Críticas

Shocking Dark (1990)

Mattei e Fragasso plagiam Aliens e O Exterminador do Futuro em trash impagável!

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Shocking Dark
Original:Shocking Dark / Terminator II
Ano:1990•País:Itália
Direção:Bruno Mattei
Roteiro:Claudio Fragasso
Produção:Franco Gaudenzi
Elenco:Christopher Ahrens, Haven Tyler, Geretta Geretta, Fausto Lombardi, Mark Steinborn, Dominica Coulson, Clive Riche, Paul Norman Allen, Cortland Reilly

Se o mundo fosse um lugar justo, o filme Shocking Dark, do diretor italiano Bruno Mattei, jamais seria lançado, porque o americano James Cameron, revoltado com o plágio descarado de seus filmes Aliens, O Resgate e O Exterminador do Futuro, iria processar todos os envolvidos no projeto, do diretor Mattei ao roteirista Claudio Fragasso, até o produtor Franco Gaudenzi. Além, claro, de proibir a distribuição do filme em qualquer parte do mundo. É só lembrar que o genial Nosferatu, feito na Alemanha dos anos 20, quase teve seus originais destruídos por ser uma adaptação “não-oficial” do livro Drácula, de Bram Stoker!

Felizmente, o mundo não é um lugar justo! Porque se fosse, seríamos privados da experiência única que é assistir a este trash de primeira linha chamado Shocking Dark. O habitualmente ruim Bruno Mattei se superou, fazendo um de seus piores (e consequentemente mais engraçados e divertidos) filmes, com um péssimo elenco, produção merreca e um roteiro que não se contenta em copiar descaradamente os dois filmes anteriormente citados, mas também termina sem pé nem cabeça, envolvendo viagens no tempo e efeitos especiais de quinta categoria! Resumindo: uma maravilha – desde que você entre no espírito da brincadeira e não leve nada a sério.

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Shocking Dark é tão picareta que foi lançado com o nome Terminator 2 (O Exterminador do Futuro 2), isso em 1989, dois anos antes de James Cameron fazer a sequência oficial com Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton e Robert Patrick. Diz a lenda que o próprio Cameron, ao saber da picaretagem, entrou em contato com a produtora, a Fulvia Films de Franco Gaudenzi, exigindo a troca do nome – o filme passou, então, a se chamar Shocking Dark. Também teria impedido o lançamento da obra nos Estados Unidos – lá ele não foi lançado nem nos cinemas, nem em vídeo e muito menos em DVD.

Na verdade, esse lance do Cameron é lenda mesmo. Acontece que na Itália não existiam leis de direitos autorais, por isso os produtores podiam dar qualquer nome aos seus filmes (tipo, filmar um peixe no aquário e lançar como Tubarão 5 sem medo de processo). Aproveitando esta farra, o filme de Mattei saiu com o nome Terminator 2 apenas na Itália. No mercado internacional, foi usado o título Shocking Dark justamente para evitar processos e incomodações – até porque a Fulvia Films mal tinha dinheiro para fazer filmes, imagina para pagar processos milionários!

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Além do mais, se James Cameron realmente tivesse visto o filme, aí mesmo é que encrencaria com a italianada: acontece que o roteiro de Claudio Fragasso (que assina, como de costume, “Clyde Anderson“) é praticamente uma cópia, cena a cena, de Aliens, O Resgate, que Cameron dirigiu em 1986! Cópia mesmo, ao ponto de ter as mesmas situações e até personagens idênticos aos do filme americano! Algo vergonhoso, claro, mas que se torna muito engraçado da forma como foi feito, fazendo-nos rir da cara-de-pau dos envolvidos no projeto, que Mattei assina usando seu pseudônimo mais popular: Vincent Dawn. Já a edição ele assina como “J.B. Matthews“.

Só nunca entendi porque o filme não foi lançado nos Estados Unidos. Se bem que é difícil de achá-lo até nas locadoras brasileiras (foi lançado pela extinta Condor Vídeo).

