Perdidos no Vale dos Dinossauros (1985)

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Perdidos no Vale dos Dinossauros
Original:Nudo e selvaggio / Massacre in Dinosaur Valley
Ano:1985•País:Itália, Brasil
Direção:Michele Massimo Tarantini
Roteiro:Michele Massimo Tarantini, Dardano Sacchetti
Produção:Chris Rodrigues
Elenco:Michael Sopkiw, Suzane Carvalho, Milton Rodríguez, Marta Anderson, Joffre Soares, Gloria Cristal, Susan Hahn, Maria Reis, Andy Silas, Leonidas Bayer, Carlos Imperial, Samuka

Imagine uma mistura entre a série Indiana Jones, as aventuras de Tudo por uma Esmeralda (dirigido por Robert Zemeckis, em 1984) e o horror dos filmes italianos de canibais, como Cannibal Holocaust e Os Vivos Serão Devorados, acrescentando ainda uma pitada das aventuras ingênuas dos Trapalhões (brigas pastelão e gracinhas diversas) e um toque dos velhos faroeste-spaghetti. E não é que existe uma coisa assim? E você achando que a mistura de road movie e terror de Um Drink no Inferno, de Robert Rodriguez/Quentin Tarantino, era original, hein???

A doideira chama-se Perdidos no Vale dos Dinossauros e foi feita aqui mesmo, no Brasil, em 1985, numa produção ítalo-brasileira dirigida por um tal de Michael E. Lemick. Apesar da história se passar na Amazônia, as cenas foram todas filmadas na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. E não se espante com o tal “Lemick“, pois não se trata de nenhum famoso cineasta norte-americano, e sim do italiano picareta Michele Massimo Tarantini, escondido atrás de pseudônimo em inglês.

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Perdidos no Vale dos Dinossauros é um daqueles filmes para públicos específicos: é tão fácil de gostar quanto de odiar, sem meio-termo. Eu costumo brincar dizendo que existem dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que saem do cinema na hora em que percebem que o monstro do filme é falso, pois preferem filmes sérios e produções refinadas, e aquelas que conseguem assistir The Toxic Avenger e Cidadão Kane no mesmo dia. Somente se você pertencer a esta segunda categoria vai conseguir encarar os 88 minutos desta produção classe Z, feita com um mínimo de orçamento, mas muito bom humor e criatividade – precisa mais???

Trata-se do “canto-de-cisne” do ciclo italiano de filmes sobre canibalismo, já que foi um dos últimos realizados na esteira de sucesso das produções de Ruggero Deodato, Umberto Lenzi e Sergio Martino. Como criatividade pouca é bobagem, os canibais são apenas um dos perigos que os heróis enfrentam em meio à selva amazônica: também há os ataques de cobras, piranhas e sanguessugas, mais areia movediça e um grupo de violentos garimpeiros.

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Apostando no humor e na aventura tipo história em quadrinhos, os produtores resolveram tirar o clima sério e a violência contra animais de filmes como Cannibal Ferox, e o resultado é um passatempo um pouco mais acessível ao grande público. Isso, claro, se você não se encaixar naquele outro tipo de espectador que eu citei, o que prefere filmes mais sérios e produções mais refinadas. Mas é como eu sempre digo: o que falta nesse mundo é bom humor. Porque se as pessoas fossem menos exigentes e cheias de frescura, e mais abertas aos chamados “filmes trash“, Perdidos no Vale dos Dinossauros seria um blockbuster à altura de Os Caçadores da Arca Perdida (hmmmm, forcei um pouco a barra, mas confesso que ambos estão entre os meus filmes preferidos).

