Críticas

A Casa dos Pássaros Mortos (2004)

Fantasmas e demônios em filme que lembra o cinema oriental

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A Casa dos Pássaros Mortos
Original:Dead Birds
Ano:2004•País:EUA
Direção:Alex Turner
Roteiro:Simon Barrett
Produção:David Hillary, Timothy Wayne Peternel, Ash R. Shah
Elenco:Henry Thomas,Nicki Lynn Aycox, Isaiah Washington, Michael Shannon, Patrick Fugit, Mark Boone Junior, Muse Watson, Melanie Abramoff, Donna Biscoe, Brian Bremer, Russ Comegys, David Dwyer

No começo dos anos 90, quando o cinema de ação nos Estados Unidos estava saturadíssimo, os executivos dos grandes estúdios americanos “descobriram” assim, quase de repente, que havia diretores chineses, japoneses, coreanos e tailandeses dando um baile em suas produções com um orçamento irrisório e muita criatividade. Com a grana que os americanos usavam para rodar um único filme do Van Damme ou do Stallone, os orientais faziam 10 filmes muito superiores. Foi mais ou menos assim que começou a chamada “febre asiática” (hehehehe), quando os EUA importaram diversos filmes orientais de ação – e somente assim eles chegaram também ao Brasil. Foi nessa época que todo mundo começou a falar que John Woo era o máximo – até então, ele só era conhecido por uma meia dúzia, pois não havia Internet e era difícil conhecer certas coisas. Depois de um tempo, os estúdios trouxeram muitos destes diretores para fazer filmes nos Estados Unidos – com orçamento bem maior, diga-se. Woo mudou-se de mala e cuia para os EUA, e atrás dele foram Tsui Hark, Ringo Lam e muitos outros.

A partir de então, o “toque oriental” virou clichê no cinema de ação americano. Hoje, sempre que você vê uma coreografia maluca de luta ou um tiroteio mirabolante, pode agradecer a Woo, Hark, Lam e os outros diretores, coreógrafos, dublês e atores que fizeram o estilo virar moda nos EUA. Astros também foram importados, como Chow-Yun Fat e Jet Li. E atualmente qualquer filmeco de quinta categoria que você pega tem lutas em câmera lenta coreografadas com cabos e tiroteios onde herói e bandido apontam as armas um para a fuça do outro – e isso vai de Matrix e As Panteras até as últimas produções classe C de Van Damme e Dolph Lundgren. Resultado: a coisa voltou a ficar saturada. Só que o que era o auge há 10 anos hoje já é o clichê mais batido. Ninguém mais aguenta tiroteios em câmera lenta e pombas voando no cenário. John Woo, que há uma década era o “gênio“, o “cara“, hoje come pelas beiradas e nunca mais fez um filme de sucesso…

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Por que eu estou falando tudo isso? Ora, porque o mesmo está agora acontecendo no cinema de horror. Há uns cinco anos, mais ou menos, os estúdios americanos “descobriram“, quase da mesma forma que fizeram com o cinema de ação, o sucesso do terror oriental. Alguém deve ter mostrado para os executivos engravatados filmes como Battle Royale, Ringu, Ju-On, e eles se apaixonaram. Pensaram: “Com um montão de efeitos digitais, poderemos melhorar estes filmes e ganhar muito, muito dinheiro“. Some-se a isso o fato da produção americana de filmes de horror estar estacionada desde o sucesso da trilogia Pânico, de Wes Craven: tirando as imitações “teen“, não se via mais um filme decente produzido por grandes estúdios, e apenas volta-e-meia surgia alguma produção independente interessante… E olhe lá!

Ao invés de fazer como aconteceu há 10 anos, e trazer os cineastas orientais para rodar produções independentes em território americano, dessa vez as produtoras foram mais preguiçosas: foi bem mais fácil pegar os filmes orientais prontos e refazê-los com elencos americanos, enchendo os cinemas com remakes como O Chamado, O Grito, Dark Water, The Eye… Somente agora estão dando dinheiro para que diretores do outro lado do mundo também façam suas próprias produções nos Estados Unidos. Mas a coisa já está começando a virar clichê. Muita gente não aguenta mais ver histórias de fantasma com rosto branco, crianças demoníacas com cabelo na frente do rosto e por aí vai. E já se nota, também, a influência do cinema oriental nas novas produções americanas, com alguns diretores e roteiristas começando a copiar os truques e táticas para assustar dos filmes feitos no Oriente. Um dos exemplos mais recentes de como os japas e chinas estão influenciando o horror ocidental é uma produção independente chamada A Casa dos Pássaros Mortos, que chegou a ser lançado nas locadoras brasileiras.

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Este filme de 2004 é o primeiro longa dirigido por Alex Turner, baseado num roteiro de Simon Barrett – um apaixonado pela série Ringu e sua refilmagem ocidental, O Chamado. A dupla quis que sua estreia no cinema de horror fosse calcada nas lições aprendidas nestes filmes japoneses e também em clássicos americanos que Turner adora, como O Iluminado e Evil Dead. Eles aprenderam bem a lição, a julgar pelo resultado final: tudo em A Casa dos Pássaros Mortos lembra o cinema japonês, só que com uma ambientação e um elenco americanos. O resto é oriental: o clima é construído mais em cima do medo e do mistério, e menos nos sustos falsos e na violência (embora ela exista em abundância); e o roteiro se preocupa mais em assustar do que em ter lógica, explicando pouco e deixando para o espectador entender o resto (torna-se necessário ver o filme duas vezes para pescar alguns detalhes). Também percebemos claramente alguns novos clichês do gênero que foram inspirados nas produções orientais, principalmente as crianças-fantasma com o rosto branco e até uma menininha que vive no fundo de um velho poço – acredite se quiser!

E o filme funciona! Aliando um clima bem construído de medo a cenas bastante sangrentas (e alguns sustos legítimos), A Casa dos Pássaros Mortos ainda se beneficia de uma excelente ambientação: a história se passa no final do século 19, durante a Guerra Civil Americana (e algumas vezes lembra um filme de western). Nem parece que é uma produção independente e barata, já que cenários e figurinos são impecáveis. O local é uma cidadezinha chamada Fairhope, no Alabama, em 1863. Um grupo de confederados renegados resolve esquecer a Guerra Civil para desertar e roubar uma fortuna em ouro de um dos lados do confronto. Os bandidos são liderados por William (Henry Thomas, o garotinho de ET – O Extraterrestre, agora crescido, mas ainda com cara de pirralho), sendo que o bando tem ainda sua namorada Annabelle, uma enfermeira (a bela Nicki Aycox), seu irmão mais novo, Sam (Patrick Fugit, o garoto de Quase Famosos), os amigos Clyde (Michael Shannon, de Vanilla Sky) e Joseph (Mark Boone Junior, de Vampiros) e o negro Todd (Isaiah Washington, de Romeu Tem que Morrer, aqui também produtor). Acompanha a quadrilha um cachorro pulguento chamado Dog!

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O grupo entra no banco da cidadezinha e promove uma chacina, explodindo cabeças a tiros, cortando gargantas e executando friamente até o velho caixa desarmado e indefeso – que parece ter lá seus 80 anos e nem reagiu, mas tomou chumbo igual! Embora a cena seja exageradamente sangrenta, dá para perceber que o sangue é digital, feito por computação gráfica, o que tira um pouco do impacto e do realismo. Perseguidos pelos xerifes e por alguns homens da vila, os criminosos saem disparando tiros a esmo e, na fuga, William acidentalmente mata um garoto com uma bala perdida. Escapando das garras dos perseguidores, os assaltantes seguem viagem rumo a um casarão abandonado, onde pretendem se esconder por uns tempos, dividir o ouro e então seguir para a fronteira do México. Sam é ferido com um balaço na fuga e começa a perder muito sangue, outro motivo para a parada no local.

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Mas eles logo percebem que a coisa não será tão simples: o tal casarão fica bem afastado da civilização, e as pessoas que eles encontram pelo caminho parecem tentar convencê-los a não irem até lá, fazendo de conta que o local não existe. William tem a convicção de que o casarão está abandonado porque recebeu a dica de um falecido colega de guerra, Jeffy Hollister (Harris Mann), de quem roubou a namorada Annabelle. Quando finalmente encontram o local, percebem que ele é rodeado por um imenso milharal seco, morto. Enquanto cruzam a plantação, duas surpresas: primeiro, um espantalho muito parecido com um ser humano, que eles resolvem deixar para trás, evitando surpresas desagradáveis; depois, uma criatura horrenda, sem pele, que corre pelo milharal e ataca William, sendo atingida por um tiro certeiro do irmão Sam. Mesmo sem saber que criatura é aquela, o grupo não se abala e segue direto para a casa.

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Como William previa, o casarão está abandonado, sim. Mas Clyde faz uma descoberta sinistra na entrada: a casa é rodeada por pássaros mortos, como se houvesse ali alguma força diabólica que não permitisse o desenvolvimento da vida (nem dos pássaros que voam próximos, nem do milharal ao redor do casarão). Mas nem isso abala nossos intrépidos pistoleiros, que entram no casarão e descobrem algumas pegadas marcadas no chão empoeirado. Eles então resolvem se separar e, com lampiões, vasculhar a casa para ver se ali não vive algum mendigo ou criminoso buscando abrigo, como eles próprios. As andanças pelo casarão consomem um bom tempo de filme e deixam o espectador com uma desconfortável sensação de que vem coisa pela frente… Infelizmente, o anda-para-lá, anda-para-cá se estende mais do que o necessário, tomando praticamente a primeira meia hora do filme!

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Enquanto investigam, os bandidos começam a se separar em grupinhos. Clyde não suporta o fato de que o negro Todd vá receber a mesma quantia de ouro do que eles – lembre-se que nesta época ainda havia escravidão nos EUA. Ele e Joseph começam a se unir para passar a perna nos companheiros. Ao mesmo tempo, quando Annabelle opera Sam para a retirada da bala alojada em seu ombro, descobrimos que existe um “clima” entre eles e que o rapaz parece estar apaixonado pela namorada do irmão, ao ponto de não hesitar em fugir com ela, se tiver chance. Ou seja: nenhum dos nossos personagens é lá “flor que se cheire” – talvez Dog, o cachorro pulguento, seja o mais fácil de simpatizar, mas ele some de cena tão logo o grupo entra na casa. Em meio às intrigas e traições, entretanto, coisas bizarras começam a acontecer. A noite chega e o velho casarão é iluminado apenas pelos fracos lampiões, dando um clima verdadeiramente assustador ao ambiente. Alguns dos personagens vêem crianças caminhando pela casa. Todd estranha o fato de certas portas estarem lacradas e não abrirem de jeito nenhum, nem mesmo forçando. E, misteriosamente, os personagens começam a desaparecer…

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William, o “cérebro” da quadrilha, começa a desconfiar que algo horrível aconteceu no local. Aos poucos, juntando as peças do quebra-cabeça, descobrimos que o casarão pertencia a um parente do falecido Jeffy, que tinha uma grande plantação e muitos escravos negros trabalhando na próspera fazenda. Ele é interpretado por Muse Watson, que assim adiciona mais um papel sinistro à sua galeria de vilões (para quem não lembra, Watson é o Ben Willis da série Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado). Quando a esposa do fazendeiro morreu, vítima de tuberculose, este ficou inconformado com a morte da amada e buscou alento nas forças ocultas, usando um velho livro de feitiços para libertar o Mal no interior da casa. Poderão os bandidos sobreviver à noite de horrores naquele local infernal?

