O Vingador do Futuro (1990)

O Vingador do Futuro (1990) (1)

O Vingador do Futuro
Original:Total Recall
Ano:1990•País:EUA
Direção:Paul Verhoeven
Roteiro:Philip K. Dick, Ronald Shusett, Dan O'Bannon, Jon Povill, Gary Goldman
Produção:Buzz Feitshans, Ronald Shusett
Elenco:Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Michael Ironside, Rachel Ticotin, Ronny Cox, Marshall Bell, Mel Johnson Jr., Michael Champion, Ray Baker,

O Vingador do Futuro (Total Recall, 1990) deu início ao que está se demonstrando, por parte dos figurões envolvidos com o cinema, uma preferência aos trabalhos curtos de Philip K. Dick. Se levarmos em conta que os próprios romances e novelas de Dick eram, em sua maioria, versões expandidas e remodeladas de ideias já anteriormente utilizadas nos contos, veremos que este procedimento, ainda que não de todo justo, tem sua razão de ser. Quanto a isso o próprio Dick tem algo a declarar: “A maior parte de meus próprios romances é fruto de expansões de contos anteriores, ou fusões de diversos contos – sobreposições. O germe estava no conto; num sentido muito real, aquilo foi verdadeiramente destilado. E algumas das minhas melhores ideias, que significaram mais para mim, nunca consegui expandir em forma de romance. Elas existem como contos, apesar de todos os meus esforços” (“O Vingador do Futuro – Histórias de Philip K. Dick“, Editora Paulicéia, 1991).

Dono de uma vasta produção de contos e noveletas, o trabalho de busca e catalogação de ideias para sua expansão em forma de romance ficava, pois, obviamente mais fácil, de forma que Dick já tinha uma boa parcela do trabalho realizada, quando se propunha a fazê-lo.
O Vingador do Futuro” (“Recordamos para você por atacado“) apareceu originalmente na edição de Abril de 1966 na “The Magazine of Fantasy and Science Fiction“, com o título “We Can Remember It For You Wholesale” e tinha potencial para ser transporto num trabalho mais arrojado, talvez até mesmo um romance, mas, como isso não aconteceu, obrigou os roteiristas Ronald Shusett, Dan O’Bannon e Gary Goldman a se virarem com o que tinham nas mãos. E eles não fizeram feio, apesar dos contratempos…

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O caso é que a história de O vingador do Futuro é ainda mais tumultuada e confusa que a de Blade Runner; consta que o filme, desde que sua ideia germinal foi lançada pela primeira vez nos idos da década de 1970, demorou mais de quinze anos para ser rodado. Sua produção passou por tantas mãos e seu roteiro sofreu reviravoltas tão alucinantes que, em determinados momentos, não se sabia mais do que tratava: se aventura, comédia, drama, espionagem… Ronald Shusett, o grande responsável pela realização do filme, já estava quase desistindo quando, repentinamente, dois nomes de enorme relevo no final da década de 80 se envolveram na contenda: o holandês Paul Verhoeven e o austríaco Arnold Schwarzenegger. Foi então que a coisa funcionou. Nada como ares europeus para revigorar as coisas…

No conto, Douglas Quail é um “miserável empregadinho assalariado“; seu sonho é visitar o planeta Marte, onde existem sofisticadas colônias humanas acessíveis somente aos grandes figurões do governo e às pessoas de muita, muita grana. Sua esposa não se cansa de dizer que ele não pertence a essa nata.

Sem alternativa, Quail resolve recorrer aos transplantes de memória da famosa Rekord Associados, empresa especializada em realizar os mais diferentes e exóticos sonhos de maneira alternativa, ou seja, ela faz com que o cliente passe a acreditar que, de fato, fez aquilo que desejava realmente; memórias falsas de passeios, realização pessoal, conquistas amorosas e tudo mais são sua especialidade.

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Acontece que no caso de Douglas há um pequeno problema: ele já esteve em Marte numa missão importante como espião-assassino para o governo, e essa lembrança estava simplesmente apagada de sua memória por questões de segurança; com o tratamento de implante na Rekord, essa lembrança remota vem acidentalmente à tona e lhe traz enormes problemas – passa a ser caçado impiedosamente. Depois de muita correria e perseguição, ele consegue convencer os agentes secretos do governo a deixar com que a Rekord lhe implante uma nova memória falsa, um sonho louco que ele tivera na infância a respeito de alienígenas e invasão da Terra, apagando, no processo, todas as referências à Marte. Assim, poderiam poupá-lo por saber demais. O problema é que esse novo implante revela segredos escondidos infinitamente mais desagradáveis do que aqueles referentes ao planeta vermelho e a espionagens extraplanetárias…

Mesmo sendo relativamente curto, o conto é de uma potencialidade extraordinária, fornecendo todos os elementos indispensáveis para uma boa intriga futurista repleta de paranoias e reviravoltas alucinantes típicas não só do trabalho dickiano mas também desse tipo de enredo em geral. Sem falar da conclusão, uma das mais espetaculares e divertidas já feitas para uma short story.

