Fenda No Tempo (1995)

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Fenda no Tempo
Original:The Langoliers
Ano:1995•País:EUA
Direção:Tom Holland
Roteiro:Tom Holland, Stephen King
Produção:David R. Kappes
Elenco:Patricia Wettig, Dean Stockwell, David Morse, Mark Lindsay Chapman, Frankie Faison, Baxter Harris, Christopher Collet, Kimber Riddle, Kate Maberly, Bronson Pinchot, Tom Holland, Julie Arnold Lisnet, David Forrester, Chris Hendrie, Jennifer Nichole Porter, Stephen King

Stephen King talvez seja o autor vivo mais adaptado para o cinema – porque o autor morto mais adaptado é, comprovadamente, William Shakespeare. Qualquer coisa que King escreva, nem que seja meia dúzia de linhas num guardanapo de boteco, ganha adaptação cinematográfica. O auge foi em meio aos anos 80, quando “Stephen King” transformou-se não num nome de escritor, mas numa grife. Logo, virou moda (e sinônimo de bons lucros) adaptar King para o cinema. O resultado foi irregular: tivemos alguns poucos ótimos filmes, como A Hora da Zona Morta, O Cemitério Maldito e A Hora do Lobisomem (também conhecido como “Bala de Prata” no Brasil), mas muito mais adaptações meia-boca, que não fazem justiça à obra do escritor. Algumas delas, como Christine, de John Carpenter, e Chamas da Vingança, de Mark L. Lester, não são exatamente ruins, mas sofrem com uma péssima adaptação dos livros em que se inspiram.E nem vale a pena citar A Colheita Maldita, Cujo, Comboio do Terror, A Criatura do Cemitério

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Foi no final da década de 80 que começou a ser produzida a adaptação de um dos maiores romances de King, A Coisa, sobre um demônio em forma de palhaço que assombrava um grupo de amigos na infância e depois de adultos. O livro em si é uma pequena bíblia (que varia de 750 a 900 páginas, dependendo da edição), com dezenas de personagens e muitos, mas muitos detalhes. Filmar tal história mantendo um mínimo de fidelidade à trama e ao costumeiro detalhismo do autor, sem cortar o excesso de personagens e de situações, seria tarefa impossível. Pior: mantendo tudo, o filme ficaria com, no mínimo, umas 4 horas de duração. A solução adotada foi transformar A Coisa em uma minissérie de TV, com dois capítulos de 95 minutos de duração. Só assim os produtores garantiram um mínimo de fidelidade ao texto, que foi dirigido por Toomey Lee Wallace com resultado razoável (a parte final da história é muito fraca e acaba afundando a produção). No Brasil, uma condensação da minissérie foi lançada em VHS, há muitos anos, com o título original do romance, It.

Independente do fato de ser boa ou ruim, a minissérie It mostrou que era possível, sim, adaptar a riqueza do texto de Stephen King para uma outra mídia (no caso, a TV). Porque a razão do fracasso de alguns dos filmes baseados nos livros de King era justamente a adaptação, que deixava muita coisa de fora – Christine, de Carpenter, é o melhor exemplo, mas até o genial O Iluminado, de Stanley Kubrick, aproveita bem pouco do texto original. Assim, o formato “minissérie de TV‘, sem limitação de tempo – você não vai ao cinema ver um filme de 5 horas, mas não reclama de ver estas cinco horas divididas em capítulos na televisão -, mostrou-se uma interessante alternativa para dar às obras de King o detalhismo que elas merecem. E muitos outros de seus livros passariam a se transformar em minisséries televisivas.

