Críticas

Drácula: O Príncipe das Trevas (1966)

Contém boas sequências de suspense e tensão, um bom clima e um elenco que segura às pontas. Enfim, é uma continuação digna do clássico!

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Drácula: O Príncipe das Trevas
Original:Dracula: Prince of Darkness
Ano:1966•País:UK
Direção:Terence Fisher
Roteiro:Jimmy Sangster, Anthony Hinds
Produção:Anthony Nelson Keys
Elenco:Christopher Lee, Barbara Shelley, Andrew Keir, Francis Matthews, Suzan Farmer, Charles 'Bud' Tingwell, Thorley Walters, Philip Latham, Walter Brown, George Woodbridge, Jack Lambert, Philip Ray

Obviamente que depois do sucesso do clássico O Vampiro da Noite (1958), a produtora Hammer estava ansiosa para rodar a sequência deste, só que esbarrava num obstáculo: a recusa de Christopher Lee, agora transformado em astro, de repetir o papel que o alçou a fama. Levou oito anos até convencerem Lee de voltar a usar os caninos e a capa do conde em Drácula, O Príncipe das Trevas.

Nesse meio tempo a Hammer chegou a rodar o ótimo As Noivas do Vampiro, que a princípio seria a continuação de O Vampiro da Noite, porém o filme acabou ficando sem Drácula, reaproveitando apenas o Van Helsing de Peter Cushing. O que era uma sequência, hoje é visto como um spin-off, um apêndice da série.

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Christopher Lee finalmente retorna em O Príncipe das Trevas, porém sem Van Helsing, desta vez substituído pelo padre Sandor, um clérigo pouco ortodoxo interpretado por Andrew Kier. Na verdade Van Helsing estava nos planos originais, mas a esposa de Peter Cushing acabou adoecendo gravemente e ele caiu fora do projeto. Violet Helene Beck, ou apenas Helen, como era conhecida a mulher do ator, nunca mais se recuperou, vindo a falecer em 1971, quando Cushing estava pronto para rodar O Sangue no Sarcófago da Múmia, e acabou sendo substituído por Andrew Kier novamente.

Voltando ao Drácula, O Príncipe das Trevas, engana-se quem acha que o acordo entre a Hammer e Christopher Lee para rodar o filme foi um mar de rosas. O ator teria detestado suas falas no script, “Alguém escrevia frases como se eu fosse o Apocalipse. Não dava para acreditar”, segundo o próprio Lee. Resultado: o astro só aceitou esse trabalho se Drácula não tivesse uma linha de diálogo. Sendo assim, fora uns grunhidos, o vampiro entra mudo e sai calado o filme inteiro.
Quem vê o pudor de Lee nessa época, ao ponto de privar o espectador de sua voz sepulcral e marcante, jamais imaginaria que o ator mais tarde reencarnaria o conde em tranqueiras como Drácula no Mundo da Minissaia e Ritos Satânicos de Drácula, isso sem falar na famigerada versão do livro de Bram Stoker levada a cabo por Jesus Franco.

Drácula (1966)

Christopher Lee

Para Drácula, O Príncipe das Trevas, a Hammer chamou de novo para a cadeira de direção o mestre Terence Fisher, o homem que simplesmente formatou o padrão da produtora, e curiosamente esse seria o último filme da série que ele comandaria. Novamente temos James Bernard na trilha sonora e Jimmy Sangster no roteiro, aqui assinando com o pseudônimo John Sansom.

O filme começa justamente onde terminou o original. Reaproveitando cenas do anterior, mostrando Drácula e Van Helsing se engalfinhando num duelo fatal para o vampiro. A trama se passa dez anos após a destruição de Drácula. Vemos então um cortejo, levando o cadáver de uma bela jovem, pronta para levar uma estaca no peito, mas os aldeões supersticiosos são impedidos pelo padre Sandor  mostrando que, mesmo após uma década depois da destruição de Drácula, o medo do vampirismo persiste na região.