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A Casa dos Pássaros Mortos tem alguns momentos verdadeiramente arrepiantes. O ponto alto é aquele em que Annabelle, sozinha, entra num quarto escuro e encontra um garoto escondido debaixo da cama. Quando ela o ilumina com seu lampião, porém, o garoto pula num movimento acelerado e mostra sua verdadeira face – prepare-se para pular da cadeira. Não há sustos falsos: se a musiquinha começa a ficar sinistra, pode se preparar que vem horror pela frente. O filme se desenvolve deixando claro que os personagens não têm qualquer chance contra o poder demoníaco que domina o casarão, e nem os demônios pretendem deixar que o grupo fuja do local. E termina com um final pessimista, difícil de ver nas produções americanas, e que ainda deixará muita gente encucada, pensando em que diabos aconteceu (se você é um deles, passe diretamente para texto “Entendendo A Casa dos Pássaros Mortos“, no final desta análise). Curiosamente, o final foi uma sugestão do próprio diretor, já que, no roteiro original, o personagem principal cometia suicídio!

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Para quem não gosta muito de terror paradão e prefere ver o sangue jorrando, a boa notícia é que o diretor Alex Turner não inspirou-se apenas no clima de horror do cinema oriental, mas também na violência explícita do cinema europeu, principalmente do italiano. Assim, o filme já começa com o banho de sangue que é o assalto a banco, incluindo gargantas cortadas a navalhadas, tiros sangrentos e uma cabeça explodida à bala. Um detalhe a destacar: quem for assistir o making-of do filme, presente no DVD, vai ver uma outra versão da cena da cabeça explodida, filmada como antigamente, com um boneco sendo atingido em close; na edição final, entretanto, os produtores optaram por uma hiper-falsa cabeça explodida em CGI. É comparar as duas versões para ver como o efeito sem computação gráfica é infinitamente superior ao “moderno” efeito de computador, mesmo em sua tosquice.

Mas não é só isso, ainda tem muito mais. Como dizem naqueles programas de teleshop, “alugando A Casa dos Pássaros Mortos você ainda recebe de brinde cabeças decepadas, pessoas transformadas em espantalhos humanos (com boca costurada e tudo mais), cavalos despedaçados, vítimas com a pele do corpo arrancada, demônio saindo da barriga explodida de uma mulher grávida, e por aí vai. E se você ligar nos próximos 15 minutos, lhe enviaremos totalmente grátis…“, etc etc. Resumindo: o filme funciona tanto no clima de horror e suspense quanto na sangreira. Mas não pense que é um festival de gore: o roteiro de Simon Barrett é inteligente e tem tanta coisa nas entrelinhas, tantos detalhes ocultos, que você certamente irá querer ver o filme de novo após ler o texto “Entendendo A Casa dos Pássaros Mortos” – aposto que você nem percebeu o que aconteceu com o reflexo de um dos personagens numa janela, não é???

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Ainda que o ritmo seja um pouco parado demais na metade inicial, e ainda que algumas perguntas fiquem no ar mesmo após duas ou três assistidas, A Casa dos Pássaros Mortos já se inscreve sem sombra de dúvidas entre os destaques da nova safra. Não se trata de um novo clássico ou de uma obra-prima, mas de uma produção bem agradável, interessante, acima da média e, sobretudo, diferente. O grande problema do cinema de horror americano atual é que estamos divididos entre remakes e sequências banais. Assim, qualquer coisa minimamente diferente (tipo A Casa dos Pássaros Mortos e o primeiro Jogos Mortais) é saudada como se fosse a salvação da lavoura. Talvez não seja, mesmo… Mas que é pelo menos uma luz no fim do túnel da mediocridade, isso é.

E em diversos momentos do filme, percebemos que todos os realizadores estão realmente entusiasmados com o projeto. Melhor: eles são fãs de horror e respeitam o gênero, e não uns borra-botas que assumiram a bronca apenas por dinheiro – como muitos que vemos por aí, tipo Uwe Boll. Turner e Barrett simplesmente encheram o filme com referências e elementos característicos do gênero, do milharal à la A Colheita Maldita ao sinistro espantalho, passando pelas crianças fantasmagóricas e pelo livro de feitiços usado pelo fazendeiro Hollister – cujas páginas, desenhadas em vermelho, lembram muito o Necronomicon da série Evil Dead. Além disso, o roteiro dá personalidade à própria “casa dos pássaros mortos“, fazendo com que cada aposento tenha uma história e característica únicas, revelando os horrores que aconteceram ali no passado através de visões do além ou da aparição de fantasmas. Simplesmente sensacional!