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Na verdade, o formato não era bem uma novidade para Stephen King, que já tinha tido uma experiência na área em 1979 – quando seu segundo livro, Salem´s Lot, virou minissérie na TV americana, com direção de Tobe Hooper (na época, nome respeitadíssimo!). Porém foi a partir dos anos 90 que a adaptação de King para a TV veio com força total e, principalmente, com fidelidade total à fonte. Nas minisséries, não era preciso cortar personagens nem situações importantes do livro. Enfim, era possível filmar tintim por tintim, para a alegria dos fãs do renomado escritor. Foi o caso, por exemplo, da minissérie A Dança da Morte, de 1994, livro que o mestre George A. Romero tentou, sem sucesso, transformar em filme na década de 80. King entusiasmou-se com o formato e escreveu alguns roteiros especialmente para minisséries, como Golden Years e Rose Red; neste meio tempo, aproveitou também para viabilizar uma minissérie mais fiel ao seu livro O Iluminado, exibida em 1997, já que nunca gostou do filme de Kubrick (nem é preciso dizer qual é melhor, não é verdade?).

Neste ínterim, entre It e O Iluminado, uma obra mais desconhecida do autor virou uma minissérie com três capítulos de uma hora de duração, em 1995. Originalmente, The Langoliers (“Os Langoliers”) era uma história curta de 250 páginas publicada na coletânea Depois da Meia-Noite (“Four Past Midnight”). Este livro, lançado em 1990, tinha outras três histórias, sendo que mais uma delas virou filme (“Secret Window, Secret Garden”, que deu origem ao filme A Janela Secreta). Quanto a “The Langoliers“, já havia dado origem a um “audiobook“, com seis fitas cassete de 9 horas narradas pelo ator Willem Dafoe (!!!). Para a minissérie de TV, o texto foi praticamente adaptado na íntegra, com direção e roteiro de Tom Holland (de A Hora do Espanto e Brinquedo Assassino). No Brasil, os três capítulos foram unidos num grande filme de 180 minutos, lançado em VHS há muitos anos, em fita dupla, com o título Fenda no Tempo. Mesmo com algumas limitações – principalmente no tocante aos efeitos especiais, muito ruins -, Fenda no Tempo é o perfeito exemplo de uma boa e intrigante história de mistério baseada em Stephen King, calcada mais nos personagens do que no horror em si.

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A trama, basicamente, mostra como os sobreviventes de um misterioso acidente aéreo vão parar em um local desconhecido e deserto, onde são assombrados por misteriosos fenômenos – incluindo a ameaça de criaturas assustadoras. Falando assim, até parece o enredo de Lost, aquele seriado de TV que virou a mania da galera na época, não é verdade? Mas aqui a coisa é bem diferente. King mete no mesmo balaio traumas de infância, criaturas misteriosas, viagens no tempo e um avião desgovernado, e o resultado é um filme de três horas que parece passar em 1h30min, tal a maneira como prende a atenção do espectador e o deixa intrigado com seus mistérios e reviravoltas.

Basicamente, sem entregar muito sobre as surpresas da trama, Fenda no Tempo é a história de um voo rotineiro de Los Angeles para Boston. Mas, como o autor da hstória é Stephen King, é claro que o voo desta vez não será nem um pouco rotineiro. Entre os passageiros do voo 29 da American Pride estão:

Fenda no Tempo (1995) (6)CRAIG TOOMEY (Bronson Pinchot): É o elemento mais importante do filme, um estressado homem de negócios que logo revela-se um psicopata homicida. Toomey cresceu sendo pressionado pelo pai dominador. O pai dizia que, caso Craig não estudasse e se esforçasse no emprego, seria apanhado pelos Langoliers – criaturas cheias de dentes que devoram as pessoas preguiçosas. Toomey tem uma importante reunião de negócios em Boston e fará qualquer coisa para chegar lá. Bronson Pinchot interpreta o personagem com um misto de humor e horror: Toomey ora é uma piada, ora é extremamente ameaçador. Para quem não lembra, Pinchot interpretou um homossexual na série Um Tira da Pesada.

Fenda no Tempo (1995) (7)CAPITÃO BRIAN ENGLE (David Morse): Um piloto de avião que acabou de chegar de um voo problemático e descobriu que sua ex-esposa, Anne, morreu num incêndio. Chocado com a notícia, resolve aceitar a proposta de pegar uma carona no voo 29 para chegar logo a Boston para o funeral de Anne. É interpretado pelo simpático ator David Morse, cujo nome você provavelmente não lembra, mas certamente já o viu num montão de filmes, como Os 12 Macacos e O Negociador. Apareceu em outras duas adaptações de King, desta vez para o cinema: À Espera de um Milagre e Lembranças de um Verão.

