Hannibal (2001)

Hannibal (2001) (1)

Hannibal
Original:Hannibal
Ano:2001•País:UK, EUA
Direção:Ridley Scott
Roteiro:Thomas Harris, David Mamet
Produção:Dino De Laurentiis, Martha De Laurentiis, Ridley Scott
Elenco:Anthony Hopkins, Julianne Moore, Gary Oldman, Ray Liotta, Frankie Faison, Giancarlo Giannini, Francesca Neri, Zeljko Ivanek, Hazelle Goodman, David Andrews, Francis Guinan

Alguém aí já teve infecção intestinal? Bem, é uma das coisas mais degradantes que pode acontecer com uma pessoa: a doença enfraquece o ser humano a tal ponto de ele virar um trapo, emagrecendo vários quilos por não conseguir comer nem uma uva sem querer botar para fora depois. E as dores atrozes no peito fazem com que o doente fique o tempo todo se remexendo na cama, tentando achar uma posição confortável e onde não sinta dor – posição esta que nunca encontra.

Bem, eu tive. E fiquei uma semana das diabos no hospital me recuperando desta praga. Foi quando matei o tempo lendo Hannibal, livro de Thomas Harris que, na época, era lançamento e estava entre os mais falados e badalados. Odiei. E imaginava que fosse justamente pela situação triste e desconfortável em que me encontrava, onde talvez até Cidadão Kane iria parecer um filme ruim.

Hannibal (2001) (3)

Mas a verdade é que o livro, a história, o enredo do terceiro livro sobre o psicopata Hannibal Lecter é mesmo horrível, e isso eu fui constatar algum tempo depois, ao ver Hannibal, a adaptação cinematográfica da obra de Harris, feita por ninguém menos que Ridley Scott – o cara que dirigiu Alien, Blade Runner e mais uma pá de filmes legais. Pois o filme é tão ruim, mas tão ruim, que me comprovou como o livro original de Thomas Harris é mal-escrito e sem graça.

A adaptação para o cinema é tão vazia quanto o livro, e sei que tem muitos fãs que vão querer me aniquilar depois dessa opinião. Mas diga-se a verdade: Hannibal, o livro, é uma completa perda de tempo, um caça-níqueis já escrito com a intenção de virar filme. Cada frase, cada linha da história parecia imaginar a futura versão cinematográfica. O escritor só esqueceu de pensar numa boa história, como fez anteriormente, em Red Dragon e O Silêncio dos Inocentes – os dois outros livros com as aventuras do serial killer canibal, que também viraram filmes.

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A culpa pelo fiasco de Hannibal nem é dos atores ou do diretor Ridley Scott, que até seguram a peteca e entregam um filme bem feitinho. O grande problema é mesmo a história. Felizmente, os produtores do filme ainda tiveram o bom senso de mudar o ridículo final do livro, onde Hannibal Lecter (alçado à condição de herói da história, apesar de ser um assassino frio e impossível de simpatizar) e Clarice Starling (a agente do FBI que o persegue) se apaixonam e fogem juntos (argh!). Na adaptação cinematográfica o final é mais razoável, embora seja exagerado e deixe as portas abertas para uma nova (e provavelmente fraca) continuação.

Hannibal é um infeliz desperdício. Chega a ser triste esperar 10 anos (o tempo entre o lançamento da excelente adaptação cinematográfica de O Silêncio dos Inocentes, por Jonathan Demme, e desta continuação) para ver uma produção tão tosca, disfarçada de superprodução luxuosa.

O grande problema do filme é o grande problema do livro: o assustador Hannibal Lecter, que conhecia todas as fraquezas humanas quando preso num sanatório (nas duas primeiras histórias), que destruía seus adversários em intrincados jogos mentais, que usava de fina ironia para combater a lei, é aqui reduzido a um psicopata comum, como o cinema já produziu aos milhares.

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Em Red Dragon e O Silêncio dos Inocentes, ele provocava arrepios quando estava aprisionado, com sua frieza, sua crueldade e seus olhos assustadores. Já em Hannibal, livre, leve e solto, o assassino não assusta nem criancinhas, tornando-se um vilão comum que usa mais a força bruta (facas afiadas, no caso) do que as palavras para enfrentar seus inimigos. Isso mesmo, aqui ele mata sem piedade, tal qual um Jason Vorhees ou um Freddy Krueger. E esta comparação não é gratuita: como os dois psicopatas dos filmes de horror, Hannibal agora tem uma predileção por mortes criativas, exageradas, fazendo da maior parte do filme uma piada – até fala coisas engraçadinhas antes de matar suas vítimas.

Tudo isso seria perdoado se, como nos filmes anteriores, Hannibal Lecter fosse um coadjuvante na trama. Mas não é. Thomas Harris achou que seria uma grande coisa transformar o vilão no personagem central da história! Mesma ideia de jerico que tiveram os realizadores de Freddy Vs Jason, só para comparar. Mas o pior é que tanto no livro quanto no filme, eles realmente tentam fazer o espectador simpatizar com o personagem, como se um assassino brutal pudesse virar um simpático anti-herói. Anthony Hopkins, excelente ator, parece divertir-se exagerando na interpretação de Hannibal, tentando compor um personagem demoníaco e ameaçador, mas ao mesmo tempo apaixonado e simpático (vamos lá, em coro: argh!).

