A Profecia (2006)

A Profecia (2006) (5)

A Profecia
Original:The Omen
Ano:2006•País:EUA
Direção:John Moore
Roteiro:David Seltzer
Produção:John Moore, Glenn Williamson
Elenco:Liev Schreiber, Julia Stiles, Seamus Davey-Fitzpatrick, Predrag Bjelac, Carlo Sabatini, Bohumil Svarc, Giovanni Lombardo Radice, Marshall Cupp, MyAnna Buring, Reggie Austin, Pete Postlethwaite, Mia Farrow

A onda de refilmagens que assola Hollywood nos últimos anos é um fenômeno que cresce como uma bola de neve. A falta de bons roteiristas e a comodidade de recriar fórmulas que já foram sucesso em outras épocas e países resultam em boas surpresas, como o remake de O Massacre da Serra Elétrica, ou aberrações cinematográficas como o de A Bruma Assassina, que consegue ser ruim já no trailer. Em um ano marcado de refilmagens de clássicos como as de O Destino do Poseidon, Quadrilha de Sádicos e Pulse, eis que surge a releitura de um dos maiores clássicos do horror cinematográfico dos anos 70: A Profecia. O original foi dirigido pelo então iniciante Richard Donner e tinha como protagonista uma das maiores lendas do cinema norte-americano: Gregory Peck.

A trama muito bem construída narra a chegada do filho do Diabo que, por uma armação arquitetada por um grupo de satanistas, consegue se infiltrar na família de um jovem diplomata norte-americano que vive com a mulher em Roma. O Anticristo surge na figura de um recém-nascido que à medida que cresce deixa um rastro de morte e horror rumo a cúpula do poder mundial. No original de 1976 o filme era protagonizado por Lee Remick no papel da mulher do diplomata norte-americano interpretado por Gregory Peck.

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A presença desse casal de atores em cena e a música de Jerry Goldsmith são as grandes marcas do original. A refilmagem fez mudanças interessantes, mas as sequências clássicas foram mantidas e aperfeiçoadas pelo diretor dessa nova versão do filme por John Moore. A abertura da nova versão tem um apuro visual acima da média acentuado pela excelente direção de fotografia de Jonathan Sela. Com diálogos em italiano somos transportados para atmosferas típicas de clássicos de Dario Argento. A leitura do Livro das Revelações da Bíblia Sagrada compara o sopro das trombetas do apocalipse com tragédias recentes como o atentado de 11 de setembro em Nova Iorque. A chegada de um estranho cometa faz alguns teólogos do Vaticano afirmarem que o Juízo Final se aproxima.

O diplomata norte-americano Robert Thorn surge em cena na noite do parto de sua mulher. Nessa versão nova o ator que interpreta Thorn é Liev Schreiber. Ele recebe a notícia de que seu filho nasceu morto. O portador da notícia é o sinistro Padre Spiletto, interpretado pelo famoso ator italiano Giovanni Lombardo Radice. Esse ator participou de inúmeros clássicos do horror cinematográfico Italiano como Pavor na Cidade dos Zumbis, de Lucio Fulci, Cannibal Ferox, de Umberto Lenzi e Cannibal Apocalypse de Antonio Margheritti. O Padre oferece a Thorn uma outra criança que ele diz não ter familiares e cuja mãe morreu no parto. Eis então que surge Damien Thorn. A mãe, que não sabe da morte do filho biológico cria o filho normalmente até o filme chegar na famosa sequência da Festa de Aniversário.

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Thorn agora é o embaixador dos EUA em Londres, indicado pelo Presidente Norte-Americano. O antigo candidato a Embaixador é eliminado em um acidente bizarro em Roma, numa sequência muito bem realizada. O suicídio da babá de Damien é muito semelhante nas duas versões. No remake, ao invés da mãe segurar horrorizada o menino, é o pai que segura o filho que acena serenamente para seu cão, que, em ambos os filmes, continua aterrador. A questão dos sinais nas fotos que parecem profetizar as mortes é melhor trabalhada nessa nova versão. A figura do Padre Brennan, no remake interpretado por Peter Fostlethwaite, é mais insana e incisiva e sua morte que é um dos pontos altos do filme original ganha no remake uma releitura soberba e estilizada ao extremo com uma brilhante construção do suspense, em momentos que nos transportam diretamente para A Catedral, de Michele Soavi.

