O Pagamento (2003)

O Pagamento (2003) (1)

O Pagamento
Original:Paycheck
Ano:2003•País:EUA, Canadá
Direção:John Woo
Roteiro:Philip K. Dick, Dean Georgaris
Produção:Terence Chang, John Davis, Michael Hackett, John Woo
Elenco:Ben Affleck, Aaron Eckhart, Uma Thurman, Paul Giamatti, Colm Feore, Joe Morton, Michael C. Hall, Peter Friedman, Kathryn Morris, Ivana Milicevic, Fulvio Cecere, John Cassini

O Pagamento (Paycheck, 2003) aparece como a sexta adaptação de Philip K.Dick para o cinema e a quinta baseada numa história curta, “O Pagamento” (“Paycheck”), cuja publicação original apareceu em junho de 1953 num obscuro magazine de ficção científica chamado “Imagination”.

Talvez esteja havendo uma super-faturação de oportunismo quanto ao trabalho de Dick, já que seu nome passou a ser, definitivamente, um nome mágico não só para uma crescente legião de fãs espalhados pelo mundo inteiro, mas também para uma leva cada vez mais interessada de figurões do alto escalão cinematográfico norte-americano (nos cartazes originais e até mesmo nos créditos iniciais de Blade Runner não aparecia sequer o nome do autor da história original. Hoje, seu nome é quase que mais importante que o do astro principal, sendo geralmente destacado em letras garrafais: “Baseado em história de Philip K. Dick”…). Mas a verdade é que, para um autor que em vida jamais viu seus trabalhos sendo tratados com a seriedade que mereciam (exceto o romance “O Homem do Castelo Alto”, ganhador do prêmio Hugo de 1963), a desenfreada procura de textos de sua autoria se destaca como uma daquelas reviravoltas alucinantes e inesperadas que o próprio Dick gostava de imaginar.

Paycheck” é uma história interessante e ousada, mas não uma grande história; Dick tem contos muito melhores e mais bem elaborados e é discutível o método utilizado pelo cinema para a escolha de adaptação de seus escritos, mas isso não vem ao caso. É um conto ágil e fluente, com um fluxo de ação de tirar o fôlego, mas é fácil perceber a pressa com que foi escrito, como se o autor o tivesse mandado a um editor tão logo a última lauda ficasse pronta, sem muito recalque ou polimento; as frases são curtas e os diálogos, rápidos; os personagens são levemente delineados e a trama – bem inteligente, por sinal – parece ter sido desenvolvida tendo em mente uma possível adaptação para o cinema, ou para os quadrinhos, dada a sua economia de caracteres e sua agilidade, como se algo mais que um roteiro – o que não foi o caso, obviamente. No entanto, ele tem personalidade.

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Na história, Jennings é um renomado mecânico eletrônico contratado por uma misteriosa empresa – a Empreiteira Rethrick – para um serviço secreto que durará dois anos, ao término dos quais ele terá sua memória apagada, a fim de manter em total segredo o serviço que ele prestou. Em compensação, ele receberá, pelo serviço, a extraordinária soma de cinquenta mil créditos. Rotina. O problema é que, ao se dirigir ao escritório da empresa para arrebanhar a soma, ele descobre que seu polpudo pagamento foi substituído por um saquinho de pano cheio de miudezas. Indignado, ele reclama, mas é forçado a aceitar esse pagamento estranho visto ter sido ele mesmo quem assim o desejou, pouco antes de ter sua memória subtraída, como consta de sua assinatura ao final do contrato. As miudezas são: uma chave codificadora, um canhoto de passagem aérea, um recibo de depósito, um pedaço de pano verde, um rolinho de arame fino, metade de uma ficha de pôquer e uma passagem de ônibus.

Ao sair do escritório da empresa ele é abordado pela Polícia de Segurança, que quer detalhes de seu relacionamento com a Empreiteira Rethrick – detalhes que ele está longe de “lembrar”, é claro. Percebe que está em apuros, mas então descobre, afortunadamente, que aquelas bugigangas todas, na sacolinha de pano, são muito mais do que apenas bugigangas de sacolinha de pano: são seu passaporte para a segurança e para um futuro promissor. De alguma maneira, antes de ter sua memória apagada, ele sabia de antemão o que ia lhe acontecer no futuro e por isso tomou as devidas providências para ter sempre à mão o que precisaria para contornar os problemas que já conhecia e que teria de enfrentar. “Um bolso cheio de milagres, de alguém que conhecia o futuro!”. É então que começa a suspeitar do serviço ultra-secreto que realizava enquanto funcionário da Empreiteira Rethrick