Shocking Dark/Terminator 2 começa com cenas de um único soldado (a produção devia ser paupérrima), armado e com uma máscara anti-radiação, marchando em frente a uma placa que diz: “Limite da cidade de Veneza“. Em seguida, enquanto rolam cenas de prédios em escombros e do mesmo soldado marchando para lá e para cá, um narrador nos informa que uma nuvem tóxica de poluição destruiu completamente a cidade italiana de Veneza, matando todos os seus habitantes e transformando-a em um local inabitável. “Veneza, agora, é uma cidade morta“, declara. O filme não explica, mas parece que a história se passa em 2020 – ao menos é o que dizem alguns sites na Internet.

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Logo, ficamos sabendo que uma poderosa empresa chamada Tubular Corporation (uma espécie de versão pobre da Weyland/Yutani, da série Alien) construiu um enorme túnel subterrâneo que liga a cidade-fantasma de Veneza à civilização. Ali, cientistas da companhia fazem experiências e buscam uma forma de despoluir a cidade arrasada, tornando-a novamente habitada. É quando a central operacional que fica nos limites de Veneza recebe uma mensagem de SOS vinda do tal laboratório subterrâneo. Pelas câmeras e via sinais de rádio, testemunham soldados e cientistas desesperados gritando por socorro, enquanto são agarrados e mortos por estranhas criaturas. Recebem, também, uma gravação do cientista que chefiava as pesquisas, o dr. Henry Raphelson, que diz: “Estamos todos condenados à morte! Os estudos que nos levaram a esta conclusão começaram há uma semana, assim como o misterioso fenômeno“. Neste momento, quando o cientista vai explicar tudo, a gravação se encerra prematuramente.

Para investigar o que está acontecendo, e resgatar cientistas e material de pesquisa do laboratório, é designada uma equipe de bem-treinados mercenários, que se auto-denominam “Mega Force“. Na verdade, eles são uma caricatura: uns manés usando capacetes de motoboy e jaquetinhas afrescalhadas, levando como armamento umas espingardas de quinta categoria, ao invés de metralhadoras ou fuzis! São, também, uma cópia xerox dos soldados do filme Aliens: por exemplo, o comandante Dalton Bond (Mark Steinborn) é um plágio do comandante Hicks, interpretado por Michael Biehn no filme de James Cameron, e há até uma soldado machona, Kuster (Geretta Giancarlo Field, de Ratos, também de Mattei), que plagia a personagem Vasquez (Jenette Goldstein), de Aliens.

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Acompanham ainda o grupo uma cientista, Sarah (a gatinha Haven Tyler, que só fez este filme), uma versão italiana da tenente Ripley interpretada por Sigourney Weaver, e um representante da Tubular Corporation (Christopher Ahrens), que logo se revela o vilão da trama – exatamente como Carter Burke (interpretado por Paul Reiser), representante da Weyland/Yutani em Aliens! O mais impagável é o nome do personagem de Ahrens: Samuel Fuller! Exatamente, o mesmo nome do famoso cineasta americano!!!

O grupo percorre o enorme túnel subterrâneo durante todo o filme, o que certamente se revela uma alternativa para os produtores economizarem dinheiro, já que o cenário é sempre igual – um enorme corredor escuro e repleto de vapor e tubulações de todos os tamanhos. Logo no início, os mercenários topam com o dr. Drake, um dos cientistas responsáveis pela pesquisa que estava sendo conduzida no laboratório, braço-direito do dr. Raphelson. Entretanto, Drake não os recebe de forma amigável, mas sim a tiros. Quando ele é aprisionado pelos mercenários, acontece uma das cenas sem explicação do filme: Drake abre a boca e emite um grito gutural, tipo aquele dos possuídos em Invasores de Corpos, inutilizando os soldados e agarrando um deles, que utiliza como escudo para fugir.