Fenda no Tempo (1995) (9)NICK HOPEWELL (Mark Lindsay Chapman): Um agente secreto britânico que está nos Estados Unidos para “mandar um recado” a um inimigo da Inglaterra. A função exige um trabalhinho sujo: eliminar a amante do tal inimigo, que vive em Boston. Assassino de bom coração, Nick está pensando em largar o emprego e levar uma vida normal, mas antes quer cumprir esta última missão em nome da rainha. Mark Lindsay Chapman é outro ator que já apareceu em uma pá de filmes, mas principalmente em seriados de TV, como Jag e Charmed. Teve um pequeno papel no blockbuster Titanic e foi o herói do terror O Aniquilador.

Fenda no Tempo (1995) (13)LAUREL STEVENSON (Patricia Wettig): Uma professora que está tirando as suas primeiras férias em longos anos para voar a Boston e ter um encontro com um pretendente, que ela conheceu através de classificados sentimentais – lembre-se: não havia internet na época para conseguir encontros amorosos! A atriz Patricia Wettig é outra que praticamente só fez trabalhos para a TV americana, com aparições nos seriados Prison Break, Alias, Breaking News e L.A. Doctors.

 

Fenda no Tempo (1995) (5)BOB JENKINS (Dean Stockwell): Um popular autor de livros de mistério, que pode ser uma espécie de alter-ego de Stephen King. Quando as coisas apertam, usa sua lógica e experiência das histórias de horror para decifrar enigmas. É interpretado pelo veterano Dean Stockwell, que dispensa apresentações: começou a atuar nos anos 40, quando ainda era uma criancinha inocente, e fez participações memoráveis em filmes como Veludo Azul, De Caso com a Máfia, Força Aérea Um e Duna. Hoje em dia só faz porcarias, mas isso é outra história.

Fenda no Tempo (1995) (8)DINAH CATHERINE BELLMAN (Kate Maberly): Uma menina cega que está voando com a tia Vicky. Em Boston, ela irá fazer um transplante de córneas que poderá lhe trazer de volta a visão. Justamente por não enxergar, desenvolveu uma extraordinária audição e até um apurado sexto sentido – que será muito útil no decorrer da trama. Também tem algumas características que lembram os poderes do “iluminadoDanny Torrance no famoso livro de Stephen King. A atriz britânica Kate Maberly fez outros trabalhos sem destaque para a TV.

 

Fenda no Tempo (1995) (11)ALBERT KAUSSNER (Cristopher Collet): Um jovem músico que vai a Boston para ter aulas de violino na Escola de Música de Berkley. A aparência de CDF esconde um rapaz corajoso e disposto a se sacrificar pelos amigos. O ator Christopher Collet estreou no cinema ainda guri, no slasher movie Sleepaway Camp. Também apareceu em outras divertidas produções dos anos 80, como Projeto Filadélfia, antes de dedicar-se a seriados de TV (inclusive um episódio em duas partes de Profissão Perigo).

 

Fenda no Tempo (1995) (10)BETHANY SIMMS (Kimber Riddle): Uma jovem punk, rebelde e que se recupera do vício em drogas. Vai a Boston para passar alguns dias com uma tia, no que considera uma estratégia dos familiares para interná-la numa clínica de reabilitação. Fuma compulsivamente quando nervosa. A atriz Kimber Riddle não tem outros créditos de destaque.

 

 

 

Fenda no Tempo (1995) (12)DON GAFFNEY (Frankie Faison): Um mecânico de aviões que vai a Boston para conhecer sua primeira neta, que acabou de nascer. Interpretado por Frankie Faison, que será sempre lembrado pelo papel de Barney, o enfermeiro do hospício onde Hannibal Lecter ficou internado em O Silêncio dos Inocentes (também apareceu em Dragão Vermelho e Hannibal).