O filme foi realizado no Brasil numa época em que o diretor Tarantini estava investindo no país. No ano de 1985, ele assinou duas produções em conjunto Brasil/Itália, Perdidos… e Fêmeas em Fuga (típico filme de presídio feminino, com estupros e lesbianismo), ambos estrelados pela belíssima brasileira Suzane Carvalho. A morena linda vinha de ensaios em revistas masculinas, como Ele & Ela, trabalhos na TV e desfiles de escolas de samba, e subitamente resolveu mostrar o corpão no cinema “exploitation“. Também só fez estes dois filmes e sumiu de cena, tornando-se piloto de automobilismo! Pode parecer incrível, mas a estrela de um filme chamado Perdidos no Vale dos Dinossauros saiu do cinema não para o esquecimento, mas sim para se tornar a primeira mulher a conquistar um título em Fórmula 3, inclusive tendo seu nome registrado no Guiness, o Livro dos Recordes!!! (Infelizmente, apesar de eu ter lhe mandado uns 15 e-mails, e Suzane até ter respondido os primeiros, ela preferiu não responder as perguntas sobre sua participação no filme de Tarantini, talvez por vergonha, talvez por nem lembrar dele…)

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Batizado de Nudo & Selvaggio (Nu e Selvagem) na Itália e de Massacre in Dinosaur Valley (Massacre no Vale dos Dinossauros) nos Estados Unidos, o filme também foi chamado simplesmente de Amazonas (título com que foi lançado em DVD na Europa) e até, vejam só que picaretagem, de Cannibal Ferox 2, quando não tem nada a ver com o filme original feito por Umberto Lenzi!!!!

Como toda boa produção picareta italiana, Perdidos no Vale dos Dinossauros tem duas versões. A primeira foi a lançada no Brasil, com uma horrenda dublagem em português (inclusive os vários atores brasileiros que participam foram dublados) e créditos iniciais e finais em português. A outra é a versão mundial, lançada com o nome Massacre in Dinosaur Valley e dublagem em inglês. Cada versão tem cenas que a outra não tem (pode?). Outra sacada é que, na versão internacional, todo o elenco brasileiro se esconde atrás de pseudônimos americanos. Além do diretor Tarantini virar “Michael E. Lemick“, Suzane Carvalho se transforma em “Susan Carvall“, o falecido Jofre Soares é creditado como “Joffrey” Soares, Maria Reis se torna “Mary” Reis, Adalberto Silva vira “Albert” Silva e até Samuca se americaniza para “Samuka“. hahahahaha

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E também seguindo a tradição dos filmes italianos da época, este tem farta dose de sexo, nudez e violência. Num clima total de pornochanchada, a sacanagem impera. As atrizes principais do filme (brasileiras) passam a maior parte do tempo em cena sem roupa. Há ainda um pouco de sexo implícito (uma delas cortada na versão brasileiras, mas presente na versão internacional) e rápidas cenas de estupro, banho (de chuveiro e de rio) e até lesbianismo! Tudo no filme é desculpa para tirar a roupa da mulherada, desde bêbados chatos levantando a saia de modelos até índios tarados que despem suas prisioneiras para o sacrifício. Ou seja, definitivamente um daqueles filmes feitos para quem gosta de cinema com muito sangue e sacanagem. E quem não gosta? hehehehe

Em setembro/2004, o filme de Michele Tarantini foi finalmente lançado em DVD nos Estados Unidos, com o nome Massacre in Dinosaur Valley. Ao contrário da versão européia pelada (que só tinha o trailer), este disco é um verdadeiro tesouro: traz entrevistas com o diretor Tarantini, com o galã americano Michael Sopkiw (estranhamente, Suzane Carvalho não aparece), faixa de comentário com o autor, oito cenas excluídas e o trailer do filme. Na capinha, a frase que diz tudo: “Uma mistura de Indiana Jones e o Templo da Perdição com A Montanha dos Canibais”. Genial a comparação!

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Na sua entrevista no DVD, Tarantini explica que o filme surgiu quase por acaso: “O produtor Luciano Marino, com quem trabalhei em vários filmes, leu em algum lugar sobre a descoberta de pegadas de dinossauro em um vale brasileiro. E na mesma época, nos cinemas italianos, estava passando um filme de Michael Douglas, chamado Tudo por uma Esmeralda. Pensamos em fazer uma história parecida, mas mais violenta, para o mercado asiático. Principalmente para o Japão, onde Ruggero Deodato e o cinema italiano dominavam. Então adicionamos alguns elementos de canibalismo e fizemos uma mistura de aventura, comédia, erotismo e canibais“.