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Quando o restante do grupo se recupera e sai atrás do vilão, encontra o soldado sequestrado preso a um enorme casulo ao lado de outros cadáveres decompostos. “Mate-me“, suplica a vítima, antes que uma enorme mão monstruosa arrebente seu peito (por que será que isso me lembra Aliens?). Quanto a Drake, pode esquecer: ele desaparece do filme a partir daqui, sem qualquer explicação. É então que os heróis descobrem que estão sendo perseguidos por criaturas monstruosas. Estas são pessimamente mal-realizadas, através de fantasias de borracha que fariam feio em qualquer festa de Halloween, uma espécie de mistura dos monstros de A Ilha dos Homens-Peixe, de Sergio Martino, com a criatura de O Monstro do Pântano, de Wes Craven, incluindo uma bocarra enorme e olhos vermelhos que não se movem. Mattei sabia que os efeitos eram precários, e por isso prefere filmar apenas detalhes dos monstros, tipo a boca babando gosma ou os olhos, evitando mostrar os monstros de corpo inteiro para não passar vergonha!

A partir de então, Shocking Dark vai seguindo fielmente o roteiro de Aliens, O Resgate, como se Claudio Fragasso tivesse pegado o roteiro de Cameron e apenas mudado os nomes. Por exemplo, os soldados encontram a única sobrevivente da equipe, uma garotinha chamada Samantha (Dominica Coulson, numa cópia da garotinha Newton, interpretada por Carrie Henn em Aliens), que é adotada por Sarah como parceira (xerox de Aliens). Também há um plágio da cena com o detector de movimento em Aliens, que acusa vários alienígenas aproximando-se do local onde os heróis estão. A cena foi reproduzida praticamente do mesmo jeito, com um soldado segurando o detector e gritando apavorado: “Eles estão se aproximando a 10 metros, 9, 8 metros, 7, 6, 5 metros!!! Meu Deus! Eles estão em cima de nós!!!“. Outra cena totalmente chupada é aquela em que Sarah e Samantha são trancadas em uma sala com um dos monstros por Samuel Fuller, que desliga a câmera de vigilância do local – Burke fez a mesma coisa com Ripley em Aliens!!!

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Não bastasse tanta chupação, o roteiro de Fragasso perde totalmente a coerência da metade para o final, quando os heróis que sobrevivem aos ataques da criatura finalmente chegam ao laboratório. Lá, uma mensagem gravada mostra uma moça bem humorada “entregando o ouro para o bandido“, falando a supostos “investidores” sobre como a Tubular Corporation envenenou propositalmente Veneza, destruindo-a para que pudesse resgatar os bens anos mais tarde e despoluir a cidade, cobrando muito caro por isso!!! A gravação termina com a moça pedindo “sigilo absoluto” para os “investidores“. Ora, pode haver algo MENOS SIGILOSO do que deixar uma gravação no local contando toda a verdade sobre a destruição de Veneza??? Como é que a poderosa Tubular Corporation não se livrou desta gravação, que poderia servir de prova para acusá-la em qualquer julgamento????

Isso sem contar a verdade sobre os monstros, que nem são alienígenas, mas sim fruto de uma bizarra experiência genética conduzida pela Tubular e que nunca é bem explicada pelo roteiro. Aparentemente, os cientistas criaram um vírus ou micro-organismo que se espalha pelo ar e precisa de hospedeiros humanos; uma vez dentro do organismo, ele “transforma” pessoas em novas criaturas – os tais monstros. Fuller explica isso da forma mais forçada possível: “É como um disquete, você insere no computador e ele toma vida“. “Mas que computador?“, questiona Sarah, ao que o macabro agente da Tubular Corporation responde: “Nós!“.