 

 

Fenda no Tempo (1995) (22)RUDY WARWICK (Baxter Harris): Tudo o que sabemos sobre ele é que só sabe dormir e está sempre com fome. Com pinta de executivo, voa de primeira classe. Baxter Harris sempre faz papéis de policial ou delegado de polícia, em filmes como Amityville Horror, O Mistério de Candyman e Esqueceram de Mim 3.

E quanto aos outros 300 passageiros do voo 29? Bem, não dá para dizer muita coisa sobre eles… já que todos desaparecem logo nos primeiros minutos da viagem – e do filme! Isso mesmo! Não só os passageiros, mas também aeromoças, piloto, copiloto e navegador literalmente somem da face da Terra (neste caso, do avião) tão logo a aeronave começa seu “voo de rotina“. Os únicos “sobreviventes” da tragédia não-identificada são os 10 passageiros acima listados, que estavam tirando um cochilo quando “o que quer que tenha acontecido” aconteceu.

A primeira a acordar e perceber que está sozinha na aeronave é, ironicamente, a menina cega, Dinah. Ela começa a caminhar sem rumo pelos corredores desertos do avião – que o espectador vê estarem vazios, mas a pobre menina não -, chamando pela tia, que desapareceu junto com o restante dos passageiros. Ao colocar a mão numa das poltronas e encontrar uma peruca, abandonada por um dos desaparecidos, Dinah grita, acordando o capitão Engle, que dormia algumas poltronas mais à frente. O barulho também alerta os outros “sobreviventes“, que mostram-se confusos com a situação. Eles acreditam que o avião fez uma escala não-programada em alguma cidade enquanto estavam dormindo. Só não sabem explicar o fato das poltronas estarem repletas de objetos pessoais dos passageiros que teriam descido na tal escala, de dinheiro a walkmans e livros, passando por coisas retiradas de dentro das pessoas, como dentaduras e marcapassos!

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Quando Nick e o capitão Engle conseguem abrir a porta da cabine, a surpresa é ainda maior: o avião está voando por conta própria, ligado ao piloto automático, e não há qualquer sinal da tripulação. Engle assume o comando do voo, mas a sensação de medo e mistério se abate sobre os 10 passageiros, que tentam, mas não conseguem, encontrar uma explicação para o fato. E Toomey parece preocupado apenas em chegar a Boston a tempo de participar de sua importante reunião, gritando com os demais e pedindo quem autorizou uma escala não-programada – o fiasquento só cala a boca quando Nick age rapidamente e torce seu nariz, fazendo-o sangrar.

Com o escandaloso Toomey sob controle e Engle assumindo a aeronave, os demais passageiros passam a debater o que teria acontecido com o voo 29. Como todo bom escritor de livros de mistério, Jenkins tem uma explicação conspiratória para aquilo, alegando que tudo não passa de um experimento do governo para testar o estresse sobre indivíduos comuns; na versão do escritor, eles teriam sido dopados e, enquanto dormiam, o avião pousava num aeroporto secreto e todos os demais passageiros eram retirados. Engle, que faria parte da trama, seria o responsável pela decolagem, ligando depois o piloto automático e assumindo uma posição de quem nada sabe sobre o mistério. Será que é isso mesmo?

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Logo, porém, a teoria de Jenkins será desacreditada por outros fatos misteriosos. Infelizmente para os 10 sobreviventes do voo 29, parece que não foi somente os outros passageiros que desapareceram, mas também o mundo lá fora. Olhando pelas janelas da aeronave, eles só conseguem enxergar nuvens e a mais completa escuridão – mesmo quando estão sobrevoando uma grande cidade (Denver) e deveriam ver suas luzes. Para piorar, o equipamento de rádio do avião não consegue captar nenhum sinal, nem mesmo da faixa de frequência do Exército americano, que nunca sai do ar, e o radar não acusa a presença de outras aeronaves próximas, como se eles estivessem sobrevoando um grande nada. Será que eles estão sozinhos no universo?