O filme começa com um ônibus imundo da empresa HL Silva (que devia existir de verdade, se é que não existe ainda) transitando por uma poeirenta estrada de chão batido, levando no seu interior o Professor Ibanez e sua filha Eva (Suzane). Logo descobrimos que o paleontologista, autor de livros como “Epistomologia Paleosóica” e “Na Trilha dos Últimos Dinossauros” (isso não tem nada a ver com o filme, logo, esqueça!), está no Brasil para visitar o Vale dos Dinossauros, bem no meio da floresta amazônica. O lugar é famoso tanto por seu interesse histórico quanto por uma suposta maldição indígena que o rodeia. Ibanez e Eva param na minúscula Vila de São Sebastião e vão para o hotel, onde o carregador de malas, negro, se chama “Maizena“. hahahahaha. Uma curiosidade: a versão do DVD americano tem vários takes do ônibus na estrada e chegando na vila que não existem na versão lançada em VHS no Brasil, inclusive uma onde o veículo passa por uma velha placa com o nome da vila.

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No mesmo hotel em que o professor e sua filha se hospedam, também estão um fotógrafo de São Paulo, Robi, com duas belíssimas modelos, Monica (Susan Hahn) e Belina (Marta Anderson), que estão na trama como mera desculpa para o diretor/roteirista Tarantini registrar um sensual ensaio de ambas, com pouquíssima roupa; e um casal exótico de americanos formado pelo violento, e impotente, capitão John Reines (Milton Morris), um veterano do Vietnã, e sua mulher bebum e clone envelhecida de Marilyn Monroe, Beth (uma enfeiada Alexandra Delli Colli, que estava maravilhosa em Zombie Holocaust, feito em 1980).

Quando o herói do filme entra em cena, percebemos que não é para levar o negócio a sério. O “arqueólogo” vagabundo Kevin Hall (o boa-pinta Michael Sopkiw, em seu último trabalho no cinema), aparentemente um funcionário do Museu de Paleontologia de Boston, chega à vila deitado na carroceria de um caminhão cheio de bananas, sem um único dólar no bolso e arrastando uma caixa cheia de velhos ossos de dinossauro. Kevin é uma espécie de Indiana Jones do terceiro mundo: malandro, cheio de piadinhas e disposto a comer quantas mulheres cruzam seu caminho (neste quesito ele é o contrário do casto personagem de Harrison Ford nos filmes da série de Steven Spielberg, que adorava xingar e maltratar suas companheiras femininas). Mas Kevin também tem sangue-frio para matar dezenas de índios imundos e vilões que cruzam seu caminho, e muita cara-de-pau para chegar junto na mulherada. Isso que é herói!

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Ao descobrir que o Professor Ibanez planeja voar até o Vale dos Dinossauros, Kevin fica louco para juntar-se à expedição. Antes, entretanto, tenta dar uma de cavalheiro heróico e salvar uma das belas modelos de um bêbado que estava tirando a roupa da moça, no bar do hotel. Péssima ideia: o bêbado, baixinho, apanha fácil, mas tinha dois irmãos gigantescos, que dão uma surra violenta no arqueólogo americano (o momento Os Trapalhões do filme, inclusive com aquela clássica cena em que a mão de uma pessoa é apertada e ouvimos o estalar dos ossos se partindo!!!! hahahahaha).

Mas calma: nosso herói será recompensado. Enquanto ele repousa em seu quarto, totalmente quebrado, a modelo que ele salvou do bêbado entra já tirando a roupa e diz: “Eu vim para lhe agradecer“. Quando o americano começa a acariciar seus seios, ela ainda fala: “Tenho medo que você vá pensar mal de mim”. E ele dispara: “Isso nem passou pela minha cabeça!“. hahahaha. Esses roteiristas italianos! E o mais engraçado é que Kevin só vai saber o nome da moça (Belina) no dia seguinte!!!! Quem só viu a versão do filme lançada no Brasil certamente gostará de saber que uma cena de sexo com mais de um minuto foi cortada, mas está na versão americana, mostrando o rala-e-rola de Kevin com Belina – inclusive chupação de seios e sexo oral implícito. Por que privaram os brasileiros disso? Engraçado é que, na faixa de comentário, Sopkiw revela que a atriz que interpretava a modelo estava muito nervosa. E, para piorar, era namorada de um dos produtores do filme, que acompanhou tudo bufando de raiva!!! hahahaha