O filme original consegue ser insuperável não somente pela música de Jerry Golsdsmith, mas na sequência do Jardim Zoológico. No filme original o ataque dos babuínos enfurecidos com a presença do filho do demônio é apavorante e claustrofóbica em seus breves porém intensos momentos de horror. No remake a sequência do Zoológico é burocrática e poderia ter ficado de fora da edição. O grande mérito dessa nova versão, além da brilhante direção de fotografia, fica com a presença no elenco de Mia Farrow, a eterna musa do clássico absoluto do horror satânico O Bebê de Rosemary. No papel de Mrs Baylock, a meiga e delicada babá substituta do pequeno Damien simplesmente rouba todas as cenas em que aparece, principalmente quando contracena com a fraca Julia Stiles, que interpreta a mãe do menino. A cena em que ela está de cabelos soltos num jogo de sedução hipnótico sobre Damien na sequência que antecipa o antológico ataque que resulta na queda da mãe é simplesmente clássica. Essa sequência da queda que já era perturbadora no filme original agora recebe uma elaboração ainda maior, graças às novas tecnologias inexistentes em 1976. No original, Lee Remick encena uma queda enquadrada de maneira a não deixar evidente que está de pé, em um cenário que foi construído de cabeça para baixo. Na nova versão o realismo dessa sequência é assustador, sendo um dos grandes momentos do filme.

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As locações do filme na Itália, Irlanda e República Tcheca foram muito bem aproveitadas. Os interiores das igrejas e mosteiros e os exteriores são complementos relevantes para a construção da atmosfera de crescente horror. O embate no hospital entre a Sra Thorn e Mrs Baylock é mais realista no remake, resolvendo um problema do roteiro do filme original onde a babá simplesmente joga a Sra Thorn pela janela e vai embora como se nada tivesse acontecido. A solução para essa sequência na nova versão é mais bem finalizada e não menos assustadora. O reencontro entre o Sr Thorn e o Padre Spiletto em um mosteiro italiano é muito mais atmosférica e aterradora na nova versão. A chegada de barco no Mosteiro e o rosto deformado do Padre mostrado sem cerimônia criam outro grande momento do filme.

A sequência do cemitério Etrusco também consegue ser superior nessa nova versão de A Profecia, embora a morte do fotógrafo no original eu, particularmente, ache mais aterradora, não que no remake ela não seja bem realizada, muito pelo contrário. O combate entre o Sr Thorn e Mrs baylock lembra momentos clássicos de filmes slashers. Os sonhos da Sra Thorn, sempre em banheiros, nos remetem aos recentes clássicos do Horror Oriental. Nessa mistura de influências vemos o filme se desenrolar praticamente sem mudanças do início ao fim. O desfecho na igreja revela um belo momento onde vemos uma catedral com rica iconografia católica barroca com destaque para uma dramática e agonizante imagem de Jesus. A famosa sequência final recebe uma alusão que eu só percebi em uma segunda decupagem do filme, onde aparece uma clara referência a morte do Papa João Paulo II. O último take é simplesmente apavorante. Nos créditos finais surge então a música de Jerry Golsdsmith utilizada no filme original de 1976.

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Eficiente, mas com alguns momentos de irregularidade, se compararmos com outros remakes que pipocam por aí, a novA Profecia tem seus encantos e merece uma chance daqueles que tem detonado o filme por puro preconceito e saudosismo. O fato de vermos um filme sobre a chegada do Anticristo através da cúpula do poder Norte-Americano ganha tintas apocalípticas se pararmos para pensar que ele foi lançado em plena Era Bush.

Imaginem se fizerem o remake de Damien-Profecia 2 com um Anticristo adolescente conectado à Internet… Assustador não é mesmo?

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Marcelo Carrard

Marcelo Carrard

Marcelo Carrard é Jornalista, Pesquisador e Crítico de Cinema e Editor do Blog: Nudo e Selvaggio.

3 comentários em “A Profecia (2006)

  • 15/10/2016 em 23:23
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    Nossa o autor fez tantos elogios então pq só deu 3 caveiras , poderia ter dado 4 , esse remake ficou mt bom !

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  • 15/10/2015 em 23:04
    Permalink

    Ah, eu até gosto deste remake. Pode não ser lembrado como um clássico, como o original, mas é um filme eficiente. Não é o que eu consideraria um remake ofensivo.

    Resposta

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