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Nisso entra em cena dois casais de turistas ingleses: o jovem impetuoso Charles (Frank Matthews) e sua bela esposa Diana (Susan Farmer), e Alan (Charles ‘Bud’ Tingwell), irmão mais velho de Charles, e sua esposa, a carola Helen (Barbara Shelley).

Contrariando as recomendações dos moradores, nossos turistas resolvem fazer uma tour próximo ao castelo de Drácula. Obviamente que a noite cai, e graças a uma carruagem fantasmagórica, os ingleses acabam parando na famigerada moradia do notório vampiro. Eles são recebidos por Klove (Philip Latham), o servo de Drácula, que curiosamente não existia em O Vampiro da Noite, estaria ele de férias do serviço durante os fatos mostrados no filme anterior?

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Os visitantes são recebidos com jantar pronto e quartos previamente arrumados. Isso que é eficiência serviçal! Claro que os planos de Klove são para ressuscitar seu amo, e pelo jeito esta é sua primeira oportunidade em dez anos!

Klove acaba esfaqueando Alan, e após levantar o cadáver sob roldanas numa espécie de ataúde, acaba derramando o sangue do morto sob as cinzas do vampiro, que estavam guardadas em uma urna.

Drácula acaba ressuscitando, e a primeira coisa é transformar Helen em vampira. O casal remanescente Charles e Diana, nada a ver com a realeza inglesa, acaba indo se refugiar no mosteiro onde fica o padre Sandor.

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O problema que no mosteiro vive um louco, que se revela outro servo de Drácula, na verdade é o mesmo Renfield do livro de Bram stoker, só que aqui rebatizado como Ludwig (interpretado por Thorley Walters, praticamente um sósia de Jaiminho do seriado Chaves). E é justamente ele que facilita a entrada do vampiro no mosteiro, criando novas confusões.

No final tudo vai convergindo para um duelo entre nossos heróis e o conde no entorno de seu castelo.

O curioso que Klove, um personagem criado para esse filme, assim como a situação de jovens presos no castelo do vampiro, reapareceriam em O Conde Drácula (1970), praticamente um remake disfarçado de O Príncipe das Trevas.

Sem a mesma beleza visual do primeiro, sem Van Helsing, sem a voz de Christopher Lee, e com o agravante de que o vampiro só vai dar o ar de sua graça depois de quase cinquenta minutos de projeção, fica óbvio que Drácula, O Príncipe das Trevas fica pontos abaixo de O Vampiro da Noite. No entanto essa sequência mantém o padrão de qualidade do anterior, ainda mais se compararmos com os filmes posteriores da série, que caíram em mãos de diretores menos habilidosos que Fisher.

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E Lee prova que consegue fazer um Drácula marcante sem utilizar uma só palavra (e verdade seja dita, em O Vampiro da Noite ele só tinha uma dúzia de falas). Afinal, estamos falando de um ator que soltava carisma pelos poros.

Destaque também para Barbara Shelley, e como ela muda do começo do filme, quando faz a esposa correta, exalando frigidez, para quando se torna uma vampira cheia de sensualidade. Curiosamente os gritos da atriz foram dublados pela sua companheira de cena Susan Farmer, embora o grito original de Shelley seja mostrado no trailer alemão do filme! Barbara acabaria se tornando uma musa da produtora em filmes como A Górgona (1964) e Rasputin, O Monge Louco, que estava sendo filmado simultaneamente ao Príncipe das Trevas, compartilhando inclusive elenco e sets de filmagem.

Lançado no formato digital no Brasil pela Works DVD, foi relançado recentemente pela Brooksfilm (que na verdade é a mesma Works com outro nome fantasia) com um cd extra, contendo a trilha do filme e de outras produções da Hammer.

O filme contém boas sequências de suspense e tensão, um bom clima e um elenco que segura às pontas. Enfim, é uma continuação digna do clássico.

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