, libertando-o!!!

Agora Giorgio está livre, e nem um pouco alegre. Mas é preciso pensar que o pobre homem nunca viu o mundo fora da sua diminuta cela, onde ficou preso por pelo menos 40 anos, desde a infância. Pior: nem está acostumado com a luz do sol, que cega seus olhos. Resolve, então, sair da sua cela apenas à noite, encoberto pela escuridão. Nestas saídas, perambula sem rumo pelo enorme castelo, inclusive encontrando o quarto de Rebecca, por quem se “apaixona“. Ela, que é cega, apenas sente a presença da monstruosidade no quarto e se assusta, porém sem ver o horrível aspecto do monstro. Em outra de suas andanças pelo castelo, Giorgio dá o azar de passar na frente de um espelho. Ele inicialmente fica apavorado… até perceber que aquela figura hedionda refletida no espelho é ele mesmo!!! Num dos momentos mais tristes do filme (que surpreendentemente consegue deixar o espectador sensibilizado pelo vilão), Giorgio arrebenta o espelho com suas correntes, sem suportar a visão de seu próprio rosto.

O Castelo Maldito (1995) (5)

Preocupado com o fato de alguém ter entrado no quarto de sua filha e depois quebrado o espelho, John chama a polícia. Mas o delegado da pequena vila, Forte (Luca ZIngaretti), faz corpo mole. Quando o americano lhe pede para revistar todo o castelo em busca de um suposto invasor, Forte chega a dar uma risada irônica: com o reduzido número de policiais que tem à disposição, precisaria de dias para passar por todos os aposentos do gigantesco castelo. A coisa fica por assim…

Certa noite, após mais uma tentativa frustrada de reconciliação com a esposa, John ouve o que não queria ouvir: Susan diz que adoraria que ele tivesse morrido no acidente de carro, e não o filho caçula. Desesperado com a revelação de que não vale nada para a esposa, ele resolve se suicidar atirando-se do topo de uma das torres do castelo; na hora H, porém, se acovarda. Decidido a deixar de ser um “bom rapaz“, John abandona o castelo e vai para o bar da vila, onde toma todas. Logo atrai a atenção da prostituta Sylvana (Raffaella Offidani). Morrendo de vontade de dar uma, o americano leva Sylvana até o porão do castelo, onde ambos se esbaldam de beber o vinho guardado pela duquesa D’Orsino. Depois, ele se entrega a uma transa quase selvagem, que é assistida de perto por Giorgio, escondido atrás de alguns barris. Em sua inocência, Giorgio nem imagina o que John está fazendo, porém o instinto típico de homem e fera o leva a pensar que é algo prazeroso. Então, assim que John sai de cena, o monstro rapta Sylvana.

O Castelo Maldito (1995) (6)

O sequestro complica a vida de John, já que a mulher desaparecida tinha um filho justamente com o delegado Forte. No dia seguinte, de manhã cedo, o policial vai tirar satisfação com o americano, dizendo que Sylvana não voltou para casa e sua família estava preocupada. Acontece que muita gente viu a moça sair do bar com John. Susan, que já não era muito fã do marido, passa a odiá-lo ainda mais depois que fica sabendo que o marido levou uma “putana” para casa. E o pobre John se torna suspeito de sequestro e assassinato, tendo que enfrentar a fúria das autoridades numa vila e num país onde ninguém o conhece – e nem ele conhece ninguém. Complicando ainda mais a situação da família americana, Giorgio continua livre para aprontar das suas, sendo que ninguém sequer suspeita da sua existência – e por isso mesmo John acaba levando a culpa de tudo o que o monstro faz!!! Quando o americano finalmente é preso pelos policiais da vila, acusado de cometer os crimes que estão sendo praticados pelo “freak“, Susan e Rebecca ficam sozinhas no castelo e se transformam em um alvo fácil para Giorgio – numa noite de horror, sustos e violência.

O Castelo Maldito tem todas as qualidades dos outros clássicos realizados em conjunto pelo diretor Stuart Gordon, pelo roteirista Dennis Paoli e pela produtora Full Moon. Merecidamente, recebeu no ano de seu lançamento (1995) um prêmio especial da revista especializada Fangoria, que elegeu-o o melhor daquele ano. O que se percebe é menos humor negro que os filmes anteriores do cineasta: aqui o clima é mais pesado, até pela extrema melancolia da sua história. Praticamente todos os personagens são sofridos e amargurados. John é um alcoólatra em recuperação que sofre não só com o vício, mas também com o ódio da esposa e com o trauma de ter matado o filho mais novo. Susan sofre ao manter um casamento de fachada, tendo que viver com o homem que matou seu amado caçula. Rebecca é uma jovem privada de enxergar por culpa do acidente provocado pelo pai. A própria duquesa D’Orsino, que aparece em menos de cinco minutos do filme, é uma velha amargurada por ter sido abandonada pelo seu grande amor, e que resolveu descontar no filho todo o ódio que sentia da vida e do mundo. E, acredite, até o policial Forte é um sujeito de vida dramática, que tem um filho com uma prostituta e desconta no pobre John sua fúria pelo destino da moça!!!

