Críticas

Comunhão (1976)

Comunhão justifica seu culto e merece maior reconhecimento, do que ser ‘apenas’ a estreia de Brooke Shields!

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Comunhão
Original:Alice Sweet Alice / Comunnion
Ano:1976•País:EUA
Direção:Alfred Sole
Roteiro:Rosemary Ritvo e Alfred Sole
Produção:Richard K. Rosemberg, Alfred Sole e Marc G. Greenberg
Elenco:Linda Miller, Mildred Clinton, Paula E. Sheppard, Niles McMaster, Jane Lowry, Rudolph Willrich, Michael Hardstark, Alphonse DeNoble, Brooke Shields, Tom Signorelli, Lillian Roth

Cultuado precursor do slasher, obviamente inspirado em Psicose, e profundamente anticatólico. Lembrado por muitos por ser a estreia no cinema de Brooke Shields, então com apenas onze anos.
Numa comunidade católica de New Jersey, em 1961 (segundo se deduz por um calendário que é mostrado em uma cena), todos os fiéis se preparam para a primeira comunhão de um grupo de crianças. No entanto a cerimônia é interrompida com a descoberta do cadáver de uma das garotas a serem comungadas, a pequena Karem (Brooke Shields), as desconfianças recaem sobre a irmã mais velha da vítima, Alice (Paula E. Sheppard), uma criança com comportamento beirando a sociopatia.

Alice costuma se isolar no porão do prédio onde mora, onde mantém seu mundo imaginário. O assassinato da irmã traz para o lar seu pai, Dom (Niles McMaster, do clássico B Bloodsucking Freaks), que está separado de sua mãe Catherine (Linda Miller). Constantemente brinca em pregar sustos nas pessoas usando uma máscara de plástico translúcida (muito comum na época de Halloween nos EUA na década de 1950) e uma capa de chuva amarela, que faz parte da vestimenta dos colegiais locais. Alice também é constantemente assediada pelo locatário do prédio, o escroto Sr. Alphonso (Alphonse DeNoble), que inclusive, que se supõe por um diálogo do filme, já teria violentado a garota anteriormente.

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As coisas pioram quando a tia de Alice, Anne (Jane Lowry), é atacada nas escadarias do prédio onde a família mora, levando facadas nas pernas. A mulher sobrevive e denuncia a garota para as autoridades, já que quem a atacou vestia a mesma fantasia que a garotinha usa para assustar os outros.

Enquanto Alice acaba sendo internada em um hospital psiquiátrico, seu pai sai em busca da verdade. Quem poderia estar por trás dos crimes? Qual a real motivação?

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O filme deixa bem transparente certos preconceitos católicos, principalmente quanto a Alice, que além de pais separados, é rejeitada pela tia por ter sido o motivo do casamento de sua mãe, que estava grávida dela – uma heresia para o católico mais ortodoxo.

Lançado como Alice Sweet Alice, o filme acabou logo sendo relançado como Comunnion. Isto não impediu que o filme fracassasse nas bilheterias, ganhando status de cult apenas posteriormente. No Brasil chegou a sair em vhs por distribuidoras como Mac Vídeo e Opção Vídeo, ambas colocando em destaque o nome de Brooke Shields, que morre logo no começo do filme!

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Segundo e mais famoso dos quatro filmes realizados pelo diretor Alfred Sole. Seu primeiro trabalho foi o pornô Deep Sleep (1972), que conta no elenco com ícones do gênero da época: Jamie Gillis e Harry Reems. Depois Sole acabaria trabalhando como designer de produção de vários filmes, o que faz sentido, tal o cuidado visual e com os detalhes que demonstra aqui.

O roteiro tem alguns furos: como começam a cerimônia de comunhão e ninguém sai para procurar a Karen?, a prima de Alice, Angela, desaparece da narrativa sem deixar rastros, entre outros pormenores.

No elenco o destaque mesmo vai para atriz que interpreta Alice, Paula E. Sheppard, que apesar de interpretar uma garotinha de 12 anos, a atriz já contava com inacreditáveis 19 anos. O diretor descobriu a moça numa escola de dança. Sheppard trabalharia penas em outro filme, o esquisito e também cultuado Liquid Sky (1982) de Slava Tsukerman. Apesar de contar com fã-clubes, inclusive no facebook, Paula E. Sheppard é daquelas pessoas com biografia obscura e com informações conflitantes. Depois dos dois filmes, parece, que ela chegou a filmar um musical que acabou engavetado, que se chamaria Tam Lin, e chegou a fazer testes para o filme A Tribo da Caverna do Urso, no papel que acabaria sendo de Daryl Hannah. Sheppard acabaria juntando os trapos com o namorado e ambos se mudando para Seattle dando fim assim a sua carreira artística.

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Outra figura de destaque de Comunhão é o tarado Sr. Alphonso, o locatário do prédio, um homem obeso que vive entre gatos, escutando música clássica, num apartamento imundo. Alphonse DeNoble trabalhou apenas aqui e em dois filmes de John M. Reed (o já citado Bloodsucking Freaks e Night of the Zombies). Segundo Alfred Sole, DeNoble, na tal vida real, gostava de se disfarçava de sacerdote, para aplicar golpes em viúvas em cemitérios, mas seu emprego mesmo era de segurança em um bar gay de New Jersey. O ator acabaria falecendo em 1978.

No meio do caminho entre Black Christmas (1974) e Halloween (1978), Comunhão é um digno precursor do slasher, e como tal, também é um filho bastardo do giallo. Além da óbvia influência de Psicose – Alfred Sole se declara um fã incondicional de Hitchcock -, a obra tem referências a Inverno de Sangue em Veneza (a ideia das capas de chuvas vem diretamente dessa fonte).

É de se lamentar que o diretor não tenha continuado a explorar mais filmes do tipo, pois mostra mão firme e constrói cenas realmente interessantes.

Comunhão justifica seu culto e merece maior reconhecimento, do que ser ‘apenas’ a estreia de Brooke Shields. Fãs do gênero ficarão satisfeitos.

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2 Comentários

  1. Sérgio Coruja

    Proto-slasher que merece ser descoberto!

  2. Luísa

    Gosto muito desse filme. Quando era adolescente, sempre passava um canal local aqui do sul.

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