Críticas

Bedevilled (2010)

Vale a pena por não ser apenas mais um filme de vingança, mas uma narrativa profunda que envolve preceitos dramáticos e de horror!

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Bedevilled
Original:Kim Bok-nam salinsageonui jeonmal
Ano:2010•País:Coréia do Sul
Direção:Cheol-soo Jang
Roteiro:Kwang-young Choi
Produção:Kuy-young Park
Elenco:Yeong-hie Seo, Seong-won Ji, Min-ho Hwang, Min Je, Ji-eun Lee, Jeong-hak Park

Bedevilled é guiado por alguns pontos básicos: vingança (no estilo asiático da coisa), análise/relação de personagens alegóricos e crítica à sociedade.

O diretor, Jang Cheol-Soo, possui apenas três filmes em sua carreira, sendo muito influenciado por Kim Ki-Duk, com quem atuou na assistência de direção em alguns longas. Controversas opiniões sobre Kim à parte – como o fato de ser muito dramático e criar personagens extremamente alegóricos (muitas vezes seus personagens não são pessoas, são simplesmente sentimentos, mas trabalhar com isso não é fácil, o que torna algumas de suas produções maçantes) – sua influência em Jang foi positiva, principalmente no trato da criação de personagens e, nesse caso, me refiro especialmente aos secundários (atentem ao avô da ilha).

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A ação começa com Hae-Woon (Hwang Geum-Hee), uma mulher que vive na conturbada Seoul, capital coreana, trabalhando em uma espécie de banco e com algumas características básicas: é covarde, estressada e solitária. Sua cena inicial nos lembra a de Arraste-me para o Inferno (2009), com uma senhora pedindo um empréstimo ao banco e este sendo negado por nossa mau humorada personagem. Esta cena é importante, pois a partir dela podemos entender a construção de sua personalidade, o fato de que ela não vai ajudar a ninguém, porque tem medo e, no fundo, sua atitude egoísta. Bom, aqui já temos duas alegorias da trama: covardia – ela é importante pois permeia as duas protagonistas – e egoísmo. Depois de alguns conflitos no trabalho, Hae-Woon vai tirar umas “férias” para relaxar. Ela decide viajar para uma ilha onde passava férias com seu avô quando criança.

A ilha é uma personagem a parte. Ela participa do filme. Não estou dizendo que ela tenha vida ou seja algo a lá Lost. Mas ela marca presença ao transformar o mundo das pessoas que vivem ali em algo completamente à parte, excluída do resto do mundo, algo inacessível, ninguém entra ou sai facilmente.

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Lá reside Bok-Nam (Seo Yeong-Hie), amiga de infância de Hae-Woon, e que vivia mandando cartas que eram completamente ignoradas. Assim que chega à ilha, podemos ver o clima do lugar, com três homens, (marido de Bok-Nam, seu irmão e uma espécie de vovô do lugar, que não fala nada) algumas tias velhas e insuportáveis e nossa segunda protagonista. Bok-Nam é tipo a escrava da ilha, trabalha no apiário e nas colheitas mais que qualquer pessoa, limpa, cozinha, cuida da filha, espancada constantemente pelo marido e abusada por seu irmão. É, sua vida não é nada fácil!

A chegada de Hae-Woon traz nova vida a Bok-Nam: mesmo sofrendo para caramba, enche a amiga de mimos e procura ficar ao seu lado o máximo possível, revelando certo amor (talvez no sentido romântico da coisa) e esperança, de que ela seja a chave para sair dali. Na realidade Bok-Nam é bem conformada com sua condição na ilha. Já tentou fugir algumas vezes, mas, a presença de sua filha cria uma estabilidade em seu sentimento de fuga: vive daquele modo pois acredita que seja melhor para a garota ficar perto da família (ótima influencia, viu querida!).

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Entretanto, as coisas mudam um pouco de figura, quando ela descobre que seu marido anda abusando de sua filha (fdp!!). Entra em desespero, procura fugir pedindo ajuda à Hae-Woon, que, como sempre, nega, acha que Bok está mentindo. Resumindo, tenta fugir por conta própria, é apanhada e, numa briga com o marido, um acidente acontece com a filha. Ai acabou! As coisas vão mudar um pouco na ilha a partir daí. Essa cena, inclusive, do acidente da menina é completamente incrível, assim como a narrativa da sequência e os acontecimentos seguintes, com todas as mulheres acusando Bok-Nam, mesmo sabendo que ela não tinha culpa de nada, e Hae-Woon se calando e deixando a amiga ficar na pior.

Um detalhe importante sobre Bedevilled é que o filme busca fazer uma análise sobre as discussões de gênero, machismo e feminismo. Mas, ele não vitimiza as mulheres ou busca coloca-las como piores ou melhores que os homens. Ele simplesmente fala de injustiças que podem acontecer, quando as pessoas, individualmente, não se valorizam, não buscam uma boa convivência e/ou não lidam com certos valores sociais que devem ser partilhados por todos. Por isso, ele culpa as mulheres mais velhas da ilha pela imposição que os homens colocam. Elas endossam esse sentimento neles a todos os momentos de maneira completamente óbvia e incisiva (mais um ponto para a constituição de personagens alegóricos, as tias não tem personalidade própria, elas vivem apenas para massagear o ego dos homens).

Desse modo, Bedevilled faz uma crítica à sociedade: pessoas, mostrem-se e sigam certos valores morais básicos para a convivência em sociedade, senão vocês podem ser abusados e ficar malucos por esse sistema, podendo até matar todo mundo… Tipo, mesmo!

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A sequência de vingança de Bok-Nam também vale destaque. É simplesmente incrível. Simples, sem frescuras e mostra a que veio. Pancadaria pura e alivio geral em todos que a assistem.

É claro que o filme podia ter um final mais feliz. Mas ele não faria sentido e não é necessário. Bok não pode se desgrudar da ilha facilmente, o objetivo é mudar Hae-Woon e concluir todo aquele preceito moral dito acima. E a cena final nos mostra exatamente isso: Hae toma vergonha na cara, cria coragem e entrega uns covardões que espancaram uma garota perto de seu trabalho em Seoul. Chega em casa, deita-se no chão e vemos refletido no seu corpo o formato da ilha. Isso resume tudo. A ilha era mantida por mulheres, mas elas permitiam abusos por costumes ultrapassados. E isso, acabou custando bem caro, vamos dizer que… algumas mortes dramáticas e sangrentas.

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Bedevilled vale a pena por não ser apenas mais um filme de vingança. Ele tem uma narrativa profunda e envolve preceitos dramáticos e do horror de forma bem trabalhada e sem muitas frescuras.

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2 Comentários

  1. Carlos

    Parei aqui por ter visto Pietá. E me deparo com esse também, que é realmente um grande filme. Parabéns pela coluna e pelos filmes postados. Muito bom gosto! Em breve, verei os outros. Ganhou um admirador, mocinha.

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