O Castelo Maldito (1995) (8)

E então chegamos a Giorgio, que supostamente é o vilão da trama, mas também é, de longe, o personagem mais dramático. O cara ficou preso e sendo castigado brutalmente por no mínimo 40 anos. Desde criança que não enxergava a luz do sol, e tinha uma vida que se resumia aos maus tratos da mãe e às quatro paredes da cela onde estava acorrentado. Nunca aprendeu a falar ou se comunicar – e, mesmo que tentasse, teve a língua cortada. E ainda acabou castrado pela velha dominadora. Pense bem: se fosse você na situação de Giorgio, seu sentimento ao ver-se livre da cela onde passou a vida não seria o de fúria e revolta contra o mundo? O ódio do “freak” é plenamente justificado, e por isso não consigo enxergar Giorgio como vilão. Ele é, talvez, o personagem mais triste de todos, e não tem como não simpatizar-se com seu drama. Até porque as mortes provocadas pelo suposto “vilão” são, na sua maior parte, para se defender ou por “acidente“. Talvez tudo que Giorgio quisesse era ser compreendido ou, então, receber um mínimo de amor e compaixão, que não teve durante toda a vida. E ele estava consciente de sua condição de monstruosidade; tanto que, ao ver como seu rosto era horroroso, tratou de cobri-lo com um lençol, que usa como “máscara” até o final do filme. De qualquer forma, é um personagem complexo, que não se encaixa de forma alguma no papel do tradicional monstro deste tipo de filme. Giorgio é interpretado, debaixo das toneladas de maquiagem, por Jonathan Fuller, que foi o herói de O Poço e o Pêndulo, outro filme de Stuart Gordon. O pobre Fuller passava por oito horas diárias de maquiagem para abandonar qualquer sinal de humanidade e “transformar-se” definitivamente no monstruoso Giorgio D’Orsino.

Falando em O Poço e o Pêndulo, tanto este quanto O Castelo Maldito foram filmados no Castelo de Giove, no norte da Itália, que foi comprado pelo produtor americano Charles Band – e acabou se transformando em set para diversos filmes da Full Moon. A ambientação não podia ser mais adequada, com os longos e antigos corredores do castelo dando um ar de mistério e suspense ao filme. Tanto O Poço… quanto O Castelo.. foram realizados com equipe técnica italiana, inclusive muitos atores europeus no elenco. Isso dá um ar interessante à história, que coloca o trio de protagonistas em um ambiente totalmente diferente do que eles estão acostumados, e ainda com o problema de não falarem ou entenderem nada de italiano. Só é uma pena que o roteiro seja um tanto preguiçoso e, ao invés de explorar esta dificuldade de comunicação, coloque todos os personagens-chave italianos (o advogado, a criada, o policial) falando inglês – quando ficaria diferente se retratasse a dificuldade dos americanos e dos italianos de se entenderem na hora de explicar o que está acontecendo. Ao situar o filme no castelo, o roteiro ainda brinca de ser irônico: os protagonistas precisam temer o que vem de dentro do próprio castelo, e não o que vem de fora, como acontece normalmente nas produções do gênero.

Agora, o roteiro de O Castelo Maldito tem, na minha humilde opinião, um furo imperdoável: entregar desde a cena inicial que a aberração aprisionada no porão do castelo é Giorgio D’Orsino, filho da duquesa. Seria bem melhor se esta informação fosse revelada ao espectador apenas no final (no caso, até mesmo o trailer do filme faz questão de esclarecer a identidade do “monstro“!!!). Porque, ao sabermos deste importante detalhe, torna-se desinteressante toda a investigação que o personagem de Jeffrey Combs faz para identificar o vilão, inclusive violando o túmulo onde Giorgio teria sido enterrado, e assim revelando a farsa preparada pela duquesa D’Orsino – desinteressante porque já sabemos desde o começo o que Combs não sabe. Claro que isso não chega a atrapalhar ou desmerecer o programa. Mas o final abrupto (o filme simplesmente acaba, e pronto!) também poderia ter sido melhor pensado pela dupla de roteiristas. A trilha sonora de Richard Band ajuda a criar o clima de mistério e, às vezes, até lembra o inesquecível trabalho que o próprio Band fez em Reanimator.

