Críticas

Anguish (2015)

Mistura de sobrenatural com drama de horror, introspectivo, melancólico e minimalista, dessa nova leva moderna de terror teen!

Anguish (2015) (1)

Anguish
Original:Anguish
Ano:2015•País:EUA
Direção:Sonny Malhi
Roteiro:Sonny Malhi
Produção:Guy Danella, Sonny Malhi
Elenco:Ryan Simpkins, Annika Marks, Karina Logue, Cliff Chamberlain, Amberley Gridley, Ryan O’Nan, Paulina Olszynski

Com o lançamento de Corrente do Mal, o excepcional debute de David Robert Mitchell na direção e que esteve presente na maioria das listas dos melhores filmes de 2015 – em muitas até liderando esse ranking – inclusive sendo a minha escolha aqui na retrospectiva do Boca) um novo tipo de parâmetro de filme de terror indie adolescente fora estabelecido.

Ao invés da fórmula dos slasher movies consolidada nos anos 80, 90 e começo dos anos 2000, onde a afetação, exagero, violência, sexualidade e superficialidade davam as caras, Corrente do Mal estabeleceu o padrão de um filme mais minimalista, introspectivo, contido, com maior atenção a fotografia e direção, seguindo até um padrão estabelecido por outros filmes de outros gêneros do cinema independente de baixo orçamento, como o mumblecore, por exemplo.

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Anguish (não confunda com o título original do espanhol homônimo de Bigas Lunas, lançado no Brasil como Os Olhos da Cidade São Meus), primeiro longa dirigido por Sonny Malhi, que nessa altura do campeonato já fora produtor executivo de Imagens do Além, Os Estranhos e A Última Casa da Rua, além de coprodutor de A Casa do Lago e do remake de Oldboy de Spike Lee, parece seguir esse mesmo caminho estético e narrativo, gira em torno de uma garota adolescente, neste caso, uma atuação impressionante da jovem Ryan Simpkins.

Porém diferente de Corrente do Mal, que prefere dar ênfase ao relacionamento interpessoal entre adolescentes e suas individualidades, uma das principais características da geração millennial, o foco de Anguish (que em tradução livre significa angústia) é na relação familiar entre uma garota, Tess (papel de Simpkins) que sofre de ansiedade e transtorno de identidade, e sua jovem mãe, Jessica (Annika Marks), com quem se muda para uma cidade do subúrbio.

Anguish (2015) (4)A instabilidade mental que a garota sofre há anos é um grande desafio, tanto para si mesma – pois ela vive em uma rigorosa dieta de medicamentos controlados – quanto para sua mãe, que precisa trabalhar o dia inteiro em dois turnos, enquanto seu marido e pai da garota está em campanha militar pelo exército americano. A situação passa a piorar após essa mudança, quando o quadro de Tess se agrava, descobrindo certa capacidade pós-cognitiva, e se vê suscetível a aparições e manifestações sobrenaturais, incluindo aí a possessão espiritual.

Logo no começo da fita conhecemos outra adolescente, Lucy (Amberley Gridley), que após uma discussão com sua mãe, Sarah (Karina Logue), é morta atropelada. Enquanto Tess explora a nova cidadezinha, tudo conduzida de forma delicada e melancólica, típica da solidão e introspecção adolescente, ela avista uma cruz no acostamento onde a menina morrera, e esse é o gancho para que o fantasma da garota morta passe a fazer contato, até tomar posse de seu corpo.

Primeiramente Jessica acredita que seja uma agravante do estado mental da filha, até que Tess, agora sob possessão de Lucy, parte em busca de sua mãe, Sarah, que vive em um profundo estado de luto desde então, e a relação entre as duas mães se tornará crucial para o desenrolar da história.

É aí que entramos em outro ponto original de Anguish, que foge muito da fórmula prosaica dos filmes de assombração e possessão. Lucy é um espírito benigno, confuso, tanto quanto a garota que se torna seu receptáculo, que não conseguiu desencarnar e ainda está ligada a todo o sofrimento que guarda nesse plano espiritual, e principalmente daquele mundo que deixou para trás, tanto de sua mãe, que recusava a seguir em frente e precisava de um perdão, quanto de seu universo particular, que compreende suas escolas, amigos e pretê do colégio que ela era apaixonada. Há aqui um propósito muito maior do que simplesmente possuir, girar a cabeça em 360º, falar línguas, quebrar a espinha e assustar.

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Já Tess não consegue viver uma vida plena como adolescente, e se vê cansada de lutar contra aquele estado mental, tantas mudanças de endereço, a solidão e a falta de sociabilidade com outros jovens, além de causar tanto sofrimento para sua própria família. O problema é que sua mente debilitada e confusa é então um alvo fácil para outras entidades também, que não tendem a ser tão complacentes quanto Lucy.

Anguish se mostra não só um filme de assombração, mas sim um drama familiar de horror, sobre perda e aceitação. Ainda em comparação com Corrente do Mal, em Anguish há muitas cenas sem diálogo, de silêncio e contemplação de ambientes e emoções e como tem acontecido também nessa nova leva moderna dos filmes de terror, grande parte se passa de dia, em lugares abertos. Também há momentos assustadores e climáticos, mas essa não é a tônica aqui, não recomendado para aqueles que definem filme de terror como “sequências de jumpscare”.

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Malhi acaba pecando no ritmo e na didática e principalmente no desenrolar de seu terceiro ato, quando já somos forçados a aceitar o sobrenatural, sempre andando na linha extremamente tênue entre o drama carregado e o horror, tudo muito contido, mas que não nos deixa tão com os nervos à flor da pele ou nada assustados, principalmente em comparação com a manifestação da coisa que te segue do longa de Mitchell. Ambos, porém tem sua última cena final carregada de depressão, cada uma desoladora a sua maneira sobre os conflitos internos e externos e quando desistir de lutar se torna uma opção realmente palatável.

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