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É uma espécie de história sobre viagem no tempo, um tema não muito explorado na ficção dickiana, mas aqui abordado de uma maneira peculiar e original: não há propriamente uma viagem no tempo, mas é como se houvesse, pois o personagem, durante seu trabalho secreto na empresa, não só tem acesso a uma “sonda temporal”, como é um dos principais técnicos responsáveis pela sua manutenção e ajustes. E assim, mais do que ninguém, ele está apto a saber o que terá pela frente em relação ao futuro, principalmente, de si próprio. Quem, um dia, tiver uma chance dessas e não utiliza-la para lhe arrumar um futuro promissor, ou deve ser um idiota completo ou deve ter uma imaginação muito limitada. E é isso que Dick explora em seu plot delicioso, um veículo que, além de tudo, ainda é cheio de sub-tramas políticas mordazes. Se não bastassem as mazelas de seus próprios problemas pessoais, o personagem ainda se vê jogado entre os interesses impiedosos de duas forças maiores: o poderio político e o comercial, num futuro autoritário, aparentemente ditatorial, onde há uma Polícia de Segurança – assim mesmo, com ênfase nas iniciais maiúsculas – que detêm poder quase ilimitado (como nos velhos tempos do nazismo, fascismo e stalinismo) – e numa sociedade onde até crianças são ensinadas a delatar.

E, quem diria, John Woo, o mestre da ação e da pancadaria, levando isso para as telas!

O filme surgiu em meados de 2003 e é basicamente fiel ao conto original, embora dilua esse plot de conspirações políticas em detrimento de uma temática mais atualizada, mais de acordo com o cinemão hollywoodiano do século XXI, preocupado essencialmente não em especulações crítico-filosóficas, mas em rendimento certo e sem maiores compromissos.

Agora Mike Jennings (Ben Affleck) é um sofisticado engenheiro high-tech contratado vez ou outra por grandes companhias para roubar tecnologias de computação alheias e aperfeiçoá-las a seu modo, seguindo uma filosofia que o próprio personagem não tem qualquer remorso em expor, em alguma parte da trama: “Às vezes é mais fácil pegar o que já existe”. Geralmente é um trabalho que envolve tempo, às vezes se estendendo por anos, sendo que no final desse tempo de serviço prestado ele tem sua memória apagada por questões de segurança, tanto para si mesmo como – principalmente – para a empresa que o contratou. A tarefa de lhe limpar a memória ele confia sempre a seu amigo Shorty (Paul Giamatti).

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Num belo dia ele se vê num dilema: aceitar ou não a oferta de uma nova proposta, que consumirá três longos anos de sua vida em memórias, mas que o deixará noventa e dois milhões de dólares mais rico, tudo em ações que se auto-duplicam? Ele topa, e então é contratado pela Allcom, gigante da alta tecnologia comandada por James Rethrick (Aaron Eckarth), ambicioso empresário que desenvolve um projeto científico ultra-secreto. Tudo muito bom, até que ao final desses três anos ele se dirige ao banco para sacar seu polpudo pagamento e descobre, espantado, que preferiu trocar, antes de ter a memória apagada, noventa e dois milhões de dólares por um envelope de papel cheio de miudezas – vinte, dessa vez: um maço de cigarros, um par de óculos escuros bizarros, um tubinho de plástico cheio de bolinhas de metal, chave de contato para uma BMW, e um punhado de outras iguarias obscuras. Sem ter mesmo qualquer chance de reclamar, é capturado pelo FBI e levado para um interrogatório misterioso, do qual ele não faz qualquer ideia. Percebe que está em apuros, mas então descobre, afortunadamente, que aquelas bugigangas todas, no envelope de papel, são muito mais do que apenas bugigangas de envelopes de papel: são seu passaporte para a segurança e para um futuro promissor, coisas que, para ele em específico, nem mesmo noventa e dois milhões de dólares seriam capaz de proporcionar. A vantagem, agora, é poder contar, também, com a ajuda de seu fiel amigo Shorty e de Rachel (Uma Thurman), companheira de trabalho na Allcom e com quem havia convivido em intimidade nos três últimos anos.