O Castelo Maldito (1995) (9)

O espectador costumaz dos roteiros de Gordon/Paoli sabe que todo filme elaborado pela dupla costuma conter pelo menos uma cena extremamente atroz. Em Reanimator, era a clássica cena da cabeça decepada do dr. Hill fazendo sexo oral em Barbara Crampton; em Do Além era o tentáculo que saía da testa de Jeffrey Combs e o transformava em comedor de cérebro; em O Poço e o Pêndulo era a forma usada pelo herói para escapar da armadilha do pêndulo (espremer as vísceras de um rato cortado sobre as cordas que o amarravam para que os outros ratos fossem lá roer a corda); finalmente, em Dagon, é arrepiante o momento onde um velho, ainda vivo, tem a pele do rosto arrancada a sangue-frio. Para não ficar fora do conjunto, O Castelo Maldito também conta com um momento de atrocidade, misturando violência e perversão, e que alguns irão repudiar. É quando Giorgio aprisiona Sylvana e tenta repetir com a prostituta tudo que viu John fazendo na noite anterior. Só que ele leva no sentido literal da coisa. Por exemplo: o “monstro” lembra de ter visto John chupando os seios de Sylvana. Ao seu modo, Giorgio tenta repetir… só que arrancando, a mordidas, um dos mamilos da moça! E espere só para ver como o “freak” vai repetir a sessão de sexo oral que John realizou na prostituta! É de arrepiar! A cena ficou tão grotesca que o próprio Jeffrey Combs, em entrevista, disse lamentar não ter pedido para o diretor “suavizar” a cena na época das filmagens. Mas é um bundão…

Ainda que O Castelo Maldito privilegie o suspense, e não a violência desenfreada típica do gênero (a contagem de cadáveres é baixíssima), a meia hora final é uma verdadeira montanha-russa de terror e sangreira, com Giorgio despachando violentamente alguns policiais que estavam no castelo supostamente para deixar Susan e Rebecca mais seguras – só que não adianta nada, hehehehe. Os ataques resultam em cenas bem sangrentas, incluindo cérebro exposto e olho arrancado a dentadas. E a perseguição do “monstro” às mulheres da família também rende algumas boas cenas de suspense, ainda que, na ânsia de dar um susto no espectador, Gordon tenha sacrificado a lógica: em uma cena, Giorgio atravessa uma janela do primeiro andar do castelo e cai de pé no térreo, perseguindo as garotas sem nem sentir um puxãozinho que seja na canela. Logo ele, que passou a vida acorrentado e nem conseguia andar direito no começo do filme, por ter as pernas tortas e os músculos atrofiados. Essa soou artificial demais…

É uma pena que O Castelo Maldito seja tão pouco comentado e recomendado. O próprio título não ajuda muito, passando a ideia de que se trata do milésimo filme sobre um castelo assombrado – por que não traduziram literalmente para “A Aberração do Castelo“, ou mesmo “O Monstro do Castelo“??? Ainda prefiro o título usado pela VTI na época do lançamento em vídeo, Herança Maldita – até por ser uma irônica menção ao fato da família Reilly herdar não apenas o castelo, mas também o monstro aprisionado no porão. E é interessante constatar que a versão lançada em vídeo e DVD no Brasil é a “director’s cut” de 95 minutos, mesmo que nem a capinha da fita nem a do DVD informem isso. Acontece que, nos Estados Unidos, o filme foi lançado inicialmente com severos cortes nas cenas mais violentas, terminando com 90 minutos apenas (fico só pensando o que cortaram…).

O Castelo Maldito (1995) (11)

E quanto a The Outsider, o conto de Lovecraft que supostamente inspirou o roteiro de Gordon/Paoli? Pois é, eu nunca li esta trabalho do mestre H.P., mas, pelo resumo que li na Internet, é um conto narrado em primeira pessoa por alguém que é prisioneiro no calabouço de um castelo. Quando ele consegue fugir da sua cela, passa pela frente de um espelho e descobre que, na verdade, não é um homem, mas sim uma criatura monstruosa – como acontece com Giorgio, no filme. Ou seja: Gordon e Paoli conseguiram fazer um excelente roteiro a partir deste argumento que, no tempo de duração do filme, não ocupa cinco minutos! Lembrando sempre que os outros filmes feitos em colaboração pela dupla também pegam apenas a essência do trabalho de Lovecraft e depois apostam em histórias originais. Os puristas e adoradores do trabalho original do escritor poderão até reclamar, mas ninguém vai ter como dizer que qualquer um destes trabalhos dirigidos por Stuart Gordon e inspirados nos textos do escritor sejam ruins.