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Nada disso adiantaria se tivéssemos um monte de manés atuando. Embora o elenco do filme não tenha nenhum “astro” no real sentido da palavra, é incrível a quantidade de caras conhecidas reunidas numa produção barata. O que mais chama a atenção é o crescido (e sumido) Henry Thomas, que, como todo astro-mirim, entrou em decadência depois que virou adulto. Embora tenha feito vários filmes ou produções para a TV desde que estrelou ET em 1982, Thomas andava apagado, sem qualquer produção de destaque em seu currículo – apesar de ter interpretado até o jovem Norman Bates no ridículo Psicose 4, e de ter aparecido na superprodução Gangues de Novas York, de Martin Scorsese. O William de A Casa dos Pássaros Mortos é, sem sombra de dúvidas, o melhor papel do pobre ator em muitos anos, e apesar dos esforços de Thomas para deixar seu personagem simpático, simplesmente não tem como simpatizar com aquele pistoleiro frio que não hesita em abandonar os amigos e o próprio irmão por causa do ouro roubado. Outros destaques no elenco são Isaiah Washington (que também apareceu em Navio Fantasma) e Patrick Fugit (bem diferente do seu papel-mirim em Quase Famosos, de Cameron Crowe). O destaque negativo vai para a única presença feminina (além dos fantasmas), a enfermeira Annabelle, interpretada sem empenho pela lindinha Nicki Lynn Aycox, vista em Olhos Famintos 2.

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Alex Turner já declarou que tem a ideia de transformar A Casa dos Pássaros Mortos em uma trilogia: a segunda parte contaria a história do que aconteceu na fazenda Hollister (ou seja, uma “prequel“); já a terceira e última mostraria os reflexos da maldição da casa nos dias atuais, nos moldes da série oriental Ju-On, pois a “casa dos pássaros mortos” continuaria fazendo suas vítimas mesmo no século 21. Não parece muito original… Por outro lado, a trilogia Possuída mostrou que, com criatividade e boas ideias, é possível tirar leite de pedra. Vamos torcer para que a trilogia “Pássaros Mortos“, se realmente sair, também mantenha o interesse e a inteligência do original.

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Já o roteirista Simon Barrett, no mesmo ano de 2004, viu outro de seus roteiros virar filme. Este, porém, bem mais despretensioso: trata-se do divertido e sangrento Frankenfish, dirigido por Mark Dippé, e com alguns dos atores de A Casa dos Pássaros Mortos no elenco – como Muse Watson, que interpretou o fazendeiro Hollister, e Mark Boone Junior, que era o bandido Joseph. Será que Barrett estará na trilogia “Pássaros Mortos“? Contanto que não tenha nenhum Frankenfish na história, claro…

E se podemos elogiar a iniciativa louvável da distribuidora Sony de lançar no Brasil um filme praticamente desconhecido por aqui (coisa rara, diga-se de passagem), a mesma distribuidora merece um puxão de orelha (ou um “arrancão” de orelha, para aprender) pelo desleixo de não legendar os extras, principalmente a entrevista com diretor e roteirista, onde eles contam detalhes fundamentais sobre a trama e sobre a produção. Nem mesmo nas cenas excluídas/estendidas há legendas. Mas a ironia vem quando você tenta acessar o menu de legendas e percebe que tem uns 15 tipos de subtítulos, até em japonês, mas NÃO em português!!! Terceiro mundo é fogo, mesmo!!!

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ENTENDENDO “A Casa dos Pássaros Mortos”

Atenção: inúmeros SPOILERS por metro quadrado. Só leia se já tiver visto o filme!