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Quando toda a “verdade” é descoberta, Shocking Dark pára de plagiar Aliens e se torna uma cópia forçada de O Exterminador do Futuro: o misterioso Samuel Fuller se revela um cyborg indestrutível, que diz: “Eu sou a criação mais perfeita da Tubular Corporation“, antes de começar a matar todo o restante do elenco. Só não consigo entender porque ele não matou todos eles ANTES que descobrissem a verdade! O filme se transforma em um enorme corre-corre, com Schwarzene… ops!, Fuller perseguindo Sarah e Samantha pelos corredores escuros, depois de acionar a auto-destruição do túnel – o que provavelmente acarretará na contaminação do mundo inteiro, com o tal micro-organismo se espalhando pela atmosfera.

Mattei ainda faz questão de incluir uma cena onde Sarah atinge o rosto de Fuller com uma garrafa quebrada, só para poder representar o cyborg com metade da cara robótica, tipo Schwarzenegger no final de O Exterminador do Futuro. E quando você acha que a coisa não pode ficar mais maluca, a contagem da auto-destruição do túnel chega ao fim e, aparentemente, toda a humanidade vai ser destruída, inclusive a dupla de heroínas. Mas então, miraculosamente (e forçadamente), Sarah e Samantha encontram uma cápsula do tempo (É SÉRIO!!!) criada pela Tubular Corporation, inclusive com a mesma mensagem gravada, onde a moça bem humorada anuncia: “Bem-vindos à cápsula para viagens temporais da Tubular Corporation“, e depois explica todo o funcionamento do negócio, para que as duas mocinhas possam voltar para a década de 80!

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Calma lá!!! Túneis subterrâneos, vírus mutantes, cyborgs indestrutíveis e agora cápsulas do tempo??? Estarei enganado, ou esta Tubular Corporation é uma verdadeira “Organizações Tabajara“, responsável pelos mais diversos e fantásticos produtos????

Voltando à viagem no tempo: logo, Sarah e Samatha estão na Veneza do século 20 (nenhum sinal da cápsula do tempo…), antes da sua destruição pela nuvem tóxica. Quando acham que estão seguras, entretanto, aparece novamente o robótico Fuller, que diz: “Havia duas cápsulas! Eu entrei na outra!“. hahahaha. O cyborg só não explica como sabia para qual ano Sarah e Samantha haviam viajado. E Shocking Dark termina com o robô malvado perseguindo as mocinhas na Veneza do presente! Uma maravilha!

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Qualquer pessoa sensata vai concordar que o roteiro é uma completa balbúrdia, como se Fragasso tivesse anotado várias ideias em papéizinhos (“cyborg malvado“, “laboratório subterrâneo“, “aliens“, “viagem no tempo“), e então sorteado alguns para tentar escrever uma história. Não bastava a aventura à la Aliens, não bastava a versão capenga do “Exterminador“, ainda teve que inventar a viagem do tempo, algo de arrancar os cabelos de tão forçado e incoerente, que nos deixaria furiosos se o filme fosse um “blockbuster sério“, mas que se encaixa perfeitamente nesta bomba de Mattei.

Se a edição do filme (de Mattei) é vigorosa, e o trabalho de câmera (de Richard Grassetti, um colaborador habitual de Mattei) é bem profissional, Shocking Dark não escapa de uma sucessão de furos e erros à la Ed Wood, aquelas bobagens que fizeram a fama do nosso amado Bruno como um dos piores diretores da história. Uma destas cenas impagáveis é o ataque de vários monstros aos heróis. Dá para ver que, mais de uma vez, Mattei utiliza as mesmas cenas dos monstros levando tiros, para dar a ideia de que existem “dezenas” de criaturas. Só a cena onde um monstro leva um tiro e bate contra uma parede é repetida pelo menos CINCO vezes, como se fossem criaturas diferentes! hahahaha. Outra falha engraçadíssima é a cena em que Fuller e Sarah conversam. No plano aberto, percebemos que Fuller está à esquerda e Sarah à sua direita… porém, nos closes de Sarah falando, ela aparece virada tanto para a esquerda quanto para a direita!!! hahahahha

