Críticas

Bone Tomahawk (2015)

Diverte e impressiona com a mesma intensidade, e sabe trabalhar o humor sem ser constrangedor como o exemplar canibal de Eli Roth!

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Bone Tomahawk
Original:Bone Tomahawk
Ano:2015•País:EUA
Direção:S. Craig Zahler
Roteiro:S. Craig Zahler
Produção:Jack Heller, Dallas Sonnier
Elenco:Kurt Russell, Patrick Wilson, Matthew Fox, Richard Jenkins, Lili Simmons, Evan Jonigkeit, David Arquette, Fred Melamed, Sid Haig, Maestro Harrell, James Tolkan

Quando todas as expectativas giravam em torno do esperado Canibais (The Green Inferno, 2013), de Eli Roth, com a promessa apaixonada de resgatar os clássicos do ciclo italiano de canibalismo – e que sofreu diversos adiamentos, já antecipando seus problemas -, uma produção surgia modestamente, com um orçamento estimado em quase U$ 2 milhões, um troco para os padrões atuais da indústria de cinema. Modesto nos valores, mas com um elenco de respeito com nomes como Kurt Russell, Patrick Wilson, Matthew Fox, Richard Jenkins, David Arquette e com uma ponta mais do que especial de Sid Haig. Com os holofotes apontados discretamente, atraindo mais a atenção por sua aparência western, Bone Tomahawk veio como uma bela surpresa para os saudosos do subgênero canibalismo, que não viam nada de especial desde o remake de Quadrilha de Sádicos, lançado em 2006.

Foi no ano seguinte, em 2007, que S. Craig Zahler, até então conhecido por seu trabalho na fotografia de cinema, desenvolveu o primeiro rascunho do roteiro de Bone Tomahawk, sem pensar no elenco que poderia atuar em sua produção. Sem recursos para adquirir luz verde para seu projeto, ele conseguiria chamar a atenção pelo roteiro claustrofóbico que escreveu para o terror Desespero (The Incident, 2011), de Alexandre Courtès, sobre um grupo isolado num asilo durante uma tempestade, tendo que enfrentar os internos soltos. Com as boas notas nas avaliações do filme e adquirindo notoriedade por seus romances western violentos, Craig finalmente pode estrear na direção iniciando os diálogos sobre o elenco que seria escalado.

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De 2012 até a realização das filmagens, entre setembro e outubro de 2014, o filme teve algumas trocas de elenco importantes como os considerados Peter Sarsgaard, Jennifer Carpenter, Timothy Olyphant e Jim Broadbent. A única certeza é que o filme poderia contar com Kurt Russell, que havia tecido elogios sobre o seu livro Wraiths of the Broken Land (2013), deixando evidente sua admiração pela narrativa do autor. Com as filmagens em apenas 21 dias, Bone Tomahawk já estava praticamente pronto, sem a necessidade de grandes alterações no roteiro inicial. Depois da passagem por alguns festivais como Sitges, o filme estreou nos Estados Unidos no dia 23 de outubro de 2015, com boas avaliações, sendo inclusive indicado a seis prêmios em três festivais, com categorias que vão desde Melhor Roteiro e Ator Coadjuvante a Melhor Filme.

Bone Tomahawk realmente merece a fama que vem adquirindo desde as suas primeiras exibições. Além das atuações primorosas do elenco, o filme tem uma história simples, mas bem construída e carregada em tensão e violência, como fazia tempo que não se via, e servindo como escola para Eli Roth pensar um pouco melhor antes de suas promessas ousadas. No enredo, ambientado em 1890, dois saqueadores violentos, Purvis (David Arquette) e Buddy (Sid Haig), acabam de cometer mais um terrível crime no deserto. Temendo a aproximação de testemunhas, a dupla escapa por um vale até alcançar um cemitério indígena e ser atacado pelos nativos. Buddy morre no local, enquanto Purvis consegue escapar.