Muitas das respostas para as perguntas abaixo foram confirmadas pelas explicações do próprio diretor Alex Turner em entrevistas a sites da Internet. Como muita coisa sobre a história acaba ficando no ar durante o filme (que não se preocupa em ser didático, a exemplo das produções orientais), só mesmo ouvindo a versão do diretor para sabermos o que certas alegorias e “sinais” significam. Em alguns casos, porém, só existem conjecturas, sem uma confirmação do que é certo e o que é errado… No fim, cada um terá a sua explicação para algumas coisas.

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– POR QUE “A CASA DOS PÁSSAROS MORTOS”?
Como o filme mostra um único pássaro morto durante todo o tempo de projeção, muita gente vai ficar se perguntando o porquê do título. Os “pássaros mortos” são uma referência ao fato do Mal estar tão forte naquele casa que nada ao seu redor vive – nem os cavalos dos bandidos deixados no curral, nem o milharal plantado em frente, nem os pássaros que voam próximo ao casarão. Baseado nessa idEia, nem mesmo as pessoas que entram na casa vivem.

– O QUE ACONTECEU NA CASA?
As cenas em flashback contam a história de como o Mal se apossou do casarão. Porém, como não há um narrador explicando as imagens, muita gente não entendeu direito. Sendo didático, então: Hollister, o dono da casa, sofreu muito com a morte da sua esposa por tuberculose. Assim, resolveu que faria qualquer coisa para tê-la de volta. Conseguiu, com os escravos que viviam na sua fazenda, um velho livro de magia negra. Ali, havia um encantamento para ressuscitar os mortos. Para isso, ele precisava fazer sacrifícios a um demônio obscuro. Sem hesitar, o fazendeiro matou todos os seus escravos no porão da casa – por isso, em certo momento, Todd vê o fantasma de uma negra amarrado ao chão. Só que o demônio que Hollister trouxe ao nosso plano não queria ajudá-lo: pelo contrário, ele possuiu a esposa e os dois filhos do fazendeiro, que viu-se obrigado a matá-los e esconder seus corpos – provavelmente no poço do lado de fora da casa. A história logo chegou aos ouvidos do povo da cidadezinha. Eles prenderam Hollister, que não quis contar a eles o que aconteceu à família e aos escravos, nem onde estavam os corpos. Como castigo, foi amarrado ao milharal como um espantalho – é ele que os personagens encontram no início do filme. Como o fazendeiro abriu o portal para a dimensão infernal, mas nunca teve tempo de fechá-lo, o portal continua aberto, permitindo que os demônios perambulem por aquela área e afetem os humanos que ali entrem.

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– O QUE ACONTECE ÀS PESSOAS QUE ENTRAM NA CASA?
Como foi dito anteriormente, Hollister morreu e deixou o portal para a outra dimensão aberto. Este portal é simbolizado pelas portas do casarão: perceba que no início do filme as portas no interior da casa estão todas fechadas, principalmente as do térreo, como a porta do porão, que não abre nem forçando. Porém, à medida que a história se desenvolve, as portas vão se abrindo sozinhas. Quando todas as portas se abrem, o portal dimensional termina de se abrir e acontece às pessoas no interior da casa o mesmo que aconteceu aos filhos e à esposa de Hollister: eles se transformam em demônios, só que, ironicamente, sem ter consciência do fato! É por isso que, no final, quando William corre para fora do milharal, é alvejado por soldados e, na cena seguinte, quando a câmera mostra a visão dos atiradores, no lugar de William há um demônio – ele já estava transformado, mas não sabia disso. Pensando assim, a criatura que os personagens matam logo que chegam à casa certamente é um outro desafortunado que foi transformado em demônio – e corria para fora do milharal imaginando que ainda era humano, sendo então morto a tiros pelos bandidos. Só não se sabe se a transformação das pessoas em demônios acontece de uma vez só, assim que entram no casarão, ou gradualmente. Várias pistas dessa transformação podem ser vistas durante o filme. Numa cena, por exemplo, Todd encontra pegadas humanas que logo se transformam em pegadas de uma das criaturas – isso simboliza o fato de que eles deixaram de ser humanos. Além disso, em várias cenas, a câmera dá closes nas mãos dos personagens e podemos ver veias negras em suas mãos, idênticas às das criaturas (isso só se percebe na segunda assistida). Quer dois exemplos? Atenção na cena em que Sam pega o livro de feitiços e vira as páginas, e também na cena final, onde William puxa o revólver para atirar no cachorro – nestes dois momentos, as veias pretas nas mãos ficam bem visíveis. Aliás, o cachorro só ataca William, que é seu dono, porque não enxerga mais um homem, e sim uma das criaturas! Para arrematar, muita atenção para uma cena onde William desce correndo as escadas ao ouvir um grito de Clyde no andar inferior: ao passar por uma janela, ao fundo, pode-se ver o reflexo do herói… E é um reflexo demoníaco!!! Passando em câmera lenta dá para ver ainda melhor! Uma excelente sacada dos realizadores do filme!