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Amanhece e Kevin vai procurar o Professor Ibanez, mas encontra algo melhor: sua filha Eva tomando banho, completamente pelada. Uma bela forma de conhecer aquele que será seu interesse romântico na trama. Quando ele e Ibanez entram em acordo, logo todos estão num pequeno avião sobrevoando a Amazônia. Claro, a tal maldição do Vale dos Dinossauros revela-se verdadeira. O avião começa a perder altitude até cair, numa cena trash até a medula, onde Tarantini não tem a menor vergonha na cara e simplesmente atira um avião de brinquedo em uma ridícula miniatura da selva, enquanto filma seus atores sacudindo dentro de um cenário precário, como se estivessem dentro do avião!!! hahahahaha. Na faixa de comentário, Sopkiw até brinca, dizendo que o interior “fake” do avião era muito mais confortável do que a verdadeira aeronave!

Enfim, na queda do avião morrem o piloto, o Professor Ibanez e uma das modelos, Belina (pobre Kevin…). Os sobreviventes resolvem abandonar o avião e seguir pela selva em busca da civilização. Liderados, claro, pelo tal capitão Reines, pois ele acredita que os três anos passados no Vietnã o credenciam a ser guia no meio da selva – e ai de quem questionar sua autoridade! Todas as provações da floresta são mostradas então: sanguessugas, serpentes (uma bela cena de arquivo de close em uma cascavel), jacarés e piranhas. Além, é claro, de um rápido plágio de Tudo por Uma Esmeralda, quanto Reines corta os saltos do sapato da modelo sobrevivente, Monica, com um facão. Há ainda uma cena impagável que serva apenas para mostrar como o herói é macho: ao ver que tem um sanguessuga na mão, Kevin simplesmente devora o bicho, sem fazer nem ao menos cara feia!

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Fãs de Cannibal Holocaust e outras produções canibalísticas vão sentir falta das cenas de animais se atacando e/ou sendo mortos por humanos. Mas dentro do contexto do filme, estas cenas não fazem falta nenhuma. Aqui quem é dizimado é o elenco humano. Não demora para os sobreviventes descobrirem que estão sendo caçados por uma terrível e implacável tribo canibal que habita a região.

Quando o fotógrafo de moda é atacado por piranhas ao atravessar o rio, tendo sua perna carcomida pelos famintos peixes (um close mostra o osso da perna aparecendo em meio ao sangue), Reines resolve “ajudá-lo“, esfaqueando-o pelas costas. Ele temia que os gritos do fotógrafo alertassem os canibais. Kevin resolve que não vai deixar aquele assassinato passar em branco e entra em confronto com o veterano do Vietnã, mas é atirado de uma cachoeira enquanto o capitão foge com as três mulheres.

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Logo, sua esposa Beth – a clone de Marilyn Monroe, que caminha pela selva levando uma maletinha cor-de-rosa, hehehehehe – é tragada pela areia movediça enquanto Reines, Eva e Monica são cercados pelos índios. As duas mulheres são levadas, mas o “vilão” é crivado de flechas, tem seu peito aberto a punhaladas, o coração arrancado e devorado a sua frente. Porque, afinal, “gore” não pode faltar em um filme do gênero, não é verdade? Na entrevista que acompanha o DVD americano, Tarantini disse que ele mesmo teve que improvisar este efeito: “Havia uma cena muito forte onde o cacique abre o peito de um homem, arranca seu coração e come. Isso foi filmado com poucos recursos, porque no Brasil não havia técnicos especializados para fazer isso. Então eu mesmo fiz um peito falso usando amálgama de dentista e enchi ele com os órgãos internos de um porco, que comprei num açougue. Me olhavam como se eu fosse louco durante a filmagem desta cena! E o coração foi mesmo comido pelo ator que fazia o índio! Não sei como ele conseguiu!“.