Pelo contrário: Gordon talvez seja o único cineasta que tentou e não fez feio na hora de adaptar os “infilmáveis” contos de H.P – basta lembrar de bobagens do calibre de Abominável Criatura. Só por isso, já merece nossa adoração e louvor. Infelizmente, um dos trabalhos mais recentes do diretor – King of the Ants, de 2003 – continua inédito no Brasil, sabe-se lá até quando. Depois, em 2005, Gordon finalmente lançou uma produção de mais destaque, com astros famosos (William H. Macy, Julia Stiles, Joe Mantegna, Denise Richards e Mena Suvari, mais uma participação de Jeffrey Combs, claro!). Trata-se de Submundo/Edmond, thriller com roteiro de David Mamet e um orçamento de 10 milhões de dólares – uma fortuna, perto da mixaria com que o diretor está acostumado a trabalhar.

Leia também:

6 Comentários

  1. ana paula da cruz rodrigues

    um filme perfeito e antigo raramente se encontra um filme desta forma e o modo que vc de descreve-lo ficou otimo eu possuo o dvd do filme original legendado e é bem vdd raramente se ouve falar desta bela obra…

  2. Karina

    Que legal! Cheguei na tua página através do google. Estava procurando pelo filme “Herança Maldita”, mas foi bem difícil de encontrar alguma coisa sobre ele, acho que justamente porque o nome original é diferente. É que hoje me veio à cabeça esse filme, que assisti aos 10 anos de idade (ou seja, há 20 anos), em um daqueles raros dias que eu conseguia ficar acordada até mais tarde pra ver televisão. Acho que foi no SBT que passou. O nome do filme ficou marcado na minha cabeça até hoje, até porque, lembro de ter sido a coisa mais apavorante que eu já tinha visto na minha vida (aquela cena da prostituta foi demais pra uma cabecinha de 10 anos… hehehe). E sempre que eu tentava contar pra alguém sobre o filme, nunca conseguia descrever o quão terrível era, e, incrivelmente, ninguém nunca tinha ouvido falar nele. Já tava até acreditando que essa história era fruto da minha imaginação. Mas que “bom” saber que ele existe mesmo. Bom entre aspas mesmo, porque agora já não tenho mais coragem de assistir. Só de ler o texto já recordei a mesma sensação que tive aos 10 anos.

    P.S. Eu fiquei tão fixada pelo filme, que alguns anos depois, quando os Titãs lançaram o clip da música “Os cegos do castelo”, eu achava que o monstro que aparece no clip era o monstro do filme. hehehehe

  3. Karina

    Que legal! Cheguei na tua página através do google. Estava procurando pelo filme “Herança Maldita”, mas foi bem difícil de encontrar alguma coisa sobre ele, acho que justamente porque o nome original é diferente. É que hoje me veio à cabeça esse filme, que assisti aos 10 anos de idade (ou seja, há 20 anos), em um daqueles raros dias que eu conseguia ficar acordada até mais tarde pra ver televisão. Acho que foi no SBT que passou. O nome do filme ficou marcado na minha cabeça até hoje, até porque, lembro de ter sido a coisa mais apavorante que eu já tinha visto na minha vida (aquela cena da prostituta foi demais pra uma cabecinha de 10 anos… hehehe). E sempre que eu tentava contar pra alguém sobre o filme, nunca conseguia descrever o quão terrível era, e, incrivelmente, ninguém nunca tinha ouvido falar nele. Já tava até acreditando que essa história era fruto da minha imaginação. Mas que “bom” saber que ele existe mesmo. Bom entre aspas mesmo, porque agora já não tenho mais coragem de assistir. Só de ler o texto já recordei a mesma sensação que tive aos 10 anos.

    P.S. Eu fiquei tão fixada pelo filme, que alguns anos depois, quando os Titãs lançaram o clip da música “Os cegos do castelo”, eu achava que o monstro que aparece no clip era o mesmo monstro do filme. hehehehe

  4. Thiago Romio

    Muito bom ler um ótimo texto sobre esse filme incrível. Uma pena esse filme não ser reconhecido e elogiado como os outros dois clássicos de Stuart Gordon ( Re Animator e Do Além ). Filme sinistro e muito bem realizado.

  5. Fernando

    Opa, acharam uma das minhas hidden gems, muito bom filme.

  6. Cristina

    Muito bom! Filme obrigatória das sextas feiras 13.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *