Críticas

Cannibal Ferox (1981)

É uma produção que vale mais pela sua má fama e pelos seus exageros do que propriamente pelo resultado final…

Cannibal Ferox (1981) (2)

Cannibal Ferox
Original:Cannibal Ferox
Ano:1981•País:Itália
Direção:Umberto Lenzi
Roteiro:Umberto Lenzi
Produção:Mino Loy, Luciano Martino
Elenco:Giovanni Lombardo Radice, Lorraine De Selle, Danilo Mattei, Zora Kerova, Walter Lucchini, Fiamma Maglione, Robert Kerman, John Bartha, Venantino Venantini, 'El Indio' Rincon

“O filme que você verá agora é um dos mais violentos já realizados. Há pelo menos duas dúzias de cenas de torturas bárbaras e sádica crueldade, mostradas de forma explícita. Se você fica chocado com a apresentação de material repulsivo, por favor, não veja este filme.”

Em letras garrafais vermelhas, sobre um fundo negro, com a narração tétrica em inglês de uma garota, é com este aviso que inicia-se Cannibal Ferox, filme italiano de 1981, um dos mais conhecidos filmes de horror realizados dentro do ciclo italiano de filmes sobre canibalismo – também é conhecido como Make them Die Slowly, ou “Faça com que Eles Morram Lentamente“, já dando uma ideia do que esperar do “enredo“. Ao mesmo tempo, o título original poderia ser traduzido para “Ferocidade Canibal” ou “Fúria Canibal“.

Esta produção de Umberto Lenzi é famosa justamente pela propaganda negativa relativa ao filme. Não bastasse o tal aviso sobre o conteúdo da obra, o cartaz ainda exibe, em letras garrafais: “Banido em 31 países!“. E usam isso como motivo de orgulho! Dizem até que Cannibal Ferox está no Guiness, o Livro dos Recordes, por causa desta grande “façanha” de conseguir ser proibido em 31 países – como não tenho o Guiness, não posso dizer se é verdadeira a informação ou apenas marketing feito pelo diretor Lenzi.

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Para concluir, Cannibal Ferox é tão ultrajante, baixo, apelativo e sanguinário que teve o “mérito” de acabar definitivamente com o ciclo italiano sobre canibalismo, quando os cineastas e produtores que apostavam no filão começaram a perceber que estavam indo longe demais. Atualmente, a “má fama” de Cannibal Ferox é tão grande ou maior que a do clássico Cannibal Holocaust, a perturbadora pérola da violência explícita perpetrada por Ruggero Deodato em 1979 – que chegou a inspirar (os produtores dizem que não) o filme americano A Bruxa de Blair, lançado exatos 20 anos depois.

Enfim, o que dizer de uma obra cercada de tanta controvérsia?

Para começar, Cannibal Ferox está longe de ser um grande filme, nem sei se é um bom filme. Acabei respeitando a obra de Lenzi mais pela polêmica que gerou e pela controvérsia do que pela qualidade do filme em si. Trata-se de uma produção com mais erros do que acertos, muito inferior a outros filmes do mesmo sub-gênero (como o já citado Cannibal Holocaust e também O Último Mundo Canibal, ambos de Deodato). Em parte, por ser muito apelativo e não trazer absolutamente nada de novo ao espectador, explorando apenas o filão de forma gananciosa. E também pelo exagerado uso de cenas reais de matança de animais.

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Por mais que os ecologistas e politicamente corretos encham o saco, em filmes como Cannibal Holocaust e A Montanha dos Canibais (de Sergio Martino) as cenas de violência envolvendo animais se matando ou sendo mortos por homens estão dentro de um contexto de local (selva) e personagens (índios, selvagens). Além disso, a matança verídica confere um status de “documentário” aos filmes, fazendo com que se tornem assustadoramente reais. Ao ver índios em um filme matando e devorando realmente um pobre animal, quase acreditamos que eles são mesmo canibais!!!

Entretanto, Cannibal Ferox exagera na dose. São sete cenas de animais sendo mortos ou se matando, infelizmente sem qualquer relação com a trama. Às vezes, os personagens estão passeando pela selva, param e ficam olhando para algo, então Lenzi corta para uma cena de um animal sendo morto. Na aldeia dos canibais, os índios matam animais sem qualquer razão, já que o verdadeiro banquete são os humanos prisioneiros. São cenas que estão ali apenas para chocar gratuitamente o espectador (e chocam), mas principalmente para tentar fazer realmente “o filme mais violento de todos os tempos“. Tudo bem que as cenas de violência contra “humanos” também são fortes e chocantes, mas pelo menos nós sabemos que é tudo “de brincadeira” e ninguém está morrendo de verdade. Infelizmente, os pobres bichos tiveram que ser sacrificados para Lenzi poder encher seus cofres com gorda bilheteria.

Mas afinal, Cannibal Ferox é ou não é o filme mais violento de todos os tempos??? Talvez seja. Pela quantidade de cenas envolvendo sangue e violência, pela ferocidade, pela selvageria, pela total falta de ética e moral, pela matança descabida de animais, é, sim. Mas descontando as cenas reais dos animais sendo mortos, os efeitos especiais da matança de gente são meio fracos, e na maioria das vezes anula qualquer efeito de choque ou repulsa, às vezes até provocando risos.
Bem, comecemos do começo.

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Foi o próprio Umberto Lenzi que iniciou o sub-gênero “filmes de canibais“, em 1972, ao dirigir o pouco comentado Deep River Savages/Man From the Deeper River. Nesta obra, também cercada de polêmica, um homem, John Bradley (Ivan Rassimov, “habitué” nos filmes do gênero), em expedição na selva, é aprisionado por uma tribo de canibais e obrigado a participar de seus repulsivos rituais. Ironicamente, o filme não pega tão pesado como se faria posteriormente, inclusive pelo mesmo diretor.

Ruggero Deodato, até então um diretor de pouco destaque, foi aproveitar o filão. Em 1977, realizou Last Cannibal World (lançado no Brasil primeiro como O Último Mundo dos Canibais, depois como Mundo Canibal). Aparentemente, o filme é baseado numa história real (mentira, não é), sobre um executivo do ramo petrolífero, Robert Harper (Massimo Foschi), que viaja para checar uma propriedade na Nova Guiné juntamente com o amigo Rolf (Ivan Rassimov, de novo). Harper é aprisionado por índios primitivos e, novamente, obrigado a testemunhar os rituais dos canibais, e inclusive comer carne humana. Este é um dos primeiros filmes do filão a usar cenas reais de matança de animais. No mesmo ano, o picaretão Joe D´Amato tentou misturar pornô softcore e violência em Emanuelle and the Last Cannibals.

1979 foi um ano bom para os fãs de canibalismo. Foi o ano em que Sergio Martino filmou A Montanha dos Canibais (Mountain of the Cannibal God), uma aventura de horror com cara de superprodução e um ótimo elenco, inclusive com astros (Ursula Andress, Stacy Keach e Claudio Cassinelli). É um dos melhores filmes do período, com doses bem equilibradas de aventura na selva e horror, sem os exageros comuns ao gênero, embora os produtores tenham obrigado o cineasta a colocar uma montão de sangue e perversão no final do filme – atitude que o próprio Martino condenou.

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Infelizmente, a produção foi ofuscada por Cannibal Holocaust, de Deodato, que em sua polêmica (ser ou não ser um “snuff movie“?) atraiu multidões aos cinemas de todo mundo, e mesmo sendo considerado extremamente grosseiro e violento, terminou com um lugar de honra no panteão dos clássicos do gênero. O filme tornou-se tão apavorante porque trocou o cenário das primitivas selvas da Nova Guiné ou do Borneo (onde se passavam todos os outros filmes sobre canibalismo) para a Floresta Amazônia, na América do Sul. Ou seja, bem pertinho de regiões “civilizadas” e bem próximo dos Estados Unidos. A ideia de que ainda existam primitivos indígenas comendo carne humana tão perto de nossas casas não deixa de ser arrepiante, num contraste irônico entre quem são os verdadeiros selvagens, nós ou eles? (É claro que não existem mais canibais na Floresta Amazônica, mas cinema é cinema, ora bolas!)

Ao perceber que Deodato usou seu argumento original (pessoas aprisionadas por canibais) para fazer duas obras de sucesso, e ele não tivera o mesmo sucesso com seu Deep River Savages, Umberto Lenzi resolveu fazer uma espécie de competição: criar um filme de canibais mais violento e que fosse mais lucrativo que os dois de Ruggero Deodato. Saiu primeiro com Eaten Alive/Mangiati Vivi (no Brasil, Os Vivos Serão Devorados), de 1980, uma picaretagem onde 40% do filme é formado por cenas roubadas de A Montanha dos Canibais e O Último Mundo Canibal (desconheço se Lenzi foi processado pela sua sem-vergonhice). A produção tem nomes tradicionais do gênero, como Robert Kerman (Cannibal Holocaust), Ivan Rassimov e Me Me Lai (O Último Mundo dos Canibais).

Vendo que o filme faturou uma boa grana, Lenzi resolveu apelar e saiu com o grosseiro Cannibal Ferox em 1981. Ninguém mais quis competir com ele. O ciclo de filmes sobre canibalismo estava oficialmente terminado. Ainda bem, pois mais cedo ou mais tarde estariam matando gente de verdade em busca do filme mais chocante!

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Lenzi não tem vergonha na cara ao dizer que considera Cannibal Ferox um dos seus melhores filmes. Já Giovanni Lombardo Radicci, um dos principais nomes do elenco (onde assina com o pseudônimo John Morghen, por isso passarei a chamá-lo assim daqui pra frente), não cansa de dizer o contrário: para ele, Cannibal Ferox é o pior filme de que já participou. O curioso é que na recente versão lançada em DVD (nos Estados Unidos, claro), colocaram Lenzi e Morghen na faixa de comentário. Enquanto o diretor fala com entusiasmo do filme, o ator começa dizendo “I hate this movie” (Eu odeio este filme), e chamando o diretor Lenzi de cara-de-pau pela exagerada matança de animais (mais sobre isso ao longo do texto).

Como a maioria dos filmes de canibalismo feitos na época, não há uma preocupação muito grande com o roteiro. Apresenta-se uma situação básica que coloque os heróis do filme no meio da selva, e o que vem depois é consequência. A produção barata valoriza o tipo de história que se quer contar.

Cannibal Ferox começa em Nova York, uma selva de pedra, conforma Lenzi parece mostrar ao espectador (ele, além de diretor, é autor do roteiro, que tem alguns diálogos “fantásticos“, assim mesmo, entre aspas).

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Um jovem drogado, Tim Barrett, caminha pelas ruas “civilizadas” da cidade enquanto rolam os créditos iniciais. Vai até um velho prédio de apartamentos e entra naquele que pertence ao seu amigo e fornecedor de cocaína Mike Logan (o personagem de Morghen/Radicci; o ator trabalhou com a maioria dos diretores italianos de horror da época, tipo Lucio Fulci em Pavor na Cidade dos Zumbis, Antonio Margheritti em Cannibal Apocalypse e Michele Soavi em A Catedral e O Pássaro Sangrento). Mas lá TIm não encontra o compadre, e sim dois mafiosos linha-dura, daqueles que te chamam de “shitface” e ficam te dando bordoadas por qualquer coisinha. Um deles é interpretado por Perry Pirkanen, o cinegrafista loiro que supostamente morreu “de verdade” em Cannibal Holocaust, de Deodato. Em tempo: ele não é creditado.

Os dois mafiosos estão à procura de Logan, que aparentemente deve muito, mas muito dinheiro para eles. Tim não sabe onde o amigo está, e paga com a vida, levando um tiro no peito. A polícia logo chega ao local do crime, com o tenente Rizzo (Robert Kerman, de Cannibal Holocaust e Os Vivos Serão Devorados) chefiando a investigação. Ele descobre que o dono do apartamento tem uma namorada, Myrna Strand (Meg Fleming, ou melhor, Maria Fiamma Maglione), e começa a procurar por ela para saber sobre o pardeiro de Mike Logan.

Isso tudo, na verdade, tem pouca ou nenhuma relação com o que acontece depois. Sinceramente, acho que Lenzi só filmou estas poucas cenas em Nova York (depois tem mais) para dar um ar de “produção americana” ao seu filme (tanto que a maioria dos atores se esconde atrás de pseudônimos americanos).

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O filme imediatamente corta para a Amazônia, no lado colombiano da floresta, onde três jovens americanos chegam a uma pequena vila. Eles são os nossos heróis, Gloria Davis (Lorraine De Selle, que trabalhou com Bruno Mattei em Emanuelle Reports from a Women´s Prison), seu irmão Rudy (Bryan Redford, ou melhor, Danilo Mattei, provavelmente parente do nosso amado Bruno) e a amiga piranha e gostosa Pat Johnson (Zora Kerova, que apareceu no violentíssimo Anthropophagous, de Joe D´Amato). Gloria é antropologista e está se formando na faculdade, por isso resolveu apresentar uma tese, no trabalho de conclusão, argumentando que o canibalismo não existe, é apenas um preconceito da sociedade civilizada contra as tribos primitivas. Seu objetivo é chegar a uma tribo, a dos índios Manyoka, que vive bem no meio da selva, e que foi retratada como comedora de carne humana por uma revista americana. Gloria pretende, assim, provar que não existem verdadeiros canibais no mundo moderno. O irmão Rudy e a amiga Pat resolveram acompanhá-la.

Vamos apenas dizer que é uma ideia de jerico três jovens americanos manés, sem qualquer experiência na selva, entrarem numa floresta com um mínimo de equipamento e víveres, e sem ao menos um guia indígena para saber como regressar à civilização. Mas tudo bem, isso é cinema…

Enquanto Pat transa com um policial da cidadezinha só para poder tomar uma ducha na casa dele, os irmãos Davis providenciam transporte de balsa para eles e seu jipe até a outra margem do Rio Amazonas, no lado mais selvagem da floresta.

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Na balsa, um nativo dá a Gloria um pequeno furão, dizendo que é para dar sorte na selva fechada.

Não passam 15 minutos de filme e o trio de heróis se coloca numa verdadeira encrenca, quando o jipe em que estão “desbravando” a selva atola num lamaçal. Contrariando completamente o bom senso, o grupo resolve se embrenhar mais e mais no meio da floresta, ao invés de dar meia volta e “era isso“! Claro, se eles voltassem para a civilização, não teríamos filme!

À noite o grupo acampa e, de manhã bem cedinho, somos brindados com uma revoltante cena de violência animal, quando o furão que Gloria ganhou de presente, amarrado a um toco, sem poder fugir, é “abraçado” e devorado por uma enorme jiboia. Lenzi alterna cenas do bicho sendo morto com os olhares chocados dos seus “heróis“. Também somos brindados com uma cena de um velho índio comendo (de verdade) umas enormes e nojentas larvas.

Embrenhando-se ainda mais na selva, o grupo encontra uma dupla de americanos. Um deles é o próprio Mike Logan (lembram do início do filme, em Nova York?). Ele leva o amigo ferido, Joe Costolani (Walter Lloyd, ou melhor, Walter Lucchini), que se locomove com dificuldade. E Mike conta aos três compatriotas uma história assustadora: ele, Joe e um terceiro amigo foram aprisionados por uma tribo de canibais, a mesma que Gloria foi procurar, sendo torturados brutalmente até conseguirem escapar.

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É claro que o trio resolve ajudar os dois amigos sem sequer desconfiar de que por trás da cara-de-pau de Logan esconde-se um sujeito violento, sangue-frio e viciado em cocaína. E Lenzi continua mostrando cenas de violência contra animais sem relação. Primeiro é uma onça que abocanha e devora um macaquinho. Depois, um porco dentro de uma armadilha de animais é brutalmente esfaqueado por Logan.

Enfim, os cinco americanos chegam à aldeia relatada por Mike e Joe. Ela está praticamente vazia: aparentemente, os guerreiros mais jovens saíram para caçar. No local ficaram apenas os velhos, crianças e mulheres. E todos estão apavorados com o grupo de “caras pálidas” que se aproxima. Rudy não imagina porquê, mas quando encontra um corpo mutilado e decomposto amarrado a uma estaca, percebe que Logan falava a verdade (ou melhor, a sua versão da verdade).

Como Joe, ferido, está sem condições de continuar em frente (a febre está alta, como é comum neste tipo de filme), o grupo resolve acampar por um tempo na aldeia, pois aparentemente os índios que lá ficaram são inofensivos – afinal, continuam apavorados.

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A putinha Pat logo arrasta sua asa para perto de Mike, dividindo com ele a cama (nudez gratuita, oba!) e a cocaína. Quando Logan mata uma jovem nativa com um tiro, a sangue-frio, sem motivo algum, provoca a fúria de Rudy. Então ele e a irmã passam a desconfiar que há alguma coisa de errado na história do rapaz. Mas não têm muito tempo para pensar, pois Mike foge levando Pat. Joe está à morte e resolve confessar toda a verdade para os irmãos Davis.

Na verdade, não foram os canibais que torturaram ele, Mike e o terceiro amigo. Joe e Mike desembarcaram na Amazônia fugindo da máfia de Nova York (como vimos no início), e em busca de uma fortuna em esmeraldas na selva. Para isso, Mike contratou um guia da tribo Manyoka. Mas, para descobrir a jazida de pedras preciosas, resolveu torturá-lo em sua própria aldeia, amarrando-o a um poste e fazendo-o passar por uma longa sessão de violência (é dele o cadáver decomposto). A cena, contada em flashback, mostra Logan primeiro castrando a vítima, depois arrancando um de seus olhos com a ponta da faca.

Por isso Mike e Joe estavam fugindo. Por isso os jovens da aldeia não estavam por lá. Eles saíram para caçar sim, mas foi para caçar, e matar, os invasores.

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Não demora muito para os canibais voltarem à aldeia. Joe, por sorte, já bateu as botas. Ele é devorado assim mesmo pelos índios, que abrem seu peito com uma lança (a cena é péssima, qualquer um vê o sangue falso saindo de dentro da ponta da lâmina), retirando seus órgãos internos para o banquete (cena melhor que a anteriormente citada). Os outros todos, incluindo Mike e Pat, são aprisionados. Reconhecido como o grande culpado pelo sofrimento e morte na aldeia, Logan é amarrado ao mesmo poste onde anteriormente tinha torturado o guia indígena, seu pênis é colocado para fora e sumariamente decepado com um machete (em outra cena mal feita). Quem não aguenta cenas de castração vai ter um motivo a mais para não ver essa: após feito o serviço, o canibal com o machete come o pedaço de pênis cortado!!!!!!

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Como diz o título alternativo do filme, “Faça com que Eles Morram Lentamente”. Mesmo sem nenhuma culpa na história, Rudy, Gloria e Pat também são aprisionados e irão sofrer a fúria dos índios. Estes, por sua vez, não querem matar seus prisioneiros de começo. Eles querem que o grupo sofra, como eles também sofreram, para aprender a nunca mais invadirem uma aldeia de canibais. Por isso, eles tratam o ferimento de Logan para que ele não morra por hemorragia e possa suportar mais uma dose de tortura e sadismo. Brrrrr…

Enquanto Gloria, Rudy e Pat estão presos dentro de uma gaiola de bambu dentro do rio, cobertos de sanguessugas, Lenzi mostra mais algumas cenas de animais se matando. Primeiro, uma iguana matando uma cobra. Depois, os canibais matando e comendo uma enorme tartaruga (cena que rivaliza, em mau gosto, com aquela de Cannibal Holocaust), e depois ainda os canibais matando e comendo um jacaré! Pobre mãe natureza…

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É quando Umberto Lenzi mostra porque é um péssimo diretor, repetindo um erro que já tinha cometido em Mangiati Vivi: ele corta da claustrofóbica e selvagem floresta, onde os personagens principais estão comendo o pão que o diabo amassou, para um cenário civilizado, voltando a retratar aquela desnecessária trama secundária do início do filme, em Nova York, onde o tenente Rizzo procura pela namorada de Mike Logan. Só que os mafiosos também estão à procura da moça, tentando arrancar dela alguma informação sobre o paradeiro do rapaz – ah, se eles soubesse que a essas alturas ele já está bem mais encrencado… A inclusão destas cenas no meio da trama principal tira totalmente o “clima“: num momento você está roendo as unhas ao ver os heróis aprisionados e à beira da tortura e da morte, e de repente corta para carros passando e pessoas caminhando na rua de uma cidade grande! Péssimo!

Voltando para a selva. Amanhece e os canibais resolvem levar seus prisioneiros, de barco, para outra aldeia próxima. Rudy avisa Gloria e Pat para escaparem, pois ele vai tentar distrair a atenção dos canibais. Isso acontece e todos fogem, sendo rapidamente recapturados. Só Rudy que aparentemente tem chances de fuga. Infelizmente, ele se esconde em um charco repleto de piranhas. Elas começam a devorar sua perna e o rapaz se vê obrigado a gritar, denunciando seu esconderijo. Quando os canibais se aproximam, ele está com a perna em carne-viva, meio carcomida. Os índios resolvem acabar com seu sofrimento (ou então puni-lo, pela tentativa de fuga), disparando uma seta envenenada no seu peito, matando-o instantaneamente. Para a sorte dele, logicamente, pois, como Joe, ele escapará das violentas torturas previstas para a parte final da história.

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Umberto Lenzi é um diretor sem sutilezas. Se está no roteiro que a mão de alguém tem que ser decepada, ele não economiza na violência: mostra, graficamente, a mão sendo decepada, com todo o sangue a que tem direito. Nada de violência sugerida ou implícita, nada de câmera desviando do alvo nas cenas sangrentas. A ordem aqui é ser o mais gráfico possível.

Pena que dentro dessa proposta, Lenzi também tenha colocado tanta violência contra animais. De forma sensacionalista, sádica até, o próprio Lenzi assinalou a sentença de morte dos pobres bichos. Na faixa de comentários do DVD, o ator John Morghen contou que, originalmente, a grande jiboia não queria devorar o furão no início do filme. “Mas Lenzi gritava MORE, MORE (Mais, Mais!), e então o pobre animal foi morto“, disse Morghen. Parece que Lenzi mandou alguns contra-regras atiçarem a enorme cobra com varas até ela ficar puta o suficiente para descontar no pobre furão, que, amarrado, não podia nem ao menos escapar ao seu triste destino. Um verdadeiro snuff movie animal!

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Outra cena polêmica é aquela envolvendo um porco que é esfaqueado pelo personagem de Morghen. O ator recusou-se a fazer isso, deixando Lenzi furioso. “Se eu pedisse para Robert DeNiro fazer isso, ele faria“, queixou-se o diretor, ao que Morghen respondeu: “Se você pedisse para o DeNiro, ele chutaria de volta o seu traseiro até Roma!“. A solução foi colocar um outro sujeito esfaqueando o porco, filmando closes da sua mão com a faca fazendo o serviço, e editar a carnificina com closes de Morghen fazendo uma expressão sádica, levando o espectador a acreditar que o executor é o próprio ator!

Apesar de pobres, os efeitos especiais são do mestre Gianetto de Rossi (o colaborador habitual de Lucio Fulci), e por isso temos algumas cenas bem fortes. Em uma delas, a pobre Pat tem ganchos de metal atravessados no seus seios (nada de violência implícita, a câmera mostra os ganchos penetrando e atravessandos os peitos da loira!!!), e depois é erguida por cordas penduradas nos ganchos, como acontece com Richard Harris em Um Homem Chamado Cavalo. Ela fica assim por um bom tempo até finalmente morrer pelas dores atrozes… Grotesca e sádica, a cena foi usada no cartaz japonês do filme.

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Pior destino tem outro dos personagens centrais (vamos deixar o mistério no ar), que tem o topo da sua cabeça cortado com um machete, e os canibais comem seu cérebro como se fosse pipoca!!! É a cena mais realista e nojenta de Cannibal Ferox e uma das melhores mortes do cinema de horror italiano – e esqueça aquela bobagem com o cérebro de Ray Liotta sendo frito no péssimo Hannibal, de Ridley Scott.

No fim, Cannibal Ferox é até melhorzinho do que parece, mas ainda assim é um filme bem longe de ser “clássico” ou “recomendável“. É uma produção que vale mais pela sua má fama e pelos seus exageros do que propriamente pelo resultado final…

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Lenzi consegue alguns momentos bem fortes e dramáticos. Em um deles, o personagem de Morghen consegue fugir do cativeiro e corre pela floresta. É quando avista um pequeno avião, que está sobrevoando a selva em busca do grupo desaparecido. Ele grita e acena os braços, e o espectador por um momento até se solidariza com o personagem, mesmo ele sendo um vilão filha da puta (mas ele já foi até castrado, pô!). Enfim, você chega a torcer para que o piloto enxergue o pobre bastardo e desça para salvá-lo daquele inferno verde… mas é claro que isso não vai acontecer!

Outra cena dramática é aquela em que Gloria e Pat estão aprisionadas numa caverna e, para vencer o desespero da situação, começam a cantar (lembrem-se: quem canta, seus males espanta). A triste música entoada pelas duas, em tom de lamento, sai do cativeiro e se espalha pela aldeia, onde os canibais estão preparando o festival de torturas para o dia seguinte… Mas o momento mais chocante, que realmente deixa o espectador arrepiado, é aquele em que Gloria, olhando para a condição de Pat pendurada pelos seios, reza em voz alta pedindo a Deus que faça a amiga morrer rapidamente – e pedindo também para ela mesma uma morte rápida na sequência.

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Ao mesmo tempo, Cannibal Ferox tem muitas cenas simplesmente risíveis. Um canibal que ajuda Gloria a escapar acaba caindo numa armadilha e é atravessado por estacas de madeira, mas sua interpretação de quem está morrendo é tão ruim que transforma a cena dramática em comédia. Outra bobagem é quando os canibais dão a Pat e Gloria um pedaço de carne crua. Pat até quer comer, mas Gloria a impede: “Não faça isso! Pode ser Rudy!” hahahahahaha. As cenas em Nova York também não tem qualquer objetivo na trama e soam perdidas, deslocadas, parecem estar ali apenas para deixar a duração do filme maior – e para tirar a concentração do espectador do clima de violência e selvageria que impera na selva.

O filme também tem um problema grosseiro: enquanto na maioria dos filmes do gênero os canibais são tipo “homens das cavernas“, que usam machadinhas de pedra polida e lanças, aqui eles definitivamente parecem gente normal, bronzeada e com perucas de cabelos compridos, usando enormes facões (como conseguiram no meio da selva???) e afiados ganchos de metal (vale a mesma pergunta anterior). A caracterização dos canibais é péssima, e alguns figurantes nem ao menos parecem índios! Nota zero para quem escalou o elenco secundário… Num filme de canibais, os índios pelo menos têm que parecer índios!!!

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Se Cannibal Holocaust, de Deodato, lançado dois anos antes, tenta fazer um discurso filosófico mesmo em meio ao festival de bárbara violência (lembram que no final o antropólogo interpretado por Robert Kerman olha para sua cidade “civilizada” e diz: “Eu fico pensando quem são os verdadeiros canibais…“???), Cannibal Ferox é bem menos sutil: Lenzi parece apontar o seu dedo ensanguentado para a cara do espectador e gritar: : “NÓS SOMOS OS VERDADEIROS CANIBAIS, PORRA!!!!!“. Afinal, é o “homem civilizado” que provoca toda a desgraça, ao ir mexer com aquela tribo de índios primitivos que não estava incomodando ninguém, abusando deles injustamente – como os europeus fizeram com nossos índios há 500 anos, diga-se de passagem… E chega a revoltar o espectador a ideia de que pessoas inocentes, que não tinham nada a ver com aquilo, foram aprisionadas e mortas pelos índios por culpa da cobiça e do sadismo do próprio “homem branco“. No fim, percebemos que todos somos um pouco canibais, inclusive nós, espectadores “civilizados“, mas que por algum momento nos divertimos vendo barbáries e matança em filmes justamente sobre canibalismo!

Entretanto, se a mensagem era mesmo essa, a sua execução é primária. Se era para termos pena dos canibais, Lenzi não conseguiu seu intento. A violência de Mike Logan e seu amigo Joe contra os índios dura dois míseros minutos e é contada em um flashback que pouco acrescenta à trama. Já o ataque dos canibais dura uns 40 minutos e é mostrado em riqueza de detalhes, de forma que não existe como uma pessoa normal se sensibilizar com os canibais (lembre-se, eles foram agredidos primeiro e, teoricamente, são as vítimas querendo dar “o troco“). No momento em que eles começam a matança, você fica torcendo é para que mais “homens brancos” apareçam e matem todos aqueles “índios sujos” – mostrando um racismo inacreditável, mas plenamente justificável. Logo, Lenzi acertou na mensagem, mas errou na execução…

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E é analisar o enredo do filme para ver que tudo que ele mostra já foi feito antes, e melhor. Vejam bem: uma tribo indígena dando o troco nos “caras pálidas” que abusaram deles é uma ideia vinda de Cannibal Holocaust. Uma investigação policial em Nova York que tem relação com personagens perdidos no meio da selva foi mostrada por Lenzi em Mangiati Vivi. Tartarugas e jacarés sendo mortos por nativos vêm dos filmes Cannibal Holocaust e O Último Mundo dos Canibais, e por aí vai. São tantas coincidências e chupações (o filme inclusive usa um “tema de selva” de Mangiati Vivi) que os fanáticos por filmes de canibais, como eu, costumam brincar, rebatizando o filme de Cannibal “Xerox”.

Resumindo, Cannibal Ferox é um exercício de exagero, sadismo e mau gosto, com pouco ou nenhum valor cinematográfico (o ritmo é arrastado, as interpretações apenas razoáveis e a direção é nula), mas mesmo assim interessante para os fãs de horror. É um filme que não é feito para divertir, mas sim para chocar – o próprio Umberto Lenzi assumiu, em entrevistas recentes, que não encara sua obra como “entretenimento“.

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E é exatamente isso que o filme não é. Ele não quer ser divertido. Quer pegar o espectador pelo pescoço e lançá-lo no meio do horror da selva, do “inferno verde“. Fazer com que por uma hora e meia ele se sinta dentro de um verdadeiro matadouro, anestesiado de tanto ver sangue e matança. Doentio, depravado, repulsivo e envolvente, politicamente incorretíssimo e preconceituoso até a medula, Cannibal Ferox é um filme para poucos. Não tão brilhante, nem um pouco inteligente, mas arrepiante e furioso, como os “velhos” filmes de horror costumavam ser antes dos grandes orçamentos e dos efeitos digitais por computador…

PS: Milagrosamente, desta vez não vou poder repetir meu costumeiro discurso de “quando estes filmes vão chegar aqui, e bla bla bla“. Pois é, acreditem se quiserem, mas Cannibal Ferox foi lançado em VHS no Brasil!!! Tudo bem que faz muito tempo, no fim dos anos 80, pela extintíssima Dado Group (mais morta e enterrada que as vítimas dos canibais do filme). Mas só pelo fato de podermos contar com uma pérola como essa em terras tupiniquins é que eu não perco a esperança de que um dia as distribuidoras “modernas” vão voltar a dar valor a este material e relançar tudo, para o deleite dos fãs! Cruzem os dedos, amiguinhos!!!

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8 Comentários

  1. Lucas da costa odorico

    O unico desses filmes canibais que é interessante é holocausto canibal bem feito e uma trilha sonora incrivel,apesar da velha besteiras desses italianos quererem usar mortes reais nos filmes,ah a montanha dos canibais tambem nao é ruim.Agora os outros filmes canibais são uma merda

  2. Kelly

    tinha o VHS desse filme na locadora aqui perto de casa, mas tava sempre locado :/
    lendo que tbpem tem mortes reais de animais, fico feliz de nunca ter conseguido alugar, já que eu tinha uns 10 anos, essas cenas me deixariam mal. mas não vou mentir, tenho curiosidade em assistir esse e o “canibal holocaust”, mas as cenas dos animais me dão preguiça e adiantada repulsa

  3. Marina

    Li o artigo do Canibal Holocaust e depois vim ler esse. Pouco importa se no Canibal Ferox as cenas com animais não possuem contexto enquanto que as do Canibal Holocaust possuem. Caramba, é a mesma picaretagem baixa e desesperada em chamar a atenção do espectador em ambos os casos. Os dois filmes são um lixo, apelar pra morte animal reflete a falta de talento dessa galera.
    Não sou nenhuma defensora ativista dos animais (e se fosse isso não muda em nada meu argumento), mas se tem um filme que eu gostaria de ter meu tempo de volta é Canibal Holocaust. Nem vou tentar me aventurar pelo Canibal Ferox.

  4. MORCEGO

    Um filme ótimo.
    Um dos melhores do ciclo Canibal do Cinema Italiano dos anos 1980.

    8,5 / 10,0

  5. Antonio

    Sr. Felipe, para fazer horror, não é necessário trucidar animais. Ainda que tua opinião reveste-se, intrisicamente, de caráter personalíssimo, fato é que tamanha barbárie é na verdade um reflexo das mentes doentias e idealizadoras dessa imundície de filme. O insustentável contexto aludido por você é desculpa para cenas atrozes, que em nada acrescentam a essa porcaria. Por favor, hasteie sua bandeira de “tudo é possível em nome da arte” em outro lugar. Diretores talentosos conceberam o horror, satisfazendo público e crítica e divertindo multidões, sem se sujeitar a absurdos como esse. Isso é desculpa de profissionais sem talento para venderem um produto ruim (o infame “picareta”). Ainda bem que não se produz mais bostas como essa.

    • Léo

      Nossa cara, vc deve ter lido outro artigo ou deve ter faltado em alguma aula de interpretação de texto. O autor do texto em nenhum momento justifica as cenas de morte de animais como necessárias a obra. Ele começa e termina o artigo dizendo o quanto o filme é ruim e que todo esse sadismo é completamente desnecessário. Agora me diz aonde vc leu que ele defende a tortura de animais em nome da arte? Guarda essa verborragia e arrogância ou aprende a fazer uma crítica embasada no conteúdo do texto.

      • Antonio

        O que há de verborrágico? Ou de arrogante? Expressei uma opinião em português. Não entendi.

        • Dario

          Esse António só pode ser analfabeto funcional. Vai estudar e aprenda a ler.

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