Críticas

Mundo Canibal (1977)

Náufrago… ao estilo canibal italiano de ser!

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Mundo Canibal
Original:Ultimo Mondo Cannibale/Jungle Holocaust
Ano:1977•País:Itália
Direção:Ruggero Deodato
Roteiro:Tito Carpi, Gianfranco Clerici, Renzo Genta
Produção:Giorgio Carlo Rossi
Elenco:Massimo Foschi, Me Me Lai, Ivan Rassimov, Sheik Razak Shikur, Judy Rosly

Nem todo mundo sabe, mas no ano de 1977, antes de provocar admiração (e náuseas no público) com o grande clássico Cannibal Holocaust, o popular diretor italiano Ruggero Deodato já havia excursionado para a selva com seus amigos canibais em uma produção que, acima de um filme de terror, é uma história legítima de aventura e sobrevivência em meio às adversidades. Uma produção violenta, mas que valoriza muito mais a história e o entretenimento.

Originalmente batizado de Ultimo Mondo Cannibale, esta produção recebeu inúmeros nomes diferentes conforme a época e o local de lançamento como quase todos os filmes de terror italianos deste período; entre os mais famosos estão o simplesmente Cannibal, Carnivorous, En El Infierno Cannibal, The Last Survivor, Mondo Cannibal, e, depois da explosão comercial de Cannibal Holocaust, até Jungle Holocaust, como é mais conhecido atualmente e assim será citado daqui para frente. No Brasil incrivelmente o filme foi lançado não apenas uma, mas três vezes em VHS e todas com títulos diferentes: A distribuidora Omni lançou-o como O Último Mundo dos Canibais, o selo Cine Art Pictures como Fases da Morte 8 – O Último Mundo dos Canibais e finalmente Mundo Canibal pela Century Video.

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Jungle Holocaust foi rodado em sua maioria na Malásia, e para chegar ao vilarejo mais próximo a equipe de filmagens precisava navegar por 6 horas de canoa. Assim, por várias semanas, os atores e a produção necessitavam acampar na floresta, tornando a experiência também uma aventura à parte, escrevendo mais um capítulo nas peculiares e pouco recomendáveis películas italianas sobre canibalismo.

O filme abre com um pequeno avião sobrevoando uma imensa e fechada selva, afirmando que os fatos a seguir são reais – mas, na verdade, trata-se de mais um filme de ficção obviamente. O pequeno monomotor possui quatro tripulantes: o empreendedor do ramo petrolífero Robert Harper (Massimo Foschi), seu amigo Rolf (Ivan Rassimov de Eaten Alive, Shock de Mario Bava e Os Caçadores de Atlântida também de Deodato) e o casal de guias Charlie (Sheik Razak Shikur) e Swan (Judy Rosly). O objetivo de Harper é encontrar alguns colegas em um entreposto, onde procuram petróleo e estão acampados nas redondezas.

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Todavia quando estão pousando, o avião é avariado e tudo o que encontram são barracas vazias e um rádio quebrado. Lanças encontradas fazem os tripulantes acreditarem que foram nativos os responsáveis pelo sumiço dos colegas de Harper; não tarda muito e a dupla de amigos também encontra um corpo decomposto para confirmar suas suspeitas.

Então anoitece e Charlie já não pode mais levantar voo, precisando dormir na clareira à margem dos animais selvagens e dos canibais que sorrateiramente circundam o avião. Swan é a primeira a ser fisgada quando sai para “atender ao chamado da natureza“, mas mesmo com a situação ameaçadora os três homens decidem ficar onde estão e esperam amanhecer para procurar a namorada de Charlie.

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No dia seguinte, o grupo se embrenha no mato. Agora é Charlie quem padece em uma armadilha dos nativos. Esta seqüência de eventos dá o tom acelerado desta primeira parte, pois dois dos quatro personagens principais são despachados com menos de 15 minutos de filme!

Os dois sobreviventes perambulam mais um pouco sem saber ao certo o que fazer e logo avistam nativos fazendo uma “boquinha” com o que parece ser os restos mortais de Swan. Esta cena nos revela a primeira visão dos canibais, com uma particularidade: apesar de usar nativos de verdade para a concepção da tribo canibal, Ruggero necessitou que fossem confeccionadas perucas para eles, porque seus cabelos eram curtos e bem asseados, não lembrando nem de longe o jeito desmazelado e primitivo que o diretor queria passar. Uma outra curiosidade é que na versão original italiana de cinema esta sequência era exibida com uma legenda escrita “cena real” para dar impressão que era uma pessoa de verdade sendo comida! Hahahaha… Esses carcamanos são mesmo uns fanfarrões…

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Rolf e Harper chegam ao rio, constroem uma canoa de bambus – que milagrosamente são cortados verdes e ficam amarelos na água – e enfrentam as violentas corredeiras. Para não tornar a gravação ainda mais perigosa, pois naquele tempo a italianada praticamente não utilizava dublês, o jeito era apelar para a edição na seguinte ordem: água é jogada no rosto dos protagonistas, a embarcação acerta uma pedra, Ivan Rassimov aparece boiando no leito do rio e o barquinho desce as corredeiras vazio. Ao final o uso deste recurso de baixo orçamento é engraçado por ser rústico, contudo não deixa de ser válido e realista.

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Rolf desaparece no acidente com o rio, sendo dado como morto por seu companheiro, e Harper tem que se virar do jeito que pode e caminha a esmo pela selva. Nestas andanças o homem come alguns cogumelos, tem uma dor de barriga terrível e desmaia. Ao acordar está envolto pelos canibais armados de lanças, porém tem uma sorte melhor que Swan e é levado como prisioneiro para a caverna onde vive a tribo.

Amarrado em uma pedra, o empreendedor é despido pelos nativos – homens preparem-se – e tem a cueca arrancada por outra carinha conhecida dos filmes de canibais, Me Me Lai (Man from Deep River, Eaten Alive), aqui interpretando a personagem Pulan. Depois do choque inicial do espectador masculino ao que ver o bigulim de Massimo Foschi, Harper descobre que é mantido vivo pois os selvagens pensam que pode voar, porque veio do céu, e o erguem até o alto da caverna, onde é largado várias vezes (quem diria que o bungee jump foi inventado por uma tribo canibal, hahahaha).

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Sem conseguir “voar“, Robert é mantido em cativeiro. Desesperado, subnutrido e sofrendo toda a sorte de humilhações, vê uma última chance de fugir ao atrair a simpatia de Pulan e a ingenuidade das crianças. Assim Harper consegue escapar, todavia sua segurança continua longe de estar assegurada, afinal há uma tribo selvagem atrás dele e de Pulan – e sobreviver nesta selva não será fácil.

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Com um teor extremamente menos chocante que as produções posteriores do gênero ainda, consegue colocar uma nota a mais de aventura e sobrevivência, o que deve decepcionar quem procura as doses cavalares de sadismo características de Ruggero Deodato, que imprime uma técnica excelente e um ritmo significativamente mais lento na segunda metade.

Contudo isto não significa que sua apresentação seja pouco violenta. Pelo contrário, causou um grande furor para os censores que meteram a tesoura nos fotogramas sem dó nem piedade. Por exemplo, a versão completa do filme possui 92 minutos, para ser lançado na Inglaterra foram cortados 5 minutos e nos Estados Unidos e na Austrália o corte chegou a 10 minutos! Permanecendo retalhado até 2001 quando a distribuidora Shriek Show lançou a primeira versão sem cortes do filme nos States.

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Grande parte desta polêmica é a mesma básica de Cannibal Holocaust: a violência contra animais. Só que ao menos desta vez o diretor jura de pés juntos que não teve absolutamente nada a ver com isto. Segundo Ruggero, o produtor Giorgio Carlo Rossi (que faz uma ponta como piloto do avião de resgate) no intento de “apimentar” mais a película por causa do mercado oriental filmou por conta própria cenas com crueldade com animais na selva contra a vontade do ator Massimo Foschi e do próprio Deodato, de forma que ficou do jeito do produtor. Como foram inseridas após as filmagens, elas soam gratuitas e totalmente fora de contexto. Vendo o filme trinta anos depois de sua realização, estas partes não são tão ofensivas para quem já é acostumado com esta categoria de película, por se tratar na maioria de “animal versus animal“, exceção feita ao crocodilo que é esfolado vivo com o máximo de grafismo.

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O roteiro de Tito Carpi, Gianfranco Clerici e Renzo Genta é bastante preocupado com a continuidade (cortesia do responsável pela “amarração” da história, o futuro diretor Lamberto Bava) e com a veracidade que é passada para o público. Por exemplo, ao contrário da “barba eterna” do protagonista Jack do seriado Lost, Robert Harper passa de um homem bem apessoado a um trapo humano em questão de dias. Avesso ao personagem de Tom Hanks no filme Náufrago, a solução para o homem é tão simples quanto perigosa: voltar para o avião que o levou para o inferno.

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Este também tem o foco um pouco diferente dos demais filmes de canibais. Fazendo uma comparação com Cannibal Holocaust em que a violência é provocada pelos próprios personagens principais, aqui Harper é um mero espectador, uma testemunha. A história também prima por ser ambientada na selva em sua totalidade evitando a quebra da correspondência com o protagonista. Neste aspecto a força do elenco é fundamental – pois são somente cinco personagens principais – e todos os méritos vão para Massimo Foschi, que, para uma produção com poucos diálogos, fez um trabalho incrível.

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A trilha sonora de Ubaldo Continiello (que já havia trabalhado com Deodato no policialesco “Live Like a Man, Die Like a Cop“) é muito boa e contrasta os momentos de calmaria e suspense com precisão, embora não tenha o mesmo impacto de Riz Ortolani (compositor dos filmes Mondo de Jacopetti e Cannibal Holocaust) fechando o que, resumindo, é um filme mais inventivo, intelectual e memorável do que o habitual, para ser conhecido, visto e revisto.

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O sucesso de Jungle Holocaust pavimentou a via do diretor Ruggero Deodato para seus próximos e importantes projetos, sendo fundamental para o cinema italiano do final dos anos 70 até o início dos 80, além de servir de “inspiração” para outra interessante produção Os Vivos Serão Devorados/Eaten Alive do diretor Umberto Lenzi. Inspiração entre aspas porque Lenzi pegou sem autorização cenas inteiras do trabalho de Deodato para enxertar em seu filme e o resultado é picaretagem pura, mesmo que Lenzi afirme que comprou de Giorgio Carlo Rossi.

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