Depois que acaba o “massacre“, volta a putaria. As duas moças, levadas à aldeia, são despidas pelos índios, ficando completamente peladinhas (e não põem muito mais roupa até o fim do filme). Ambas serão sacrificadas para uma espécie de “deus-dinossauro” dos índios (quer coisa mais trash???), na verdade um mané que tem um crânio de dinossauro na cabeça e garras afiadas. Tais garras são usadas na tradicional cena de mutilação sexual, quando um dos seios de Monica é arranhado e o sangue coletado em um crânio humano, para distribuição entre os índios.

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Kevin então entra em ação, disparando tiros e mais tiros nos canibais com sua espingarda (que milagrosamente nunca fica sem munição). Depois de dizimar meia aldeia, ele foge de canoa com as duas moças. O perigo dos canibais foi superado, mas ainda há muito mais pela frente enquanto os sobreviventes penetram mais e mais no Vale dos Dinossauros e se vêem às voltas com um grupo de garimpeiros de esmeraldas, selvagens e violentos, loucos para ficar com as duas mulheres que Kevin salvou.

De filme de selva, os últimos 20 minutos passam a ser faroeste-spaghetti, com tiroteios e duelos mortais entre inimigos. O herói, que tinha escapado da ameaça do capitão Reines e dos índios, agora enfrenta o psicótico China (o cantor brasileiro Carlos Imperial, que nos anos 60 era um dos mais amados roqueiros do país, autor de sucessos como “O Bom“, do refrão “Ele é o bom, é o bom, é bom“!!!), o líder dos garimpeiros, que não quer deixar o trio sair com vida do coração da selva. Uma cena em particular lembra os velhos westerns feitos na Itália, quando Kevin joga uma cascavel em frente a China e o vilão, com uma única bala no revólver, é obrigado a escolher: ou atira no herói ou no mortal réptil.

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No fim, é como se fossem três histórias diferentes dentro de um mesmo filme: primeiro a historinha de sobrevivência na selva; no meio o ataque dos canibais, e no fim uma aventura envolvendo garimpeiros que escravizam pessoas, todas elas estreladas pelos mesmos personagens. A parte final, inclusive, lembra o filme Extermínio de Danny Boyle, onde, passada a ameaça dos zumbis, os heróis tinham que enfrentar militares que queriam ficar com as mulheres do grupo. Aqui é mais ou menos a mesma história, trocando os zumbis por canibais e os militares por garimpeiros!

Pelo resumo, você já percebeu que Perdidos no Vale dos Dinossauros é um filme maluco, praticamente sem pé nem cabeça. Dardano Sacchetti, o inspirado roteirista de nove entre 10 bons filmes italianos da época (principalmente os terrores de Lucio Fulci e Lamberto Bava), deu uma mãozinha no roteiro do diretor Tarantini, mas não ganhou crédito.

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O melhor de tudo é conferir como um filme com tantos elementos e reviravoltas é feito usando um mínimo de recursos. A tribo canibal é formada por meia dúzia de figurantes que, mesmo quando são mortos pelo herói, voltam à cena usando outra roupa para disfarçar. As cenas da selva são realizadas quase que totalmente em um mesmo trecho de rio (que, graças à magia do cinema, leva o espectador a acreditar que os personagens estão andando quilômetros e quilômetros), e por aí vai. Isso sem contar a picaretagem de utilizar uma trilha sonora composta para outro filme: enquanto os heróis caminham pela selva, tocam dois temas da trilha de Blastfighter, filme realizado no mesmo ano (1985) por Lamberto Bava, e coincidentemente também com o ator Michael Sopkiw no papel principal!

Além de uma excelente diversão, o filme ainda é bem humorado e repleto de tiradas cômicas, algumas intencionais, outras não. Os péssimos diálogos podem fazer o espectador gargalhar do início ao fim, basta entrar no espírito da brincadeira (veja uma pequena amostra no final deste texto).