Assim como no conto, o personagem se vê preso entre as hostilidades de duas forças maiores: o poderio econômico (representado pelas grandes corporações, diante das quais até mesmo o governo não pode fazer muita coisa) e o político (representado por um governo com sua própria noção de moralidade); Jennings descobre que não passou de um “lavador de roupa suja” nessa história toda, uma marionete impotente e com a imensa desvantagem de que, ao final de tudo, não poderá dar a mínima informação capaz de inocentá-lo; de que foi apenas usado por Rethrick para trabalhar num projeto secreto roubado do governo. Bem, isso se não fosse o fato de esse projeto secreto roubado do governo ser uma lente intensificada por laser, potente o suficiente para bisbilhotar a curvatura do universo, partindo de sua fonte de origem até chegar à sua fonte de origem novamente – trocando em miúdos, uma “sonda temporal”, capaz de ver o futuro. E isso bastava, Jennings de alguma forma sabia, para não só de levá-lo em segurança a um futuro já previamente conhecido como também dar uma prévia do que seria o futuro do mundo caso não houvesse a sua intervenção. E seria um futuro assustador.

Embora esticado e remodelado a maneira clichê do cinema contemporâneo, com direito a um casal de pombinhos apaixonados (mas dessa vez preso em circunstâncias extraordinárias), ao invés de uma Polícia de Segurança estilo Gestapo, o roteiro de Dean Georgaris não toma muitas liberdades em relação ao texto original, mas se encaixa perfeitamente ao estilo truncado e cheio de correria de John Woo; menos pretensioso que Spielberg, Woo manipula a história de maneira calculada e direta, refazendo de maneira essencialmente correta o que era um dos pontos fortes da ficção de Dick: criar um ambiente controverso e curioso, repleto de intrigas paralelas e interligadas, mas ao mesmo tempo dar ênfase total aos problemas centrais de seu personagem. Ao contrário de muitos outros autores de ficção científica, para Dick a razão de ser de suas histórias era o conflito interior que atingia seu personagem principal (talvez um reflexo dos inúmeros problemas interiores que atingiam ao próprio autor), e o filme parece captar essa faceta, ao menos em parte; o que o torna, em síntese, uma boa adaptação, levando-se em conta a “inexperiência” do diretor com a ficção científica.

Numa entrevista, disse John Woo: “Eu realmente amei Blade Runner. Visualmente, foi fantástico, e foi o único filme de ficção científica que me levou às lágrimas. Geralmente eu não espero muita coisa em filmes do gênero… talvez um espanto inicial de alguém acostumado com tiros e pancadaria… Exceto Blade Runner, que teve um suspense, em caráter, maravilhoso”. É verdade que John Woo se transformou num hollywoodiano típico, um artífice cuidadoso e principalmente preocupado em dar seu toque pessoal em cada detalhe – e nesse caso pontuando a história, sempre que possível, com o máximo de ação e correria, tiroteios generalizados e longas, cansativas perseguições e batidas de carros, em sua estética particular e plasticamente bem acabada. Mas quem entrar numa sala de cinema para assistir a um de seus filmes esperando encontrar um filme cabeça, uma homenagem ao Blade Runner é, ou muito inocente, ou muito esperançoso – ou ambos (no entanto, no meio dessa correria toda, o diretor encontra espaço para uma homenagem singela ao clássico de Ridley Scott, na cena em que uma pomba branca, símbolo da liberdade, se impõe em meio a tiroteios e pancadarias).

Por isso, e baseando-se no postulado um tanto quanto estreito do próprio diretor, ele incumbiu o roteirista Georgaris de desprezar a “tecnologia” padrão do futuro imaginado por Dick e ambientar a história num futuro que, exceto por pequenos detalhes, não é nada além do que estamos acostumados a ver diariamente a nosso redor – ao contrário, portanto, de Minority Report e seu admirável mundo novo. Segundo o diretor, quanto mais próximo de nossa realidade, mais o espectador se identificará com a história e seu personagem.

Ben Affleck é um canastrão notório, mas está muito à vontade na pele de Mike Jennings, enquanto Uma Thurman não se esforça para que seu desempenho seja apontado como algo mais do que apenas razoável – parece bastante contida, pra quem se lembra de um clássico da ação como Pulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1997). De tudo por tudo, é uma pena que não exista uma sonda temporal para podermos alterar o futuro (e o passado) e ver o que seria dessa história toda caso a incumbência de levar esse roteiro para o cinema tivesse caído nas mãos de Terry Gilliam

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E R Corrêa

E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

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