Críticas

Cannibal Apocalypse (1980)

Mesmo sem a fama de clássicos absolutos, tem seus méritos e merece uma revisão e a descoberta dos fãs da nova geração!

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Cannibal Apocalypse
Original:Cannibal Apocalypse
Ano:1980•País:Itália
Direção:Antonio Margheriti
Roteiro:Antonio Margheriti, Dardano Sacchetti
Produção:Edmondo Amati, Maurizio Amati, Sandro Amati
Elenco:John Saxon, Elizabeth Turner, Giovanni Lombardo Radice, Cinzia De Carolis, Tony King, Wallace Wilkinson, Ramiro Oliveros

Os notórios e polêmicos “Filmes de Canibais Italianos” formam um dos mais singulares subgêneros do horror cinematográfico italiano. Circulando as obras primas de Dario Argento e Mario Bava, uma série de produções contribuíram para a consolidação do cinema fantástico produzido na Europa, principalmente na Itália. Ao lado dos filmes gialli, dos WIP, dos Nunexploitation, dos Naziexploitation, e dos zombie movies, os filmes de canibais se notabilizaram principalmente pela total falta de limites diante das rígidas regras da censura mundo afora e criaram obras absolutamente perturbadoras e inesquecíveis. Filmes como O Último Mundo dos Canibais e Cannibal Holocaust, de Ruggero Deodato, Eaten Alive e Cannibal Ferox, de Umberto Lenzi, e o bizarro híbrido de filme de canibais e zumbis, Zombie Holocaust, são alguns exemplos da força e da inquietude anárquica dessas produções.

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As gráficas cenas de violência presentes nessas produções elevaram o gore a um estágio nunca visto antes na história do cinema. A sequência da carnificina final de Cannibal Holocaust, por exemplo, é impressionante até hoje, assim como as brutais cenas de mutilação e tortura presentes em Cannibal Ferox. A ambientação desses filmes sempre foi no isolamento “Pré-Histórico” da selva, do “Inferno Verde”, em mundos perdidos e parados no tempo, longe da civilização. Um filme desse importante subgênero do horror italiano fugiu totalmente de tudo que havia sido feito praticamente na mesma época na Itália. Ao contrário dos cenários de selvas fechadas e seus animais selvagens e tribos indígenas, em Cannibal Apocalypse temos como cenário o mundo urbano e civilizado de uma grande cidade norte-americana.

Cannibal Apocalypse aka Apocalypse Domani foi lançado em 1980. Dirigido pelo veterano Antonio Margheriti, autor do clássico horror gótico Castle of Blood aka Danza Macabra, o filme foi marcado por um percurso pedregoso pela censura. Até 2005 o filme estava banido do Reino Unido e teve o mesmo destino em outros países como a Noruega. No Brasil ele foi exibido sem cortes em 1981, com o título de Os Canibais do Holocausto. O filme mistura de maneira muito eficaz uma série de gêneros. É um filme de guerra e de ação, misturado com elementos de horror onde o canibalismo surge como resultado de um vírus adquirido por soldados norte-americanos que lutaram na Guerra do Vietnã, sendo transmitido através de mordidas que transformam os infectados em canibais, assim como ocorre na mitologia dos filmes de vampiros e de zumbis.

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Nos créditos iniciais vemos uma operação de resgate com helicópteros onde soldados norte-americanos atacam uma aldeia vietnamita, com direito a explosões e uso de lança-chamas. O uso do lança-chamas é o elemento que revela o canibalismo na história. Uma mulher com o corpo em chamas cai em um buraco no chão onde estão aprisionados dois soldados norte-americanos. Ao cair na tal cova é atacada e devorada pelos prisioneiros que já estão transfigurados em canibais. O comandante da operação, Norman Hopper, interpretado por John Saxon, estende o braço para puxar seus colegas e é mordido por um deles, então ele acorda, está na cama ao lado da mulher despertando de um pesadelo.

O olhar de desejo de Norman pelo sangue pingando de um pedaço de carne na geladeira já mostra o início de seu estágio de transformação em canibal. Surge em cena um dos colegas de Norman, Charlie Bukowsky, interpretado por Giovanni Lombardo Radice. Ele era um dos soldados que estava na cova aprisionado que apareceu no pesadelo de Norman. A sequência onde Charlie ataca uma mulher que está namorando dentro de um cinema é muito interessante e mostra o crescente desejo por carne humana que os ex-combatentes começam a sentir em sua volta para a América. Com locações em Atlanta, nos EUA, o filme reserva muitos momentos brutais para o espectador. As sequências do hospital são memoráveis. Charlie é internado ao lado do colega Tom, que também estava na cova aprisionado. A composição do rosto de Tom, com seus dentes a mostra ensanguentados atrás das grades, é absolutamente perturbadora. Ainda no hospital temos a antológica cena da médica infectada pelos canibais que seduz um colega e após beijá-lo arranca sua língua e bate com violência no rosto do médico com um objeto pesado. Qualquer semelhança com a cena da Noiva de Kill Bill arrancando a língua do homem que tenta abusar dela não é mera coincidência. O enquadramento do rosto da médica transfigurada em canibal é antológica na vasta galeria dos grandes momentos do Horror Cinematográfico Italiano.

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No momento da fuga dos canibais o filme ganha ares de produção B de ação com brigas e tiroteios, além de perseguições, mas ainda reserva ao espectador uma brutal cena de mutilação com serras circulares. A sexualidade mórbida ainda surge no filme no momento em que Norman se deixa seduzir pela vizinha ninfeta e fica subentendido que ele mordeu a garota durante o sexo oral, mas tudo fica insinuado apenas. Dentro do subgênero específico ao qual pertence dentro da história do Horror Cinematográfico Italiano, Cannibal Apocalypse se destaca pela ambientação urbana e pela mescla de filme de guerra/ação com canibalismo. Mesmo sem a fama de clássicos absolutos como Cannibal Holocaust, Emanuelle and The Last Cannibals e tantos outros filmes, Cannibal Apocalypse tem seus méritos e merece uma revisão para aqueles que o conhece e a descoberta dos fãs da nova geração.

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Como uma espécie de tradição macabra mesclada com uma brincadeira entre diretores com o ator Giovanni Lobardo Radice, em Cannibal Apocalypse o pobre Giovanni interpreta um personagem que tem uma morte absolutamente bizarra. Em Pavor na Cidade dos Zumbis, de Lucio Fulci, sua personagem tem a cabeça atravessada por uma enorme furadeira. Em Cannibal Ferox ele é castrado, tem o pé arrancado e por fim tem o tampão da cabeça arrancado pelo facão de um dos canibais em uma cena que lembra a morte do pequeno macaco no documentário Faces da Morte. Vale a pena também ver Cannibal Apocalypse só para saber como a personagem de Giovanni é exterminada…

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