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Já as exageradas cenas sangrentas (além de todo o gore já relatado, também tem closes em buracos de bala e uma lança entrando na barriga de um infeliz) e o excesso de mulheres peladas e cenas de sexo satisfazem outro tipo de espectador, aquele interessado em filmes “exploitation“, ou seja, onde há exposição gratuita de nudez e baixaria. Os efeitos especiais, mais exagerados que propriamente realistas, não foram feitos pelos mestres do cinema europeu, mas sim por uma equipe brasileira liderada por Sergio Farjalla. Na sua entrevista no DVD, Tarantini até elogia a mão-de-obra brasileira: “No Brasil eles têm grandes trabalhadores. Não é surpresa para mim o fato do Carnaval brasileiro ser o melhor do mundo, porque os brasileiros são ótimos construtores de cenários. Por exemplo, no meu filme, nós recriamos o interior de um avião. Os brasileiros podem fazer muita coisa com um orçamento reduzido“.

Malhem o quanto quiserem, mas hoje em dia é difícil ver um filme tão divertido e descompromissado quanto Perdidos no Vale dos Dinossauros. É só olhar estas aventuras sem graça, repletas de efeitos especiais e digitais, pretensiosas e vazias, para perceber que algo está errado e que antigamente, mesmo com um mínimo de recursos, fazia-se filmes mais engraçados (como Fuga do Bronx, Os Caçadores da Atlântida, Mad Max e centenas de outros realizados com baixíssimo orçamento, mas muita inventividade).

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Além de tudo que já foi relatado, Perdidos… ainda tem cenas de briga de galo (!!!), muitos palavrões tipo pornochanchada (“Seu fudido!”, “Seu filho da puta!“, “Esse Vale de merda!“) e uma tonelada de abobrinhas diversas para fazer o espectador chorar de rir… Uma das melhores é aquela em que Kevin está transando com Eva e deixa a moça peladona e carente para olhar pegadas pré-históricas no chão!

Como não poderia deixar de ser, o filme sofreu severos cortes ao ser lançado em vídeo na Inglaterra. Quase todas as cenas de violência sexual e nudez foram cortadas, e até uma rápida cena de briga de galo, no início do filme, foi retirada pelo seu teor de “violência contra animais“!!! Assim, a fita de 88 minutos passou a ter apenas 85 minutos! E a gente reclamando da Censura brasileira…

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O melhor de tudo é ver Perdidos no Vale dos Dinossauros numa turma de amigos e rir muito da estética miserável do filme, especialmente os brasileiros estereotipados, mostrados como grandes tarados e bebedores de cachaça (no hotel onde os personagens se hospedam no início, todos os figurantes estão com uma garrafinha de trago na mesa). Também não faltam pivetes querendo roubar dinheiro dos turistas, mostrando outra triste característica do nosso país.

Eu me lembro do Brasil… e da grande variedade de belíssimas coadjuvantes! Eu adorei fazer este filme, tão cômico quanto eu esperava que ele se tornasse. Nós trabalhamos a maior parte do tempo em locações, no Brasil, durante 10 semanas. E os brasileiros são um povo fantástico. Eu nunca vou esquecer da beleza tropical das paisagens, e das incríveis frutas frescas que eu pude experimentar. A generosidade do povo brasileiro, e seu estilo de vida faria o pessoal da Califórnia ficar envergonhado!“, disse o galã Sopkiw, em entrevista ao site Kul Movie Maximus.

Nesta mesma entrevista, o ator lembrou detalhes curiosos sobre as filmagens: “Quem não gostaria de estar numa canoa em um enorme rio brasileiro, com uma doce e linda mulher, atirando com uma espingarda de vez em quando? Mas a canoa estava furada e afundava de vez em quando, até que eles finalmente me deram um balde para tirar a água de dentro! Lembra da enorme serpente que eu agarro para salvar a mocinha certa hora? Enquanto filmávamos antes, esta cobra mordeu seu adestrador! Oh, bem… Eles foram mais cuidados com as cobras numa outra cena, mas aconteceu um outro desastre que foi inacreditável! Duas serpentes foram trazidas em uma caixa de madeira, com pequenos furinhos para entrar ar. As cobras foram deixadas na caixa durante a noite, no campo onde íamos filmar. No dia seguinte, quando íamos filmar, o adestrados das cobras estava quase chorando! É que as duas cobras tinham sido mortas por um exército de formigas, que tinham praticamente coberto as serpentes quando chegamos! Uma outra curiosidade é na cena em que supostamente matava um monte de índios a tiros. Eu tinha uma espingarda cheia de cartuchos com festin, mas pedaços de papelão que tinham de dois a três centímetros voavam toda vez que eu dava um tiro! Um destes pedaços acertou o estômago do câmera, deixando um buraco que logo ficou vermelho. O cameraman ficou apavorado!!!“.