Já a agente do FBI Clarice Starling, a verdade heroína em O Silêncio dos Inocentes, volta nesta continuação e não faz nada o tempo inteiro. Ela começa o filme matando uma traficante, em uma ação equivocada, e depois não investiga mais nada, virando apenas o “interesse amoroso” de Hannibal. A personagem está completamente desperdiçada e desinteressante , além de aparecer bem pouco. Jodie Foster, que interpretou a heroína com muito charme em O Silêncio dos Inocentes, acertou em escapar deste fiasco, deixando o papel vago para Juliane Moore. Ela também é uma excelente atriz, mas está apagada, com o roteiro lhe dando poucas chances de aparecer – ao final, até esquecemos que Clarice estava no filme.

A história é uma pérola da simplicidade, o que nos leva a questionar que motivo teve Thomas Harris ao escrevê-la que não fosse o de encher os bolsos de dinheiro. Saindo Hannibal Lecter como vilão, foi preciso encontrar outro malvado para o posto. O escolhido é Manson Verger (interpretado por um Gary Oldman carregado de maquiagem), um milionário desfigurado por Hannibal no passado, que oferece uma fortuna a quem lhe entregar o canibal vivo. Ele tem um plano mirabolante: quer jogar o inimigo para ser devorado por porcos selvagens.

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Desde que escapou do sanatório, no final de O Silêncio dos Inocentes, Hannibal vive escondido em Florença, na Itália, usufruindo da cultura, do refinamento e da boa gastronomia, sem desconfiar do perigo que o ronda. Mas um policial corrupto, Rinaldo Pazzi (Giancarlo Giannini, o melhor do filme), descobre quem ele é e tenta entregá-lo a Verger. Começa um jogo de gato e rato que podia render um bom filme, mas nunca alcança grandes emoções. E perde-se na sangreira, matando alguns dos personagens centrais de forma totalmente gratuita. Quando o filme sai da Itália, todo o interesse cai por terra.

A tática para transformar Hannibal em herói é cercá-lo com outros vilões muito piores que ele, como o tal Verger, bem mais malvado – no livro ele era pedófilo e bebia drinques com lágrimas de criancinhas. Mas pelo menos eu não caí nessa: continuo achando Hannibal Lecter um grande FDP e fiquei revoltado toda vez que ele conseguia escapar das armadilhas dos seus antagonistas em Hannibal – eu deveria, como a maior parte do cinema, estar torcendo para ele, mas simplesmente não consigo simpatizar com um “herói” assim.

A única coisa de interesse nesta bomba são as já citadas mortes criativas, que também estão no livro – tão exageradas e mal-encenadas que nem ao menos conseguem chocar o público, a não ser que você seja facilmente impressionável. Em uma delas, Hannibal corta um sujeito e o atira dependurado numa janela, fazendo suas tripas de espalharem pelo chão. Em outra, a mais revoltante, que fez gente sair do cinema na sessão onde eu assisti o filme, Hannibal abre o crânio de um rival, mantido vivo com sedativos, e faz o sujeito comer o próprio cérebro, frito na manteiga. Chocante para alguns, a cena ficou, na verdade, hilariante, graças ao péssimo efeito de computação gráfica para mostrar o ator com o cérebro exposto.

Prefira relegar essa porcaria ao esquecimento que ela merece e rever O Silêncio dos Inocentes, ou mesmo Red Dragon, nas versões de Brett Ratner e Michael Mann. Os nazistas foram fartamente condenados por queimarem livros durante a Segunda Guerra Mundial, mas alguns – tipo Hannibal – realmente mereciam acabar na fogueira, ao invés de virarem superproduções sem graça e sem ética.

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

11 comentários em “Hannibal (2001)

  • 17/11/2017 em 23:00
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    Comentário muito bem elaborado, detalhista e inteligente. Eu acho que Hannibal interpretou muito bem um psicopata. O problema foi o final do filme. Mudado em relação ao livro, mas que ficou tão incoerente, quanto ao próprio livro.

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  • 22/08/2017 em 16:02
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    Realmente muito abaixo do esperado. Principalmente porque Silêncio dos inocentes pra mim figura como um dos dez mais da arte cinematográfica. O Poderoso Chefão I e II continuam disparados na frente.

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  • 29/12/2016 em 19:20
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    As continuações por criarem expectativas em geral nos deixam desanimados vamos agradecer por não darem continuidade à alguns filmes, mas em geral não figura num top 5 desse gênero de filme pois é fraquinho mesmo.

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  • 19/11/2016 em 01:42
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    Fiquei com essa cena do cérebro na mente um tempão. Gente será que uma coisa assim é possível?! Arrancar um pedaço do cérebro de uma pessoa e ela continuar conversando e tal (estando sedada)? Fiquei bem chocada!

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    • 22/08/2017 em 16:04
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      É possível, desde que não se corte a parte do lobo diretamente responsável pela fala.

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  • 01/08/2015 em 15:50
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    Ray Liotta, pra variar, está péssimo.

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  • 16/05/2015 em 21:17
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    Um filme ótimo.
    Violento, tenso e com Anthony Hopkins atuando de forma excelente!

    Nota: 9,0

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  • 14/05/2015 em 10:45
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    Eu gosto do filme. Confesso que gosto mais pelo Mason e não pelo Hannibal.

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  • 09/05/2015 em 09:55
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    Concordo com td q vc escreveu sempre detestei esse filme e achava q pudesse ser só implicância minha mas agora reforçei minha opinião

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