– JEFFY HOLLISTER SABIA QUE A CASA ERA AMALDIÇOADA?
Sim. Jeffy era sobrinho do fazendeiro e viveu no casarão antes dos crimes e do Mal tomar conta do local. Também presenciou a execução do tio pelos moradores revoltados. Ao ouvir as lendas a respeito da maldição do casarão, Jeffy comentou sobre a existência da propriedade com William, quando ambos estavam no hospital, tratando ferimentos de guerra. Era uma espécie de vingança: Jeffy queria que William fosse até a casa e morresse como os demais invasores, porque tinha ciúmes da relação do “amigo” com a enfermeira Annabelle – que, naquela época, era noiva de Jeffy! Quando o soldado morreu, em consequência dos ferimentos, William e Annabelle assumiram o romance e foram até a casa dos Hollister, concretizando a vingança do noivo falecido e ciumento!

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– POR QUE TODD NÃO SE TRANSFORMA EM DEMÔNIO E O QUE ACONTECE COM ELE?
Tentando fugir da casa, Todd encontra Sam já transformado em demônio e este o vaporiza no ar. Aparentemente, Todd foi tragado para a dimensão de onde as criaturas saíram. Ele não se transforma em demônio porque traz, no pescoço, um amuleto de proteção contra o mal – que é mostrado numa cena onde Todd está de sentinela à noite e puxa o amuleto para fora da camisa, com a sensação de que há algo de maligno no local.

– O QUE É AQUELA CRIATURA PRESA NO SEGUNDO PAVIMENTO DO CELEIRO?
Em um dos flashbacks, vemos que Hollister colocou ali a sua esposa ressuscitada quando percebeu que os demônios estavam tomando conta da sua família. Ele depois tirou a escada, acreditando que assim ela não teria condições de descer. Porém, depois de completamente transformada em criatura, ela ficou livre para fugir a hora que quisesse. Provavelmente foi ela que fez em pedaços os cavalos da quadrilha, que ficaram abrigados no celeiro durante a madrugada. Já as duas crianças, provavelmente foram mortas – os flashbacks mostram Hollister encontrando-as debaixo da cama e dentro do armário – e jogadas no fundo do poço.

– O QUE ACONTECE NO FINAL?
William e Annabelle fogem da casa, mas se separam acidentalmente no milharal. Ele vê uma das criaturas de relance e atira, apenas para depois perceber que matou a amada com um tiro na cabeça. Fica ao seu lado até o sol nascer e escuta sons vindos de fora do milharal. São soldados, que aparentemente fazem parte de alguma diligência que persegue a quadrilha para tentar recuperar o ouro. Quando corre ao encontro dos soldados, William é atingido com vários tiros. Então, quando a câmera muda para o ângulo dos soldados, vemos não William caído no chão, mas uma das criaturas – repetindo uma cena do início, quando a quadrilha se aproximava da casa. Isso aconteceu porque William estava transformado, mas não tinha consciência do fato; para os soldados, entretanto, não era mais um homem, mas um monstro. Dois dos soldados se dirigem ao casarão em busca de vestígios da passagem da quadrilha. No caminho, encontram outra criatura morta (onde antes estava o corpo de Annabelle, pois ela também havia sido transformada). A conclusão do filme mostra a dupla aproximando-se da casa para continuar a maldição, que irá vitimar qualquer pessoa que entre no casarão.