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Infelizmente, uma obra legal como essa é privilégio de poucos. Isso porque o filme foi lançado na metade dos anos 80 pela extinta Vídeo Cassete do Brasil (na versão feita para o Brasil, com dublagem em português e algumas cenas cortadas), e já virou raridade (eu mesmo não tenho uma fita original, apenas uma cópia pirata). Em DVD o filme é difícil de encontrar até nos EUA, já que só foi lançada uma versão na Europa (com o nome Amazonas e outra nos Estados Unidos (Massacre in Dinosaur Valley). O único consolo para os brasileiros é que mesmo com alguns cortes, a versão lançada por aqui tem cenas que não estão na versão européia, e aparecem como extras no DVD americano!

Pedir para uma pérola dessas passar na TV é querer milagre, embora tenha sido na telinha que eu vi o filme pela primeira vez, na Bandeirantes, quando estava lá com meus onze anos de idade. Chocada com o excesso de mulher pelada, minha puritana mãe me fez desgravar o filme que eu tinha gravado da TV, achando que era “filme pornô“. Julgava que, assim, estaria preservando minha mente de filmes sensacionalistas que só sabem mostrar nudez e violência. Pobre e ingênua mamãe… Se ela soubesse o que eu ando assistindo agora… É curioso tanto descaso com uma produção que também é nacional, considerando que “lá foraPerdidos no Vale dos Dinossauros é um “cult movie“, respeitado e idolatrado ao lado de outras obras clássicas do cinema europeu da época.

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E depois tem gente que se emociona quando filmes como Cidade de Deus chegam ao Oscar. Ora bolas, com toda a máquina do marketing, primeiro da Globo Filmes, depois da poderosa empresa norte-americana Miramax, com todos os milhões investidos para divulgar o filme no mundo inteiro, não é nem um pouco esquisito ver o filme conquistar tamanho destaque.

Mas o que realmente me deixa com lágrimas nos olhos é ver o cartaz japonês de uma produção nacional pobre, como Perdidos no Vale dos Dinossauros, mostrando que mesmo um filme que é feito com um mínimo de dinheiro e recursos pode se destacar no resto do planeta por suas qualidade e defeitos, enquanto é solenemente esquecido na sua pátria de origem, o Brasil. Triste…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Um comentário em “Perdidos no Vale dos Dinossauros (1985)

  • 30/04/2018 em 15:26
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    Boa tarde, Felipe! Sensacional seu texto! Assisti essa pérola no cinema aos 16 anos, em 1986, Quanto cheguei ao cinema a sessão já havia começado, mas não havia problema algum em ficar para a sessão seguinte e, assim, eu o assisti duas vezes seguidas. Os tempos, definitivamente, eram outros…!

    Também assisti – e gravei em VHS! – o filme na Band, em 1988! Tenho a fita até hoje em casa e teria o maior prazer em convertê-la para dvd e fazer uma cópia para que você pudesse repor a gravação que teve que desfazer! Só há dois problemas: achar a fita; ver se a gravação ainda está passível de ser reproduzida, pois já faz MUITOS anos que não a assisto.

    Saudades dos bons e velhos tempos do videocassete…

    Enfim, quero agradecer a você pela resenha do filme e pela viagem no tempo que me proporcionou! É muito bom saber que não sou o único que o assistiu e, pior, curtiu e não o esqueceu após mais de três décadas!

    Um abraço!

    Carlos

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