Críticas, Entrevistas

Embaraço (2015)

É um filme mais do que necessário, tanto pela discussão social, quanto pela grande obra que efetivamente é. Uma belíssima experiência visual

Embaraço (2016) (5)

Embaraço
Original:Embaraço
Ano:2016•País:Brasil
Direção:Fernando Rick
Roteiro:Fernando Rick
Produção:Tania Gonçalves e Vivian Stychnicki
Elenco:Amanda Pereira, Jacqueline Cordeiro, Dudu Pelizzari

Na língua portuguesa o substantivo masculino ‘embaraço’ significa “qualquer fato ou coisa que dificulta ou impede; dificuldade, complicação, atrapalhação”. Embora pouca gente saiba a palavra também serve para designar a condição da gestante. Na língua espanhola a tradução é direta: gravidez significa embarazo. É justamente sobre uma gravidez indesejada, e tentativas fracassadas de alcançar um aborto, que trata esse intenso curta-metragem. Um legítimo soco no estômago no espectador.

Dias depois de uma noite de sexo Angélica (Amanda Pereira) descobre que está grávida. Desesperada vai tentando vários métodos para o aborto. Desde a famigerada pílula de Cytotec, um remédio abortivo e proibido no Brasil, até o cabide de roupa transformado em gancho para tentar extrair o feto, um dos métodos mais suicidas. O tempo passa e ela vai perdendo sangue e ficando cada vez mais debilitada. A câmera registra o desespero e o inferno físico da personagem.

Direto, simples e brutal, Embaraço é uma obra para causar desconforto, tanto que, em sua exibição no último Fantaspoa, teve uma garota que desmaiou na plateia. E se torna ainda mais relevante por tratar de um tema tabu: o aborto.

Sem concessões, ao mesmo tempo em que de uma concisão absoluta, o que salta aos olhos em Embaraço é o domínio técnico e narrativo do diretor Fernando Rick, em seu melhor trabalho até aqui.

Fernando Rick, criador da produtora Black Vomit, começou com Rubão, o Canibal (2002) e Feto Morto, trabalhos mais nonsenses, realizaria ainda o curta Coleção de Humanos Mortos, para a compilação de curtas 3 Cortes e depois se notabilizaria com seus documentários com as bandas Ratos de Porão (Guidable – A Verdadeira História do Ratos de Porão e 30 Anos Crucificados Pelo Sistema: Ratos de Porão) e Gangrena Gasosa (Desagradável). Nesse meio tempo foi refinando sua forma de filmar, como pode se constatar no belo curta Ivan (2011).

Embaraço tem a seu favor: fotografia, roteiro, som, tudo maravilhoso. No entanto o grande destaque vai para a atriz Amanda Pereira, que é a alma do filme, com um desempenho perfeito, passando para o espectador todo o sofrimento da personagem.

O curta poderia ser comparado aos filmes de Cronenberg ou ao alguns exemplares do cinema extremo francês do começo de 2000, como Trouble Every Day (2001) ou Em Minha Pele (2002), por tratarem dos mistérios do corpo humano, partindo de questões biológicas para construírem seus painéis de horror e sangue. No entanto o curta de Fernando Rick se distancia dessas comparações, simplesmente por dispensar grandes arroubos fantásticos; sua abordagem é realista, beirando o documental, ao mostrar o sofrimento físico de alguém que passa por sucessivos abortos fracassados, por isso tão perturbadora e desconcertante.

Fernando Rick faz parte, assim como Dennison Ramalho, Paulo Sacramento, entre tantos outros, da atual geração de cineastas furiosos do nosso eternamente combalido cinema nacional – prontos para causar inquietações com suas câmeras.

Temos aqui um curta corajoso, que aborda um assunto espinhoso que ainda encontra resistência em nossa sociedade conservadora. Incômodo e pesado. Poderá chocar o espectador mais sensível.

Embaraço é um filme mais do que necessário, tanto pela discussão social, quanto pela grande obra que efetivamente é. Um das melhores experiências visuais do ano.

Segue um pequeno bate-papo via e-mail com Fernando Rick falando um pouco sobre esse seu novo trabalho:

Começar pela pergunta clássica: como surgiu a ideia do projeto?

A ideia era fazer um filme minimalista, com uma única atriz, em um único ambiente. Acho importante discutir temas relevantes nas obras, e uma garota em um apartamento pequeno tentando abortar foi à primeira ideia que me veio. Essa ideia existe há vários anos já, mas só agora resolvi por ela em prática. Por motivos óbvios, esse filme nunca ganharia lei de incentivo, ou receberia grana de alguma empresa via Rouanet, então o jeito é tirar a grana do bolso, gastar o quê não tenho, pedir mil favores… Essas coisas de quem esta a costuma ao “Do It Yourself”. Então com a ajuda e favor de muitos amigos talentosos, profissionais foda de áudio visual, consegui dar vida ao projeto.

A legalização do aborto é um tema polêmico, tratado com preconceito por nossos políticos carregados de dogmas religiosos. Você acha que vai demorar muito ainda para que esse problema seja encarado como uma questão de saúde pública?