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Shocking Dark tem ainda momentos verdadeiramente ruins, completamente fora do contexto. Um deles é aquele que a soldada machona, Kuster, está investigando um corredor acompanhada por outro soldado. Ela então pára e tira do decote uma foto da antiga Veneza, antes da destruição, e entrega ao colega. Depois diz: “Agora vamos continuar nossa inspeção“. Uma cena até interessante, mas que não poderia acontecer em hora mais imprópria, como se, cercados por criaturas monstruosas, dois soldados iriam baixar as armas para trocar fotos!!! Outro momento pavoroso é aquele em que o comandante Bond entra em contato com o quartel-general via rádio e diz que já perdeu quatro soldados. A base pede se ele quer que sejam enviados reforços. “Não é necessário!“, responde o comandante, todo calmo, apesar de estar cercado por centenas de criaturas alienígenas e ver seus homens morrendo como moscas!!!!

Um outro detalhe impagável a se considerar é que, lá pelas tantas, você vai começar a pensar que já ouviu a trilha sonora do filme em algum lugar… Claro! Isso porque além da trilha composta por Carlo Maria Cordio, Mattei utilizou, sem a menor vergonha na cara, trechos de músicas do grupo Vangelis – aquele mesmo que fez a música de Blade Runner. Sem pagar nem um troco pelos direitos autorais, obviamente! Dá para aguentar esse cara? Sempre é bom lembrar que Bruno adora aprontar dessas… Em seu Predadores da Noite, ele já tinha usado a mesma trilha sonora composta pelo grupo Goblin para Dawn of the Dead, de George A. Romero!!! O diretor também aproveita para se “auto-plagiar“, colocando na montagem cenas de explosões retiradas de um outro filme seu rodado no mesmo ano, Strike Commando 2. Chega a ser engraçado que a explosão aconteça em um túnel subterrâneo, mas o filme mostre uma base ao ar livre explodindo!!!

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Resumindo, Shocking Dark é um daqueles filmes impagáveis, que certamente rivalizam com Plan 9 From Outer Space pelo título de “pior de todos os tempos“. Mas pelo menos é um “pior” divertido, esdrúxulo e muito engraçado, ainda mais para quem já viu Aliens e Terminator e pegar todas as “referências” (chame de plágio). Ironicamente, este foi o último filme de Mattei em parceria com o roteirista Claudio Fragasso. Dizem as más línguas que até mesmo Fragasso ficou furioso com o resultado capenga do filme, preferindo encerrar sua parceria de praticamente 10 anos com o péssimo Bruno… Amigos, amigos. Negócios à parte!

Infelizmente, o título original de “Terminator 2″ e o cartaz que imita vergonhosamente o cyborg de Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro (sendo que não há sequer cena parecida no filme) limitaram bastante a carreira da obra mundo afora, graças ao medo de processo por excesso de malandragem. Consta que o filme nunca foi devidamente lançado nos Estados Unidos. Mesmo no restante do mundo é um tanto difícil de ser encontrado: Shocking Dark foi filmado em 1988, finalizado em 1989, mas lançado comercialmente apenas em 1990. No Brasil, saiu em vídeo pela distribuidora Condor, sem chamar muito a atenção (e com crítica demolidora no Guia de Vídeos Nova Cultural).

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Hoje, não existem cópias decentes em circulação, e o mais perto disso é um LD lançado no Japão, com imagem escura e legendas fixas. Como a fotografia originalmente já era bem escura, o espectador é obrigado a forçar a vista para tentar enxergar alguma coisa – sem sucesso, na maior parte do tempo. E só podemos sonhar com uma versão decente e remasterizada da obra, que até hoje não saiu sequer em DVD!

O irônico é que Shocking Dark também marca o canto de cisne da indústria italiana da picaretagem, já que, a partir dos anos 90, começou a ficar cada vez mais difícil produzir esse tipo de filme no país, e os diretores de cinema fantástico tiveram que ou se aposentar, ou trabalhar na TV italiana (fazendo dramas históricos e aventuras inofensivas, bem diferentes do que se produzia até então).

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O heróico Mattei continuou na ativa, e nos anos 2000 até tentou liderar um revival do cinema exploitation italiano: com produção de Giovanni Paolucci e sua La Perla Nera Productions, o diretor fez mais de 15 filmes de gênero num curto espaço de tempo, todos filmados em vídeo digital e com um orçamento ainda menor do que aqueles que tinha nos anos 1980.

Ele até tentou ressuscitar filões bem-sucedidos do passado, como filmes de zumbis (L’isola dei Morti Viventi e Zombies – The Beginning, respectivamente em 2006 e 2007), de canibais (Land of Death e Mondo Cannibale, em 2003 e 2004) e até de mulheres na prisão (The Jail: The Women’s Hell, 2006), mas os tempos eram outros, mais frescos, e a estratégia não deu muito certo.

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Bruno Mattei, o Ed Wood italiano, morreu em 21 de maio de 2007, vitimado por um tumor cerebral. E o mundo tornou-se um lugar muito menos divertido desde então.

OUTRAS PICARETAGENS DE BRUNO MATTEI

Fazer filmes é fácil, pelo menos para o cineasta italiano Bruno Mattei. Ele não se contentava em plagiar filmes de sucesso feitos nos Estados Unidos: muitas vezes ele copiava LITERALMENTE estes filmes, apenas mudando o nome dos personagens, mas mantendo as situações e diálogos. Isso quando não roubava cenas de produções alheias para fazer seus filmes. Se Shocking Dark é uma vergonhosa mistura de Aliens e O Exterminador do Futuro, Mattei já aprontou várias outras picaretagens na sua carreira. Confira algumas delas:

Cop Game (1988)COP GAME (idem, 1988)
Neste filme policial, que tem um vergonhoso plágio de Apocalypse Now (inclusive com um excêntrico coronel que é uma cópia xerox do Major Kurtz, interpretado por Marlon Brando), Mattei usa cenas de arquivo do filme Ark of the Sun God, uma cópia das aventuras de Indiana Jones dirigida por Antonio Margheritti em 1983. Não tem como não perceber, pois esta cena (uma perseguição de automóveis) é a melhor do filme, bem filmada e coreografada, completamente diferente do restante do material feito por Mattei. O problema é que o diretor não foi tão hábil na edição, e quem passar em câmera lenta estas cenas enxertadas, poderá ver o ator David Warbeck (astro do filme de Margheritti) dirigindo um dos carros em alguns takes!!! Pior: mais de 40% das cenas de Cop Game são reaproveitadas de filmes anteriores de Mattei, como Robowar e Strike Commando 2.

 

Robowar (1988)ROBOWAR – A CAMINHO DO INFERNO (Robot da Guerra, 1988)
Uma cópia xerox do filme Predador, com Arnold Schwarzenegger, lançado em 1987. Nesta tralha, um grupo de mercenários, liderados por Schwarzen… ops, Reb Brown, é enviado à selva para resgatar prisioneiros de guerra. Mas são obrigados a enfrentar uma criatura assassina, que começa a matá-los um a um. A diferença é que não é uma criatura alienígena, como em Predador, mas sim um androide programado como arma de guerra, feito com os restos de um soldado morto (aproveitando para chupar também Robocop). Os personagens são cópias daqueles mostrados em Predador e algumas cenas são repetidas com total fidelidade, como aquela em que o guia oriental (um índio, no filme americano) abandona as armas e o grupo para enfrentar o Alien… ops, robô, no braço! O filme nunca foi lançado nos Estados Unidos, nem em vídeo nem em DVD, talvez porque os produtores tivessem medo de processos por plágio…

Strike Commando 2 (1988)COVIL DA MORTE (Strike Commando 2, 1988)
Nesta continuação do seu “sucesso” (hahahaha), Mattei dispensa o galã Reb Brown e coloca como herói o igualmente talentoso (hahahaha) Brent Huff. A picaretagem estende-se ao título, já que o nome original da produção era Trappola Diabolica, sendo rebatizado como seqüência de Strike Commando para o lançamento nos Estados Unidos. Além de copiar Rambo 3 sem dó nem piedade, o filme ainda chupa, sem medo de ser feliz, duas cenas de Os Caçadores da Arca Perdida: aquela que a mocinha faz uma competição de “quem bebe mais” com um grandalhão e a cena em que um inimigo aparece brandindo uma espada, apenas para ser abatido rapidamente com um tiro de Huff!!! Avisem Spielberg para que ele acione seus advogados!

 

 

Tubarão Cruel (1995)TUBARÃO CRUEL (Cruel Jaws, 1995)
Picaretagem tem limite, mas neste filme feito para a TV italiana Mattei se superou (tanto que usou o pseudônimo “William Snyder” para se esconder). Ele fez uma cópia do Tubarão, de Spielberg, mas praticamente não filmou nenhuma cena com o bicho ou debaixo d’água: todas as cenas aquáticas e de ataque de tubarão foram tiradas de outros filmes, principalmente O Último Tubarão (1981), de Enzo G. Castellari, do qual Mattei utilizou mais de 60% das cenas (inclusive uma competição de regatas). Mas também há cenas de Tubarão 1 e 2 e de Deep Blood, de Joe D´Amato. O resultado é vergonhoso, mas muito engraçado, principalmente quando um ator do filme de Mattei cai na água e as cenas do tubarão atacando mostram uma outra pessoa completamente diferente!

 

Zombi 3 (1988)ZOMBIE 3 (idem, 1987)
Mattei foi chamado às pressas para assumir a produção rodada nas Filipinas, depois que o diretor italiano Lucio Fulci abandonou as filmagens. Fulci filmou menos de 15 minutos, que mal foram aproveitados na edição. Mattei dirigiu todo o resto (Claudio Fragasso chegou a filmar ele mesmo algumas cenas), mas resolveu manter o crédito da direção para Lucio Fulci, para que um público maior fosse aos cinemas! Claro que Fulci ficou puto quando descobriu a picaretagem, pois não tinha mais nada a ver com o filme! E realmente, há muito pouco do mestre italiano neste trash, e bastante de Mattei/Fragasso (ou seja, todo tipo de abobrinhas e cenas ridículas, tipo a clássica cabeça voadora de zumbi que sai da geladeira!!!!!).

 

Predadores da Noite (1981) (15)PREDADORES DA NOITE (Hell of the Living Dead, 1981)
Neste que é um de seus primeiros filmes de horror, o diretor ainda estava um tanto “contido” nas picaretagens. Por isso, “apenas” usou, sem qualquer autorização, a trilha sonora da banda Goblin composta para os filmes Dawn of the Dead, de George A. Romero, e Alien Contamination, de Luigi Cozzi, aproveitando-a sem qualquer cerimônia durante todo o seu filme. Também chupou cerca de 10 minutos com cenas de um documentário feito na Nova Guiné, mostrando cadáveres reais, nativos comendo vermes e cenas com todo tipo de animais selvagens (macacos, aves…), e editou-as junto às suas cenas, tentando fazer o espectador acreditar que o filme realmente se passa na Nova Guiné!!! As cenas que mostram uma tribo de índios são todas tiradas do tal documentário: o diretor usou apenas meia dúzia de figurantes vestidos como nativos para as cenas filmadas mais de perto! hahahahaha

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1 Comentário

  1. Marcos

    kkkkkkkkk….
    Pensei…Achei que era uma critica de repudio ao Matei ate ler…
    “Felizmente o mundo não é um lugar justo”…

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