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Onze dias depois, na pequena cidade de Bright Hope, protegida pelo Xerife Franklin Hunt (Kurt Russell), um alerta sobre um episódio estranho chama a sua atenção. De acordo com o seu ajudante Chicory (Richard Jenkins), um homem foi visto enterrando roupas sujas de sangue, o que pode evidenciar um assassinato. O suspeito, na verdade o fujão Purvis, é preso num bar, após levar um tiro na perna, sob a testemunha do cavalheiro John Brooder (Matthew Fox). Para curar o ferimento na perna, o xerife convoca Samantha (Lili Simmons), mulher de Arthur O’Dwyer (Patrick Wilson), que se recupera de uma perna fraturada.

Na manhã seguinte, é encontrado o corpo do menino Buford (Jeremy Tardy), vítima de um ataque violento, e as pessoas na delegacia desapareceram, incluindo Samantha. Um nativo americano conhecido como O Professor (Zahn McClarnon) depõe sobre os primitivos “Trogloditas” e seu costume canibal, e ainda indica o local onde a tribo se encontra. Assim, o xerife, Chicory, John Brooder e Arthur iniciam uma longa excursão de resgate, mesmo sabendo das dificuldades que encontrarão pelo caminho até o confronto com os canibais.

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A partir daí, Bone Tomahawk apresenta a jornada dos heróis em busca dos sequestrados, em percursos desérticos e perigosos, precisando aprender a lidar também com a difícil convivência. Brooder, por exemplo, acredita que tudo deve ser resolvido com as armas, sem perguntas, numa ação que culminará na morte de dois mexicanos, enquanto o xerife Hunt já prefere apaziguar a situação, imaginando estar com alguém perigoso no grupo. Logo a perna de O’Dwyer começará a atrasá-los, obrigando-os a difícil decisão de deixá-lo para trás.

Com boa parte da narrativa centrada nessa viagem do grupo, o espectador até esquece dos perigos que eles encontrarão ao se aproximar da tribo. A química dos heróis é muito boa, com diálogos bem afinados e ótimas interpretações, ampliando a preocupação do público com o que o destino reserva a eles. E é nessa tentativa de resgate, com a prisão e morte de alguns, que o filme apresenta seu caráter violento. Uma morte, em especial, é mais agressiva e angustiante do que tudo o que foi mostrado no ciclo italiano de canibalismo, mesmo sem a necessidade de dar destaques ou exagerar no grafismo.

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Também são méritos do longa as falas bem construídas das personagens. Desde frases que se encaixam perfeitamente na proposta como “Homens inteligentes não se casam.“, como aquela que considero a mais interessante e comovente do filme, dita num momento importante: “Diga adeus a minha mulher. Eu direi olá para a sua.“. A partir desses detalhes você nota que Craig é um nome promissor no cinema, conquistando admiradores como os que já o seguem por sua escrita.

Mesmo com a longa duração – mais de duas horas -, Bone Tomahawk mantém a atenção do espectador em sua aventura western. Diverte e impressiona com a mesma intensidade, e sabe trabalhar o humor sem ser constrangedor como o exemplar canibal de Eli Roth. Vale pelo enredo, elenco, roteiro bem estruturado, pelas cenas de violência, pela fotografia e trilha! Um quase-clássico para ser apreciado mais de uma vez!

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3 Comentários

  1. Marcos

    Um dos melhores filmes do ano!!

  2. Camillo

    Pra mim já se tornou um clássico.

  3. Edu

    Uma obra-prima ainda desconhecida pela massa. É o que eu sempre digo, focar o olhar apenas para aqueles títulos que chegam até nós é uma das piores formas de injustiça, porque nos limita a encontrar grandes surpresas merecem serem descobertas e apreciadas como esta. São surpresas que nos permitem sentir, emocionar, extasiar… Afinal, não há como não se alegrar (pra dizer o mínimo) com uma homenagem tão honesta como esta que, particularmente, há anos não vejo dentro do gênero. É meu horror/western preferido de 2015, assim como um dos melhores lançados entre todos aqueles que pude ver no ano passado. Obrigatório!

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