Acho que esse tipo de questão óbvia, não vai ser resolvida tão cedo no nosso país retrógrado onde as pessoas tem saído as ruas pedindo volta da ditadura, fazendo manifestações contra casamento gay, apoiam políticos fascistas e ideias obsoletas. A saúde pública deveria ser o foco do governo, mas ao invés disso, eles preferem por em risco a vida de milhares de mulheres em prol de um fundamentalismo religioso e interesses políticos financeiros. Sinceramente, eu sou ultra pessimista quando o assunto é o ser humano. Acho que no geral, as pessoas são egoístas, inescrupulosas e tem preguiça de pensar. Logo, chegar a conclusões que levem a atos que beneficiem o coletivo, e o próximo, não deve chegar a ser prioridade para a maioria das pessoas. Elas querem saber apenas de seus próprios umbigos.

Uma coisa que salta aos olhos é o capricho e o esmero técnico de “Embaraço”. Quanto tempo levou as filmagens? Tiveram alguma dificuldade?

Entre pré e pós produção, levei quase um ano para finalizar o filme. A produção em si foi rápida, foram 5 dias de gravação, em diárias puxadas com mais de 12 horas cada. As dificuldades são as mesmas de todo filme feito sem grana. Mas não teve nada que fugiu muito ao nosso controle. Eu sempre me preparo muito quando vou filmar algo. Sei tudo que quero, e tenho tudo ultra decepado. Como também tive uma equipe ótima e que acredita no projeto, tudo tende a caminhar bem.  Claro que sempre que eu estou filmando alguma coisa, situações absurdas costumam acontecer. No primeiro dia de gravação, um cara se suicidou no apartamento de cima de onde estávamos filmando. O cara pulo do décimo andar passou pela nossa janela e caiu de cabeça no chão. Coisas assim costumam deixar um clima muito merda no set, ainda mais quando estamos lidando com um tema pesado como é o do Embaraço. Mas no geral, foi tudo bem.

O desempenho da atriz Amanda Pereira é fantástico. Ela foi à primeira opção para o papel ou passou por testes?

Cara, a Amanda é um espetáculo de atriz! Ela tem uma dedicação incrível, fora o talento, que pra quem viu o filme, dispensa comentários. O lance é que eu precisava de uma triz muito boa, para segurar um filme de 20 minutos sozinha em uma única locação. E a Amanda tirou de letra. As pessoas no set ficavam abismadas com as cenas. E se ela tem que repetir 20 vezes um take, sai um melhor que o outro, mas o lance é que ela mata TODOS de primeira. Se tenho que repetir take com ela é por problemas técnicos. Parece a típica rasgação de seda de diretor/atriz, mas você viu o filme, sabe do que tô falando.

Mas tivemos também um trabalho incrível de preparação de elenco, com os preparadores Michael Dubret e Althea Miranda, que também acreditaram no projeto e foram peça fundamental para conseguirmos esse resultado. Eles passaram uns exercícios para a Amanda, que ele ficava treinando o dia todo enquanto a equipe de maquinaria e fotografia ia montando tudo. Essa mulher é de uma disciplina invejável. Só tenho que agradecer por ela ter topado fazer o filme e se dedicado tanto para o nosso projeto. Espero que gere frutos para ela, pois ela merece muito!

Comente sobre como tem sido a recepção do curta. Como o público tem reagido.

O filme está começando o circuito de festivais agora. Estou em Berlim, em um festival chamado Lakino e depois rolou no Fantaspoa. No Fantaspoa eu pude ir e foi incrível, uma garota chegou a desmaiar durante o filme, e deu um bafafá legal lá. Inclusive no bate papo com os diretores após a sessão, uma menina me “sugeriu” por cartelas dizendo que o filme tinha cenas chocantes, etc. O que achei babaquice. Qualquer hora que você ligar a TV no noticiário, você vai ver cenas mais sujas, agressivas e nojentas do que qualquer frame do meu filme. Mas o filme mexe muito com as pessoas, principalmente as mulheres. Já aconteceu de garotas assistirem o filme aqui em casa e chorarem, algumas passam mal, etc. Já ouvi de caras que passam mal também.

De qualquer forma, acho que o tema tabu vai prejudicar a carreira do filme de alguma forma, e muito festival não vai selecionar o filme. E quer saber? Foda-se. Eu fiz o filme que eu quis, e tenho um orgulho enorme do resultado final.

Deixe uma mensagem para os leitores do Boca do Inferno.

Se permitam! Grandes abraços!

Leia também:

5 Comentários

  1. Marcos

    A própria matéria mostra o quanto o cinema brasileiro de terror ‘desevoluiu’ … De filmes escrachadamente trash e divertidos, embora amadores como ‘Rubão, o Canibal’, para uma versão terror de “Olmo e a Gaivota”… Eu ate fiquei seduzido pelo filme, mais ao ler a entrevista do diretor… Só falto um FORA TEMER… Estranho ele dizer que não conseguiria lei de incentivo, sendo que é justamente filmes com essa tematica ‘ANTI-conservadora’ que mais ganham editais… Ainda to curioso, mas meio decepcionado com a politização que infectou o ramo do terror brasileiro.

    • jefferson

      De fato esses caras são burros e acham que promover aborto, atacar a policia e o cristianismo é ser politicamente incorreto.

  2. Isabella Flores

    Onde é possível assistir o filme ? Em quais festivais, ou ele disponibiliza algum DVD ?

  3. Fabio Alex

    Nossa, parece bem interessante! Quero assistir! O.o

Trackbacks / Pings

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *