Críticas

Minority Report: A Nova Lei (2002)

A beleza plástica das cenas é incomparável, e a fotografia, um caso a parte , como é possível ver só mesmo no cinema spilbergueniano!

Minority Report (2002) (1)

Minority Report: A Nova Lei
Original:Minority Report
Ano:2002•País:EUA
Direção:Steven Spielberg
Roteiro:Philip K. Dick, Scott Frank, Jon Cohen
Produção:Jan de Bont, Bonnie Curtis, Gerald R. Molen, Walter F. Parkes
Elenco:Tom Cruise, Colin Farrell, Samantha Morton, Max von Sydow, Steve Harris, Neal McDonough, Patrick Kilpatrick, Jessica Capshaw, Richard Coca, Keith Campbell, Kirk B.R. Woller,

Minority Report – A Nova Lei (Minority Report, 2002), um dos mais comentados e badalados filmes de ficção científica dos últimos anos.

Apesar de ter recebido críticas bastante negativas nos Estados Unidos, essa superprodução de Steven Spielberg, em parceria inédita com o astro Tom Cruise, superou em muito as expectativas de fãs e admiradores tanto deles mesmos quanto de Philip K. Dick. Spielberg é geralmente conhecido pela sua visão sentimental, purista, antifatalista, do mundo – um otimista, portanto; exatamente o oposto do autor cuja obra vem sendo cada vez mais seriamente analisada pelos entusiastas e simples apaixonados pelo gênero. Por que, então, registrou-se essa união marcante e extremamente bem sucedida de ambos?

Minority Report” (“Relatório da Minoria”) foi publicado pela primeira vez em janeiro de 1956 na revista “Fantastic Universe”. É outro dos trabalhos curtos de Dick, uma noveleta escrita não muito depois de ser publicado seu primeiro romance de ficção científica, “Loteria Solar” (“Solar Lotery”, 1955), além de ser um de seus textos mais imaginativos e controversos. (Segundo John Clute, na “Science Fiction – The Ilustrated Encyclopédia”, grande parte dos primeiros trabalhos do autor não apareceu senão depois de sua morte – tornando-se hoje objetos de culto -, mas é certo que no começo dos anos 50 ele já havia publicado alguns pequenos romances contemporâneos, rotineiros, geralmente ironizando o american way of life do dia a dia californiano e seus reveses contra-culturais).

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Num futuro indeterminado, John Anderton é o criador e diretor da Precrime, a organização não governamental da cidade de Nova Iorque que conseguiu reduzir a taxa de criminalidade quase à zero, graças à utilização de três mutantes precognitivos capazes de ver o futuro. A organização combate o crime de uma maneira ousada: antes de ele ser cometido. Os mutantes vêem o futuro e repassam os dados obtidos ao computador central; este analisa o que é de interesse para sua agência (os crimes, no caso) e ejeta um cartão com o nome da futura vítima e seu criminoso, que serão ambos alertados antes que se efetive a previsão. O criminoso, obviamente, será detido. O método é um sucesso e sua aplicação no resto do país é apenas uma questão de tempo, até o momento em que o cartão ejetado pelos mutantes traz o nome de John Anderton como um futuro criminoso. Como Anderton é a primeira pessoa a ter acesso aos cartões, ele terá uma chance de fugir e descobrir o que houve de errado com o processo – sim, houve algo errado, porque ele nem sequer conhece a vítima. O problema é que uma cópia do cartão cai instantaneamente no Quartel General do Exército, agora inoperante e obsoleto (e rancoroso por causa disso), de modo que simplesmente destruir o cartão não será o suficiente: ele precisará agir para provar sua inocência. Estaria sendo vítima de uma gigantesca conspiração organizada pelo seu próprio pessoal, no intento de tira-lo do cargo? Estaria sendo vítima do Exército, louco para recuperar as rédeas da situação e provar a ineficácia do sistema? O sistema de prevenção do crime por ele inventado seria, afinal de contas, realmente infalível?

Ora demonstrando a integridade da Precrime, ora expondo suas fraquezas, Dick trabalha com esses elementos e especula na validade ou não de sua própria criação. Ele sabe que, embora aparentemente infalível, o sistema é apoiado numa linha de raciocínio extremamente paradoxal. A Precrime se baseia no principio de que, utlizando-se três mutantes precognitivos “cientificamente” capazes de prever o futuro, e havendo concordância entre pelos menos dois desses precognitivos (o relatório da maioria), em oposição à discordância do terceiro (relatório da minoria), é matematicamente infalível de que esse futuro previsto se concretize. Entretanto, a contradição surge no fato de que, assim que a informação precognitiva é obtida, ela é cancelada por si mesma, ou seja, essa revelação pode mudar o ato futuro completamente, inocentando o assassino em potencial. Afinal, ele jamais cometeu o crime, pois os mutantes são capazes de prever não os eventos futuros, mas apenas o futuro como uma possibilidade aberta, passível de ser alterada, portanto.

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A ideia é extremamente complexa, não há dúvidas, e, nas mãos de Dick, se transformou num exercício político-social extremamente fascinante e habilidoso, mais tarde trabalhado e expandido novamente em seu romance “Ubik” (Idem, 1969). Contudo, alguns anos antes do conto ser publicado, Alfred Bester já havia trabalhado com o tema em seu livro “O Homem Demolido” (“The Demolished Man”), ganhador do Prêmio Hugo de 1952. O romance de Bester é uma complicada trama policial futurista envolvendo uma sociedade em que o crime é detectado e impedido por telepatas secretos infiltrados em todos os setores do governo – inclusive na polícia. Mas aqui as implicações escorregam para uma outra tangente.

Ambientado em Washington DC no admirável mundo novo de 2054, o Minority Report de Spielberg acrescenta elementos à história mas não altera sua essência básica; pode-se dizer que a releitura é fiel, com uma nova rede de motivações impulsionando John Anderton (Tom Cruise) para a descoberta do significado verdadeiro do sistema, por ele defendido com unhas e dentes, funcionando apenas como uma forma de expandir o roteiro para duas horas e meia de projeção e, também, como uma necessária atualização temática.

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É verdade que Spielberg é um crente fervoroso no sistema (em geral) e que, por isso, tenha diluído a controversa trama político-ideológica dickiana em favor de uma culpabilidade individual talvez um tanto forçada, o que desagradou a muitos fãs do autor. Se no conto Anderton era apenas uma das peças desse enorme quebra-cabeça de conspirações governamentais, um fluxo contínuo para desenvolver algo muito mais complexo, no filme a coisa funciona de maneira diferente. Agora, por exemplo, ele tem sobre si a pressão de um filho assassinado e usa a Precrime como um meio de se vingar de assassinos em potencial e como uma forma de se libertar de seus antigos traumas e paranoias. A utilização de drogas que faz é apenas uma alternativa menor. Aqui não há intrigas com um Exército inoperante; em seu lugar, há intrigas entre os próprios criadores da Precrime, principalmente na figura de Lamar Burgess (Max Von Sidow), defensor fervoroso do sistema – embora ciente de sua ineficácia – e disposto a sacrificar não só a Anderton mas qualquer um que cruzar o seu caminho para continuar expressando sua fé paradoxal. Paranoia e medo do governo, representados na figura de Denny Witwer (Collin Farrel), disposto a espremer cada possibilidade de falha por parte da Precrime antes de uma possível implantação do sistema no resto do país.

Há também um visível desconforto na utilização dos pré-cogs como arma de combate ao crime – embora alterados geneticamente numa experiência anterior, são humanos, afinal de contas, e não parece ter havido um entendimento mútuo de ambas as partes para a implantação do sistema. (No conto, os pré-cogs são três mutantes débeis mentais deformados e grotescos, inteiramente presos na realidade futura). E embora o filme conclua demonstrando as falhas do sistema (sob uma ótica diferente daquela utilizada por Dick), e como ele pode ludibriar-se a si mesmo, as previsões dos pré-cogs, sob a liderança da pré-cog principal, Agatha (Samantha Morton), de qualquer forma não deixaram de se cumprir: Anderton matou aquele que estava previsto para matar e o próprio Lamar teve um fim previsto.

Por mais que a tecnologia avance e se imponha na sociedade de então, fica claro que as falhas continuam sendo humanas – sempre haverá formas de utilizar o avanço para fins obtusos, e Dick já vinha escrevendo sobre isso desde a década de 50; em sua visão pessimista, ele jamais acreditou que o homem, um dia, fosse se beneficiar plenamente da tecnologia – não pela tecnologia em si, mas pela sua própria mente auto-destrutiva, pronta a tirar vantagem de tudo e de todos. Androides, memórias implantadas, memórias subtraídas, contatos alienígenas, novas drogas, tudo pode verter à sociedade sob forma de ameaça, e não importa o tipo de controle inventado a fim de se conseguir um equilíbrio. Se a falha não for do sistema, será do indivíduo, e vice-versa.

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Fora isso, a história é pura diversão e fantasia, num ótimo trabalho de um diretor que foi duramente criticado pouco antes pela sua insossa continuidade ao projeto engavetado de Stanley Kubrick, A. I. – Inteligência Artificial (A. I., 2002), baseado em conto de outra grande figura da ficção científica, o inglês Brian Aldiss. A beleza plástica das cenas é incomparável, e a fotografia um caso a parte de realização superior em tecnologia digital, como é possível ver só mesmo no cinema spilbergueniano.

Ao que parece, e, é claro, utilizando-se daquelas velhas ressalvas, com esse filme ele se reabilitou. Tom Cruise foi elogiado pela sua interpretação de John Anderton, e o restante do elenco não fica atrás, destacando-se o trabalho do veterano Max Von Sidow, implacavelmente convincente na pele de Lamar Burguess. A música é do mestre John Williams, e não demorará nada para Minority Report ser incluído na categoria dos clássicos. Entre seus momentos memoráveis, está a cena de abertura, quando os soldados da Precrime impedem um marido cornudo de cometer um assassinato; ou a supercitada cena das aranhas rastreadoras cibernéticas, num momento de alta tensão na trama; e também a concretização do crime previsto para o próprio Anderton.

Mas, logicamente, é necessário registrar o maior aspecto negativo dessa produção: sua ambientação futurista. O futuro de Dick é conturbado, suas cidades são centros urbanos de pavor e caos, seus personagens estão para heróis assim como Arthur Schopenhauer está para a literatura infantil; quando não ambientadas dentro de uma guerra, suas histórias quase sempre se desenvolvem após o mundo ter passado por uma delas – como é o caso de “Minority Report”. Ou seja, o futuro que ele imaginou é o futuro que nos espera realmente – ou você ainda tem alguma dúvida? Assim, uma boa maneira de se visualizar esse futuro é pegar a trama de Spielberg, enxugá-la de seu sentimentalismo conservador e barato e inseri-la no universo visual e estético do filme Brazil (Idem, 1985), de Terry Gilliam, que continua sendo a melhor transposição dickiana para as telas, ainda que não baseada em uma das obras do autor. O Blade Runner também apresenta uma visão bem apurada do futuro imaginado por Dick – ora, mas o Blade Runner é o Blade Runner.

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