Críticas

Os Demônios de Dorothy Mills (2008)

Não chega a ser um filme de terror, calcado mais no drama e no mistério, mas pode incomodar o público e conduzi-lo a reflexões curiosas!

Os Demônios de Dorothy Mills (2008) (2)

Os Demônios de Dorothy Mills
Original:Dorothy Mills
Ano:2008•País:Irlanda, França
Direção:Agnès Merlet
Roteiro:Agnès Merlet, Juliette Sales
Produção:Olivier Delbosc, James Flynn, Eric Jehelmann, Marc Missonnier
Elenco:Carice van Houten, Jenn Murray, David Wilmot, Ger Ryan, Gary Lewis, Rynagh O'Grady, Gavin O'Connor, Charlene McKenna, Ned Dennehy

Há referências em estudos históricos sobre a confusão causada pela ausência de diagnóstico para o Transtorno Dissociativo de Identidade. Casos apontados como bruxaria e possessão demoníaca poderiam ter sido tratados com a ajuda da ciência, a partir de medicamentos adequados, sem a necessidade de apoio religioso, exorcismo e até condenação à fogueira. Também há quem aponte essa conclusão médica como uma desculpa para não aceitar a presença de espíritos ou entidades maléficas, com os cientistas buscando soluções práticas para casos sem explicação. Essa dupla possibilidade foi bem explorada pelo gênero fantástico, desenvolvendo produções que brincam com a confusão até o momento em que um dos lados consegue se estabelecer como causa provável – e nem é preciso dizer para que lado a balança pende! Em Os Demônios de Dorothy Mills, temos um exemplo bem interessante dessa dúvida.

Após os pais testemunharem uma tentativa de abuso de seu bebê pela babá Dorothy Mills (Jenn Murray), a psiquiatra Jane Morton (Carice van Houten) é convocada para estudar o caso, numa pequena ilha irlandesa. Assim que chega ao local, sendo recebida de forma hostil, Jane sofre um acidente de carro ao evitar um choque frontal com um veículo ocupado por três jovens, caindo nas águas frias. Ela é salva, mas continua sendo mal tratada pelos habitantes do local, incluindo a própria tia de Dorothy, Eileen MacMahon (Ger Ryan). Com as entrevistas e observações, logo a médica percebe que a garota sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade, assumindo quatro personalidades distintas: uma criança de três anos apelidada como Mimi, além dos raivosos Mary, Kurt e o líder Duncan. Enquanto tenta buscar um meio de isolar e compreender essas personagens de Dorothy, Jane precisa enfrentar os locais, fanáticos religiosos que acreditam que a menina precisa de um exorcismo.

Os Demônios de Dorothy Mills (2008) (3)

O roteiro co-escrito por Agnès Merlet e Juliette Sales é primoroso ao trabalhar com as duas possibilidades, contando com uma atuação impressionante de Jenn Murray, em sua estreia como atriz. Alternando expressões convincentes e com a mudança constante de sua fisionomia e maquiagem, ela conduz o enigma e fortalece os questionamentos. Funciona como apoio a caracterização da jovem com a pele extremamente alva e os cabelos loiros, tão claros como os das crianças de A Cidade dos Amaldiçoados, de John Carpenter. A construção de sua identidade é o que funciona melhor no longa, e Jenn contribui satisfatoriamente para isso perturbando o espectador a cada aparição surpreendente.

Se a atuação da jovem é espetacular e o roteiro é interessante, o mesmo não se pode dizer da direção de Agnès Merlet. Com um orçamento pequeno, Merlet se desdobra na condução, mas evidencia momentos de escolhas erradas, principalmente na sequência final, diante da ponte, com a câmera não sabendo para onde apontar. Também não gostei da ideia de apresentar no espelho a personalidade a qual a jovem está assumindo, algo que facilita a narrativa visual.

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Os Demônios de Dorothy Mills – que título horroroso é esse? – não chega a ser um filme de terror propriamente dito, calcado mais no drama e no mistério, contudo, pode incomodar o público e conduzi-lo a reflexões curiosas. Ora, isso já é mais do que um motivo para valer a recomendação!

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