Críticas

A Dança da Morte (1994)

Seria apostar que um raio possa cair duas vezes no mesmo lugar se comparássemos A Dança da Morte com A Tempestade do Século!

A Dança da Morte (1994) (1)

A Dança da Morte
Original:The Stand
Ano:1994•País:EUA
Direção:Mick Garris
Roteiro:Stephen King
Produção:Mitchell Galin
Elenco:Gary Sinise, Molly Ringwald, Jamey Sheridan, Laura San Giacomo, Ruby Dee, Ossie Davis, Miguel Ferrer, Corin Nemec, Matt Frewer, Adam Storke, Ray Walston, Rob Lowe, Peter Van Norden, Kellie Overbey, Bill Fagerbakke, Rick Aviles, Shawnee Smith, Sam Anderson, Billy L. Sullivan, Stephen King, John Landis, Sam Raimi, Ed Harris

Talvez a primeira observação que possa ser feita antes de qualquer introdução referente a este filme é que ele possui seis horas de duração. Ou quase, são 359 minutos. A informação está lá, nas letrinhas miúdas da parte de baixo do DVD e com certeza pode passar despercebida para algumas pessoas. Tal aspecto chama a atenção uma vez que é bem comum ficar impaciente diante de filmes mal conduzidos onde 80 minutos parecem não terem mais fim.

A segunda observação direta sobre A Dança da Morte (The Stand, 1994) é que o filme consegue prender a atenção do público durante as seis horas de duração. O espectador vai acompanhar a trama de forma quase semelhante a ler um livro e isso já vale o aluguel dos dois discos. Não que a produção seja um clássico do gênero ou não possua falhas ou limitações, mas as mesmas não atrapalham o interesse pela trama.

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A obra foi produzida originalmente como série para televisão baseada no livro homônimo de Stephen King, publicado em 1978. A trama acompanha um grupo de sobreviventes após um projeto químico ou biológico do exército ter contaminado o planeta inteiro. Algumas poucas pessoas que, por algum motivo, não foram infectadas, acabam se unindo para enfrentar um inimigo maior que parece ter ligação com a tragédia. A princípio, fica difícil imaginar um enredo como esse ter fôlego para durar seis horas e principalmente sem cansar a quem esteja assistindo.

Traçar um perfil em poucas palavras da relação das adaptações dos livros de Stephen King para o cinema, ou para a telinha, é uma tarefa árdua. Mas verdade seja dita de que os resultados são os mais variados possíveis. De grandes clássicos como O Iluminado (The Shining , EUA, 1980), passando por fracassos como O Apanhador de Sonhos (Dreamcatcher , EUA, 2003), assistir a um filme “adaptado da obra de King” sempre reserva surpresas que podem ser boas ou não. E quem pensa que tal situação acontece apenas nas produções que vão para a tela grande, basta lembrar das séries para televisão que já geraram resultados excelentes como A Tempestade do Século (Storm of the Century, EUA, 1999) e sofríveis como Rose Red (Rose Red, EUA, 2002).

Seria apostar que um raio possa cair duas vezes no mesmo lugar se comparássemos A Dança da Morte com A Tempestade do Século, mas com certeza estamos diante de uma obra que merece ser conferida. Claro que com os devidos cuidados, como por exemplo, estar com o fim de semana sem uma vasta programação para evitar assistir ao filme de forma corrida, querendo chegar logo ao clímax.

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RELIGIOSIDADE

Sem muita noção do que realmente aconteceu, ou qual foi o motivo da tragédia que assolou o planeta, esses sobreviventes dividem um estranho sonho no qual estão diante de uma simpática senhora de 106 anos chamada Mãe Abigail (Ruby Dee). Sem saberem se a velhinha existe ou não, todos são convocados para irem ao encontro dela o mais rápido possível. No meio do caminho, alguns personagens formam grupos, enquanto outros seguem em busca de um sinistro homem chamado Randall Flagg (Jamey Sheridan), que também aparece nos sonhos.

Esses dois personagens são repletos de simbolismos e representam claramente o bem e o mal e servem como catalisadores dos sobreviventes que devem escolher por qual caminho seguir. E é neste momento que o filme dá a sua guinada de tragédia biológica que devastou o planeta para uma luta religiosa referente a qual dos dois grupos deve continuar a existir para repovoar o mundo. Esses, e muitos outros detalhes, vão sendo mostrados e costurados no decorrer das seis horas. Esse percurso será ilustrado pela descoberta da fé de alguns personagens, pela traição de outros, sacrifícios em prol de um bem maior, além de diversos outros temas.

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ESTRELANDO

Em A Dança da Morte, a trama vai sendo construída lentamente, acompanhando cada um dos vários personagens. Quem está acostumado com a jovem virgem e o atleta pode até ter uma certa dificuldade em memorizar cada um dos sobreviventes deste mundo apocalíptico já que a trama é, pelo menos na primeira metade, bastante dividida entre quase todos o que dificulta eleger quem é principal ou coadjuvante.

Tal formato até serve para preparar o espectador para o que vem pela frente em uma tentativa de deixar claro que a narrativa que temos aqui também não é das mais comuns. Com relação ao elenco, A Dança da Morte tem uma série de ilustres desconhecidos da televisão norte-americana e todos estão confortáveis em seus papéis. Destaque para a própria Ruby Dee, que é responsável por ótimos momentos como a Mãe Abigail. Detalhe para a casa na qual a personagem mora que fica localizada no meio de um milharal capaz de fazer qualquer fã se lembrar de Colheita Maldita (Children Of The Corn ,EUA, 1984), também inspirado em um conto de Stephen King.

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A eterna mocinha de produções dos anos 80, Molly Ringwald, do saudoso Clube dos Cinco (The Breakfest Club, EUA, 1985), também está muito bem como uma das sobreviventes, assim como Rob Lowe, do excelente Contato (Contact, EUA, 1999), como um simpático surdo-mudo. A Dança da Morte ainda conta com a participação especial de Shawnee Smith, a Amanda Young, da série Jogos Mortais (Saw), como Julie. Mas em um filme de seis horas, é bem capaz de nem perceber a participação da moça.

O próprio King, que costuma fazer participações nas adaptações de suas obras, também dá as caras por aqui. Já a direção ficou a cargo de Mick Garris, que tem no currículo Criaturas 2 (Critters 2 – The Main Course , EUA,1988) e Psicose 4 (Psycho 4: The Beginning , EUA, 1990), mas que desta vez conseguiu fazer um trabalho linear. Talvez isso não soe como elogio, mas ao final acaba sendo. Basta pensar o que um diretor incompetente poderia ter feito nestas seis horas.

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MEDIANO

Como dito anteriormente, A Dança do Morte possui algumas falhas que são claramente percebidas pelos fãs do gênero. Algo que possivelmente vai chamar a atenção deste público é que toda essa batalha do bem contra o mal é mostrada, na sua maioria, com cenas de longos diálogos e com quase nenhum sangue. A verdade que tirando algumas interessantes sequências, como as do confronto indireto entre a Mãe Abigail e Randall Flagg, poucos elementos comuns ao gênero são vistos.

A resposta para esse formato recai sobre uma produção feita para a televisão, na qual a censura é bem mais severa do que no cinema, mas isso não serviu de empecilho para que A Tempestade do Século, feita basicamente no mesmo formato, deixasse de ser a obra prima que é. Claro que tal questão da ausência de símbolos comuns ao gênero não é necessariamente uma crítica negativa, mas sim uma observação. Se você for assistir A Dança da Morte esperando por um Extermínio (28 Days Later , Inglaterra, 2002), Eu Sou a Lenda (I Am Legend ,EUA, 2007) ou até pelo péssimo Fim dos Tempos (The Happening,EUA/India, 2008), é melhor alugar outro filme. O conselho é esquecer as demais referências e acompanhar a trama até o final.

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Mas as limitações não param por aí e os reais problemas respondem pelos efeitos especiais do filme. Para se ter uma ideia da precariedade da obra, basta pensar que os filmes dos Trapalhões da década de 1980 ganham disparados nessa questão. Os efeitos de A Dança da Morte são tão ruins e ridículos que deveriam ter ficado na sala de edição para pouparem os realizadores de tamanho vexame. Vocês vão se lembrar desta observação quando virem às cenas de Randall Flagg mostrando a sua verdadeira face.

E diferente da maioria dos filmes baseados nos livros de King, que possuem excelentes finais, o de A Dança da Morte deixa a desejar principalmente pela forma como foi conduzido e principalmente pelo tom brega de que o bem vai sempre vencer o mal. E só para não deixar passar em branco, a tradução do título original também foi no mínimo incompreensível. The Stand é o último capítulo do livro, e da mini-série, e significa, em tradução livre, ficar firme, permanecer em pé. Ou como a tradução do capítulo dentro do filme, A Prontidão. Os demais capítulos são, na ordem apresentados: A Praga, Os Sonhos e A Traição.

Apesar das limitações, A Dança da Morte merece ser conferida. Aproveite que a maioria das locadoras comprou estas novas versões de filmes antigos baseados na obra do mestre do terror. Apesar de alguns exemplares continuarem em falta no mercado de DVD, justamente como A Tempestade do Século. Mesmo assim, você pode optar por A Dança da Morte. Mas não esqueça de ter um final de semana livre para gostar do filme. Boa leitura. Ops, bom filme.

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CURIOSIDADES:

– A versão oficial da mini-série tem exatos 366 minutos. Quando o material foi lançado em DVD, perdeu sete e ficou com 359 minutos.

– O romance contém a primeira referência publicada sobre o grande vilão criado por King, Randall Flagg. Flagg também aparece no romance fantasioso Olhos de Dragão e na série Torre Negra.

– Assim como em praticamente todas as obras de King, o estado norte-americano do Maine faz parte da trama.

– Em determinado momento do filme, o personagem Stu segura uma bengala bastante semelhante a do vilão Andre Linoge, de A Tempestade do Século, que foi adaptado como mini-série para televisão quatro anos depois.

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3 Comentários

  1. adriano

    vi a critica e demorei uma semana para assistir, mas ate q valeu a pena, mas esta mais para um filme evangelico do q steven king, se o edir macedo ver com certeza a record adapta, kkkkk

  2. Saulo

    Soube que também chegou a ser lançado em VHS duplo, e para caber nas fitas, foi tão tesourado que o resultado ficou ruim.

  3. Felipe

    Parabéns pela resenha.
    Adorava assistir a minisérie na record, no final dos anos 90.

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