Engle decide que o melhor a fazer é pousar no primeiro aeroporto de pequeno porte que aparecer, já que o combustível nos tanques não vai durar para sempre. Assim que amanhece (embora a cortina de nuvens continue não permitindo que os passageiros vejam a terra firme), o piloto resolve fazer a aterrissagem no aeroporto de Bangor, no Maine. Quando começa a atravessar as nuvens, Nick chega a comentar: “Não sei se foi uma boa ideia…“, temendo o que eles possam encontrar logo abaixo. E então, duas surpresas: primeiro, eles vêem a cidade logo abaixo deles, o que não deixa de ser um alívio para quem momentos antes pensava estar preso num buraco negro; depois, porém, a surpresa é ruim: eles descobrem que a cidade de Bangor, no Maine, como o avião onde eles estão, encontra-se completamente deserta.

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No aeroporto não há passageiros, funcionários, trabalhadores… nada! Pior: não se escuta nem um mínimo barulhinho, de motor de carros ou de pássaros. É como se nada mais existisse além daquelas 10 pessoas, tão sozinhas quanto confusas. Mas outros mistérios os esperam no aeroporto deserto de Bangor, como o fato dos fósforos não acenderem, da comida não ter sabor e de todos os relógios estarem parados. E ainda tem um assustador som que vem do horizonte, de uma ampla área de florestas nas cercanias do aeroporto. O que terá acontecido com os sobreviventes do voo 29? Morreram e estão no purgatório? Estão sonhando? Foram parar numa dimensão alternativa? Ou são simples vítimas de uma conspiração governamental? São muitas perguntas, que o filme responde sem pressa, para o desespero do espectador, muitas vezes levado a roer as unhas.

Suficientemente interessante e intrigante para manter seu mistério durante três horas, Fenda no Tempo vai ficando cada vez mais tenso à medida que acontecimentos apavorantes começam a envolver os 10 passageiros. Como se não fosse assustador o fato de os personagens estarem aparentemente sozinhos no mundo, a coisa piora com a ameaça das misteriosas criaturas que se aproximam (as quais Dinah, com sua audição amplificada, consegue ouvir), e fica violenta graças a Toomey, que se descontrola de vez, querendo chegar de qualquer jeito a Boston, mesmo que isso signifique atacar os outros passageiros. Sempre com medo das ameaças feitas pelo seu pai na infância, de ser pego pelos Langoliers – criaturas horríveis e cheias de dentes afiados, que atacam e devoram os preguiçosos, aqueles que ficam desperdiçando tempo e não cumprem seus compromissos. Será que são os Langoliers que estão se aproximando ameaçadoramente do aeroporto, querendo punir Toomey por não estar a caminho de Boston?

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Os dois primeiros capítulos da minissérie (correspondentes às primeiras duas horas de Fenda no Tempo) são de longe a parte mais interessante da trama, desenvolvendo-se praticamente o tempo inteiro dentro do avião e depois no aeroporto abandonado de Bangor. A partir do terceiro capítulo, as coisas começam a despencar um pouco, o que parece ser algo constante nas obras de Stephen King. Um dos maiores problemas do filme é que ele é bem-sucedido ao criar um clima de horror e apreensão ANTES de materializar sua ameaça sobrenatural – quando tudo o que sabemos dos Langoliers são as histórias ouvidas por Toomey na infância e os terríveis sons escutados por Dinah nos limites do aeroporto. Cada vez que a câmera de Holland enquadra a sinistra floresta próxima ao aeroporto, e o espectador ouve aquele som, já fica imaginando que o pior está por vir…

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E então, no momento em que o filme (ou minissérie, como preferir) opta por mostrar os Langoliers, ao invés de deixá-los no terreno da sugestão, qualquer sensação de medo ou tensão desaba diante dos péssimos efeitos em computação gráfica. Pois os temidos Langoliers, veja você, não passam de bolas disformes cheias de dentes, uns efeitos tão ruins que nem parece que foram feitos em 1995, mas sim no começo dos anos 80, lá na época dos videogames Atari e do filme Tron, Uma Odisseia Eletrônica. É um choque, mas no sentido contrário; um banho de água fria; uma sensação chata de ter sido enganado, pois na sua cabeça você visualiza o pior dos pesadelos, só para depois constatar que estava com medo de umas bolinhas dentuças e mal-feitas!