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– MAIS ALGUM DETALHE CURIOSO?
Vários! Lembra quando William e sua quadrilha estão perdidos na floresta, no comecinho, e não sabiam como chegar ao casarão? Eles encontram um velho recolhendo posses de soldados desertores mortos. O velho diz que não existe nenhum casarão próximo e que eles devem voltar. É mentira, claro. Por que ele mentiu? Porque sabia da maldição que cercava o local e queria salvar os pistoleiros do seu triste destino – não conseguiu, é claro. O interessante é que o homem é um pastor, que mais tarde, num flashback, aparece condenando o fazendeiro Hollister à morte pelos seus pecados (essa eu não tinha pegado na primeira vez que vi o filme). E a boneca… Lembra da boneca que Clyde encontra no quarto da filha de Hollister? Ela tem a boca e os olhos costurados, um destino que logo o próprio Clyde terá ao ser esquartejado e colocado dentro do espantalho no milharal!!! Também tem as pegadas: ao entrarem na casa, William e sua turma descobrem pegadas de duas pessoas que entraram ali anteriormente e se transformaram em criaturas – uma delas foi morta por Sam na chegada, a outra permanece livre pelo milharal e é vista mais tarde por Clyde. Já na metade do filme, Todd encontra mais pegadas, que subitamente mudam de pegadas humanas para pegadas de animais. Estes rastros são da própria quadrilha, simbolizando que eles já estão transformados em novas criaturas do inferno…

– PERGUNTAS AINDA SEM RESPOSTA…
Como é que o cachorro Dog sobrevive ao redor da casa se nada mais sobrevive, nem os pássaros nem o milharal? Por que Clyde é todo costurado e colocado no interior de um espantalho ao invés de virar demônio, como os outros? Qual o interesse de uma das crianças-fantasma em puxar Joseph para dentro do poço se ele iria se transformar em uma das criaturas de qualquer jeito?

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6 Comentários

  1. Lukas

    Fiquei com uma dúvida (muitas na verdade rs). Algumas moedas foram encontradas junto ao “corpo” de Willian. Mas e o resto do ouro q sumiu?

  2. Felipe Everson

    Costumo gostar das suas críticas, Felipe. Faz tempo que não visito seu blogue de filmes para doidos.

    As respostas para suas duas últimas perguntas são: os humanos passaram a ser vistos como demônios ali, logo eles jamais verão outro ser humano por perto enquanto viverem.
    Quanto mais tempo passam ali, menos reconhecem os seus companheiros como seres humanos. Os mais antigos nunca mais o conseguem, por isso sentem-se isolados e enlouquecem, revivendo hábitos (costurar bonecas ou “demônios, no caso) ou revivendo traumas (te deixar no fundo do poço) a propósito de se afirmarem como humanos ou mesmo seres vivos, o que já não são.
    Sobre o cão, como os humanos, talvez haja um tempo limite para ele sobreviver naquele ambiente.

    Parabéns pela crítica. Outros sites menosprezaram esse filme sem compreendê-lo. Só o achei meio arrastado, pouco dinâmico.

    • Juciel F.Kennedy Alves de Windsor

      Esse filme, quando eu assistir a primeira vez, eu não havia entendido praticamente nada. Além de ter ficado morrendo de medo e traumatizado por um bom tempo. Agradeço a esse site, por ter ajudado a entender o filme.

  3. Ed

    Daí um filminho que eu gostei de assistir duas vezes. Não é uma obra-prima, mas é satisfatório.

  4. Juninho

    Muito bom. Filme de terror bem feito e raro

  5. Luís Eduardo

    Muito bom seu trabalho. Também gostei de assistir… apesar de não ser uma obra prima, é um filme honesto.

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