Críticas

Byzantium (2012)

Poderia facilmente desabar para o melodrama ou pastiche, mas a competência e a mão firme de Jordan nos entregam uma história bem contada!

Byzantium (2012) (7)

Byzantium
Original:Byzantium
Ano:2012•País:EUA, UK, Irlanda
Direção:Neil Jordan
Roteiro:Moira Buffini
Produção:Sam Englebardt, William D. Johnson, Elizabeth Karlsen, Alan Moloney, Stephen Woolley
Elenco:Saoirse Ronan, Gemma Arterton, Sam Riley, , Barry Cassin, David Heap, Warren Brown, Ruby Snape, Thure Lindhardt, Jenny Kavanagh, Glenn Doherty, Edyta Budnik, Gabriela Marcinková, Caleb Landry Jones

Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, Byzantium é uma bela e interessante variação dos filmes de vampiros. Temos aqui duas mulheres misteriosas, a bela prostituta Clara (Gemma Arteton, de João e Maria: Caçadores de Bruxas) e a introspectiva adolescente Eleanor (Saiorse Ronan, que fez a personagem-título de Hanna, de Joe Wright, aqui com os cabelos castanhos). As duas levam uma vida nômade, fugindo de homens misteriosos.

Ambas se instalam na casa de um cliente de Clara, uma pensão chamada Byzantium, e a prostituta, com a conivência do dono, transforma o lugar em um prostíbulo. Aos poucos o filme vai revelando que as duas são vampiras há mais de 200 anos, e que são mãe e filha. E que os homens misteriosos são na verdade uma irmandade de vampiros que não aceitam vampiras.

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Eleanor, entre uma vítima e outra, passa o tempo escrevendo suas memórias, o que dá brecha para os flashbacks. O filme então adota duas linhas narrativas, o presente e o passado, contando a origem das protagonistas. Aos poucos a trama, que começa lenta e lacônica, vai sendo preenchida.
Em suas andanças pela cidade, Eleanor acaba conhecendo um adolescente com leucemia (Caleb Landry Jones). Claro que a vampirinha acaba se apaixonando pelo rapaz, embora reconheça a impossibilidade do romance.

Quando Eleanor, que se sente sufocada na sua condição de ser imortal, resolve desabafar para seu amado entregando a ele seus manuscritos, é que os problemas realmente começam.

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O filme tem de tudo um pouco: uma vampira que se prostitui e que briga com a filha, também vampira, que, por sua vez, se apaixona por um mortal. Fora a tal irmandade que querem matá-las. O filme começa lento, mas vai crescendo no seu desenvolvimento. O que poderia resultar numa mistura de Crepúsculo com o programa Casos de Família acaba resultando numa obra consistente e envolvente, mérito para a competência de Jordan.

O irlandês Neil Jordan começou sua carreira como diretor no começo dos anos 80, naquele boom de diretores do Reino Unido que acabaram revigorando o cinema por lá, junto com nomes como Stephen Frears, Peter Greenway, Derek Jarman, Alex Cox, entre outros. Talvez Jordan seja para o público o nome mais palatável dessa safra. Quase sempre competente, nunca apresentou um filme que seja exatamente ruim, além de já ter visitado o tema do vampirismo com o badalado Entrevista com o Vampiro, um dos seus pontos fracos, junto com Valente (aquele com a Jodie Foster bancando Charles Bronson), e ter feito pelo menos um clássico do horror, A Companhia dos Lobos. Ou seja, ele não está em um terreno estranho.

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O roteiro da dramaturga inglesa Moira Buff, inspirado em sua própria peça de teatro chamada “A Vampire Story”, é recheado de citações ao universo vampiresco e horror em geral. Temos alusões a Carmilla, de Sheridan Le Fanu, Edgar Allan Poe, Shelley, filmes da Hammer (há uma cena em que está passando numa TV Drácula – O Príncipe das Trevas). O caso mais curioso é o de um dos vampiros da irmandade, chamado Ruthven, nome do personagem do seminal conto O Vampiro, de John Polidori, personagem esse inspirado em Lord Byron. O interessante é que o ator que faz Ruthven em Byzantium, John Lee Miller, interpretou o lorde libertino na biografia para TV, Byron, em 2003.

O filme toma algumas liberdades com a mitologia dos vampiros – aqui não há nada de estacas de madeira e muito menos caninos longos. Os sanguessugas usam a unha do polegar, que cresce quando querem furar a pele e beber o sangue das vítimas, um recurso que causa estranheza a princípio, mas que acaba funcionando.

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Aqui os vampiros são imunes ao sol; não é exatamente uma subversão aos dogmas do gênero – na verdade os sanguessugas, embora seres noturnos e que habitualmente dormiam ao dia, não eram destruídos pelo sol, basta ler com atenção Drácula, Carmilla, O Vampiro, entre outras obras do século XIX para trás para perceber que eles, em algum ponto da trama, caminham serelepes na luz do dia. Foi o Nosferatu de Murnau que aplicou isso de uma forma poética e acabou virando regra e fixado na mitologia dos vampiros.

Outro recurso interessante aqui é a forma que a pessoa poderá se transformar em vampiro. Nada de vítima de mordida; o candidato tem que se locomover até uma ilha e entrar numa caverna, onde uma entidade transformará quem entrar numa criatura chupadora de sangue. Vale mencionar que no momento em que a pessoa é atacada dentro da caverna, as corredeiras de água da ilha se transformam em sangue, dando o visual de cachoeiras vermelhas (o que me lembrou um pouco a chuva de sangue do filme nacional O Som ao Redor), o que origina cenas tão belas e poéticas quanto surreais.

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Byzantium poderia facilmente desabar para o melodrama ou pastiche, mas a competência e a mão firme de Jordan nos entregam uma história bem contada e bem interpretada, com momentos poéticos. Acaba indo mais para o lado de Deixa Ela Entrar do que o luminoso Crepúsculo.

A obra, se por um lado inova, por outro mostra respeito pelo tema. Se não chega a ser uma grande renovação para o gênero, pode-se dizer que no mínimo é um belo e bem vindo sopro de dignidade para os vampiros. Não chega ao nível de A Companhia dos Lobos, porém é superior ao Entrevista com o Vampiro.

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1 Comentário

  1. Bruma

    Melhor que entrevista?? Me poupe.

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