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Na época em que a produção do filme ainda estava em andamento e Schwarzenegger foi finalmente anunciado como astro principal, os ânimos ficaram exaltados. Imediatamente se imaginou um filme de ação e violência inteiramente desnudado de seus elementos dickianos característicos em favor da notória truculência do ator; felizmente, essa visão simplória não se verificou de todo. O que ocorreu, nas mãos versáteis e inteligentes de Verhoeven, foi uma inteira remodelação tanto das ideias quanto do conteúdo: o filme teria ação e violência, sim senhor – e bastante – mas, exceto por poucas modificações feitas no roteiro de Shusett, preservaria uma grande parte dos elementos instigantes característicos do famoso autor de “O Homem do Castelo Alto“, além de acrescentar elementos hitchcockianos sob uma ótica futurista pra lá de engenhosa.

Isso porque, naquela época, um filme com Arnold Schwarzenegger sem ação e pancadaria era simplesmente impensável, ainda mais sob a batuta de Paul Verhoeven, que acabava de sair do grande sucesso comercial Robocop, O Policial do Futuro (Robocop, 1987), produção futurista de ficção científica cuja palavra chave era violência. (Durante todo o tempo em que esteve em andamento, a produção de Total Recall contou com diversificados nomes tanto para sua direção quanto para seu elenco; George Miller, David Cronemberg, Bruce Beresford e Russel Mulcahy foram alguns dos cogitados para conduzir a película, enquanto Patrick Swayze, Christopher Reeve, Jeff Bridges e Richard Dreyfuss em algum momento apareceram escalados como o ator principal). Mas esses elementos ficaram equilibrados e contidos e não prejudicaram a trama inteligente e criativa que nos joga de frente, assim como ao personagem central, a um jogo de intriga e paranoia realmente de tirar o fôlego, tudo sob o impulso inspirado da música sempre competente do mestre Jerry Goldsmith, perito em dar forma audível às ideias visuais da ficção científica.

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Produção de quase sessenta milhões de dólares (hoje um orçamento banal para uma mega produção), O Vingador do Futuro não desagradou à maioria dos fãs de Philip K. Dick, ao contrário do que se imaginava a princípio, mesmo sua trama não tendo sido totalmente fiel ao conto original, já que o texto é curto e não sustenta, por si só, um molho de situações que justifique uma cumplicidade literal de quase duas horas de projeção em película. Enquanto no conto, por exemplo, Marte é apenas citado como o palco da ação em que o personagem estivera envolvido, em quase toda a segunda metade do filme a ação se passa justamente lá, acrescentando personagens e motivações, com um indispensável tema romântico se desenvolvendo em paralelo, com um final que muitos consideraram chocho, envolvendo beijo na mocinha e tudo mais.

A verdade é que, numa leitura mais atenta, esse final apoteótico quase sempre criticado pode se revelar enganador: tudo, e eu digo tudo, afinal de contas, pode não ter passado de uma alucinação de Douglas Quaid (no filme é Quaid), pode não ter passado exatamente daquilo que ele queria na Recall – uma brincadeira neuroterapêutica. Assim, a “verdadeira realidade“, tanto para ele quanto para nós, poderia ser entendida somente até o momento em que ele decide ignorar os protestos da esposa Rachel (Sharon Stone) e sacrificar um dia de trabalho pesado para visitar a Recall; daí para frente – e por que não? – tudo estaria incluído no pacote de recordações de aluguel pelo qual ele pagara. (O próprio personagem se pergunta o tempo todo se essa possibilidade poderia ser a verdadeira). Seria uma visão dickiana perfeita; mas, ao mesmo tempo, soa como pouco provável que os roteiristas tenham pensado assim, do contrário seria fácil acrescentar um daqueles detalhezinhos surpresa que muitos diretores adoram colocar após os créditos finais…

De uma forma ou de outra, o filme cumpre o que se propõe de maneira satisfatória e inteligente; os efeitos especiais são de primeira qualidade e a trama é enxuta, com ação e perguntas suficientes para agradar não só aos fãs da pancadaria como também aos amantes do trabalho do grande autor americano de ficção científica, num filme que, no mínimo, pode ser considerado como um dos melhores da década de 1990. Em 1999 foi produzida a série Total Recall 2070, dando prosseguimento às complicadas ideias passadas no divertido universo do filme de Paul Verhoeven; e, em 2012, foi realizado um remake, comandado por Len Wiseman, tendo Colin Farrell como protagonista.

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E R Corrêa

E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

Um comentário em “O Vingador do Futuro (1990)

  • 10/07/2015 em 00:30
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    Simplesmente uma obra prima e o seu texto está excelente parabéns.

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