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Felizmente, este é o único ponto baixo da trama, e não compromete em nada a resolução dos mistérios, já que a aparição dos Langoliers é só uma parte integrante do último ato, mas não o final propriamente dito. Os sobreviventes ainda terão que enfrentar outra situação complicada para contornar a trágica situação em que se encontram, e um deles precisará se sacrificar pelos demais. Todos tinham um objetivo bem preciso para ir a Boston; mas, SE eles conseguirem sobreviver àquela viagem, terão uma visão de vida totalmente diferente.

Fenda no Tempo é feliz na condução do seu mistério. Durante as primeiras duas horas, principalmente, o roteiro consegue deixar o espectador completamente no escuro e cada vez mais surpreso, lançando diversas possibilidades, mas nunca deixando bem claro o que aconteceu ao voo 29. Infelizmente, o próprio título nacional e o resumo no verso da capinha do VHS já dão uma ideia do destino dos passageiros, estragando, de certa forma, uma das maiores surpresas da trama. Mas ainda há algumas boas situações e reviravoltas para manter o espectador com os olhos vidrados na tela. Com uma trama onde não há ação, calcada essencialmente em diálogos e sons, era muito fácil que o filme ficasse chato (até porque 70% da história se passa no interior de um avião). Mas não é o que acontece. Tudo bem que trata-se de uma produção televisiva, mais convencional; entretanto, a direção de Tom Holland – que faz uma ponta, assim como Stephen King – é segura e consegue passar uma sensação de ansiedade e horror.

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A adaptação do conto “Os Langoliers” também está muito boa, embora mesmo com as três horas de duração alguns detalhes tenham ficado de fora – como o motivo que levou o capitão Engle a se divorciar da finada esposa. O mais interessante sobre a história e sobre a trama do filme é que não existe um herói ou personagem principal: a exemplo do extraordinário Cubo, de Vicenzo Natalli, todos os personagens compõem um único grande personagem, já que cada um tem seu papel na complexa trama – também não há um “mocinho” e um “vilão“, ainda que o personagem psicótico de Toomey possa ser visto, por alguns, como o “malvado” da história. E se o filme prefere enfocar alguns personagens, como Nick e o capitão Engle, em detrimento de outros (Gaffney e Rudy quase não aparecem), a culpa é unicamente do diretor, já que todos têm o mesmo papel na história e inclusive o grupo está sempre unido em todas as descobertas e tragédias.

Como nem tudo são flores, Fenda no Tempo também tem seus probleminhas. Além dos efeitos especiais bagaceiros, é difícil de engolir o fato de Dinah começar a apresentar poderes telepáticos em determinado momento da trama – uma coisa que Stephen King adora usar nas suas histórias, de O Iluminado a Carrie. E a última cena, a conclusão, chega a ser ridícula na sua ideia de falsa felicidade e harmonia (um nojo, ainda mais considerando tudo que os personagens passaram para chegar até ali e as perdas pelo caminho).

Stephen King curtiu os efeitos especiais!
Stephen King curtiu os efeitos especiais!

O elenco também tem altos e baixos. Pinchot tem a melhor atuação de sua carreira como Toomey, que é o personagem mais rico e interessante do conto e do filme. Copiando exageradamente Jack Nicholson em O Iluminado, Pinchot salta em questão de segundos da aparente calma e da cara de bobo para um tom tresloucado e ameaçador, fazendo de seu personagem um vilão assustador em algumas cenas e alguém digno de pena em outras – tanto que o destino de Craig Toomy na trama sempre me deixou sensibilizado, nas duas vezes em que vi Fenda no Tempo. David Morse, como o piloto, passa uma sensação de segurança e é um excelente e carismático ator, a exemplo de Chapman, que tem certa semelhança fisionômica com o ator Russel Crowe; ele interpreta o assassino inglês Nick Hopewell com um charmoso sotaque inglês e uma pose de herói, aproximando-se, algumas vezes, de uma cópia de James Bond. Já o restante dos atores entrega atuações convencionais e apagadas, inclusive o veterano Stockwell, que, como o escritor Jenkins, limita-se a fazer cara pensativa e colocar o dedo indicador nos lábios, em pose de “O Pensador“, de Rodin.

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Claro que isso é muito pouco para desqualificar um filme intrigante como este, que faz o espectador pensar sem ser complicado demais. A revelação do que, afinal, são os Langoliers (não, eles não são apenas um trauma de infância de Craig Toomey) é um dos detalhes mais criativos da trama, embora possa parecer um pouco (ou “um muito“) fantasioso. Fenda no Tempo, tanto no texto original quanto na adaptação, é uma trama inteligentíssima e diversas vezes assustadora. Num universo de filmes muito convencionais, onde os roteiros parecem passados numa máquina de xerox e os clichês se avolumam, é ótima a sensação de ver algo como Fenda no Tempo e constatar que, sim, ainda existem ótimas histórias para serem escritas e contadas, sem regurgitar o que já foi feito à exaustão. Procure na sua locadora e embarque no mistério dos Langoliers – e prepare-se para ficar com medo de viajar de avião por um bom tempo…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

2 comentários em “Fenda No Tempo (1995)

  • 03/10/2016 em 23:40
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    Depois de assistir Stranger Things, comecei a procurar filmes que tratassem de viagens no tempo/espaço, dimensões alternativas, estava procurando “Nimitz, de volta ao inferno” e eis que me aparece como sugestão o “Fenda no tempo”, gostei do nome e decidi assisti-lo. Minha visão geral sobre o filme é muito igual à sua. O que eu acho que faltou no filme é explicação científica para os eventos ocorridos, talvez se na tripulação sobrevivente houvesse um físico, caberia a ele traduzir aos expetadores o que estava acontecendo. É nessa parte que o filme dá um nó na minha cabeça! Entendo que a proposta é uma nova abordagem sobre viagem no tempo, diferente de Back to the Future, Exterminador do Futuro ou Nimitz, nãoo existiria possibilidade de voltar as propriedades do tempo, o meio físico ficaria “distorcido” numa viagem assim, é essa a idéia? Afinal, eles se deslocaram para o futuro ou para o passado? Denver está uma hora adiante a Los Angeles no relógio mundial, teriam eles ido ao futuro então? Por que as propriedades físicas foram alteradas? Não havia mais eco, combustão, cheiro, os alimentos estavam como estragados e sem gosto. Por quê? Isso deu um nó na minha cabeça! Gostaria que alguém que tivesse entendido essas idéias explicasse melhor. Acredito que em inglês deva ter mais discussão sobre o filme, mas em português me parece bem escasso. E finalizando, vejo muita coisa de Langoliers em Stranger Things. A menina paranormal, a dimensão paralela, similar ao mundo invertido, igual mas com atmosfera diferente, os próprios langoliers lembram muito a cabeça do Demogorgon, e também parecem exercer o mesmo papel.. Aliás eu tampouco entendi a função exata deles. Alguém tem alguma noção? O mais legal de Fenda no tempo é que o filme dás trabalho, estimula a pensar, enlouquece, não nos deixa passivos diante da tela, se por um lado o filme deixa a desejar na parte visual (as cenas do avião se deslocando e dos langoliers sao ridículas), a trama por si só sustenta bem o filme, achei que os atores no geral mandaram bem. Aquele ajuste no tempo ocorrido no final também foi uma grande sacada, preciso assistir para entender aquilo, rsrsrs. Enfim, vale muito a pena ver esse intrigante suspense sobre viagem no tempo. Quem tiver outro que julgue bom, me dê um salve aqui. Me sugeriram Donnie Darkko (2003), achei uma droga de filme. É isso aí, obrigado pelo espaço. Abraço a todos!

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    • 30/12/2016 em 23:54
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      Acredito que vc não entendeu muito bem o filme; reveja, acredito que irá resolver uns 90% das tuas dúvidas; é um filme difícil, realmente. Abraço

      Resposta

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